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  • Capitulo 1 - Solo Sagrado

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A Força da Terra e o Brilho do Agave por Lady Texiana

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Palavras: 3581
Acessos: 369   |  Postado em: 21/04/2026

Capitulo 1 - Solo Sagrado

 

O asfalto, queimado pelo sol do meio dia da rodovia estadual, criava miragens como em um sonho febril, deu lugar à estradinha de terra batida e avermelhada do Arizona,. A transição do asfalto para o cascalho da estrada que levava ao Rancho Scott foi como um baque seco que ecoou em seu peito e Addison Scott sentiu cada um dos solavancos na suspensão de seu SUV alemão. A poeira vermelha subiu, cobrindo a pintura impecável do carro, uma marca de nascença que a terra impunha a qualquer um que se atrevesse a voltar. O ar-condicionado trabalhando no máximo mal dava conta do calor que subia do solo, um mormaço que ela não sentia na pele há quase dez anos. O contraste entre o frio do ar condicionado com o calor que subia da terra árida, tentava, sem sucesso, selar Addison Scott em uma bolha de conforto executivo. Ela ajustou novamente os óculos escuros de grife, sentindo a seda da sua blusa social - perfeitamente passada, fria e urbana - contrastar com a paisagem que se tornava cada vez mais bruta do lado de fora.

Quanto mais se afastava dos arranha-céus de aço e concreto, muitos dos quais ela planejara e construíra, da cidade grande, mais a "Addison Executiva" sentia sua armadura rachar. Ela olhou para as próprias mãos no volante de couro: unhas impecáveis, nenhum rastro de terra. No entanto, ao ver os primeiros cactos saguaro surgirem como sentinelas gigantes, uma memória antiga a atingiu com a força de um soco. Ela se viu aos oito anos, com os joelhos ralados e as mãos sujas, cavalgando atrás de seu pai, Adam, sentindo que aquele deserto era o seu reino. Naquela época, ela não precisava de contratos, casamentos de fachada ou planilhas de lucro. Ela enterrou essas lembranças sob camadas de ambição e prédios corporativos, mas aquela terra tinha uma forma cruel de desenterrar o que os outros queriam esquecer.

No banco do passageiro, seu celular vibrou com uma mensagem de Itzel.

"Três dias sem uma ligação decente, Addison, sem uma maldita notícia, nada! Quando vai realmente parar para me ouvir, dar valor a nós, ao que construímos juntas?"

Addison suspirou, apertando o volante. A relação com Itzel, antes um incêndio de paixão e cumplicidade entre duas mulheres de gênios opostos, estava se transformando em silêncios e cobranças. A distância física era apenas o sintoma mais recente de uma ranhura mais profunda entre elas, nuvens que escureciam riscadas por raios cada vez mais a cada dia que passava.

Ao cruzar o arco de ferro fundido com o brasão dos Scott, o olhar de engenheira de Addison foi ativado por instinto ao olhar ao redor. Viu as cercas, madeira ressecada e descascada, precisando de tratamento. O pasto outrora verdejante e abundante agora apresentava irrigação deficiente e manchas onde havia erodido por completo. O império de cavalos puro-sangue de Adam Scott, que antes brilhava sob o sol, parecia estar definhando a olhos vistos.

Ela estacionou diante da casa principal e a realidade do declínio a atingiu. A pintura da varanda, que ela lembrava ser de um branco vibrante, estava descascada e acinzentada. O silêncio era opressivo; não era o silêncio de paz, mas o de algo que está se tornando sem vida.

Antes que pudesse desligar o motor, uma figura alta e de ombros largos saiu da sombra do estábulo principal. Caleb Riggs.

Ele não mudara quase nada. O chapéu de feltro encardido, a postura de quem era o dono do mundo e aquele olhar de desprezo que Addison conhecia desde os dezoito anos. Ela desceu do carro, o salto de seus sapatos de grife afundando levemente na poeira vermelha que recobria o pátio.

- Olha só o que a cidade grande trouxe para estes pastos - a voz de Caleb era um rosnado, ríspido, debochado, pegajoso. - A filha pródiga resolveu aparecer agora que o velho não consegue mais segurar as rédeas do rancho? Veio terminar o que começou a anos, quando o abandonou e não deu mais notícias?

- Saia da frente, Caleb - Addison disse, a voz gélida, ajustando os óculos escuros de grife. - Eu vim ver o meu pai. Onde ele está?

- Onde ele sempre está. Tentando não morrer antes do gado - Caleb deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. Ele era uma ameaça física palpável, os músculos dos braços queimados de sol e tensos. - Você veio para acabar com o velho de vez?

Addison tentou seguir em direção a casa, mas Caleb deu um passo à frente, bloqueando o caminho para a varanda, mas parou quando ela o fuzilou com o olhar. Ele exalava cheiro de couro e tabaco mofado, velho, de péssima qualidade.

- No quarto, no andar superior. Mas ele não precisa de uma "turista" de cidade grande ou de onde quer que você estivesse fingindo que não tem sangue daqui nas veias. Ele teve um infarto, Addison. Quase morreu enquanto você estava ocupada demais para atender um telefone nos últimos dez anos.

Addison sentiu o golpe baixo, mas não vacilou. Ela deu mais um passo em direção ao espaço pessoal dele, os olhos fixos nos dele.

- Eu estava ocupada construindo uma empre... - Addison parou no meio da frase, avaliando se era seguro dar informações relevantes a Caleb - Mantendo meu casamento, - acrescentou -  enquanto você, pelo que estou vendo nas cercas caídas e nos tanques vazios, estava ocupado demais deixando a propriedade do meu pai apodrecer.

O maxilar de Caleb travou. Houve um tempo, antes de ela ir para a universidade, em que o silêncio entre os dois era carregado de uma tensão diferente - uma noite específica atrás do celeiro que Addison enterrou sob camadas e mais camadas de uma carreira de sucesso e muita ambição. Ele se lembrou disso, algo em que já não pensava havia muito tempo e o desdém em seus olhos se transformou em algo mais sombrio.

- Você acha que entende de negócios porque se formou em alguma maldita universidade e virou patricinha, casando com um almofadinha cheirando a leite, Addison? - Ele riu, um som seco. - A terra aqui não perdoa quem a abandona, Addison. Seu pai está lá dentro, mas não se engane: você não é bem-vinda por ninguém além dele. E o seu marido? O tal Maxwell? Ficou na cidade cuidando das unhas?

- Briam está cuidando dos negócios que temos em Tucson - ela mentiu com perfeição cirúrgica. - Ele virá assim que possível.

Caleb cuspiu no chão e finalmente se afastou.

- Entra logo. Mas não se acomode. O ar aqui é pesado demais para gente fina, poderia se machucar feio.

Addison ignorou a ameaça velada no comentário, seguiu em direção a varanda e antes de entrar na casa, olhou por cima do ombro para os currais distantes. A terra estava rachada em padrões geométricos, acusando a pouca irrigação. Quando finalmente entrou, o interior estava na penumbra. O cheiro de cera de assoalho e remédios era sufocante. Ela subiu as escadas e encontrou a porta do quarto principal entreaberta.

Lá estava Adam Scott. O homem que ela se lembrava como um gigante, que a colocava com facilidade sobre os ombros quando criança, parecia menor sob os lençóis. O choque fez o coração de Addison falhar uma batida. O homem que outrora fora forte e capaz de dominar cavalos selvagens e negociar com os maiores pecuaristas do estado, parecia ter encolhido. Suas roupas pendiam frouxas em um corpo que perdera a vitalidade. Quando ele tentou levantar uma xícara de café para saudá-la, sua mão tremeu violentamente, o líquido derramando na borda, incapaz de alcançar, de levar aos lábios.

Ele estava acordado, olhando para a janela.

- Pai? - a voz dela falhou pela primeira vez. A culpa a atingiu como uma avalanche. Ele não estava apenas doente; ele estava perdendo tudo que era, definhando. Ver seu pai incapaz de realizar um gesto tão simples quanto segurar uma xícara destruiu o último resquício de sua frieza, a que vinha mantendo todos estes anos.

Adam virou a cabeça devagar. Um sorriso fraco surgiu no rosto marcado pelo sol.

- Addie... você veio. O Briam veio com você?

O coração de Addison apertou. A primeira coisa que ele perguntava era pelo genro de fachada, o escudo que ela usava para esconder a vida com Itzel, a mulher que realmente amava e que, naquele momento, provavelmente estava destruindo uma garrafa de tequila em Jalisco de pura raiva.

- Ele manda lembranças, pai. Precisou ficar em Tucson para cuidar de algumas pendências. Eu vim cuidar de você.

- Não precisa - Adam tossiu, a mão trêmula segurando a dela. - O Caleb está dando conta de tudo. O rancho está forte como sempre.

Addison olhou pela janela para a propriedade negligenciada. Ela sabia que Adam estava mentindo para si mesmo. O rancho estava sangrando dinheiro, e Caleb Riggs estava, ela tinha certeza, de alguma forma, sendo a faca causadora da sangria, ao invés de estanca-la.

- "Ele não está dando conta, ou não quer dar conta, pai" - ela pensou, mas apenas apertou a mão dele. - Eu estou aqui agora. E as coisas vão mudar, prometo. Vou cuidar para que tudo volte a ser como era antes.

Ela sentiu o celular vibrar novamente no bolso. Outra mensagem de Itzel. Addison não precisou ler para saber que era um ultimato. Seus dois mundos estavam desmoronando a olhos vistos: o rancho e o amor da mulher que amava.

***

Assim que o pai adormeceu, ela foi para o escritório. O cômodo cheirava a fumo de rolo vagabundo. Ela abriu as gavetas e duas horas depois de analisar meticulosamente os arquivos,  o que encontrou fez seus olhos azuis faiscarem de raiva: faturas atrasadas, juros abusivos praticados por fornecedores de alfafa, feno e insumos para os cavalos e registros de venda de animais puro sangue por valores irrisórios. As finanças do rancho estavam sendo corroídas por todo lado.

- Perdeu alguma coisa, princesa? - Caleb reapareceu no batente da porta, encostando-se nela com indolência, observando-a mexer nos papéis.

- Estou procurando a lógica nestas contas, Caleb. Por exemplo, por que a potra 'Tempestade' não consta como vendida, se no inventário consta ela não está mais no pasto?

Caleb deu um passo para dentro, a sombra dele cobrindo a mesa, agigantando-se sobre ela.

- Isso não é da sua conta, querida. Volte para suas revistas de moda, salões de beleza, conversa de patricinhas, ou seja lá o que você faz da sua vida. Deixe que os homens que entendem de terra e de gado cuidem dos negócios.

Addison levantou-se devagar, a ira cobrindo seus olhos azuis.

- Isso acabou, Caleb. De agora em diante as coisas vão entrar nos eixos e quem vai assumir o controle sou eu. Voltei para isso mesmo, para assumir as rédeas do rancho, antes que isso tudo aqui acabe de vez.

- Duvido que aguente um dia neste rancho, princesa. De qualquer forma, quando for embora com o rabo entre as pernas, não esqueça de chorar no ombro daquele mauricinho com quem casou. Deveria ter escolhido um homem de verdade...

- E quem seria esse "homem de verdade"? Você? Ora faça me rir, Caleb.

- Se tivesse me escolhido...

-Jamais escolheria você! Ouviu? Jamais! E agora faça o favor de dar o fora, preciso trabalhar nesta bagunça! Saia!

Caleb deu de ombros, o olhar de serpente oculto pela magoa da rejeição que procurava mascarar desde muito tempo, mas que prometia vingança. Colocou o chapéu puído na cabeça e sem uma palavra, virou-se e foi para o corredor em direção a cozinha do rancho.

***

Addison subiu para seu antigo quarto. Com movimentos precisos, despiu o blazer de corte impecável e a calça de alfaiataria. Do fundo da mala, retirou sua verdadeira armadura para enfrentar o que a esperava: uma calça jeans de brim grosso, uma camisa de linho preto e suas botas de montaria desgastadas e macias.

Enrolou as mangas da camisa até os cotovelos e prendeu o cabelo castanho claro em um nó firme. Ao ajustar o chapéu de abas largas, a empresária/engenheira de Tucson desapareceu. Restava a Scott que conhecia cada palmo daquela terra.

Ela desceu e passou por Caleb ainda parado no corredor. Ele ficou estático, o olhar calculista percorrendo a transformação de Addison com uma mistura de rancor e um desejo que ele tentava, sem sucesso, mascarar. Percebeu que ela não era mais a boneca de porcelana que ele ainda tinha na imaginação, a garota assustada que fugia do seu assédio constante e insidioso.

Addison foi direto ao estábulo e escolheu "Apolo", um garanhão baio inquieto. Selou-o com perícia, ignorando os peões que cochichavam sobre "a mulher do Sr. Maxwell tentando brincar de vaqueira". Eles não poderiam estar mais errados.

Ao montar, ela instigou o animal a um galope veloz em direção aos limites da propriedade. O rancho estava morrendo, definhando em um mar de dívidas e negócios errados, e Caleb Riggs estava, de alguma forma, sendo o responsável por isso e ela iria provar.

Enquanto cavalgava, o celular vibrou no bolso. Uma foto de Itzel segurando um copo de cristal com sua tequila artesanal, tendo ao fundo os campos de agave azul de sua fazenda no México. A legenda era como um punhal cortando seu coração: "Aqui, o que é de verdade permanece. O que é de fachada... Você já sabe, não preciso repetir".

Addison guardou o aparelho com força. Ela estava entre dois impérios em ruínas: o rancho de seu pai e o amor possessivo, ciumento, que não admitia rivalidades, de Itzel. Mas enquanto sentia o vento seco do Arizona no rosto, uma certeza se formava: ela não deixaria de nenhuma maneira, enquanto estivesse viva, Caleb Riggs destruir o solo que a viu nascer.

***

O sol do meio-dia no Arizona não costuma perdoar a quem nele se arrisca, queima a pele de qualquer um e Addison Scott também não perdoava. Na sela de Apolo, ela observava o setor sul do rancho. O que viu fez seu sangue de engenheira ferver: uma retroescavadeira abandonada com o pistão hidráulico vazando sobre o solo seco e três peões sentados à sombra de um freixo, rindo enquanto dividiam um maço de cigarros e uma garrafa de aguardente vagabundo.

Ela desceu do cavalo com uma agilidade que silenciou as risadas irônicas.

- Essa máquina custa duzentos mil dólares - Addison projetou a voz, cortante como aço. - E o fluido hidráulico está contaminando o lençol freático que alimenta o tanque dos cavalos. Quem é o responsável por esse setor?

Um homem jovem, com a camisa desabotoada e o rosto sujo de graxa, levantou-se lentamente, limpando as mãos no jeans.

- Calma lá, senhora. O Caleb disse que essa máquina podia esperar. E, com todo respeito, o que uma dama como a senhora entende de mecânica pesada?

Addison deu um passo à frente. O insulto era o combustível que faltava.

- Meu nome é Addison Scott. Sou filha do seu patrão, dona destas terras. Se esse pistão não for limpo e isolado em dez minutos, você está fora da folha de pagamento.

- Você não manda aqui - o peão retrucou, mas vacilou ao ver o brilho gélido nos olhos azuis dela.

- Eu vou repetir: sou Addison Scott e sou sua patroa. Se não cumprir com as ordens que te dei, vai estar fora da folha de pagamento até o final do dia.

Virando as costas, Addison montou novamente e galopou de volta à sede, onde Caleb Riggs inspecionava alguns arreios.

- Caleb! - ela gritou, desmontando antes mesmo de Apolo parar completamente. - O setor sul do rancho é um lixão de sucatas a céu aberto. Pelas notas fiscais que tive acesso no escritório, você está superfaturando a manutenção e deixando as máquinas apodrecerem no tempo, como pude ver com meus próprios olhos. Onde está o dinheiro que meu pai te confia?

Caleb largou o couro e caminhou até ela, a sombra do chapéu escondendo seus olhos calculistas.

- O dinheiro vai para onde é necessário, Addison. Para manter a ilusão de que seu pai ainda tem um rancho. Você chega aqui com roupas chiques e acha que pode dar ordens? Porque não volta para Tucson e para seu marido almofadinha que te sustenta e nos deixa em paz?

Addison riu, uma risada seca e sem alegria.

- Você adoraria que eu fosse, não é? Ficaria mais fácil para o seu ego aceitar que eu venci na vida se um homem tivesse feito o trabalho por mim.

Caleb se aproximou, a voz baixando para um tom perigosamente íntimo.

- Você sempre teve essa língua afiada. Lembra daquela noite antes de você fugir? Você não era tão durona quando...

- Cale a boca - ela o cortou, o rosto a centímetros do dele. - Se tocar naquele assunto de novo, eu garanto que você sai daqui algemado por desvio de fundos do rancho. Eu vi os livros, Caleb. A conta não fecha.

A tensão aumentou entre os dois, cujo duelo estava apenas começando.

No meio da tensão, um homem idoso, de pele curtida como couro e passos mancos, saiu do celeiro de treinamento. Era Silas, o treinador de cavalos que a ensinara a montar quando ela ainda era uma criança de luto pela mãe.

- Menina Addie? - Silas perguntou, a voz rouca de emoção.

Addison relaxou os ombros instantaneamente.

- Silas...

- Eu sabia que os olhos de Adam voltariam a brilhar se você aparecesse. Ele está lá em cima, perguntando por você.- Silas lançou um olhar severo para Caleb. - Venha, venha ver o patrão. Ele precisa da família, e precisa de você neste momento.

Addison virou-se e seguiu Silas rumo a casa do rancho, o confronto com Caleb apenas adiado. O velho era o único que parecia ver através da máscara dela. No quarto, ela ajudou Silas a ajeitar os travesseiros de Adam. A lealdade silenciosa entre os dois homens era a única coisa que ainda mantinha a dignidade daquele quarto.

Adam Scott tossiu, um som seco que pareceu ecoar nas paredes de madeira do quarto. Ele soltou a mão de Addison por um momento para ajustar o cateter de oxigênio, mas seus olhos, embora cansados, perfuravam a filha com uma insistência antiga.

- Onde ele está, Addie? - a voz de Adam era um sussurro rouco. - Onde está o Briam? Um homem não deixa a esposa vir sozinha para resolver... para o que pense que pode resolver. Um marido de verdade estaria aqui, ao seu lado, assumindo as rédeas enquanto eu não posso.

Addison sentiu o nó na garganta apertar. A mentira sobre Briam Maxwell, o artista que ela sustentava em Tucson, só pelo peso do nome, a falida, mas ainda renomada família Maxwell, pesava mais do que o calor do Arizona.

- Ele virá, pai. Ele só precisava fechar uns contratos importantes em Tucson. O senhor sabe como é o mundo dos negócios.

- Negócios... sempre os malditos negócios - Adam resmungou, desviando o olhar para a janela. - Você passou dez anos correndo atrás de livros e números. Olhe para este rancho, Addison. O Scott Legacy não é feito disso apenas. É feito de sangue e de continuidade. E onde está a sua continuidade?

Ele voltou a encará-la, a expressão endurecida.

- Dez anos de casada e nem sinal de um herdeiro. Você acha que eu construí tudo isso para entregar nas mãos de um capataz ou de um banco quando eu fechar os olhos? Você precisa dar mais atenção ao seu marido, menina. Um homem como o Briam... se você o deixa sozinho demais com suas ambições, ele acaba procurando o que não encontra em casa.

Addison sentiu a ironia daquelas palavras queimar como ácido, pensando em Itzel, a mulher que realmente amava e que acabara de lhe enviar uma mensagem de cobrança.

- Pai, não é o momento para isso. O senhor precisa descansar...

- É exatamente o momento! - Adam elevou o tom, sendo interrompido por uma crise de tosse. - Você é uma Scott. Sua função era garantir que este nome não morresse comigo. Mas você prefere brincar de empresária em Tucson do que ser a esposa e a mãe que este rancho exige. O Briam é um bom homem, ele tem um nome de peso, mas ele precisa de uma mulher que esteja presente, que entenda que o lugar dela é ao lado do marido, construindo uma família.

Ele apontou o dedo trêmulo para ela.

- Menos tempo com livros e cálculos e computadores e mais tempo sendo mulher, Addison. O mundo não vai parar se você parar de brincar de negócios, mas o meu mundo para se eu não tiver um neto para sentar neste alpendre, para correr por estas terras. Vá ligar para ele. Diga que você precisa dele aqui. Seja a esposa que eu criei você para ser.

Addison levantou-se, sentindo-se sufocada pelo cheiro de remédios e pelas expectativas de um século passado. Ela apenas assentiu, incapaz de dizer a verdade: que seu casamento era um contrato de fachada e que o herdeiro que ele tanto ansiava nunca viria daquela união, mas que poderia vir de outra, muito diferente daquela que ele almejava.

- Vou ver as contas no escritório, pai - ela disse, a voz gélida. - Descanse agora.

Ao sair, ela ouviu o pai resmungar uma última vez:

- Estas contas não te darão um filho, Addison. E um marido negligenciado não vai te garantir um sobrenome, muito menos um casamento sozinho.

 

Fim do capítulo


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Comentários para 1 - Capitulo 1 - Solo Sagrado:
Mmila
Mmila

Em: 24/05/2026

O patriarcado de sempre sobrepujando as mulheres.....

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