Capitulo 10 ENTRE A SOMBRA E LUZ
— ENTRE SOMBRA E LUZ
Dois meses após o início das obras.
Samantha aprendera a reconhecer o silêncio de Amélia.
Não era ausência de palavras — era contenção. Um recolhimento específico, quase ritual, que surgia quando o corpo da tia começava a cobrar o preço dos dias longos. A pele tornava-se mais pálida que o habitual, os movimentos ainda mais econômicos, e havia sempre aquela busca instintiva por pontos onde a luz não incidia diretamente, como se o sol pudesse atravessar a pele e alcançar algo que precisava permanecer intacto.
Naquela tarde, Samantha a encontrou sentada no banco de madeira recém-instalado, sob a copa de uma árvore antiga que sobrevivera à limpeza do terreno. As raízes ainda afloravam, resistentes, e a sombra projetada parecia mais densa ali.
— Você está fugindo do sol — disse Samantha, sentando-se ao lado — ou ele está fugindo de você?
Amélia sorriu de leve, sem abrir totalmente os olhos.
— Um pouco dos dois.
Samantha cruzou as pernas, observando o canteiro quase em silêncio.
— Minha mãe odiava sol forte — disse, de repente. — Dizia que a luz precisa ser convidada. Quando entra sem pedir, machuca.
Amélia sentiu o impacto da lembrança como quem reconhece uma dor antiga que nunca se foi por completo.
— Bruna tinha razão — respondeu. — Sempre teve.
O silêncio que se seguiu não foi incômodo. Era o tipo de pausa que se estabelece quando nada precisa ser provado.
— Você sabe que não precisa ser forte o tempo todo, né? — continuou Samantha. — Eu vejo.
Amélia abriu os olhos e a encarou.
— Vê o quê?
— Quando você acha que ninguém está olhando. Quando anda mais devagar. Quando some da luz antes do fim da tarde.
Amélia desviou o olhar para o tronco da árvore.
— Força não é escolha — disse, após alguns segundos. — É responsabilidade.
— Não — discordou Samantha, com suavidade firme. — Responsabilidade é ficar. Força é fingir que isso não cansa.
Às vezes, a maturidade daquela menina a desarmava mais do que qualquer confronto direto.
— Você sente falta dela — disse Amélia, mudando o foco, mas não o peso da conversa.
— Todo dia — respondeu Samantha. — Mas também sinto que ela estaria feliz em saber que alguém está cuidando da casa que ela nunca terminou de desenhar. Mesmo do jeito torto que ela gostava.
Amélia fechou os olhos por um instante, como se confirmasse algo em silêncio.
— Eu prometi ao seu pai — disse. — E a ela. Prometi que vocês estariam seguros.
— Segurança não é só muro alto — rebateu Samantha. — É saber com quem contar quando o muro falha.
Amélia respirou fundo, sentindo o peso da promessa se rearranjar.
— Então conte comigo — disse. — Mesmo quando eu parecer distante. Mesmo quando eu precisar da sombra.
Samantha assentiu.
— Eu já conto.
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Mais tarde, quando o sol já não ameaçava a pele de Amélia, as duas caminharam pelo perímetro da obra. O terreno ganhava contornos mais definidos, mas ainda havia espaços indefinidos, zonas de transição.
— A Laura disse que aqui vai ter um corredor de sombra — comentou Samantha, apontando entre dois volumes ainda incompletos. — Um caminho para atravessar sem pressa.
— Ela pensa como arquiteta — respondeu Amélia. — E como alguém que observa pessoas antes de desenhar paredes.
Samantha lançou-lhe um olhar atento.
— Você confia nela?
Amélia hesitou apenas o suficiente para que a resposta não soasse automática.
— Confiança não nasce pronta — disse. — É construída. Camada por camada.
Samantha sorriu de canto.
— Como a casa.
— Exatamente.
No alto de um poste discreto, uma câmera de segurança girou lentamente, ajustando o foco. O movimento foi quase imperceptível, dissolvido no som distante das ferramentas sendo guardadas.
Nenhuma delas percebeu.
Mas alguém, em algum lugar, observava.
E nem toda sombra era proteção.
Fim do capítulo
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