Um presente vazio e sem respostas de um passado que só deixou enigmas.
Capitulo III - Allegro Moderato: Tempo Presente
Capítulo III
Allegro Moderato: Tempo Presente
Upper West Side,
New York – USA.
Agosto, 2002
Claire Bell
O sol já não se fazia mais presente, como se tivesse se despedido em silêncio, deixando para trás apenas o vestígio morno de sua passagem. Pelas grandes janelas envidraçadas de nossa sala, a noite se revelava plena, profundamente negra, quase solene. Uma lua espetacular erguia-se no céu, soberana, derramando sua luz prateada sobre o mundo adormecido, enquanto bilhões de estrelas a acompanhavam, algumas pálidas, sóis mortos, outras ainda ardendo em silenciosa persistência, mas todas parecendo gravitar em torno dela.
Havia algo de hipnótico naquele cenário, uma quietude que convidava à introspecção, como se o tempo tivesse diminuído o passo para permitir que o nosso olhar repousasse sobre a história de Alicea. Agora, era a luz lunar que atravessava o vidro e tocava o interior de nossa sala com delicadeza, desenhando sombras suaves, quase reverentes, nas paredes e no chão, no CD deixado por minha chefe em cima da mesinha. Era impossível não sentir que, naquele instante suspenso, o céu observava de volta, cúmplice dos pensamentos não ditos e das emoções guardadas por ela.
Deixei a lua seguir seu curso lento e as estrelas, submissas à sua beleza serena, incapazes de resistir ao chamado silencioso de sua presença prateada.
Voltei-me para Alicea.
Um silêncio pesado tomou conta da sala, quebrado apenas pela voz melodiosa de nossa filha cantando uma outra canção cover: ''More Than Words'', do Extreme...
''O que você faria se meu coração se partisse em dois?
Mais do que palavras para mostrar o que você sente
Que seu amor por mim é verdadeiro
O que você diria se eu jogasse fora aquelas palavras?
Então você não poderia consertar as coisas
Apenas dizendo: Eu te amo'' ¹
Alicea, com um olhar distante, parecia vasculhar as sombras do passado, buscando ver algo que somente ela enxergava. Foi Melanie quem não suportou o silêncio dela.
— Alicea, o que aconteceu? — A voz de Melanie irrompeu, baixa, mas incisiva, como um súplice pedido diante da mudez de nossa amiga.
Alicea fechou os olhos por um instante, como se reunisse coragem para vasculhar algo por entre memórias esquecidas. Quando os abriu, um brilho úmido os embaçava.
— Eu nunca mais a vi — a voz dela, antes firme, saiu quase como um sopro, voltando a silenciar-se.
Alguns segundos passaram-se.
Inclinei-me para frente, a mão crispada em torno da taça.
— Como assim, 'nunca mais a vi'? Isso não é uma resposta, é uma evasiva.
Ela suspirou.
— Não sei o que ocorreu, Claire — a voz dela sibilou um tom acima, carregada de uma frustração contida por todo esse tempo, com certeza. — O que eu 'sei', com uma certeza que me dilacera o fundo da alma, é que a volta a Florença, aquele plano, aquele hotel, aquele café na manhã seguinte que eu esperava ter todos os dias nunca aconteceu. Nada aconteceu.
— Mas você não foi? Você estava lá, não estava? — Insistiu Melanie, sua voz suavizando na tentativa de trazer nossa amiga de volta ao conforto de nossa sala.
— Fui, Melanie. Eu fui — Alicea disse, rindo, um riso seco e amargo. — E esperei. Esperei até a última luz de cada dia se apagar na praça em que trocamos tantas confidências, até meu corpo ficar dormente no mesmo banco, até o dono do café parar de me perguntar, com pena nos olhos, se eu ainda queria 'o de sempre'. Uma semana. Uma semana de um silêncio ensurdecedor.
Apertei meus lábios, o instinto profissional superando momentaneamente o pessoal.
— E a agência? Você os confrontou?
Mais um longo suspiro. A sua taça, já vazia, ela deixou na mesinha do centro. A minha, também vazia, coloquei ao lado da sua.
— Cansada e com um medo que já tomava conta das minhas entranhas, entrei em contato com a agência. A resposta foi burocrática. Impessoal. Como se onde ela estava não fosse da minha conta, praticamente. Disseram que ela havia sido redesignada no último momento. Uma missão especial. Guangzhou, China.
— E você acreditou? Você 'verificou'? — Disse firme, meus olhos fixos nos dela.
— Somos 'espiões', Claire! — Alicea explodiu, erguendo-se num movimento brusco. Melanie levantou-se igualmente, já que nossa amiga pareceu perder o equilíbrio. Já tínhamos tomado duas garrafas de vinho. — Nem tudo que parece real no mundo da espionagem, é! A verdade nesse mundo é uma cobra que muda de pele, fortalecendo mentiras, ou vice-versa! Talvez ela tenha ido. Talvez não. Talvez esteja em uma cadeia chinesa. Talvez esteja... — a voz dela falhou, o peso da palavra pairando no ar mais assustador do que se fosse dita. Ela engoliu seco. — Não sei. E esse 'não saber' é a minha cela. É o que me acorda todas as madrugadas, todos os dias.
— Ah, minha querida — a voz de Melanie desmanchou-se em compaixão. Ela cruzou a sala num instante, envolvendo Alicea em um abraço que parecia querer protegê-la do passado que a assombrava. Alicea ficou rígida por um segundo, antes de ceder, deixando a cabeça pousar no ombro da minha mulher, seus braços envolvendo o corpo de Melanie da mesma forma.
Quando se soltou, havia uma máscara de frieza em seu rosto, mal escondendo a ferida exposta.
— Mas, tudo bem. Já superei. A vida segue.
— Superou? — Encarei-a, descrente. — Passamos muito tempo juntas. Trabalho ao seu lado, já passei noites na sua casa, e nunca, 'nunca' vi ninguém cruzar sua porta. Nem uma sombra, nem um nome. É a primeira vez que ouço você falar que já teve alguém na vida.
O olhar de Alicea se tornou frio, como quando a conheci. Era como ela se defendia, afinal.
— Escolha minha, Claire — cada sílaba sendo martelada, uma sentença autoimposta. — Escolha. Minha.
O agudo toque do celular de Melanie cortou o pesado silêncio que se seguiu, fazendo-nos entreolharmos. Ela olhou para a tela, um suspiro fugindo de seus lábios.
— É Zion. Oi, filho — respondeu, sua voz tentando retomar uma normalidade doméstica que agora parecia um universo distante. Ela nos observava enquanto ouvia. — Está bem, querido. Já estamos indo. Beijo. — Desligou, olhando para nós duas. — Temos que ir. A banda vai entrar em meia hora.
A realidade retomando sua coerência.
— Então, vamos — disse nossa amiga rapidamente, virando-se para procurar suas coisas, mostrando uma pressa que não precisava. Seu ato mecânico deixou-me preocupada.
Levantando-me, aproximei-me de Alicea, envolvendo-a em outro abraço, mais demorado do que o de Melanie. Senti sua respiração irregular contra meu ombro.
— Eu sinto muito, amiga. De verdade. Mas, ainda falta uma parte da história. O que aconteceu com o Héktor?
Ela se afastou, enxugando discretamente um canto do olho com as costas da mão, talvez sensibilizada pelo meu abraço. Um sorriso triste e desgastado surgiu em seus lábios.
— O final da história fica para um outro dia — afirmou e respirou fundo, endireitando os ombros com um esforço visível. — O mais importante é a estreia da Shaira, e que vai trazer vida e luz para a nossa noite, tenho certeza.
— Verdade — murmurou Melanie, sua mão encontrando a de Alicea e dando um rápido e firme aperto.
— Então, vamos — disse eu, e desta vez havia uma ordem em minha voz, uma decisão de tentar adiar a escuridão que provavelmente envolveria Alicea assim que ela retornasse para sua casa.
Peguei a chave do carro e seguimos juntas, mulheres unidas por segredos. À minha frente, Melanie já abria a porta, liberando a música suave da noite e os murmúrios da cidade. Para trás, ficava a sala mergulhando na penumbra, e a história inacabada de Alicea, uma incógnita suspensa no ar, aguardando, como Alicea em Florença, por um desfecho que talvez nunca chegue.
... AND THIS IS THE END!
¹ More Than Words [Mais Que Palavras] - Extreme - 4:14
Taken From The CD Single ''More Than Words'' -1991.
Written-By: Nuno Duarte Gil Mendes Bettencourt/Gary Francis Caine Cherone.
Letra de More Than Words © Color Me Blind Music.
Link Discogs:
https://www.discogs.com/release/1084444-Extreme-More-Than-Words
Link Wikipedia:
https://en.wikipedia.org/wiki/More_Than_Words
Link YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=UrIiLvg58SY&list=RDUrIiLvg58SY&start_radio=1
Fim do capítulo
FOR NOW, THAT'S IT!
Tenham uma boa leitura e comentem à vontade.
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