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Duas Chamas por Liara Noren

Ver comentários: 1

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Palavras: 1034
Acessos: 60   |  Postado em: 14/01/2026

Capitulo 2 - O que o Véu Começa a Exigir (Parte III - Sonhos Que Não Pedem Permissão)

- I -

 

O sonho não começou como um deslocamento. Lysenne percebeu a mudança antes de perder a consciência plena, um afrouxamento sutil na rigidez do mundo, como se o Véu tivesse decidido deslizar por dentro dela em vez de permanecer à margem. O corpo estava deitado, a respiração, regular, mas algo se afastava do eixo com cuidado demais para ser natural. Ela abriu os olhos, não estava em seus aposentos. O chão sob seus pés era quente, escuro, marcado por linhas incandescentes que pulsavam em ritmo lento, profundo, como um coração antigo. O ar não era pesado como em Myr’Kal, nem leve como em Vael’Tir, era denso de memória.

 

— Isto não é um sonho comum. — murmurou.

 

— Não, — respondeu uma voz atrás dela. — é um retorno.

 

Lysenne virou-se, Elaryn estava ali. Não vestia as roupas do templo nem as da contenção, estava envolta em tecido claro, quase translúcido, que parecia feito de luz filtrada pelo fogo. As marcas em sua pele brilhavam abertas, vivas, como se o Véu tivesse decidido lê-las em voz alta.

 

— Você não deveria estar aqui. — Lysenne disse, o tom firme por hábito.

 

— Nenhuma de nós deveria, — Elaryn respondeu, aproximando-se. — mas o Véu não pediu permissão.

 

O espaço ao redor começou a se definir. Colunas de pedra negra erguiam-se em círculos concêntricos. No centro, uma fissura aberta emitia luz dourada e âmbar, misturada a fios de azul profundo, em tons de gênese, de origem.

 

— Solaer. — Lysenne sussurrou.

 

Elaryn assentiu.

 

— Antes da queda.

 

O impacto foi físico. Solaer, nos registros oficiais, era descrita como um erro, um lugar onde o fogo fora usado sem contenção emocional, onde vínculos se tornaram armas, onde o Véu fora ferido por excesso de sentimento. Mas ali…ali não havia caos, havia ritual.

 

— Isso contradiz tudo o que nos ensinaram — Lysenne disse.

 

— Porque ensinaram o fim, não o começo.

 

Elaryn estendeu a mão.

 

— Venha, o Véu quer que você veja.

 

Lysenne hesitou apenas um instante, então aceitou. O toque não foi físico, foi interno. Uma sensação de alinhamento súbito, como se partes dela que sempre viveram isoladas tivessem encontrado lugar para existir juntas.

 

As imagens vieram em camadas. Mulheres e homens reunidos em círculos, sem hierarquias, apenas vínculos. O fogo surgia de emoções compartilhadas, desejo, luto, promessa. O silêncio surgia como contraponto, não para suprimir, mas para sustentar.

 

— O Fogo Profundo não era instável, — Lysenne murmurou. — ele era… partilhado.

 

— Sempre foi, — Elaryn respondeu. — o erro foi isolá-lo, separá-lo do que o ancora.

 

Uma figura destacou-se no centro do ritual, uma mulher de cabelos claros, olhos de azul profundo, a pele marcada por símbolos semelhantes aos de Elaryn, mas entrelaçados com linhas de silêncio.

 

— Ela se parece comigo. — Lysenne constatou, sentindo o reconhecimento atravessá-la.

 

— Ela era como você. — Elaryn corrigiu. — Uma Âncora.

 

O Véu pulsou.

 

— As Âncoras não eram Guardiãs, — continuou Elaryn. — eram pontes, não controlavam o fogo, caminhavam com ele.

 

A cena mudou, o mesmo círculo, mas agora tenso, medo, vozes elevadas, alguém exigia contenção total, outro exigia submissão. O vínculo era observado, calculado, instrumentalizado.

 

— Aqui começa a queda. — O peito de Lysenne apertado.

 

— Aqui o amor vira ameaça política. — Elaryn respondeu.

 

O fogo explodiu sem ancoragem suficiente, o silêncio tentou conter sozinho, o Véu rasgou, Solaer caiu.

 

Lysenne sentiu a dor como se fosse sua.

 

— Eles mentiram. — disse, a voz embargada. — Não foi excesso de emoção, foi medo dela.

 

Elaryn aproximou-se, tão perto que o calor era inevitável.

 

— Medo de perder controle. — disse. — O mesmo medo que ainda governa Vael’Tir.

 

O espaço começou a tremer, o sonho, se ainda fosse sonho, tornava-se instável.

 

— O Véu está nos chamando de volta.

 

— Não, — Elaryn respondeu. — está nos ligando.

 

Lysenne sentiu então algo novo, mais que presença, conexão consciente. O Véu costurava algo entre elas, um fio fino, luminoso, que não doía, não prendia, apenas reconhecia.

 

— Isso é perigoso. — Lysenne murmurou.

 

— Isso é inevitável. — Elaryn respondeu. — Agora você sabe.

 

O mundo dissolveu-se em luz.

 

Lysenne acordou sentada na cama, o coração acelerado, a pele quente como se tivesse atravessado fogo real. Levou a mão ao próprio pulso, firme, vivo. O Véu ainda vibrava, não em alarme, em eco compartilhado.

 

No mesmo instante, do outro lado do templo, Elaryn despertava também, o corpo arqueado para frente, os dedos pressionados contra as marcas que ainda brilhavam sob a pele.

 

— Então você viu. — murmurou, sem sorrir.

 

O fogo dentro dela queimava.

 

- II -

 

Na manhã seguinte, o templo acordou com sinais que ninguém pôde ignorar, a pedra lunar nos corredores exibia filamentos âmbar entrelaçados ao azul tradicional, pequenos ajustes, quase imperceptíveis, exceto para os mais antigos.

 

— O Véu está… relembrando. — disse um Guardião em voz baixa.

 

Kareth observava tudo em silêncio, sabia, com clareza desconfortável, que algo fora despertado que não poderia ser novamente adormecido.

 

- III -

 

Quando Lysenne encontrou Elaryn no corredor, não houve palavra imediata, apenas um olhar, e nele, tudo o que haviam visto.

 

— Isso muda os termos. — Lysenne disse por fim.

 

— Sempre mudou. Só agora você sabe por quê.

 

O silêncio entre elas era diferente agora, nada de contenção, apenas reconhecimento mútuo. O vínculo nascera, sim, do desejo, do choque inicial, da atração que se impõe antes do pensamento, do corpo que reconhece outro corpo como presença incontornável. Mas não parara ali, o desejo apenas abrira a fenda. O que se formara depois vinha de um lugar mais profundo, da disposição silenciosa de permanecer, de sustentar o peso do outro sem possuí-lo, de aceitar que tocar significava também expor-se. Não era destino, nem acaso, era a escolha contínua de não recuar quando tudo em volta ensinara a fugir.

Fim do capítulo


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Comentários para 9 - Capitulo 2 - O que o Véu Começa a Exigir (Parte III - Sonhos Que Não Pedem Permissão):
EmiAlfena
EmiAlfena

Em: 17/01/2026

Agora ela sabe a verdade finalmente 

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