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Nao acredite nela por caribu

Ver comentários: 3

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Palavras: 1000
Acessos: 133   |  Postado em: 15/05/2026

Notas iniciais:

IMAGEM: galpão.

Introducao

Às 21h55, Liz já deveria estar em casa, no conforto de seu lar, de preferência debaixo das cobertas, enrolada em Marcelle, que costumava esperá-la para dormirem juntas.

Em vez disso, observava, a quilômetros de distância, o que parecia ser sangue diante de um sofá reformado enquanto o ventilador de teto espalhava um cheiro estranho de café frio pelo galpão. A primeira coisa que percebeu sobre o local foi o silêncio; não era exatamente um silêncio vazio, mas interrompido. Parecia que alguém tinha acabado de sair dali segundos antes. Fugindo, provavelmente. Correndo, com certeza.

As luzes estavam acesas – uma fileira delas, de LED, tão incômodas quanto as testemunhas que permaneciam no local. Tão artificiais quanto a cena que parecia montada. Liz seguia concentrada no sangue seco quando a iluminação branca revelou o restante do espaço. Um computador permanecia ligado sobre a bancada de madeira e o café gelado em uma caneca manchada aguardava por um gole que jamais viria. Intocado. E bastou apenas um sinal sutil feito com a cabeça para que Felipa compreendesse e, com a câmera do celular, registrasse o objeto inanimado.

Felipa só parou de fotografar para telefonar para Rute. A perita era especialista em cenas de crime e costumava acompanhar as policiais em quase todos os casos, talvez por ser uma das poucas pessoas que jamais reclamava do horário em que era chamada.

Na parede de concreto, entre fotografias, recortes de revista e anotações feitas com caneta vermelha, Liz observou uma confusão de informações que englobava mapas mentais, post-its numerados, diagramas circulares e sequências matemáticas que ela foi incapaz de compreender à primeira vista. Ainda assim, fotografou tudo. Sabia que, mais tarde, ela, Felipa e Rute passariam horas montando aquele quebra-cabeça.

Ao se mover em direção à mesa de trabalho, Liz reparou nos estilhaços espalhados pelo chão. O material lembrava vidro de copo quebrado, mas no local não encontrou nada parecido que justificasse aquilo, visto que os únicos utensílios por ali resumiam-se a canecas de cerâmica e duas ou três colheres. “Ok, isso é estranho”, pensou, mas não falou nada. Mantinha-se em silêncio, desde a sua chegada, no intuito de ouvir o que as testemunhas relatavam ao policial, que se esforçava ao máximo para anotar tudo o que era dito. As três jovens falavam ao mesmo tempo, atropelando frases, versões e detalhes. Liz permaneceu quieta, atenta.

– Quando cheguei, já estava tudo assim – disse a primeira – Veja o café intacto! Veja o computador ligado!

– A Mirela jamais sairia daqui sem apagar as luzes, sem trancar as portas... – relatava a segunda – Você sabe o valor desse computador?

– Tem sangue no chão! Tem vidro quebrado! Alguma coisa séria aconteceu! Vocês precisam descobrir o que houve aqui! – bradava a terceira.

Liz não respondeu nada. Continuou observando o vidro no chão enquanto as três jovens seguiam atrás dela atropelando hipóteses, receios e suposições. Agachou-se diante da mancha escura próxima ao sofá e aproximou dois dedos do piso frio sem chegar a tocar o sangue.

Havia algo errado naquilo. Obviamente, solicitaria uma análise laboratorial, mas percebeu de imediato que o cheiro não condizia com sangue. Mesmo misturado ao café envelhecido e ao ar abafado do galpão, o odor metálico esperado não estava ali. Em seu lugar, restava apenas um aroma químico, adocicado demais para passar despercebido. Artificial.

Liz ergueu os olhos lentamente para o restante do ambiente. Olhou para o computador ligado. Para as luzes acesas. Para o vidro quebrado. Para as testemunhas nervosas. Depois, novamente, para o sangue. Tudo era excessivamente visível. Parecia que alguém havia organizado a cena pensando não só em fugir, mas em ser encontrado.

As três mulheres continuavam falando sem parar atrás dela, todas ao mesmo tempo. Liz já nem tentava mais separar uma frase da outra quando ouviu o pigarro discreto de Felipa. A parceira, sempre muito solene, dificilmente chamava a atenção sem que houvesse um bom motivo. E bastou aquilo para fazer Liz erguer os olhos.

A policial estava parada diante da bancada de madeira, encarando a tela do computador com a expressão endurecida.

–  Acho que você vai querer ver isso – Felipa disse, movendo-se alguns centímetros para que Liz se aproximasse.

No monitor do computador havia dezenas de arquivos abertos ao mesmo tempo. Os links levavam a fotografias, diagramas, linhas curvas desenhadas sobre rostos humanos e uma sequência numérica repetida tantas vezes que se tornava impossível ignorá-la: 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21...

À primeira vista, pareciam apenas anotações desconexas perdidas entre diagramas e palavras circuladas em vermelho, mas Liz observou que os números estavam em todos os lugares. Repetiam-se em nomes de arquivos abertos na tela do computador. Em folhas diferentes de uma agenda toda rabiscada. Em anotações escritas nos post-its.

Liz estreitou os olhos. Aquilo não era aleatório, embora parecesse.

Sobre a bancada, um caderno permanecia aberto ao lado do teclado. As páginas estavam preenchidas por espirais desenhadas à mão, algumas delas atravessando fotografias impressas do rosto de diversas pessoas. Linhas curvas atropelavam olhos, bocas e maxilares até que os rostos deixassem de parecer humanos e passassem a lembrar diagramas. Mirela parecia ter transformado pele em cálculo.

– O que é isso? – Liz perguntou. Era a primeira vez que falava, desde que chegara ao galpão.

As três jovens finalmente se calaram. A mais baixinha desviou o olhar primeiro.

– É uma pesquisa da Mirela – respondeu uma delas, um pouco hesitante – Ela estuda padrões.

– Padrões de quê? De... matemática? – Liz questionou. Era uma dúvida genuína, mas nenhuma das jovens a respondeu.

Lá fora, uma sirene ecoou ao longe, sinalizando a chegada do reforço e, com sorte, da perita.

Liz desviou os olhos das mulheres, passou a vista pelo computador e deslizou a atenção para as fotografias presas à parede, num mural que era ainda mais confuso que a cena do desaparecimento de Mirela.

Naquele instante, pela primeira vez desde sua chegada, deixou de sentir que investigava um sequestro. Parecia mais próxima de entrar na cabeça de alguém.

Fim do capítulo

Notas finais:

 

Fazia quase um ano que eu não escrevia, desde que passei no vestibular e voltei a estudar.

Vontade nunca me faltou, o que faltava mesmo era tempo. Uma faculdade aos 42 e dois empregos ocupam bastante minha rotina...

Mas os desafios das imagens são sempre a única e rica oporrtunidade de encontrarmos Liz, então meti o foda-se no trabalho, suspendi os estudos mesmo chegando em época de provas, e escrevi as cinco mil palavras em dois dias. Quer dizer, digitei em dois dias, porque a escrita foi imediata, ainda que mental, no instante em que vi as imagens (e já sabia como ia terminar).

Espero que goste! S2


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Comentários para 1 - Introducao:
NovaAqui
NovaAqui

Em: 30/05/2026

Muitas pontas soltas


Mistérios

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Zaha
Zaha

Em: 17/05/2026

Boa madrugada, Caribu! Espero que tudo esteja nos conformes! 

Primeiro, parabéns por voltar aos estudos!  Desejo o melhor caminho pra você! Algumas coisas simplesmente valem à pena o sacrifício... 

Vi que tinha uma história sua e me deu curiosidade, já que no desafio passado apreciei muito sua escrita! Até fiquei devendo outras. 

Liz está de volta!! Gostei muito da introdução. As cenas estão nos deixando confusas... N sabemos se limparam e deixaram de propósito pistas para que soubessem ou se a estavam buscando devido à esse estudo de padrões. Deve ter encontrado algo.... Veremos no próximo o que Liz achará!!! 

Ler suas estórias policiais são sempre e num desafio para mim rs. Difícil de decifrar e espero muito me surpreender com o final!! 

Cuide-se! 

 


caribu

caribu Em: 17/05/2026 Autora da história
Bom dia, querida! Grata pela leitura e tb pelo comentário S2

Tb espero que o esforço valha a pena... "Sacrifício" é uma palavra que ilustra bem, estou com dois livros faltando só o último capítulo, imagine só...

Fico mto contente que tenha voltado, junto com a Liz! Eu adoro os desafios, me forçam ame encaixar no limite de mil palavras, é mto prazeroso. E mais ainda pq junto com as histórias vêm leitoras novas, como vc! Quando se inspirar, lê algum livro que tenho disponível aqui, estou certa de que vai gostar!

Com relação à introdução confusa... seguirá assim até o final rs Aliás, o desfecho possível e provavelmente não será como imagina, mas é bom assim rs Aí dou um final e vc cria o seu rsrs

Até breve!

Beijos!


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Zanja45
Zanja45

Em: 16/05/2026

Muito massa. Quero saber que tipo de trabalho Mirela realizava. E por que ela desapareceu. E por que deixaram pistas?

E aqueles números a soma do sucessor com o antecessor da o número seguinte. - É a sequência de Fibonacci?

 


caribu

caribu Em: 17/05/2026 Autora da história
Que bom que está curiosa! O interesse pela história é tão importante quanto o papel de cada personagem!

Quanto aos números, sim, a soma dos dois antecessores dá o número seguinte. É Fibonacci, sim S2

Inclusive, todos os horários do conto são números dessa sequência rs (porque, ao que tudo indica, a autora tb é bem... específica rs)

=D

Beijos!


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