Capitulo 12 QUANDO A NOITE PEDE ABRIGO
— QUANDO A NOITE PEDE ABRIGO
O quarto parecia grande demais para alguém tão pequena dentro dele.
Meg estava sentada na cama, os pés descalços tocando o chão frio, as mãos apertadas uma na outra como se aquilo fosse suficiente para mantê-la inteira. O som ainda existia. Não como lembrança, mas como presença. Um ruído que surgia sempre que fechava os olhos.
Agora ela entendia.
O excesso de segurança.
As rotas alteradas.
Os olhares atentos.
As negativas sem explicação.
Nada era exagero.
Era medo adulto tentando caber em cuidados.
A porta se abriu devagar.
— Posso entrar? — a voz de Veridiana veio baixa, quase cuidadosa demais.
Meg assentiu.
Veridiana não entrou como advogada. Nem como alguém que precisava resolver algo. Entrou como madrinha. Sentou-se ao lado dela na cama, sem pressa, sem perguntas imediatas. Apenas ali.
— Você está assustada — disse, com doçura, como quem nomeia algo para diminuir o peso. — E está tudo bem estar.
Meg respirou fundo.
— Eu achei que vocês estavam exagerando… — confessou. — Sempre achei. Pelos meus irmãos também. Pelo John. Pela Samantha. Achei que era só… cuidado demais.
Veridiana levou a mão até a dela, envolvendo seus dedos pequenos.
— A gente tenta proteger vocês antes mesmo de vocês perceberem o perigo — disse. — E às vezes isso parece injusto. Chato. Sufocante.
Meg engoliu em seco.
— Eu vi o homem cair — murmurou. — E pensei que podia ter sido comigo. Ou com o John. Ou com a Sam.
A mão de Veridiana apertou um pouco mais.
— E é por isso que existimos — respondeu, com os olhos marejados. — Para que vocês possam continuar sendo crianças. Mesmo quando o mundo tenta arrancar isso.
Meg virou o rosto.
— Eu não quero que ninguém morra por minha causa.
Veridiana inclinou-se, encostando a testa na dela.
— Ouve bem o que eu vou te dizer — falou, firme na ternura. — Nada disso é culpa sua. Nem sua, nem dos seus irmãos. Vocês não pediram nada disso.
Na porta, Amélia observava em silêncio. O corpo rígido, mas o olhar traía o cansaço e algo mais fundo: culpa, talvez. Ou medo atrasado.
Meg a viu.
— Tia… — chamou. — Você fica aqui hoje?
Amélia entrou no quarto.
— Eu fico — respondeu. — O tempo que você precisar.
Meg hesitou um segundo, depois falou o que realmente queria:
— As duas… podem dormir comigo?
O pedido simples desmontou o que restava de contenção.
Veridiana respirou fundo antes de responder.
— Claro que podemos — disse, com a voz embargada. — Sempre pudemos.
Amélia sentou-se do outro lado da cama. Não falou nada. Apenas estendeu a mão. Meg a segurou como se fosse um ponto fixo.
A porta se abriu de novo.
John apareceu, inseguro, seguido por Samantha, que tentava parecer forte e falhava lindamente.
— A gente escutou… — John começou. — E achou que…
Samantha completou, séria demais para os dezessete anos que tinha:
— Hoje ninguém devia dormir sozinho.
Amélia assentiu imediatamente.
— Cheguem.
Colchões foram puxados. Cobertores espalhados. O quarto ficou pequeno, apertado, imperfeito.
Mas cheio.
O celular de Amélia vibrou.
Ela atendeu.
— Amélia? — a voz de Laura veio tensa. — A Beatriz está aqui comigo. Estamos preocupadas.
— Eles estão comigo — respondeu. — Todos.
Beatriz suspirou do outro lado.
— Eu sabia que algo ia acontecer — disse. — Só não queria estar certa.
— Ainda estamos de pé — respondeu Amélia, olhando para as crianças reunidas. — E juntos.
— Isso é o que importa agora — Laura disse, mais calma.
A ligação terminou.
O quarto mergulhou num silêncio diferente. Não o da ameaça. Mas o da vigília compartilhada.
Ninguém dormiu profundamente.
Mas todos adormeceram sabendo que, naquela noite, o medo não ficaria sozinho com nenhum deles.
Fim do capítulo
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