A perspectiva de Marat
Debruçada sobre a mesa, dormia uma jovem exausta.
Ressonava baixinho e a respiração lenta era o único som que ecoava pelo recinto. Todavia, um ruído desagradável arrebatou o frágil momento de descanso. O culpado era seu celular que, por sua vez, repousava na mesa apinhada de papéis. Lamentosa, Yoko piscou algumas vezes, enquanto seus olhos se ajustavam à claridade.
Havia amanhecido.
Houve um sobressalto ao perceber que havia derrubado uma tigela de mingau na mesa, empapando anotações, livros e fotografias. Um suspiro curto soou de uma garota cansada que notava com pesar que adormecer enquanto analisava anotações estava se tornando rotina. Acordar atrasada também.
Por meses ela vinha mentalizando a frase "A vida não anda em linha reta" como um mantra e agarrava-se na ideia de que as curvas daquele percurso a levariam para um caminho melhor, porém naquela manhã, ela já não tinha mais tanta certeza.
Formavam-se lágrimas nos olhos afiados da garota que fingia quase o tempo inteiro para si mesma que nada daquilo importava. Mas naquela manhã, desabou. As únicas testemunhas daquele rosto entristecido eram as paredes frias do seu apartamento.
Levantou-se com calma, ignorando a bagunça deixada na mesa e encarou a cama ainda arrumada. Seu olhar se fixou com pesar na mesinha de cabeceira. Caminhou lentamente até ela, sentando-se na pontinha do colchão e pegando o bolo de cartas com cuidado. Yoko sabia do que se tratava, fazia alguns meses que as dívidas estavam se acumulando e a cada dia que passava, sobreviver com orçamento modesto era prioridade e os juros aumentando.
No meio daquele conjunto, uma carta chamou sua atenção. Seu envelope era vermelho e parecia um pouco mais rígido que os outros. Abriu com pressa, um pouco temerosa com seu conteúdo.
"NOTIFICAÇÃO EXTRAJUDICIAL DE DESPEJO POR FALTA DE PAGAMENTO
Prezada Sra. Yoko Apasra Lertprasert,
Vimos por meio desta NOTIFICÁ-LA FORMALMENTE acerca da inadimplência dos valores referentes ao contrato de locação, firmado em.."
A cortina de lágrimas a fazia enxergar apenas borrões e o sentimento de impotência perante a tantas adversidades, a fazia sentir-se humilhada. Deixou a carta de lado e tratou de tentar respirar fundo.
3.2.1.
Como a antiga psicóloga a havia instruído.
Jogou-se na cama. Pegando no sono por alguns momentos, porque estava esgotada em todos os sentidos.
O silêncio foi interrompido. Mais uma vez o celular tocava e Yoko encarou o visor por alguns segundos. Era uma ligação de seu mais novo cliente. Respirou fundo, pigarreou um pouco para limpar a voz e então atendeu
- Khun Somchai, bom dia. Como vai? - O tom de voz gentil contrastava com a voz seca de seu cliente
- Senhorita Apasra, essa noite estarei fora e desejo que fique de olho em Chalisa. relate cada passo que ela der, com quem falou e o que fez. -O político pulou a saudação e apenas listava suas exigências de forma direta. Yoko fez uma nota mental do quanto odiava o tom frio e autoritário e mais ainda, como detestava fazer aquele trabalho.
- Perfeitamente, senhor. -Embora a voz de Yoko parecesse bastante decidida, uma pontada de culpa fazia seu peito doer e seu estômago embrulhar.
Aquele trabalho esporádico de detetive era o que estava alimentando Yoko e ajudando a pagar precariamente algumas de suas contas. Ciente de que enquanto não conseguisse um trabalho convencional, estaria sujeita a ter que enganar seus princípios. Sentiu o coração acelerar. Percebeu quando suas unhas começaram a fincar na palma da mão, enquanto ela apertava firmemente os punhos e tentava evitar uma síncope.
Ganhar dinheiro espiando mulheres para seus maridos dava-lhe asco.
Engoliu o choro e a humilhação junto com a saliva seca. Não havia tempo para o luto. A aula não esperaria e a dívida, muito menos. Lavou o rosto com uma pressa mecânica
✦✦✦
A garota conferiu novamente as horas. O ônibus que a deixava próxima de Chulalongkorn University estava atrasado. Yoko residia em Nong Chok, leste de Bangkok, um dos distritos mais pobres e negligenciados e o campus ficava a pelo menos uma hora e meia de distância. Um percurso que exigia muito.
Avistou de longe o transporte coletivo se aproximando e suspirou aliviada ao perceber que estava relativamente vazio.
Encostou a cabeça no vidro da janela e fechou os olhos para um breve descanso.
Estava reflexiva sobre sua trajetória de vida. Certamente, o que mais a orgulhava era ter conquistado uma bolsa de estudos em um curso de tanto prestígio. Chulalongkorn era uma universidade pública muito concorrida e com muito esforço, conseguiu pleitear a sua vaga. Lembrou-se de sua família, que continuava vivendo no distrito de Chonburi. Fazia muitos meses desde a última vez que os havia visto e sentia saudades.
Algum tempo se passou, quando percebeu que estava chegando ao destino final. Desceu do ônibus apressadamente e caminhou em direção ao campus, sentindo que suas pernas não obedeciam os comandos. Praguejou baixinho pela chuva. A água havia encharcado os cascalhos do chão, que sujavam seus sapatos e produzia um ruído pesado de chapisco. Ao menos naquele dia, havia lembrado de trazer um guarda-chuva. Ponto para mim. O cheiro de terra e grama molhada era reconfortante e Yoko desejou estar de volta em seu quarto.
-Droga- Protestou, desviando das poças de água e tentando não sujar mais os sapatos que estavam um pouco enlameados.
Com sacrifício, adentrou o prédio de jornalismo. Os corredores já estavam vazios, todos já estavam nas salas de aula. Uma Yoko de uniforme amassado e desalinhado observava de longe a sala 304. Estava ofegante, pois havia preferido subir os quatro lances de escada a ter que usar o elevador.
Tinha medo da caixa metálica que confinava pessoas por alguns segundos, pois para ela, era uma eternidade.
Deu tímidas batidinhas na porta da sala de aula e a empurrou com a mão direita. Fez um wai de saudação breve para o professor Chaiwat, tentando não chamar a atenção da turma.O senhorzinho magro, de óculos repousados na pontinha do nariz, a observou por um breve momento e continuou conduzindo a aula.
O professor que ministrava Apuração e Investigação Jornalística era um homem na faixa de setenta anos, cabeça com cabelos brancos e escassos e mãos grandes e ossudas.
Um ruído de impacto trouxe de volta a atenção da garota. Ainda se recuperava da vergonha que sentia por estar atrasada. Sentia-se desrespeitosa. O docente batia uma régua metálica em sua mesa enquanto mostrava uma figura de um livro velho. Fazia um questionamento aos alunos, que Yoko havia deixado passar distraída. A sala estava silenciosa e nenhuma mão foi levantada. O professor escolheria um voluntário, quem seria o azarado ou azarada?
Yoko abaixou a cabeça numa tentativa de não ser escolhida, quando viu os sapatos pontudos de Chaiwat aproximando-se.
- Apasra, pode nos mostrar o que vê nessa obra? - A feição sorridente e desafiadora de seu professor a deixou um tanto insegura. Seu olhar fixou na obra de arte A Morte de Marat, esforçando-se para absorver todo o contexto
- Vejo um homem morto... Provavelmente foi assassinado, pois tem um ferimento no peito e... -Sua voz foi se abaixando aos poucos, até se silenciar.
A timidez venceu e a aluna, mortificada de vergonha, se questionava o que naquela obra se dialogava com a disciplina. Estava confusa.
— Apasra...- retomou o professor Chaiwat, se dirigindo para a turma — isso é exatamente o que uma pessoa comum diria.
Ele caminhou lentamente pela frente da sala, o som dos sapatos ecoando no corredor silencioso.
— Um homem morto. Um ferimento. Uma carta. Tudo muito evidente. Mas o que acontece quando aquilo que vemos foi cuidadosamente construído para nos enganar?
O olhar dele recaiu em Yoko novamente.
— Marat não está ali para ser apenas um cadáver. Ele está ali para ser um mártir. David escolheu o que mostrar... e, mais importante ainda, escolheu o que esconder.
Fez uma pausa curta.
— O jornalismo, crianças, começa justamente quando desconfiamos daquilo que parece óbvio. Quando entendemos que nossas percepções podem ser traídas pela imagem, pela narrativa... ou pelas pessoas.... -Pausou olhando a turma reflexivamente - Nunca confundam o que é mostrado com o que é verdade.
Fim do capítulo
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Zanja45
Em: 24/01/2026
Essa situação difícil que Yoko está passando resvala na vida de muitas outras pessoas que tem que fazer malabarismo para conseguir sobreviver. E até se sujeitar a fazer trabalhos desafiadores que muitas das vezes nem é da praia da pessoa. No entanto investigar para Yoko faz parte da área do curso dela.
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Zanja45
Em: 24/01/2026
Bom dia!
Justamente hoje estava navegando pelos reels do Insta quando me deparei com uma imagem que mostrava dois caminhos: " um era uma linha reta e o outro mostrava um caminho com diversas curvas" Era o mesmo caminho só que com outra perspectiva E agora me deparo com a citação de Yoko que diz " A vida não anda em linha reta". É um viés de confirmação do que já havia visto antes.
Tsuanes
Em: 26/01/2026
Autora da história
Boa noite, Janja!
Muito obrigada por ler e por dedicar um tempinho para comentar. Fico muito feliz que tenha destacado essa frase. Ela é muito especial para mim. Ouvi de uma professora da universidade em um momento difícil e ela nunca mais saiu da minha cabeça. É gratificante ver que algo que me marcou tanto agora dá vida ao lema de uma personagem que criei com tanto carinho! :)
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Tsuanes Em: 31/01/2026 Autora da história
Bom dia, Zanja! Adorei seu comentário. Você captou bem a essência da dificuldade dela. A ironia para a Yoko é justamente essa: ela tem a técnica da investigação por causa do curso, mas detesta ter que usá-la de forma suja. Ter que se sujeitar a algo que ela não considera ético para conseguir sobreviver é o que mais a machuca nesse processo