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Investigando o meu Problema por Gabi Reis

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Palavras: 1818
Acessos: 644   |  Postado em: 30/04/2026

Notas iniciais:

Olá leitoras,

Antes de começar: respira fundo.

 

Esse livro tem investigação, tem confusão, tem gente tomando decisões duvidosas…
e tem duas mulheres que claramente não sabem ficar longe uma da outra.

Espero que gostem

Capitulo 1

 

A Casa de Vidro erguia-se como uma afirmação. Não apenas de riqueza — isso seria banal demais —, mas de poder. De controle. De domínio absoluto sobre o que se via… e, principalmente, sobre o que se escolhia não mostrar.

Localizada em um dos pontos mais elevados da cidade de São Paulo, a mansão parecia flutuar sobre o restante do mundo. Durante o dia, refletia o céu com uma precisão quase indecente; à noite, iluminava-se por dentro como uma vitrine viva, expondo silhuetas, movimentos e, ocasionalmente, intenções.

Eduardo Bastos gostava disso.

Gostava da ideia de que todos podiam ver — mas ninguém realmente compreendia.

A arquitetura era um espetáculo calculado: paredes de vidro temperado do chão ao teto, intercaladas com estruturas metálicas discretas, criando ambientes amplos, contínuos, quase sem divisões aparentes. Não havia cortinas na maioria dos espaços. Privacidade, para Eduardo, era um recurso estratégico — não um direito constante.

Cada cômodo era meticulosamente projetado para impressionar, dinheiro e poder ali não era problema.

A sala principal ostentava obras de arte contemporânea avaliadas em cifras obscenas, escolhidas não pelo gosto, mas pelo impacto que causariam em quem as reconhecesse. O piso de mármore claro refletia a luz com perfeição, e os móveis, minimalistas e caros, pareciam mais peças de exposição do que objetos de uso cotidiano.

O escritório — onde tudo terminaria — era o único ambiente que destoava. Ali, o vidro cedia espaço para paredes mais sólidas, revestidas em madeira escura. Era o centro nervoso da operação de Eduardo Bastos. Telas discretas, embutidas, exibiam fluxos de dados em tempo real: mercados internacionais, métricas de plataformas digitais, relatórios de comportamento de usuários.

Eduardo não era apenas um empresário da tecnologia. Ele era um arquiteto de decisões.

Eduardo não havia chegado ali por acaso — embora gostasse de sustentar essa narrativa implícita. No auge dos seus 44 anos, ele já tinha construído um império.

Nascido em uma família de classe média alta, nunca conheceu a urgência da escassez. Teve acesso ao que precisava no momento certo: boa educação, contatos iniciais, margem para errar sem consequências definitivas.

Aos 24 anos, fundou uma pequena empresa que, à primeira vista, parecia técnica demais para chamar atenção. Criava dashboards. Automatizava relatórios. Traduzia números em imagens simples o suficiente para que executivos tomassem decisões rápidas sem precisar compreender a complexidade por trás. Era um serviço quase invisível — e exatamente por isso, indispensável.

Cresceu atendendo demandas básicas que empresas ignoravam até perceberem o quanto estavam perdendo por não enxergar seus próprios dados. Redução de custos, identificação de padrões de consumo, antecipação de falhas operacionais. Nada revolucionário isoladamente. Mas, combinado, tornava-se poder.

Eduardo entendeu cedo que não precisava ser o criador da tecnologia — bastava ser quem melhor organizava, interpretava e entregava aquilo de forma utilizável.

E foi assim, projeto após projeto, contrato após contrato, que deixou de vender relatórios… e passou a vender decisões.

Anos depois, o Grupo Bastos já havia se tornado uma das maiores empresas de análise de dados da América Latina. Seu negócio não era vender tecnologia. Era vender previsibilidade.

Empresas gigantes confiavam nele para antecipar tendências, influenciar consumo, moldar comportamentos. Bancos, redes varejistas, campanhas políticas… todos, em algum momento, passavam por suas mãos.

E Eduardo sabia disso.

Sabia o valor de cada contrato. Sabia o peso de cada informação. Sabia, sobretudo, o quanto era indispensável.

Seu nome não aparecia com frequência na mídia — uma escolha deliberada. Preferia operar nos bastidores, onde o verdadeiro poder residia. Ainda assim, dentro dos círculos certos, era tratado quase como uma entidade.

Intocável.

Ou assim ele acreditava.

Amanda surgiu em sua vida como um detalhe… que rapidamente se tornou parte do cenário.

Era bonita — isso era inegável. Mas havia algo além. Uma presença que não se limitava à estética. Um tipo de silêncio que observava mais do que revelava.

Eduardo percebeu isso cedo.

E decidiu, ainda assim, encaixá-la no papel que lhe convinha.

O casamento veio rápido. Rápido demais para quem via de fora, mas perfeitamente coerente dentro da lógica de Eduardo: eficiência, objetividade, ganho de imagem.

Amanda tornava tudo mais… elegante.

Mas havia rachaduras. Pequenas. Quase invisíveis e naquela noite… uma delas se abriu.

Seis horas antes do jantar

— Eu não quero ir.

A frase veio direta. Sem tom elevado, mas carregada de algo que Eduardo reconheceu imediatamente: limite.

Ele não respondeu de imediato. Continuou ajustando o relógio no pulso, como se aquilo fosse apenas mais um detalhe irrelevante.

— Você vai — disse por fim, simples.

Amanda cruzou os braços.

— Eu estou cansada, Eduardo. Cansada dessas pessoas, dessas conversas. É sempre a mesma coisa… negócios, interesses, gente fingindo proximidade.

— Isso se chama networking.

— Isso se chama falsidade.

Silêncio.

Ele finalmente olhou para ela.

— Você não precisa gostar. Só precisa fazer.

Amanda deu um passo à frente.

— Eu não sou parte disso.

— É exatamente isso que você é.

A tensão subiu um nível.

— Eu não assinei contrato pra isso.

— Assinou, sim — respondeu ele, frio — só não leu as entrelinhas.

Aquilo bateu forte.

— Então talvez eu devesse sair desse contrato — disse ela, firme — talvez eu devesse pedir o divórcio.

O ar mudou completamente. Eduardo não levantou a voz. Mas algo nele endureceu.

— Você não vai fazer isso agora.

— Eu faço quando eu quiser.

— Não — ele deu um passo na direção dela — você não faz ideia do que está acontecendo.

Amanda sustentou o olhar.

— Então me explica.

Pausa.

Curta.

Controlada.

— Esse jantar de hoje define muita coisa — disse ele — coisas grandes. E a empresa… não está no rumo que deveria.

Pela primeira vez, havia algo ali que não era arrogância. Era preocupação.

— Tem gente envolvida demais — continuou — decisões sendo tomadas fora do meu controle.

Amanda franziu a testa.

— Então resolve isso. Mas não me usa pra sustentar aparência.

Eduardo se aproximou mais.

Agora perto demais.

— Você acha que pode simplesmente sair?

A voz veio mais baixa. Mais perigosa.

— Algumas decisões… têm consequências.

O silêncio pesou.

— Isso é uma ameaça?

Ele não respondeu diretamente. Mas também não negou.

— Só… esteja ao meu lado hoje — disse — depois a gente conversa.

Amanda o encarou por mais alguns segundos. Imóvel

O olhar preso nele por mais tempo do que o confortável. Como se estivesse tentando medir até onde aquilo ainda era um casamento… e onde começava outra coisa.

— Depois — repetiu ela, quase sem voz — sempre depois.

Eduardo não insistiu. Virou o rosto primeiro, encerrando a discussão.

Como fazia com tudo que não queria aprofundar e Amanda ficou ali por alguns segundos a mais. Sem confiança. Sem acordo e o pior… sem saída clara. Mas havia algo novo, não era só cansaço, eEra um tipo de alerta silencioso, crescente, difícil de nomear — como se, pela primeira vez, ela não estivesse apenas presa… estivesse em risco.

Ela respirou fundo.

E foi.

Porque, naquela casa… escolher não ir também tinha consequências.

Na noite de sua morte, a Casa de Vidro estava em plena atividade. O jantar reunia figuras estratégicas: parceiros comerciais, investidores, um advogado de confiança, diretores da empresa e alguns convidados cuja presença parecia mais política do que pessoal.

Conversas fluíam entre taças de cristal e sorrisos calculados. Negócios eram insinuados em frases leves, decisões importantes mascaradas de casualidade.

Eduardo transitava entre os grupos com naturalidade ensaiada e Amanda… permanecia ao lado.

Mas agora… diferente. Observando mais e falando menos. Em determinado momento, Eduardo pousou a mão em sua cintura.

— Seja simpática — murmurou.

— Eu sempre sou.

— Não o suficiente — respondeu ele, sem alterar a expressão, mas com uma frieza cortante.

Para quem assistia de longe, era apenas um casal elegante trocando palavras discretas, mas de perto e para os íntimos a percepção era de que havia tensão.

Horas depois, Eduardo se retirou para o escritório. Disse que precisava fazer uma ligação e ninguém estranhou, pois era típico dele se ausentar devido aos diversos negócios que tratava. Ao entrar no escritório, Eduardo não estava sozinho.
— Você demorou.

— Eu estava ocupado mantendo tudo funcionando — respondeu, servindo o uísque.

— Não parece.

Eduardo soltou um riso curto.

— Você está confundindo risco com controle.

— Eu estou vendo excesso.

Silêncio.

Eduardo levou o copo à mão, mas antes de beber, falou:

— Isso já está chamando atenção demais.

Pausa.

— Essas alterações… esse nível de interferência… se isso vazar—

— Não vai.

— Você não pode garantir isso.

Agora havia tensão real.

— Eu construí isso com previsibilidade — continuou Eduardo — não com exposição.

— Você construiu com ambição.

— E você está extrapolando.

Os olhares se cruzaram.

Dessa vez… sem hierarquia clara.

— Você estava querendo recuar — disse a outra voz.

Eduardo não respondeu de imediato.

E isso… foi resposta suficiente. O primeiro gole desceu suave. O segundo… não. A falha veio rápida e irreversível.

— …por quê? — murmurou, a voz já falhando, distante de qualquer controle que ele um dia acreditou ser absoluto.
A resposta veio sem hesitação.
— Você estava querendo recuar… — a voz se aproximou, baixa, firme — …e eu precisava retomar o controle.
Eduardo tentou reagir, mas seu corpo já não respondia com a mesma precisão que sua mente sempre exigiu.
Pela primeira vez, havia ruído no sistema.

O corpo de Eduardo Bastos foi encontrado caído ao lado da mesa. O copo de uísque, quebrado no chão, ainda exalava o aroma amadeirado da bebida. Um detalhe elegante… corrompido, seus olhos estavam abertos, surpresos, como se, no último instante, tivesse percebido algo que jamais considerou possível: Perder o controle.

O corpo caiu. O controle… acabou. E, ainda assim, não foi o silêncio que mais chamou atenção. Foi a sensação — sutil, quase instintiva — de que algo já estava fora do lugar antes mesmo de alguém perceber a ausência de Eduardo. Um desalinhamento invisível, como uma engrenagem que havia parado de girar muito antes do mecanismo inteiro travar.
Do lado de fora, a cidade seguia pulsando, alheia, indiferente. Mas dentro da Casa de Vidro, algo havia mudado de forma irreversível.
Um dos convidados juraria, mais tarde, que viu uma luz se apagar no andar superior minutos antes do corpo ser encontrado. Outro mencionaria uma porta que não costumava ficar aberta. Pequenos detalhes, desconexos, fáceis de ignorar — exceto quando colocados lado a lado.
E Amanda… Amanda não se apressou.
Enquanto alguns se agitavam, chamavam por ajuda, tentavam entender o que fazer, ela permaneceu imóvel por um segundo a mais do que o esperado. Observando. Calculando. Como se aquela cena não fosse exatamente uma surpresa, mas uma confirmação.
Seus olhos percorreram o ambiente com precisão quase fria, absorvendo cada reação, cada expressão, cada tentativa de disfarçar o desconforto.
Porque, naquela casa onde tudo era exposto… reações eram mais reveladoras do que palavras.
E alguém, além dela, também sabia disso.

 

Fim do capítulo


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