CAPÍTULO 1 - O Peso do Nome
Antes de ser Sarin, ela era Vejjapornkul.
O sobrenome vinha como um aviso silencioso. Não era apenas identidade — era herança, cobrança e expectativa condensadas em sílabas longas demais.
Sarin caminhava pela cozinha do Rán Tà-Krái, como quem percorre território próprio. Localizado na região central de Bangkok, o Rán Tà-Krái ainda era pequeno diante das grandes redes, mas as reservas disputadas e a fila constante na porta diziam o contrário.
Enquanto caminhava, o som dos utensílios, o vapor subindo das panelas, o cheiro de ervas frescas, o som de conversas filtrava pela porta da cozinha — tudo obedecia a uma ordem invisível que ela mantinha com disciplina quase obsessiva.
— Ajuste o sal antes de empratar — disse, sem erguer o tom de voz ao novo estagiário.
Ninguém questionava. Não porque temessem, mas porque sabiam que ela estava certa.
Pimchanok Rattanapaisan trabalhava na bancada lateral. Havia chegado há pouco mais de um ano por indicação de Mali sua melhor amiga. Sua principal função era a preparação dos molhos, mas quando necessário ia para o salão para ajudar com o atendimento. Para ela isso nunca foi um problema. Ela amava o que fazia e como o restaurante estava sempre lotado, as vezes para que não houvesse nenhum contratempo com algum cliente, ela sempre buscava ajudar da melhor forma que pudesse.
– Mas havia algo no modo como ela franzia levemente a testa ao se concentrar que chamava atenção demais.
Sarin detestava perceber detalhes assim, mas quando se tratava de Pim era inevitável.
— Khun Sarin, pode provar? – A voz de Pim a puxou de volta.
A colher foi entregue com cuidado. Os dedos quase se tocaram, fazendo com que Sarin segurasse por tempo demais a colher. O contato não aconteceu — mas a ausência dele foi suficiente.
Sentiu o coração acelerar. Por um momento sentiu o tempo parar e olhou profundamente nos olhos de Pim. Ficou ali por tempo mais que o suficiente para perceber que ela sustentava o olhar e a sua respiração aumentar o ritmo até que o barulho da cozinha a trouxesse de volta.
Sarin pegou a colher. O molho estava equilibrado, mais suave e menos ácido do que a última vez que provou.
— Melhorou.
Uma única palavra para Pim era suficiente.
Sarin percebendo que estava parada tempo demais olhando a expressão sorridente virou-se antes que o sorriso de Pim se tornasse algo mais difícil de ignorar.
O celular vibrou no bolso. Ela ignorou. Vibrou novamente. Terceira vez. Respirou fundo antes de atender.
— Mãe.
A voz do outro lado era calma demais.
"Você não confirmou presença no jantar. A família Thanawongchai espera."
Espera. Como se ela fosse um objeto sendo passado de uma mesa para outra.
— Estou ocupada.
"Você carrega nosso nome."
A frase nunca precisava ser completada.
Sarin desligou.
A família Thanawongchai acumulava vários empreendimentos locais, o que para seus pais era motivo de grande interesse econômico.
Permaneceu imóvel por um segundo além do necessário.
Quando ergueu os olhos, encontrou Pim observando-a. Não com curiosidade. Com preocupação genuína, indo em sua direção.
Aquilo a incomodou mais do que qualquer cobrança familiar.
— Continue trabalhando, Pimchanok.
A formalidade voltou como armadura.
Mas, pela primeira vez, ela sentiu uma fissura quase imperceptível na própria estrutura.
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Rán Tà-Krái ¹ (ร้านตะไคร้) - Rán (ร้าน) = Restaurante / Loja - Tà-Krái (ตะไคร้) = Capim-limão
Restaurante Capim-Limão
Fim do capítulo
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