IMAGEM: mão algemada
Final
Às 5h08 da manhã, o galpão parecia menor sem a presença das testemunhas. Sem as vozes atropelando versões e sem policiais circulando, restava apenas a estrutura crua do lugar e a luz fria ainda acesa sobre a bancada de madeira. Liz ficou alguns segundos parada próximo à entrada, observando o silêncio quebrado apenas pelo zumbido das lâmpadas de LED, recortando o computador abandonado e as espirais desenhadas nas folhas espalhadas pela parede. Na primeira visita feita àquele local, algumas (poucas) horas atrás, tudo parecera excessivo e bagunçado. Agora, começava a enxergar método. E, pior: organização.
Liz respirou fundo organizando mentalmente tudo o que havia sobre Mirela e seu desaparecimento. A esta altura, sabia que não se tratava de um sequestro; sua teoria era que Mirela apenas perdera o controle do próprio experimento. De si mesma.
Ao contrário de indícios de um crime, o que havia naquele galpão eram apenas sinais de alguém que passara tempo excessivo dentro da própria cabeça. Fazia parte deste cenário o café intocado, as luzes acesas noite adentro, os arquivos abertos simultaneamente e as sequências numéricas repetidas à exaustão. Nada ali parecia resultado de violência repentina. Parecia desgaste.
Mirela vinha tentando transformar comportamento humano em lógica matemática. Ela pretendia prever mentiras. Antecipar reações. Catalogar padrões emocionais. Mas pessoas não funcionam como códigos estáveis e quanto mais ela tentava organizar o caos humano, mais caótica se tornava.
Liz já tinha visto aquilo antes. Obsessões prolongadas costumam produzir um efeito perigoso: em algum momento, a pessoa deixa de interpretar padrões e começa a enxergá-los mesmo quando não existem, num tipo perigoso de alucinação.
Talvez Mirela tivesse ultrapassado essa fronteira há algum tempo e Lorena era a prova disso.
Liz analisou novamente a mancha escura sujando o piso. Sem o tumulto das testemunhas, o odor químico parecia ainda mais evidente. Ao agachar-se, observou que atrás de um dos pés do sofá, escondido pela sombra, havia um pequeno frasco tombado. O líquido avermelhado restante no interior tinha o mesmo tom de vermelho-sangue da mancha no chão. No rótulo parcialmente desgastado, ainda era possível ler: “pigmento marcador”. Levando o frasco consigo, caminhou até o computador ainda ligado e começou a procurar pelo termo entre os arquivos abertos por Mirela.
Demorou pouco para encontrar dezenas de registros relacionados à captura facial, rastreamento de movimento e mapeamento de microexpressões. Algumas fotografias exibiam pequenos pontos vermelhos distribuídos sobre músculos específicos do rosto humano, formando curvas semelhantes às espirais espalhadas pelas paredes do galpão.
O frasco provavelmente rolou para baixo do móvel depois de algum tropeço. Não havia sinais de arrasto, luta ou tentativa de limpeza. Apenas desordem.
Liz varreu o galpão com os olhos em busca de algo que reforçasse sua teoria. Próximo à bancada, uma câmera permanecia caída no chão, presa pelo fio do carregador. A lente frontal estava rachada, com o vidro quebrado. Isso explicava o vidro encontrado perto da mancha.
Foi então que a hipótese inicial arquitetada durante os depoimentos ganhou força: e se nada naquela cena tivesse sido planejado? E se o verdadeiro colapso aconteceu na mente de Mirela muito antes de ela desaparecer?
Encostando-se no balcão de madeira, a policial analisou novamente a sequência de números espalhados pelo mural que, num primeiro instante, pareciam aleatórios. Não demorou para perceber que havia uma progressão. Os números cresciam obedecendo sempre ao mesmo intervalo irregular, repetindo uma estrutura que Liz já tinha visto naquela madrugada, desenhada nas espirais espalhadas pelas fotografias presas à parede, em formato de caracol matemático.
1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21...
A percepção veio devagar, encaixando peça após peça até finalmente ganhar nome.
Fibonacci.
Liz sentiu-se incapaz de conter um arrepio silencioso. Agora não havia mais dúvidas de que sua teoria estava correta. De repente, as espirais desenhadas entre as anotações deixaram de parecer simples rabiscos. As curvas repetidas nas fotografias, os diagramas presos à parede, os padrões distribuídos entre arquivos e sequências numéricas... tudo obedecia rigorosamente à mesma estrutura. À mesma lógica obsessiva.
Liz aproximou o rosto da tela. Os números apareciam misturados entre nomes de arquivos, anotações e abas do navegador de internet. A maioria seguia o mesmo padrão matemático repetitivo, exceto por uma janela específica que, diferentemente das demais, apresentava um comprovante de corrida por aplicativo, solicitada minutos antes do telefonema acusando o desaparecimento de Mirela. Além de feita no nome de Lorena, a corrida havia sido paga com o cartão de crédito dela. Sentindo o estômago contrair, a policial verificou que o ponto de embarque ficava a poucos metros de onde os óculos haviam sido encontrados. O destino da corrida, porém, fez Liz prender a respiração: Hospital Municipal de Ecila.
Em sincronia com as suas descobertas, Felipa telefonou, arrancando Liz de sua espiral mental.
– A polícia encontrou a Mirela. Ela deu entrada ontem à noite no hospital, com quadro de confusão mental, mas apresentou outro nome: Lorena Lopes. Foi detida por falsidade ideológica.
A chuva havia diminuído quando Liz deixou o galpão. O céu começava a clarear devagar, dissolvendo o azul escuro da madrugada sobre os prédios ainda úmidos da cidade.
O hospital estava estranhamente silencioso, mergulhado em luzes artificiais. Mirela ergueu os olhos devagar quando Liz entrou no quarto. Com o olhar perdido, um pouco atordoado, ela parecia genuinamente incapaz de conseguir prever a reação de alguém. Talvez esperasse acusação. Talvez desprezo.
Todavia, Liz a observou com compaixão, sem dizer nada. Porque, naquele instante, não enxergava uma criminosa. Na verdade, em algum nível desconfortável, reconhecia naquela mulher parte da mesma obsessão silenciosa que guiava o próprio trabalho: observar pessoas, interpretar desvios, procurar significado em detalhes quase invisíveis. A diferença era que Mirela atravessara uma linha da qual talvez não conseguisse mais voltar.
Debilitada naquela cama de hospital após uma séria crise de estafa que a levara a um colapso emocional, Liz via apenas alguém que passara tempo demais tentando transformar pessoas em cálculos, até esquecer que humanos não cabem em padrões. Mirela, por sua vez, não parecia analisar nada. Apenas olhava para o vazio, incapaz de reconhecer-se no próprio reflexo.
Fim do capítulo
Quero agradecer à Cris e ao Lettera por mais este Desafio das Imagens, pela deliciosa oportunidade de encontrar a brilhante Liz e pela rica chance de voltar a escrever depois de tanto tempo enrolada em números, lógicas e linguagens de programação. Que esta faculdade nos brinde sempre com boas ideias e bem-vindas inspirações!
Agradeço tb por esta valiosa oportunidade de nos conectarmos! Grata pela companhia e até breve! Beijos!
Comentar este capítulo:
Zaha
Em: 20/05/2026
Boa noite!!!
Primeiro, obrigada por publicar o último capítulo, eu estava muito curiosa em saber em como Liz desvendaria esse mistério!!
Nossa, foi melhor do que eu esperava. Não achei que ela chegasse ao ponto de ser internada, mas aí estava ela. Colapsou!! Uma pena que tantas passam por isso.... Mistério resolvido e adorei, realmente!!
Ahh, vc é da área de exatas... São tudo doidas... Cuidado, mantenha a cabeça boa, n deixa esses números te pirarem. Ainda q sempre uma breve pirada é boa! Rs
Vou responder no outro pq esqueci o nome da história que tinha lido.. (Sua)!
Obrigada por nós brindar com mais uma história !! Os desafios sempre são ótimos pra conhecer novas escritoras e leitoras!!
Beijos e até mais!
caribu
Em: 21/05/2026
Autora da história
Ah, que bom que gostou da história! Teve gente que reclamou a falta de assassinato, mas nem toda história policial precisa envolver crimes assim, né? Especialmente pq a vida real é feita de colapsos tb...
Ainda não sei se posso me dizer como sendo alguém de exatas rs Sou jornalista desde 2003 e ainda não terminei o primeiro ano de TI, então sou mais de humanas, por ora rs Mas somos tudo doida mesmo, independentemente da área rsrs
Grata novamente pela leitura e comentários! Espero que voltemos a nos falar em breve!
Beijos!
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caribu Em: 02/06/2026 Autora da história
Ela é maravilhosa, perspicaz, mesmo em palavras contadas!
Grata pela leitura e comentários! S2
Beijos!