Capitulo 4 ONDE O PODER SE REVELA
O escritório de César Moreira era um monumento ao ego.
Vidro demais, concreto aparente, mesas largas ocupadas quase exclusivamente por homens que falavam alto, riam fácil e escutavam pouco. Laura Fernanda conhecia cada ângulo daquele espaço — não porque o admirasse, mas porque aprendera a se mover nele sem pedir licença.
Estava de pé, diante de uma maquete, quando a secretária anunciou:
— A doutora Veridiana Alencar chegou.
César levantou os olhos com visível desdém.
— Advogada? — perguntou, ajeitando o paletó. — Manda entrar.
Veridiana entrou sem pressa.
Salto firme, postura reta, olhar que não pedia autorização. Não cumprimentou ninguém além do necessário. O ambiente mudou de eixo — e César sentiu.
— Em que posso ajudar? — perguntou ele, sorrindo de forma calculada.
— Vim contratar uma arquiteta — respondeu Veridiana. — Não o escritório.
O sorriso dele vacilou.
— Temos profissionais excelentes — disse. — Todos muito capacitados.
— Imagino — replicou ela. — Mas não estou interessada em todos.
O olhar de Veridiana percorreu o espaço e pousou em Laura.
— Você é Laura Fernanda.
Não foi uma pergunta.
Laura sentiu o corpo reagir antes da mente formular qualquer resposta.
— Sou.
— Ótimo. Precisamos conversar.
César interveio, rindo curto.
— Ela está envolvida em projetos internos. Posso indicar alguém com mais… experiência em obras de grande porte.
Veridiana virou-se lentamente para ele.
— Experiência ou permissão masculina?
O silêncio foi imediato.
— Veja bem — começou César. — Grandes projetos exigem pulso firme.
— Concordo — disse Veridiana. — Por isso estou aqui.
Ela voltou-se para Laura.
— Projeto residencial e hoteleiro integrado. Alto nível de confidencialidade. Autonomia criativa garantida.
— Isso não é padrão — disse César, agora irritado. — A contratação passa por mim.
— Não neste caso — respondeu Veridiana. — A cliente não negocia talento.
Laura respirou fundo.
— Quando começa? — perguntou.
César a encarou, incrédulo.
— Você não vai decidir isso sozinha.
— Sempre decidi — respondeu Laura. — Só não era remunerada como deveria.
Veridiana sorriu, pela primeira vez.
—humm gostei dessa moça
Antes de sair, Veridiana cruzou com Beatriz, que surgia do corredor carregando amostras de tecido e catálogos.
— Design de interiores — apresentou-se Beatriz, profissional, segura.
— Veridiana — respondeu. — Vamos precisar de você também.
Os olhos se encontraram por um segundo além do necessário.
Nada foi dito.
Mas algo foi reconhecido.
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No mesmo instante, em outro prédio, outro confronto se armava.
Arminda Brandão entrou na sala de reuniões da empresa naval como quem reivindica território.
— Vim buscar o que é da minha família — declarou.
Amélia não se levantou.
— Já tem o que lhe cabe.
— O testamento — disse Arminda, com um sorriso frio. — E eu conheço cada linha dele.
— Conhece uma parte — corrigiu Amélia.
— Não existe mais nada.
Amélia deslizou uma pasta sobre a mesa.
— Existe.
Arminda abriu. Leu. Empalideceu.
— Guarda definitiva — murmurou. — Com cláusulas irrevogáveis.
— Assinadas antes do acidente — completou Amélia. — Rafael não deixou brechas.
— Isso pode ser contestado.
— Já foi validado.
Arminda fechou a pasta com força.
— Você está ferindo o próprio sangue.
— Estou protegendo — respondeu Amélia. — Há uma diferença.
Os olhos de Arminda endureceram.
— Isso não acabou.
— Nunca acaba — disse Amélia. — Só muda de campo.
Quando Arminda saiu, Amélia permaneceu sentada, sentindo o peso do embate e a certeza incômoda de que havia despertado algo perigoso.
Em dois lugares distintos, mulheres haviam escolhido não recuar.
E o mundo começava a reagir.
Fim do capítulo
Espero que gostem ! Bjks
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