Capitulo 2 - O que o Véu Começa a Exigir (Parte IV - Quando o Mundo Espia)
- I -
O primeiro sinal não veio como ameaça, veio como curiosidade. Em Aelyr, curiosidade era sempre o estágio inicial da violência.
Os mensageiros chegaram a Vael’Tir antes do meio-dia, trazendo relatos fragmentados, desconexos demais para serem coincidência, pequenas alterações no Véu em regiões distantes, comunidades que nunca haviam tocado magia relatando sonhos vívidos demais para serem ignorados, símbolos antigos reaparecendo em pedras, na pele, no céu.
— Âmbar e azul. — murmurou um escriba, o rosto pálido. — Sempre juntos.
Kareth ouviu sem interromper.
Anotou mentalmente o mesmo padrão se repetir em cada relato, não era ruptura, não era explosão, era ajuste, o tipo de ajuste que indicava que algo havia sido lembrado.
— Eles sentem. — disse uma das Guardiãs mais jovens. — Mesmo sem entender.
— Sentir nunca foi o problema. — Kareth respondeu. — O problema é o que fazem quando tentam reproduzir.
Ele dispensou os mensageiros com ordens vagas e permaneceu sozinho por um longo tempo, observando o mapa etéreo flutuante no centro da sala. Pequenos pontos de luz surgiam e desapareciam, como respirações irregulares, nada grande o suficiente para justificar intervenção direta. Ainda não, mas o mapa não mentia.
Aelyr estava prestando atenção.
- II -
Lysenne percebeu a mudança nos corredores antes que alguém ousasse verbalizá-la. O templo sempre fora um organismo disciplinado, previsível em seus ritmos. Agora, porém, havia pequenas hesitações, Guardiões que interrompiam frases ao vê-la passar, aprendizes que fingiam concentração excessiva, como se temessem que o Véu pudesse ouvir pensamentos não autorizados. Ela caminhava ereta, o rosto impassível, mas por dentro tudo estava em alerta.
Encontrou Elaryn no pátio inferior, onde o céu parecia mais próximo e o vento trazia o cheiro metálico do éter cru. Elaryn estava sentada no parapeito de pedra, as pernas pendendo sobre o vazio, observando as ilhas distantes como quem reconhece caminhos invisíveis.
— Eles estão falando de nós. — disse Elaryn, sem se virar.
— Sempre falaram, — Lysenne respondeu. — a diferença é o tom.
Elaryn sorriu de lado.
— Antes era suspeita. Agora é expectativa.
Lysenne parou ao lado dela.
— Expectativa é mais perigosa.
— Eu sei, é quando começam a projetar o que querem que você seja.
O silêncio entre elas carregava o peso do sonho compartilhado, nada precisava ser explicado, ambas sentiam o mesmo deslocamento, algo que antes era íntimo, agora tornava-se referência.
— Vi símbolos em crianças hoje cedo, — Elaryn continuou. — não marcas de fogo, marcas de… tentativa.
Lysenne fechou os olhos por um instante.
— Estão tentando tocar o Véu sem saber o preço.
— Estão tentando amar como técnica. — Elaryn completou.
Lysenne abriu os olhos.
— E isso sempre termina mal.
- III -
O Conselho reuniu-se no fim da tarde, desta vez, formalmente. As lâminas de luz foram ativadas, delimitando o espaço com precisão ritualística. Guardiões mais antigos ocuparam seus lugares, e mesmo aqueles que raramente participavam estavam presentes.
— Temos relatos confirmados de imitação ritual, — disse Kareth, direto. — pequenas comunidades tentando provocar convergências emocionais sem preparação.
Um murmúrio percorreu a sala.
— Consequências? — alguém perguntou.
— Instabilidade localizada. — respondeu outra Guardiã. — Em dois casos, colapso físico, nenhuma morte… ainda.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Isso é responsabilidade delas. — disse uma voz mais dura. — Ao provar que é possível, abriram a porta.
Lysenne levantou-se lentamente.
— Não, — disse, sem elevar o tom. — a porta sempre existiu, nós apenas paramos de fingir que não.
Alguns desviaram o olhar.
— O problema — continuou — não é o vínculo, é a tentativa de forçá-lo. Solaer caiu porque transformaram relação em método.
O nome ecoou pela sala como um golpe.
— Você fala como se Solaer fosse mal interpretada. — disse a Guardiã mais velha.
— Falo como alguém que viu o que foi escondido. — Lysenne respondeu. — O erro não foi amar, foi tentar controlar o amor.
Kareth ergueu a mão.
— Chega! — Olhou diretamente para Lysenne e, depois, para Elaryn. — Vocês duas se tornarão foco de atenção, queiram ou não.
— Já somos. — Elaryn respondeu.
— Não dessa forma. — Kareth disse. — Há forças fora do Conselho observando, Casas Antigas, Ordens que sobreviveram à queda de Solaer, pessoas que acreditam que o que vocês representam pode ser… apropriado.
A palavra pairou no ar como ameaça velada.
— Vocês serão protegidas, — continuou. — mas também vigiadas, cada movimento, cada treino, cada aproximação.
Elaryn riu baixo.
— Vão vigiar até nossos sonhos?
O silêncio respondeu antes de qualquer palavra.
Lysenne sentiu o Véu reagir com um leve estremecimento.
— Já estão tentando. — disse.
- IV -
Naquela noite, o céu mudou, não de forma abrupta, mas perceptível para quem sabia olhar. As constelações que haviam se alinhado após Serath, agora pareciam observadoras, como se acompanhassem algo em movimento. Um traço luminoso surgiu ao longe, ligando regiões que jamais haviam compartilhado eixo.
— Isso não é natural. — constatou um astrólogo.
— Não, — respondeu sua mestra. — é resposta.
- V -
Na ala inferior de Vael’Tir, no aposento neutro que o Conselho lhes destinara, longe do Salão, longe dos aprendizes, perto demais do céu aberto, Lysenne e Elaryn sentiam o peso do dia se acumular no corpo. Não estavam exaustas fisicamente, estavam expostas. Elaryn encostou-se à parede, os braços cruzados, o olhar distante.
— Em Solaer foi assim, — disse de repente. — primeiro curiosidade, depois idolatria, depois medo, por fim… tentativa de controle.
Lysenne aproximou-se.
— Não deixarei que isso se repita.
Elaryn a encarou.
— Você não controla tudo, Lysenne.
— Eu sei, mas posso escolher onde fico quando o mundo tenta decidir por mim.
O silêncio entre elas tornou-se denso.
— E onde você fica?
Lysenne não respondeu com palavras, apenas deu um passo à frente.
Elaryn sentiu antes de ver, o silêncio envolvendo, o fogo respondeu em calor baixo, atento, como se aguardasse permissão para existir sem se esconder.
— Isso vai nos custar. — Elaryn disse, a voz mais baixa agora.
— Tudo o que importa custa. — Lysenne respondeu.
Fim do capítulo
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