Capitulo 35
Capítulo 35
"Quem luta com monstros deve velar para não se tornar também um monstro." - Friedrich Nietzsche
Décio caminhava de um lado para o outro em seu quarto, o celular colado ao ouvido. A voz baixa, não escondia a raiva que sentia.
- Eu não tenho nada a declarar. Se você voltar a me ligar, vou até esse jornal pessoalmente falar com seu chefe.
Ele desligou o telefone e por pouco não o jogou na parede, desde o incidente com Ana Carolina cair nas redes sociais que recebia ligações de partidários e jornalistas querendo alguma declaração.
- Eu odeio aquela maldita! Ela não perde por esperar... - Disse entre dentes, as mãos apertadas com raiva e força. - Devia ter dado um jeito naquela maldita há muito tempo... enxerida igual ao pai, que teve o fim que mereceu. - As mãos tremulas de raiva diziam muito a respeito do momento em que Décio se encontrava, saiu do quarto a procura da esposa, precisa do apoio dela para dar exemplo naquelas duas, não podia esquecer da amiguinha que também o humilhou.
Ao chegar na sala encontrou o pai sentado na poltrona, o semblante carregado de desaprovação.
- Então é isso que você anda fazendo? - disse, sem levantar a voz, mas com dureza. - Os vídeos da sua briga estão circulando por toda Nova Esperança.
Décio tentou se justificar, mas o pai ergueu a mão, cortando qualquer palavra.
- Você não é mais um garoto. É o vereador, presidente da câmara, futuro prefeito dessa cidade e quem sabe ir para um cargo maior, mas, não...
- Pai..
- Cale-se! Seu imprestável! Fiz você vereador, comprei inúmeros silêncios para que você tenha alguma chance de ser prefeito dessa cidade, e você faz o que? Da artilharia aos nossos inimigos, eu não quero mais escândalos, ouviu bem Décio?
- O que está acontecendo aqui? - Dona Iolanda indaga o marido e o filho, estava junto com ela Ângela e Raquel, filha mais velha de Décio.
- Pergunte a seu filho o que ele fez, Iolanda!
Décio abaixou a cabeça, sentindo o peso da repreensão.
- O senhor está falando da briga dele com as médias? - Ângela perguntou olhando para o sogro.
- E você nem mesmo em apoiou, não sei...
- Nem apoiei e nem apoiarei, Décio. Você estava errado, já expliquei o porque delas estarem ali naquele horário.
- Chega Décio! Chega! Não quero mais ouvir, saber, imaginar, pensar em mais algum escândalo seu, muito menos que envolva aquela lá... chega! Já tenho problemas demais para me preocupar com seus desmandos.
Décio saiu de casa ainda com o rosto fechado, o coração acelerado pela bronca do pai. No carro, ligou para o prefeito Régis. - Precisamos conversar. - disse, a voz carregada de urgência. - Venha até a prefeitura. - respondeu Régis, seco.
Poucos minutos depois, Décio já estava na sala ampla do prefeito. Régis o recebeu com o semblante duro, sem rodeios. - Você me colocou em uma situação complicada, Décio. Esse escândalo da briga está em todas as redes. A cidade inteira comenta.
Décio se defendeu, batendo a mão na mesa. - A culpa é daquela maldita da Ana Carolina! Ela provocou, ela me expôs.
Régis estreitou os olhos. - Não seja tolo. Temos problemas maiores.
- Que problemas?
- Essa tal de Diana... ninguém sabe nada sobre ela. Coloquei alguém na fazenda para investigar e descobri que o nome da mãe dela é Sandra.
Ao ouvir o nome, Décio fechou os olhos, como se uma lembrança antiga o atingisse em cheio. Régis se inclinou para frente, a voz baixa, quase um sussurro: - Me diga... quem você conhece que tem uma filha chamada Diana e se chama Sandra?
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Décio manteve os olhos fechados, o rosto contraído, como se lutasse contra uma revelação que não queria admitir, o coração disparado. A lembrança veio como um soco: Sandra, a cunhada, esposa de Dário. A mulher que havia dividido a família, motivo de brigas intermináveis entre os irmãos e o pai.
- Sandra... - murmurou, quase sem voz.
Régis se levantou da cadeira, o semblante carregado de ódio. - Exatamente, Décio! Sandra, aquela vadia que ousou se casar com Dário, seu irmão.
Décio engoliu em seco, tentando se recompor. - Régis... isso foi há anos.
- Anos? - Régis explodiu, batendo a mão na mesa. - Você sabe muito bem o que isso significou para a minha vida, anos passaram, mas a vergonha e a humilhação, não!
Décio baixou a cabeça em negação, as mãos fechadas, a respiração profunda, levantou-se e caminhou a té a janela sem dizer nada, Régis continuou:
- E não esqueça: eu era o escolhido pelo pai de Sandra para casar com ela. Eu! Mas ela preferiu aquele miserável do Dário, engravidou e se casou com ele. Você tem ideia da humilhação que isso foi para mim? Do falatório dessa cidade naquela época, até hoje as pessoas comentam...
A voz de Régis agora era carregada de rancor, cada palavra cuspida como veneno.
- Eu sei muito bem disso Régis! Não esqueça que o pai de Sandra sempre foi o mais fervoroso aliado dos Alcântara. E até mesmo chegou a brigar com o meu pai, Paulo, quando ainda eram jovens, por causa dessa maldita rivalidade entre as famílias.
- Exatamente! Odeio aqueles miseráveis! O Dr Mário daqui a pouco liga cobrando providencias por conta do seu escândalo, ainda preciso daquele velho, Décio! Então pare de bobagens que temos muitas outras coisas para nos preocuparmos.
Décio abaixou a cabeça, não queria simplesmente esquecer a questão com Ana Carolina, ela há muito tempo estava batendo de frente com ele.
- Régis... se for mesmo a filha deles... se ela for minha sobrinha...
- Se for mesmo, Décio, então temos um problema muito maior do que escândalos em redes sociais. - Régis se aproximou de Décio, os olhos faiscando. - Essa garota não pode descobrir...
- Não há nada para ser descoberto Régis. Nada!
- Eu não vou dar sopa para o azar Décio, entendeu? Não cheguei até aqui para nada, vou ser deputado, meu nome já foi lançado e com boa aceitação, o que está no passado, lá deve ficar!
- Exatamente...
- E se aquela mulher aparecer aqui, se essa... essa... vagabundinha for filha dela e do seu irmão... - Régis falou entredente.
O silêncio que se seguiu foi pesado, sufocante. Décio sentiu que, pela primeira vez, estava diante da verdadeira fúria de Régis - uma raiva antiga, enraizada, que agora encontrava um novo alvo.
O telefone de Régis começou a vibrar sobre a mesa. Ele olhou para a tela e mostrou para Décio, com um sorriso irônico. - Não falei? O velho... - murmurou, antes de atender.
- Alô, Dr. Mário. - disse Régis, colocando no viva-voz para que Décio escutasse cada palavra.
A voz firme do médico ecoou pela sala: - Régis, eu quero explicações. O que aconteceu ontem no hospital foi inadmissível. A ida do Décio até lá, a confusão, a briga com Ana Carolina e Alice... isso não pode se repetir.
Décio engoliu em seco, sentindo o peso da bronca atravessar o viva-voz. Régis manteve o tom calmo, mas calculado: - Dr. Mário, eu entendo sua preocupação. Já conversei com o vereador. Foi um excesso, um erro que não se repetirá.
- Não se repetirá? - a voz de Mário subiu de tom. - Essa cidade não aguenta mais escândalos, Régis. Você sabe disso. E eu não vou permitir que minha neta seja alvo de agressões ou humilhações.
Décio fechou os punhos, mas permaneceu em silêncio. Régis lançou-lhe um olhar duro, como quem dizia "não abra a boca". - O senhor tem minha palavra, Dr. Mário. - respondeu Régis. - Eu mesmo vou cuidar para que isso seja resolvido.
Do outro lado da linha, o silêncio de Mário pesou por alguns segundos antes de encerrar: - Espero que sim. Porque se houver mais um episódio como esse, não será apenas uma conversa.
A ligação caiu. Régis desligou o viva-voz e encarou Décio com um misto de raiva e desprezo. - Viu? Até o velho já está cobrando. Você não tem noção do tamanho da confusão que criou.
Décio respirou fundo, tentando conter a fúria. Mas dentro dele, a lembrança de Sandra e a revelação sobre Diana queimavam como fogo.
- Imagina quando esse velho descobrir sobre a tal Diana?
- E o que ele faria que já não fez? Esqueceu que foi ele que jogou elas na rua e sem nada?
- Seu idiota! Você acha que ela não vai querer vingança? Descobrir o que aconteceu com o pai? E o crime que ele cometeu...
- Isso já foi julgado... Dário morreu numa briga na cadeia...
Régis olhou para Décio e disse: - As vezes você... você..
- Eu o que? Hein? Não foi isso que a policia descobriu? Não foi isso o que aconteceu? O passado está enterrado, Régis.
- Seu idiota! Você não se pergunta como uma criança com a mãe que saiu daqui expulsa e sem nenhum centavo, volta anos mais tarde, compra fazendas, reforma tudo, contrata funcionários, segundo as investigações que fiz, tem muito dinheiro e negócios espalhados por outros lugares desse país, nos documentos é filha de um herdeiro riquíssimo?
- O que...
- Isso mesmo Décio... a vagabundinha é milionária... e pode muito bem usar do dinheiro que tem para investigar as coisas mais a fundo... isso se já não estiver investigando...
Décio foi até o bar que existia na sala, pegou a garrafa de uísque e se serviu, tomou num gole só, serviu-se novamente e sentou no sofá.
- Não podemos deixar que isso vá muito longe.
- Precisamos saber o que ela realmente veio fazer aqui... Até porque ela pode muito bem querer se vingar do velho e se isso acontecer... Nós podemos....
- Nós podemos?
- Fazer com que ela se vingue do velho e depois...
- Depois?
- Bem... depois pode acontecer muitas outras coisas, não é verdade?
Décio tomou outro gole de uísque, balançando a cabeça em negação. - Eu não gosto disso, Régis. Essa história está ficando grande demais.
Régis riu, um riso frio e debochado. - Grande demais? Você é um idiota, Décio. Essa garota é atrevida, ousada. E você mesmo já a viu, não foi?
Décio suspirou, lembrando. - Sim... logo depois que ela chegou à cidade. Nos limites das fazendas. Tivemos uma discussão. Ela não abaixou a cabeça, me enfrentou como se fosse dona do mundo.
Régis gargalhou, balançando a cabeça. - Você realmente mete os pés pelas mãos. Não sabe lidar com nada sem transformar em escândalo. Mas agora não podemos errar. Cada passo precisa ser calculado.
Décio o encarou, irritado. - E o que você sugere?
Régis se aproximou, os olhos faiscando de ódio. - Precisamos fazer com que essa Diana confie em nós. Ou, melhor ainda, que ela acredite que o culpado de tudo é o velho Mário. Se ela se voltar contra ele, será perfeito.
Décio franziu o cenho. - Você quer manipular ela?
- Claro que quero! - Régis explodiu. - Você acha que vou deixar uma vagabundinha milionária cavar o passado e destruir tudo o que construí? Não, Décio. Vamos usar o que for preciso.
Décio respirou fundo, mas Régis não parava. - Inclusive... sua filha.
- O quê? - Décio arregalou os olhos.
- Raquel. Procuradora em Nova Esperança. Ela pode ser a ponte perfeita. Uma mulher da lei, respeitada, que pode se aproximar de Diana com credibilidade. Se Raquel ganhar a confiança dela, podemos direcionar tudo.
Décio levantou-se de súbito, furioso. - Você está louco, Régis! Quer envolver minha filha nisso?
Régis sorriu, cruel. - Louco? Não. Inteligente. Você não percebe? Raquel é a chave. Diana vai acreditar nela, vai confiar. E quando isso acontecer, nós teremos o controle.
Décio passou a mão pelos cabelos, nervoso. - Isso é sujo demais...
- Sujo? - Régis bateu a mão na mesa, o rosto vermelho de ódio. - Sujo é deixar essa garota destruir tudo. Sujo é permitir que o passado volte para nos engolir. Eu não vou permitir.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Décio sabia que Régis não estava blefando. E, pela primeira vez, sentiu que a guerra que se aproximava não seria apenas contra Diana... mas também contra sua própria consciência.
Fim do capítulo
Olá pessoal, como estão?
Bem, espero muitos comentários... animem essa autora que está com alguns problemas na familia e precisa de ânimo para escrever...
Comenten... e o pessoal que fala comigo no instagram... obrigada pelo carinho... Desculpem pela ausencia, gente, mas... enfim... espero que possa voltar ao ritmo normal, logo, logo...
Beijos!!!!!! E comentem!
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