Capítulo 35 - O Reencontro
O carro da polícia parou suavemente na entrada de uma pequena propriedade. Do lado de fora, a luz amarelada de uma varanda simples banhava a figura de Hinata. Ela estava ali, de pé, ainda que com uma iluminação fraca, sua silhueta era inconfundível. No interior da viatura, Ana sentiu o coração congelar e se descongelar ao mesmo tempo. Ela havia imaginado esse momento dezenas de vezes, mas a realidade era tão mais intensa que a paralisou. A pouca iluminação da rua não escondia o olhar assustado e confuso de Ana, que, por sua vez, tentava decifrar a expressão no rosto de Hinata.
O policial no banco do passageiro se aproximou da varanda e Hinata, com a serenidade que Ana tanto amava, começou dizendo:
— Konbanwa, keikan. (Boa noite, policial.) — A voz de Hinata era calma, o oposto do caos na mente de Ana.
— Konbanwa, ojōsan, anata wa Ana Ribeiro o yobu yō ni tasuke o motomemashita ka? (Boa noite, senhorita, foi desse endereço que recebemos uma solicitação de ajuda para encontrar a jovem Ana Ribeiro, correto?) — o policial respondeu em um tom formal.
— Hai, sou desu. (Sim, está correto.) — Hinata assentiu.
— Kanojo wa chūō Tōkyō no kōen de mitsukemashita. Kōen no yakan keibiin wa kanojo ga michi ni mayotte iru to hōkoku shimashita. (Ela foi encontrada em um parque no centro de Tóquio, um vigia noturno do parque relatou que ela estava perdida.)
Enquanto o policial conversava com Hinata, seu colega, que estava no posto de motorista da viatura, desceu e abriu a porta para que Ana pudesse sair. Ele também ajudou a tirar sua mochila do banco de trás entregando para Ana que a colocou nas costas.
— Keikan, mōshiwake goz*imasen. Konkai kanojo ga shigai o hōmon suru toki, watashi wa kanojo to issho ni iru koto o yakusoku shimasu. Hontōni o-sewa ni narimashita. (Sinto muito, senhor policial, prometo acompanhá-la da próxima vez que ela for conhecer o centro da cidade. Eu agradeço muito pelo seu serviço.) — Hinata disse, sua voz expressando uma gratidão sincera.
— Dō itashimashite. O-futari ni yoi yoru o. (Não há o que agradecer. Tenham uma boa noite.) — O policial respondeu, acenando para as duas mulheres em pé na pequena varanda da casa.
Ana estava com os olhos arregalados, paralisada pelo choque. Ela viu o carro da polícia se afastar e, então, o mundo se resumiu a Hinata.
— Sā, hairimashou. (Vamos entrar?) — Hinata perguntou.
Assim que entraram na casa, Hinata olhou nos olhos de Ana que continuava sem reação, um cheiro de comida caseira invadiu o ar, misturando-se com o aroma do perfume de Hinata. Trazendo Ana de volta para a realidade, ela tentou formular uma frase, mas as palavras se embolaram na garganta.
— Mas, o que? Eu… você. — Lágrimas correram pelo seu rosto. Não de tristeza, mas de um alívio tão grande que a fez tremer.
Ana soltou a mochila no chão, e, sem hesitar, a abraçou. Era um gesto muito familiar, o calor de Hinata, o cheiro de lavanda e um toque de canela. Apesar de sempre estar no controle de suas emoções, a alegria de ver Ana novamente foi muito intensa, e os olhos de Hinata se encheram de lágrimas que ela, respirando lentamente, as segurando.
Foi um abraço apertado, que ambas não souberam dizer por quanto tempo permaneceu daquela forma. O mundo parecia ter deixado de existir, só o que havia era uma vibração de energia que sentiam e a sensação de aconchego, como quando chegamos em nosso lar após um longo dia de trabalho.
Quando enfim elas se afastaram, Ana finalmente conseguiu dizer:
— Hinata, me perdoe, por favor.
As lágrimas que Hinata tentava segurar rolaram por seu rosto. — Eu que… menti.. você me perdoa? — Hinata disse em um sussurro entre suas lágrimas.
— Eu fui tão injusta com você, não deixei você se explicar. Me perdoa por favor — as lágrimas rolavam mais uma vez no rosto de Ana e sua respiração foi se tornando descompassada.
— You don't have to say sorry, honey. But if it makes you feel better, then yes, I absolutely forgive you. (Você não precisa se desculpar querida, mas se isso for o que você quer para se sentir melhor é claro que eu te perdoo.)
— Eu… senti tanto sua falta — Ana também chorava emocionada.
— Eu também.
"Talvez seja cedo para beijá-la, mas sonhei tanto com isso." Ana pensou enquanto olhava Hinata nos olhos e acariciava sua bochecha com seu polegar. A jovem viu que seu toque simples parecia incomodar quando sua amada fez uma careta, foi quando a marca vermelha no rosto de Hinata chamou a atenção.
— O que houve? — Ana perguntou assustada.
— Está tudo bem, já passou. — Hinata tentou tranquilizá-la.
Ana aproximou seus rostos, com sua testa tocando a de Hinata, olhando em seus olhos. Até que eles baixaram para mirar os lábios dela. Elas se aproximaram, a respiração de Ana se misturando com a de Hinata, até enfim seus lábios se tocaram delicadamente e um beijo aconteceu.
— Eu amo você. — Ana disse baixinho.
— Eu amo você. — Hinata também disse, a voz cheia de emoção.
Outro beijo aconteceu dessa vez de forma mais confiante. "É como voltar para casa." Ana pensou, com o mundo se tornando nítido e perfeito e os lábios macios de Hinata tocando nos seus.
— E agora estamos aqui.
— Estamos. — Hinata respondeu quando uma pontada de dúvida a fez arregalar os olhos — Ah! Ana, você está no Japão?!?
Ana riu, uma risada suave e feliz que encheu o peito de Hinata de alegria.
— Vim procurar por você.
— Que bom que veio. — Hinata voltou a abraçar a jovem.
Mais um beijo aconteceu, mais profundo, mais apaixonado. Um pequeno alarme de cozinha ao longe tocou, quebrando a magia.
— Vem, estava preparando janta. Espero que você esta com fome agora. — Hinata disse, pegando a mão de Ana e a puxando delicadamente até a cozinha.
A cozinha era pequena e aconchegante, com utensílios de cerâmica pendurados em ganchos e um cheiro delicioso de comida.
— Nunca imaginei você morando em uma casa assim. Sua casa em Serra Verde era tão grande, e essa é tão lindinha.
— Gosta daqui?
— Sim, achei uma gracinha.
Hinata sorriu, os olhos brilhando.
— Que bom, ela é nossa.
Ana ficou assustada com o que havia acabado de ouvir, mas sorriu com a ideia de morar ali com Hinata.
— Agora me conta tudo, eu termino nosso jantar.
— Certo, e por onde quer que eu comece?
— That morning I had a migraine and a hangover after that bottle of wine. (Pela manhã em que fiquei com enxaqueca e com ressaca depois daquela garrafa de vinho.) — Hinata disse se aproximando, e dando mais um selinho em Ana.
— Ah, quer que eu comece por aí… — Era doloroso para Ana lembrar daquele dia, e a sensação era como se tivessem passado uns dez anos desde então. — Naquela manhã eu fiquei bem preocupada com você por estar com enxaqueca, mas acabei indo trabalhar como você havia me pedido para fazer. Depois que fui demitida, não entendi nada, e não estava conseguindo conversar com você pelo telefone. Na sua casa, vi seguranças estranhos e mesmo pedindo para entrar, eles não deixaram. Como eu não sabia o que fazer, acabei indo para o meu apartamento.
— Você foi pro trabalho, então toca a campainha, e era Senhor Kodama. Ele… he hated that we were together. He snatched my phone and kept me prisoner in my room… Mado kara toori o aruku anata ga mieta noni, koe wa todokanatta. (ele não gostou nem um pouco por nós duas estarmos em um relacionamento. Ele tomou meu celular e me prendeu no quarto... Eu até vi você passando pela rua pela janela, mas você não me ouviu.) — Hinata se arrepiou com a lembrança.
Ana engoliu em seco por saber o que havia acontecido com Hinata naquele dia.
— Depois que cheguei no apartamento, pretendia trabalhar no relatório com os dados que o Pietro me passou, mas o Senhor Kodama apareceu lá em casa. Ele… me ofereceu um contrato ridículo em que eu receberia uma quantidade inimaginável de dinheiro em troca de nunca mais me aproximar da Mizuki Kodama. — Hinata fez uma careta ao ouvir aquele nome.
— Desculpa não conta que eu era Mizuki… quando a gente conheceu eu não sabia se podia confia e… So I was already in love with you. (então eu já estava apaixonada por você) Eu fico com medo de perder você. Eu não fui certa. Não falar a verdade. Then Shimma helped me (Então Shima me ajudou) eu correr para sua casa.
— Eu sei. Naquela noite em que você foi lá em casa, eu fui extremamente injusta com você e falei coisas que me arrependo profundamente. Eu estava irritada. Eu nem dormi naquela noite, pensando em como eu estava com raiva, mas ao mesmo tempo no quanto eu te amava. Então, pela manhã, eu levantei assim que começou a amanhecer e fui até sua casa, mas só o que eu encontrei foi a equipe de mudança, encaixotando tudo. Eles disseram que toda a equipe havia ido embora.
— Hai, (Sim,) Mr. Kodama disse que quando achassem eu todos ia volta pra Japão. So, after I left your place, one of the security guards forced me into the car. I pleaded with my father to let me stay, but it didn't matter. (Então, quando saí do seu apartamento, um dos seguranças me acompanhou até o carro. Eu implorei ao meu pai para me deixar ficar, mas de nada adiantou.)
— Eu sinto muito. — Ana disse, com a voz embargada.
— Está tudo bem. Mas e depois, o que você fez?
— Resumindo, eu chorei bastante, conversei com meus pais e decidi que iria juntar dinheiro para vir para cá. Eu não sabia se você ainda iria gostar de mim depois de tudo o que eu te disse, mas eu precisava ao menos vir te pedir desculpas. Demorou bem mais do que eu gostaria. Meus pais me ajudaram com o dinheiro que faltava como presente de aniversário, e então eu vim. Cheguei do aeroporto e fui direto para o prédio Kodama. Mas quando me disseram que você não estava naquela unidade, eu fiquei sem chão, caminhei sem rumo e só depois percebi que estava perdida. Foi quando os policiais me colocaram no carro e eu imaginei que estava sendo sequestrada. — Ana gargalhou no fim, e Hinata a observou com um olhar apaixonado.
— Que saudades de ouvir isso.
— Mas e você?
— When we got back, my father kept me under constant surveillance, and at first, I didn't even have the will to live anymore. But I listened to Shima's advice again that if there was even the slightest chance of seeing you again, I had to be prepared. (Quando voltamos, meu pai me manteve sob vigilância constante e, a princípio, eu nem tinha mais vontade de continuar vivendo. Mas ouvi os conselhos novamente da Shima de que, ainda que houvesse o mínimo de chance de eu te reencontrar, eu deveria estar preparada.)
— Já gostei da senhora Shima.
— Ela é ótima, como uma mãe. Depois eu comecei a luta. Pedi ajuda do meu irmão. Ele contratou um… Bengoshi (Advogado). Devagar eu podia trabalha de novo na empresa e depois de um ano eu podi dirigi sozinha.
— Por isso você não foi para o Brasil. Estava presa aqui.
— Sim.
— Mas então, seu pai não vai nos encontrar aqui? Ele provavelmente vai me prender e jogar a chave fora.
— Fica tranquila, preparei tudo. The lawyer I hired is preparing a lawsuit to permanently sever my ties with the Kodama Group and Family. (O advogado que eu contratei foi para preparar um processo que me desliga permanentemente do Grupo e da Família Kodama.) Essa casinha e o carro é da Hinata Matsuzaki. Hoje, quando você chegou Mr. Kodama foi na minha sala e falou que eu tinha buscado você no Brasil. Kare ga shiranakatta no wa, anata ga kuru nante watashi ga mijin mo omotte inakatta koto yo. (O que ele não sabia era que eu não fazia ideia de que você viria.)
— Mas então, por que fez tudo isso? — Ana disse apontando para toda a casa em volta.
— Porque, mesmo que eu não pudesse te ver nunca mais, eu precisava ser eu mesma e isso eu não podia sendo Mizuki Kodama. Por isso que de hoje pra amanhã eu sou Hinata Matsuzaki. Você chegar foi só o último empurrão que falta.
— Estivemos nos preparando no último ano para nos reencontrar. — Ana sussurrou, a ficha caindo.
— Verdade. — Hinata disse, se aproximando da banqueta em que Ana estava sentada.
— Mas e agora que nos reencontramos?
Hinata se ajoelhou e olhou para Ana, com a luz da cozinha iluminando seu rosto. — O que me diz de vivermos uma vida juntas?
Continua em… SRTA. MATSUZAKI 2
Fim do capítulo
Bom dia! Boa Tarde! Boa noite!
Eh galerinha, sei que é difícil terminarmos assim, o livro 2 está em produção e lamento não ser tão rápida pra já conseguir entregar a continuação da história dessas duas. Mas pretendo terminá-lo o mais breve possível.
Para quem quiser, e sente uma necessidade de conclusão deixarei aqui um capítulo extra que vai conter alguns spoilers do livro dois.
Para ficar por dentro das minhas novidades me sigam lá no Insta @emi_alfena
Bejinhos no coração S2
Comentar este capítulo:
HelOliveira
Em: 22/02/2026
Lindo esse reencontro...pena que já chegou ao fim.. e ao mesmo tempo não..
Feliz que vai ter a parte 2
Obrigada por compartilhar
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