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Sob o peso do desejo por MalluBlues e

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Palavras: 3037
Acessos: 478   |  Postado em: 05/03/2026

Capitulo I: Vinte e Três Respirações

Por Cecília:

 

Era uma daquelas noites em que a névoa descia sobre a cidade, envolvendo os casarões e as ruas estreitas. No salão dos De Melo, iluminado por dezenas de candelabros e lamparinas à gás que faziam dançar sombras nas paredes, a juventude dourada da sociedade rodopiava ao som de valsas executadas com perfeição por uma pequena orquestra trazida especialmente para a ocasião.

 

Ali estava eu, Cecília Monteiro Cavalcanti, dezenove anos e uma constituição corporal que a Providência, em sua misteriosa sabedoria, julgara conveniente tornar tão frágil quanto o mais fino cristal. Meus pulmões, os médicos diziam, haviam sido tecidos não de carne, mas de rendas delicadas que se rasgavam à menor brisa. Enquanto minhas primas giravam incansáveis nos braços de seus cavalheiros, com seus vestidos esvoaçando, eu me dedicava a uma contagem silenciosa e melancólica: vinte e três respirações profundas sem sentir aquela opressão conhecida. Vinte e três! Era meu recorde pessoal, e confesso que experimentei certo orgulho mórbido diante desta pequena vitória sobre meu corpo traidor.

 

Minha mãe, Dona Amélia Monteiro Cavalcanti, dama de espírito imperturbável, insistia que eu era melodramática. Meu pai, o respeitável Senhor Antônio Monteiro Cavalcanti, comerciante próspero cujos negócios se estendiam em todos os portos da capital, concordava com minha mãe em absolutamente tudo. Virtude conjugal que os vinte e cinco anos de casamento haviam aperfeiçoado até a excelência. Minha irmã Francisca, casada há dois anos com o doutor jurista Henrique Tavares, afirmava com sua piedade característica que eu necessitava de mais fé e menos lamentações. Apenas minha avó paterna, Dona Ofélia, mulher de oitenta e tantos anos e língua tão afiada quanto às espadas dos cavaleiros templários, admitia abertamente e sem rodeios: "a menina nasceu com os pulmões trocados, coitada, deve ter pego por engano os de algum passarinho miúdo no armazém celestial".

 

A tarde anterior ao baile transcorrera com aquela lentidão peculiar às tardes de quinta-feira, quando as senhoras de boa família se reuniam para bordar, tagarelar sobre as pequenas intrigas da sociedade e tomar chá em xícaras de porcelana.

 

— Cecília está pálida outra vez — comentou minha irmã Francisca, erguendo os olhos de seu bordado para me examinar com aquela expressão que eu conhecia bem demais: uma mistura curiosa de preocupação fraternal e irritação por eu estragar, mais uma vez, a harmonia da tarde com minha presença frágil. — Mamãe, não acha que Cecília deveria repousar em vez de ir ao baile esta noite?

 

— Estou perfeitamente corada — retruquei com a vivacidade que consegui reunir, embora soubesse que minha face provavelmente exibia a tonalidade pouco saudável do leite aguado. — É apenas o contraste com vosso rubor excessivo, querida irmã, que faz com que eu pareça uma assombração.

 

Mamãe suspirou e nos olhou com reprovação. 

 

— Meninas, por favor! — disse ela com a paciência de uma santa. — Cecília, não provoque sua irmã e Francisca, deixe sua irmã respirar em paz.

 

A ironia involuntária da última frase não escapou à minha percepção aguçada, mas mantive o sorriso discretamente contido nos lábios, como convinha a uma jovem de boa educação.

 

— Recebi carta de tia Eulália esta manhã — anunciou mamãe, mudando de assunto. Ela retirou do bolso da saia uma carta dobrada. — Ela se queixa da solidão e pergunta afetuosamente por todos nós. Lamenta profundamente não poder vir à cidade com a frequência que desejaria. As dores nas pernas, como sabem, atormentam-na.

 

Tia Eulália vivia no interior da província, numa fazenda herdada do falecido marido, o Coronel Bernardino. A fazenda era rodeada de intermináveis laranjais cujo perfume, segundo diziam, misturava-se ao dos jasmins que cresciam selvagens ao redor da casa grande. Eu a visitara apenas duas ou três vezes, quando tinha sete ou oito anos, e guardava na memória imagens nebulosas de corredores largos e sombrios, tetos altíssimos onde ecoavam os passos, e um silêncio. Um enorme silêncio.

 

— E aquela moça ainda vive com ela? — perguntou Francisca com aquele tom particular que as senhoras de sociedade reservam para os assuntos que consideram simultaneamente fascinantes e impróprios. — Como se chama mesmo? Inácia? Inês?

 

— Inês — corrigi, embora mal me lembrasse da tal criatura misteriosa.

 

— Inês, precisamente — confirmou mamãe, baixando a voz até um sussurro conspiratório, como se estivéssemos discutindo os segredos de Estado. — Uma estranheza aquela moça, devo confessar. Se aproxima dos trinta anos, permanece solteira, e possui um gênio que faria inveja aos piores tiranos da História. Não compreendo como Eulália a suporta sob seu teto.

 

— Caridade cristã, sem dúvida — sugeriu Francisca, ajeitando os cachos loiros com ar de virtuosa compreensão. — A tia sempre foi um exemplo de bondade.

 

— Ou teimosia senil — murmurou vovó Ofélia de seu canto estratégico junto à janela, sem dignificar-se a erguer os olhos do tricô que suas mãos trabalhavam com surpreendente agilidade. — Eulália sempre teve esse pendor infeliz de apegar-se às coisas quebradas do mundo. Recolhe desgraçados como outras pessoas recolhem gatinhos vadios.

***

O baile dos Albuquerque começou pontualmente às oito horas da noite, como ditavam as regras destes eventos. Francisca e Henrique me acompanharam na carruagem. Ela fazendo recomendações intermináveis sobre decoro e comportamento apropriado, ele fingindo ouvir enquanto revisava mentalmente algum caso jurídico complexo. Eu, envolta em meu vestido de baile, um tafetá cor de marfim com delicados bordados em fios de seda azul-celeste que mamãe mandara fazer especialmente para a ocasião, sentia meu coração bater numa antecipação que tinha tanto de excitação quanto de ansiedade.

Quando nossa carruagem se juntou à fila de veículos que desembarcavam convidados diante da mansão dos De Melo, pude ver através das janelas iluminadas as sombras dos casais já dançando, e ouvir os acordes da orquestra. O céu estava encoberto, é verdade, e havia aquela umidade no ar que prenunciava temporal, mas ainda não chovia e era como se os céus também quisessem esperar até o fim da festa para desabar.

O salão estava transformado num verdadeiro palácio de luz e música. Dezenas de candelabros de cristal pendiam do teto altíssimo, suas velas refletindo-se nos espelhos que cobriam as paredes, multiplicando a iluminação até que tudo brilhasse. 

— Cecília! — a voz animada de minha prima Sofia cortou através do burburinho. Ela surgiu entre os casais dançantes como uma aparição em cetim rosa, com seus cachos saltitando a cada passo. — Que vestido maravilhoso! Venha, venha, há tantas pessoas querendo te cumprimentar!

E assim fui arrastada para aquele turbilhão social que caracteriza os bailes. Cumprimentos efusivos, beijos no ar, elogios sobre vestidos e penteados, fofocas sussurradas atrás de leques sobre quem estava dançando excessivamente com quem, especulações sobre noivados iminentes e escândalos. Eu sorria, acenava, respondia no momento certo, mas meus olhos, confesso, vasculhavam o salão em busca de uma figura específica.

Foi Sofia quem o viu primeiro.

— Olha, Cecília — disse ela com aquele tom conspiratório que as primas empregam quando discutem assuntos do coração. — O Alberto Guimarães está ali, junto à coluna. E, se não me engano, está olhando para cá.

Meu coração deu um salto. Virei-me simulando um casual desinteresse e, de fato, lá estava ele. Alberto Guimarães, vinte e três anos, filho do juiz Guimarães, formado em Direito. Ele usava um terno preto impecável, colete cinza, e uma gravata amarrada com perfeição.

Nossos olhos se encontraram através do salão. Ele sorriu. Um sorriso pequeno, quase tímido, e começou a caminhar em nossa direção.

— Boa noite, senhorita Sofia, senhorita Cecília — cumprimentou ele, fazendo uma reverência que teria parecido exagerada vinda de qualquer outra pessoa, mas que nele parecia perfeitamente natural. — Que alegria vê-las esta noite. Senhorita Cecília, posso dizer que está absolutamente radiante?

— Pode — respondi, lutando para manter o tom leve. — Embora deva adverti-lo de que radiante pode ser generoso demais para descrever alguém com minha coloração habitualmente pálida.

Ele riu, daquele jeito que tinha, como se realmente apreciasse meu senso de humor autodepreciativo.

— Permita-me discordar respeitosamente — disse ele. — Seu vestido é magnífico, e não vejo nenhuma outra moça neste salão com traje mais belo ou mais apropriado. A cor realça perfeitamente... — ele hesitou delicadamente — ...sua delicadeza natural.

Delicadeza natural. Que maneira elegante de dizer palidez doentia.

— É muito gentil, senhor Guimarães — interveio Sofia, sentindo talvez que eu estava prestes a fazer algum comentário sarcástico. — Cecília teve o vestido feito especialmente para esta noite.

— E a costureira deve ser felicitada — concordou Alberto. Então, voltando-se para mim com uma expressão que parecia conter ansiedade, acrescentou: — Senhorita Cecília, me faria a honra de dançar a próxima quadrilha comigo?

Meu coração disparou novamente.

— Seria um prazer — consegui responder com razoável compostura.

A quadrilha foi tudo de que sonhos românticos são feitos. Alberto era um dançarino consumado, mas ele adaptava seus passos aos meus, mantendo o ritmo elegante mas não excessivamente vigoroso, permitindo-me acompanhá-lo sem esforço que me deixasse sem ar. Conversávamos durante a dança, aquelas pequenas conversas que os bailes permitem: ele me perguntou sobre minha leitura recente (menti dizendo que era algo edificante, quando na verdade era um romance francês que mamãe desaprovaria), comentou sobre a excelência da orquestra, fez uma observação espirituosa sobre a decoração excessiva dos De Melo.

— Eles transformaram o salão num jardim suspenso da Babilônia — sussurrou ele durante uma volta. 

Ri e vi nos olhos dele um brilho de satisfação por ter me divertido.

Quando a quadrilha terminou e ele me reconduziu ao lado de Sofia, pensei que aquele seria o ápice da noite. Mas então, após uma breve hesitação que o tornou ainda mais encantador, ele se inclinou ligeiramente e disse:

— Senhorita Cecília, sei que não devo monopolizar sua atenção, mas... me permitiria o prazer de uma valsa também? A próxima, talvez?

Francisca, que materializara-se ao meu lado com aquele instinto infalível que irmãs mais velhas possuem para momentos cruciais, começou a abrir a boca, certamente para dizer que eu já dançara suficiente, que devia descansar, que meus pulmões não tolerariam mais esforço. Mas Alberto, cavalheiro perfeito que era, antecipou-se:

— Garanto, senhora Tavares, que manterei a valsa num ritmo perfeitamente moderado. Nada de giros excessivos ou movimentos bruscos. A senhorita Cecília estará completamente segura comigo.

E Francisca, surpreendentemente, cedeu. Talvez porque até ela não fosse imune ao charme daqueles olhos castanhos sinceros.

A valsa foi ainda mais perfeita que a quadrilha. Alberto manteve sua promessa. Não havia giros vertiginosos, apenas aquele movimento suave e constante. Sua mão na minha cintura era firme mas respeitosa, seus dedos seguravam minha mão com a pressão exata, nem frouxa demais, nem apertada demais.

— Está se sentindo bem? — perguntou ele suavemente, enquanto rodávamos. — Não está cansada?

— Estou perfeitamente bem — assegurei, e era quase verdade. Minha respiração estava ligeiramente acelerada, mas não perigosamente. Meu coração batia rápido, mas suspeitava que tinha menos a ver com esforço físico e mais com a proximidade daquele rosto gentil. — O senhor dança magnificamente.

— O mérito é da parceira — respondeu ele, e havia algo em sua voz, algo sincero que fez meu rosto corar. — Uma boa parceira faz qualquer dançarino parecer melhor do que realmente é.

Continuamos em silêncio por alguns compassos, apenas seguindo a música.

— Senhorita Cecília — disse Alberto, sua voz baixando até um sussurro que só eu podia ouvir — espero que não me considere presunçoso, mas gostaria muito de... isto é, se sua família permitir... gostaria de visitá-la. Adequadamente, com aviso prévio, naturalmente. Para conversar, talvez tomar chá...

— Eu apreciaria muito — respondi, mal conseguindo acreditar que estava dizendo aquilo. — Gostaria muitíssimo.

Quando a valsa terminou e ele me conduziu de volta, fazendo uma reverência perfeita antes de se retirar para permitir que outros cavalheiros me convidassem, senti-me simultaneamente exultante e exausta. Dancei mais duas danças. Uma valsa com o primo Augusto, outra quadrilha com um jovem médico cuja conversa era inteiramente sobre medicina e portanto profundamente entediante.

Eram quase onze horas quando Francisca declarou que era hora de partir. A umidade no ar havia aumentado consideravelmente, e através das janelas podíamos ver a neblina descendo. Os primeiros pingos de chuva começaram a cair quando entramos na carruagem.

— Foi uma noite encantadora — comentou Francisca, ajeitando as saias. — E o jovem Guimarães foi muito atencioso contigo, Cecília. Devo dizer que fiquei favoravelmente impressionada.

Eu apenas sorri, recostando-me no assento, sentindo aquele cansaço bom que vem após momentos felizes. Fechei os olhos, deixando as imagens da noite dançarem por trás das pálpebras. As luzes, a música, e sobretudo aqueles olhos castanhos gentis.

O baile foi tudo que meu coração romântico esperava. E, naturalmente, como tudo em minha existência, terminou em catástrofe.

 

Francisca e seu marido Henrique ocupavam-se em dissecar com minúcia os pequenos escândalos da noite. A senhorita Fulana havia dançado excessivamente e com suspeita familiaridade com o senhor Sicrano, enquanto a senhora Beltrana exibira um decote que ultrapassara francamente os limites do decoro. Eu, recostada no assento acolchoado da carruagem, sentia a umidade penetrar através das camadas de meu vestido de baile, infiltrando-se até os ossos.

 

A opressão no peito começou antes mesmo de avistarmos o portal de ferro forjado de nossa residência. Discreta primeiro, como sempre era seu costume. Depois mais forte, mais insistente. E finalmente, impossível de ignorar.

 

— Cecília? — a voz de Francisca pareceu alcançar-me através de um túnel longo e escuro. — Cecília, por amor de Deus, me responda! Estais bem?

 

Não estava. O ar, esse elemento essencial e gratuito que todos respiram sem pensar, simplesmente recusava-se a entrar em meus pulmões, ou talvez fossem meus pulmões que se recusassem a recebê-lo. Cada tentativa de respirar produzia um som agudo e estridente que nem eu mesma reconhecia como emanando de meu próprio corpo. 

 

O resto foi uma confusão caótica de vozes masculinas berrando ordens, passos apressados ecoando pelo corredor de mármore, mãos que me erguiam com cuidado excessivo, e finalmente a visão familiar de minha cama, onde fui depositada com delicadeza. Mamãe, com a eficiência que dezenove anos de crises similares lhe haviam ensinado, aplicou os vapores usuais. Aqueles preparados misteriosos de eucalipto e outras ervas que enchiam o quarto de aromas pungentes. Papai, com o rosto mais pálido que o meu, ordenou que fossem buscar imediatamente o Doutor Silveira, pouco importando que chovesse o dilúvio lá fora.

 

O doutor chegou uma hora depois, encharcado da cabeça aos pés e exibindo uma expressão carrancuda. Sua maleta preta de couro escorria água sobre o tapete persa de nossa sala, deixando uma trilha de poças que certamente fariam mamãe gem*r de consternação pela manhã. Ele examinou-me com aquela eficiência brusca, pressionando, auscultando, franzindo o cenho progressivamente até que suas sobrancelhas espessas quase se tocassem no centro da testa.

 

— O mesmo quadro de sempre, Senhor Monteiro — declarou finalmente, guardando o estetoscópio na maleta com um movimento seco. — Os pulmões estão inflamados, os brônquios irritadíssimos. Esta umidade e poluição maldita da cidade não faz bem algum à menina. E essa insensatez de frequentar eventos noturnos em tempo péssimo como o de hoje... — Ele balançou a cabeça com desaprovação que mais parecia reprovação moral do que médica.

 

— Ela é jovem, doutor — mamãe interveio. — Não podemos mantê-la trancafiada como uma inválida ou uma freira enclausurada. Tem apenas dezenove anos! A juventude passa, e a vida deve ser vivida.

 

— Não, certamente não podem — concordou o Doutor Silveira, ajustando os óculos sobre o nariz. — Mas precisam, prezada senhora, ser sensatos e prudentes. — Ele voltou-se então para papai com aquela expressão grave. — Senhor Monteiro, recomendo com a máxima ênfase e urgência que vossa filha passe uma longa temporada no campo. Ar puro, longe da fumaça das fábricas e automóveis, da umidade pestilenta do rio, do ambiente urbano que envenena seus pulmões delicados. Seis meses no mínimo. Um ano seria preferível. Até que o inverno passe completamente e a primavera traga de volta o ar seco e saudável.

 

 

***

 

— O campo? — repeti, com minha voz ainda fraca e rouca como a de uma velha. — Que campo, precisamente?

 

— O de vossa tia Eulália — mamãe disse lentamente, como se a ideia estivesse se formando e tomando corpo naquele exato momento. — A fazenda dela seria absolutamente perfeita para este propósito. Ar puro das montanhas, tranquilidade absoluta, longe de tudo…

 

— E aquela mulher estranha — acrescentei, não sei por qual impulso obscuro a lembrança da tal Inês me veio tão prontamente à mente.

 

— Inês não vai te incomodar minimamente — mamãe assegurou, embora seu tom não transmitisse completa convicção. — E terá sua tia Eulália por companhia constante. Contigo ela sempre foi tão querida, tão carinhosa…

 

Quis protestar veementemente. Quis argumentar com toda eloquência de que era capaz que preferia morrer sufocada na civilização da cidade a definhar de tédio no interior, longe de tudo que conhecia e amava. Mas outro acesso de tosse violenta interrompeu minhas intenções oratórias, e vi no rosto de mamãe aquela expressão que me era familiar e que sempre me desarmava.

 

— Escreverei a Eulália agora pela manhã, antes ainda do desjejum. Papai decidiu com firmeza. — Cecília partirá assim que melhorar e recebermos a resposta afirmativa, o que não deve tardar. Prepararemos todo o necessário para uma estadia confortável e prolongada.

 

E assim, entre vapores medicinais que enchiam o quarto de névoas artificiais e o som persistente da chuva tamborilando nas vidraças, meu destino foi selado com a mesma facilidade com que se fecha um envelope. Eu iria para o campo, para a casa grande e silenciosa de tia Eulália, onde os jasmins perfumavam o ar com fragrância adocicada e uma solteirona misteriosa e ranzinza de nome Inês me esperava. 

 

Deitada naquela noite em meu leito, ouvindo minha própria respiração difícil ecoar no quarto, não tinha absolutamente como imaginar que aquela crise respiratória, tão similar em aparência a tantas dezenas de outras que havia sofrido ao longo dos anos, marcava na verdade não apenas o fim de uma vida, mas também e sobretudo o começo de outra completamente diferente.

Fim do capítulo


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Comentários para 1 - Capitulo I: Vinte e Três Respirações :
Marta Andrade dos Santos
Marta Andrade dos Santos

Em: 21/03/2026

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