CAPÍTULO 4 - Quase
Ao final do dia a chuva caiu pesada. Inesperada.
Pim ficou presa no restaurante e Sarin ainda não tinha ido embora.
Já tinham terminado de organizar a cozinha e esperavam a chuva parar. Mas o silêncio entre elas já não era confortável.
— Você sempre fica até o fim — Pim comentou, apoiada na janela.
— Alguém precisa garantir que tudo continue funcionando. – Sarin respondeu de forma direta quase como se estivesse fugindo da conversa que mal havia começado.
Pim percebeu a tentativa de Sarin e decidiu ir mais a fundo. Ela buscava uma brecha. Queria conhecer Sarin.
— E você? Quem garante?
Sarin demorou para responder.
— Eu não preciso que garantam nada.
Como sempre Sarin respondia de forma evasiva.
— Todo mundo precisa. – Pim insistiu. Agora caminhando devagar em sua direção. Não havia pressa no gesto. Só intenção.
— Às vezes parece que você tem medo de depender de alguém. – Disse assim que parou em frente a Sarin.
O comentário foi suave, mas preciso. Sarin sustentou o olhar por tempo demais. Sentiu o corpo enrijecer.
— Dependência é fraqueza.
— Ou é confiança. – Pim respondeu rápido.
A palavra ecoou no peito dela. Para Sarin existia uma regra.
“ Confiança exigia entrega. Entrega exigia risco. ”
Pim deu mais um passo.
— P'Rin... – O apelido saiu baixo, íntimo, quase um segredo.
O ar parecia mais pesado no peito de Sarin. Seus dedos se tensionaram antes que ela conseguisse se controlar. Ela poderia ter se afastado. Poderia ter lembrado da hierarquia, do sobrenome, do jantar iminente, mas não se moveu.
Os olhos de Pim não pediam nada explícito, somente presença.
Por um segundo inteiro, Sarin considerou escolher diferente e isso a assustou mais do que qualquer pressão familiar e isso a fez recuar.
Ao se afastar pegou o celular. Digitou uma mensagem para Krit, confirmando sua presença no jantar. Ao terminar, observou que Pim ainda estava na mesma posição, a encarando.
— Estou indo! Não esqueça de fazer o pedido para amanhã.
— Já está pronto.
— Ótimo. Boa noite, Pimchanok.
Ficou parada por um segundo a mais do que deveria. Quase disse algo. Mas apenas virou-se e saiu, deixando o silêncio e a sensação de que havia algo não dito entre elas.
Fim do capítulo
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