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O som do silêncio por shoegazer

Ver comentários: 2

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Palavras: 1793
Acessos: 73   |  Postado em: 24/04/2026

Notas iniciais:

Voltei ?

Você nunca deveria

 

O silêncio de Daniele dizia mais do que qualquer barulho que pudesse fazer. Encarava o papel de parede amarelo de listras brancas e adornos florais vermelhos já desbotados à sua frente, o ruído da máquina próximo do balcão onde ficava ao fundo, assim como os passos de hóspedes ao longe indo a favor de pés que balançavam incessantemente apoiados um ao outro.

Não sabia como reagir quando Helena chegasse. O que deveria falar, como falar ou sequer se deveria falar. Tinha acontecido, mas quando se separaram uma da outra, o sentimento maior era confusão. Como um grande balão de pensamento que pairava sobre ambas dizendo “eu deveria mesmo ter feito isso?” no qual teve sua possível resposta quando Helena a encarou com os olhos arregalados e saiu sem dizer mais nada. Sequer uma mensagem. Também não havia enviado nada.

Poucas vezes Daniele não sabia o que dizer. Essa era uma delas. Com a caneta que batia lentamente contra os lábios, procurava chegar a alguma conclusão, memo sem poder ao menos entender qual poderia ser sua possível reação. Seria capaz de ignorá-la, de não falar do assunto, ou simplesmente falar, ou até mesmo fingir que não a conhecia ou ser rude. Ela sempre agia de uma maneira inesperada. Ou tudo isso poderia ser coisa da sua mente ansiosa, que insistia nos piores cenários.

Apesar de sua imagem firme do qual não deixa nada a abalar ou pudesse agir de maneira sóbria, Helena estava muito nervosa. Seu estômago embrulhava, e se sentia culpada por não ter dito nada, e mal tinha dormido pensando no inevitável.

“E se alguém descobrir?”, mas não por temor próprio, e sim pelo que vinha em sequência desse incessante pensamento, “O que vai acontecer com a Daniele?”

Deveria se afastar? Deveria ignorar? Deveria falar sobre? Deveria abraça-la? Deveria fazer tudo de novo?

Novamente, a moeda rolava entre os dedos de sua mão esquerda, enquanto seguia o tortuoso caminho para o trabalho, dessa vez a pé, sozinha e inerte em suas perguntas. Seu coração batia cada vez mais forte na medida em que se aproximava da entrada e, como era inevitável, assim que chegou, se deparou com Daniele. Um passo de cada vez, mesmo com os pés cada vez mais pesados. Encararam-se sem dizer nada.

Engoliu em seco, respirou fundo e ainda assim, não conseguiu sair do lugar e sequer dar uma palavra. Daniele a olhava com a angústia de alguém que vê um informe importante em um idioma desconhecido, e ainda continuou dessa forma quando a viu indo embora para sua sala. Quando pensou em se levantar e ir até ela, dois clientes a abordaram, restando apenas seu olhar parado em uma porta que se fechara.

Séria, Helena encarava a prateleira repleta de produtos à sua frente, assim como a prancheta em branco. Sobrancelha franzida, respiração pausada e o ar que saía devagar de sua boca. Não queria pensar no que estava acontecendo, mas também não estava conseguindo se concentrar no que tinha a fazer. Não restava outra saída a não ser tentar, e assim o fez até baterem em sua porta na sequência que já conhecia.

Lentamente, Daniele viu a porta se abrir e fechar assim que entrou. Não estava usando o aparelho, o que a fez se perguntar se estava próxima da porta quando bateu, mas, em vez de a questionar sobre algo tão simples, perguntou se estava tudo bem. Como resposta, um breve sim. Já em contraponto, um mais ou menos, e se daria para as duas conversarem. Seria ali mesmo? Não teria problemas? Não, seria rápido. Mas, do que exatamente?

“Sobre o que aconteceu”, dizia Daniele lentamente sentando à frente de Helena, tentando mascarar a aflição que a corroía “não quero que isso interfira na nossa amizade.”

Helena cerrou o cenho, engolindo mais uma vez em seco, a olhando confusa.

“Então sou uma amiga para você?”

“Claro”, dizia Daniele, “somos boas amigas.”

Cerrou-os ainda mais, balançando a cabeça lentamente para o lado. Assim que conseguiu entender o que realmente fora dito, se perguntou como tinha se preocupado à toa, e logo começava a se sentir mal por ter passado tanto tempo pensando em algo que não parecia tão sério, em que não conseguiu deixar somente em sua mente.

“Então não significou nada para você?”

Um misto de sentimentos viera à tona para ambas com essa frase. Daniele emudeceu. Tentava falar, mas a angústia prendia a sua garganta. Abria a boca, a fechava, pressionava os olhos, tentava gesticular. Essas ações só deixavam Helena ainda mais confusa. Encarou o chão. Procurava do seu modo se blindar do silêncio que tinha como resposta.

Daniele era covarde, não por desvio de caráter, mas porque a vida a levou a sempre se retrair sobre as coisas que levariam a se expor. Era mais fácil sobreviver quando não tinha o que ser usado contra ela, e falar dos seus sentimentos seria algo que a deixaria suscetível, desconfortável, fragilizada. Por mais que sua cabeça desejasse uma coisa, seu instinto levava a fazer outra.

Um abrir de portas, alguns passos para fora, um fechar.

Suas mãos abriam e se fechavam na intenção de algum gesto fazer alguma coisa, mas, nada. Do outro lado, Helena mordeu os lábios com firmeza, respirou fundo e tentou seguir com o que fazia, mesmo se sentindo enjoada. Se parasse, iria ser pior.

Já culpa era a palavra que corroía Daniele por inteiro, do início ao fim. Por que simplesmente não falou a verdade? Estava tão inebriada em sua própria confusão que não conseguia compreender o que realmente tinha feito, nem mesmo ao fim do expediente quando viu Helena, que sequer olhava para trás, ir embora a passos rápidos. Em vez disso, fora para casa, abriu a porta, tirou os sapatos, ignorou o que a mãe dizia na cozinha e se trancou no quarto.

Sentou na cama, e encarou o vazio à sua frente. Ali, não tinha o que a tirasse do que invadia sua mente e que a atingia com tanta força que as lágrimas que desciam em seu rosto eram inevitáveis. Enfiou as mãos contra ele, apertando com força. Em soluços, começara a se odiar ainda mais.

Perdeu a noção de quanto tempo havia ficado ali, imersas em seus destrutivos pensamentos, mas, entre as nuvens que se formavam em seus olhos, respirou fundo e tentou se recompor, enxugando o rosto mais uma vez. Não se perdoaria se não fizesse nada.  Pegou o telefone e, mesmo trêmula, digitou a mensagem e enviou. Naquela circunstância, não tinha mais nada a perder.

O celular vibrou. Seus olhos já estavam fechados e, assim que o pegou e viu quem era, hesitou por um minuto. Seria uma boa ideia responder? Não sabia se queria saber do que se tratava. Olhou novamente, ponderou. Ela saiu sem dizer nada, então poderia ser do que ela queria falar e, por mais que o teor pudesse ser bom ou ruim, a única certeza que tinha era que deveria saber. Não merecia ficar com o benefício da dúvida.

Mesmo assim, não era tão fácil e rápido fazer quanto pensar em fazer. Encarou o nome na tela por mais alguns minutos até que, finalmente, abriu a conversa.

“Me desculpe. Significou muito para mim. Queria isso há muito mais tempo do que você pode imaginar.”

E, antes que pudesse responder qualquer coisa, outra notificação chegou.

“Podemos nos ver mais tarde? Posso ir na sua casa.”

O tio sairia à noite, a tia também. Era um dos poucos dias em que estaria só em casa, e Daniele sabia disso. Qual fosse verdadeira intenção, a resposta seria somente uma.

“Sim.”

Fátima notava a inquietação da sobrinha, por mais discreta que fosse. Sentada na área do quintal, com o olhar fixo do lado de fora, especificamente no ninho de passarinhos onde os filhotes se esgoelavam atrás da mãe na árvore ali próxima. Suas unhas roçavam no chão devagar antes de colocar a ponta dos dedos no piso frio. O convívio já fazia com que percebesse que, quando agia assim, estava distante demais em seus pensamentos, sendo para coisas boas ou ruins.

Sua tia sempre pensava no pior, no que se agravava por Helena, em seu jeito reservado, levar a conclusão que, por mais que acontecesse, ela não compartilhava, restando a só quando resolvesse contar, e se assim o fizesse.

A rotina da casa seguiu como o esperado. Tomaram café juntas, e pouco depois Helena seguindo para o banheiro para tomar banho e, posteriormente, para o quarto, onde ali só iria sair para o jantar. Seu tio chegou, cumprimentou a esposa com um beijo e um abraço, seguiu para o banho, e assim que ficou pronto e o jantar servido, comeram juntos. Nenhuma palavra vinda de Helena, salvo alguns breves acenos com a cabeça.

Assis pensou que talvez ela só não estivesse em um bom dia para conversar, ou estivesse cansada demais para interagir no seu dia de folga. Terminou a janta e saiu, mas Fátima não estava convencida. Avisou as amigas que iria demorar e levou a fazer algo da qual não se orgulhava, mas que achava necessário, que era passar e passou pelo lado de fora até a janela de Helena para saber se realmente estava tudo bem mesmo. Como resposta, se deparou com ela sentada na cama, lendo, com as costas apoiadas na parede contra a cama, como sempre fazia.

Ouviu o barulho de palmas no portão. Para o seu alívio, era Daniele, que não sentiu o mesmo ao ver que quem a recepcionava de forma calorosa era Fátima. Logo depois de perguntar se estava tudo bem, questionou se sabia de alguma coisa que tenha acontecido com Helena por aqueles dias. Sentiu o arrepio em sua espinha. Até poderia saber do que se tratava, mas não poderia falar sobre, então procurou mascarar a verdadeira intenção em uma nas entrelinhas ao comentar que sim, e que por isso tinha vindo conversar com ela, para poder entender o que estava realmente acontecendo.

Sentindo-se mais aliviada em saber que estaria na companhia da amiga, Fátima confidenciou que estava saindo, mas que qualquer coisa poderia entrar em contato. Munida de sua bolsa e um breve aceno de até logo, Fátima saiu, levando a uma Daniele que, a passos lentos, batia na porta que não demorou a se abrir.

Encararam-se mais uma vez no fechar da porta. O profundo silêncio entre ambas. Os olhos que se encontravam, que desciam até os lábios e voltavam onde estavam entre uma palavra mais uma vez não dita. O clique que vinha do lado direito da cabeça que logo foi cessado quando Daniele apontou dizendo que não era necessário.

Assim que desligou, um passo à frente foi dado, e os olhos que ficavam semicerrados enquanto as mãos tocavam sua nuca a levaram de encontro ao beijo que tanto aguardava.

 

Fim do capítulo


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Comentários para 17 - Você nunca deveria:
Raf31a
Raf31a

Em: 25/04/2026

(...) "Queria isso há muito mais tempo do que você pode imaginar." Adorei a frase e o capítulo. Fico feliz que tenha retornado.

 

 

Responder

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Lea
Lea

Em: 24/04/2026

Que bom,que,voltou.

Estava com saudades dessas duas.

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