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Duas Chamas por Liara Noren

Ver comentários: 1

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Palavras: 677
Acessos: 109   |  Postado em: 13/01/2026

Capitulo 2 - O que o Véu Começa a Exigir (Parte I - A Vigília não Dorme)

- I -

 

Em Aelyr, nada que tocava o Véu permanecia isolado, mesmo quando o mundo fingia dormir. Naquela noite, após o primeiro treino interrompido no Salão de Ancoragem, Vael’Tir não repousou. As correntes de éter sob a ilha alteraram seu ritmo, imperceptível para os não iniciados, mas claro como um aviso para os Guardiões mais antigos. O céu manteve-se estável demais, um azul escuro contínuo, sem as oscilações sutis que normalmente denunciavam o fluxo emocional do arquipélago. Estabilidade excessiva era suspeita.

 

Lysenne percebeu antes de qualquer alarde. Estava sentada à mesa de seus aposentos, o registro aberto à frente, a pena suspensa no ar havia tempo demais. O silêncio do quarto era espesso, como se o próprio Véu tivesse se aproximado para observar o que ela faria a seguir. Não escrevera sobre o toque, não escrevera sobre o ajuste, limitara-se a termos técnicos: pulso reativo, adaptação temporária, ausência de ruptura. Mentiras por omissão eram a forma mais antiga de contenção, ainda assim, o corpo a traía.

 

Havia um calor que não se dissipava completamente, na pele, mas também em algum ponto mais profundo, atrás do esterno, onde emoções não catalogadas costumavam se esconder antes de se tornarem perigosas. Lysenne respirou fundo, ativando o exercício aprendido na infância... nomear, dissolver, afastar. Não funcionou.

 

A imagem de Elaryn Voidfell no centro do círculo, o fogo obediente demais para ser contido, retornava com insistência irritante, como desejo explícito, no entanto, algo a perturbava ainda mais, uma ideia que começava a se formar pela primeira vez, perigosa demais para ser ignorada.... Quem sustenta quem sustenta o mundo?

 

Ela fechou o livro com cuidado excessivo e levantou-se, aproximou-se da janela estreita que dava para o abismo prateado. Lá embaixo, a névoa se movia lenta, indiferente às inquietações humanas. As ilhas flutuavam porque o mundo aprendera a viver acima da própria falha.

 

— Não pense nisso. — murmurou.

 

O Véu respondeu com uma vibração mínima. Pensar, afinal, já era sentir.

 

- II -

 

Nos Aposentos de Contenção, Elaryn também não dormia, não por desconforto físico, o espaço era austero, mas funcional, mas porque o fogo dentro dela estava atento demais, não inquieto, não instável, desperto. Ela sentia o templo como se sente um animal antigo, pelo peso no ar, pela resistência sutil das paredes, pela forma como a pedra lunar tentava, sem sucesso, neutralizar sua presença, não por hostilidade, por cautela.

 

— Vocês escutam… mas não respondem. — murmurou, passando os dedos pela superfície fria da parede.

 

O Fogo Profundo não reagiu com expansão, pelo contrário, acomodou-se, como se aguardasse algo, ou alguém. Elaryn fechou os olhos, e, pela primeira vez desde Solaer, não viu ruínas, viu silêncio, um silêncio denso, organizado, que não buscava apagar, mas sustentar. Reconheceu-o imediatamente, como presença, mas não qualquer presença, a de Lysenne. Abriu os olhos com um suspiro contido.

 

— Então é assim, — disse em voz baixa. — você também sentiu.

 

- III -

 

No coração do templo, o Conselho da Vigília reunia-se sem convocação formal, não era uma sessão oficial ainda, mas os anciãos mais antigos haviam sentido o mesmo deslocamento sutil, o Véu não gritara, não rasgara, respondera, e isso os inquietava mais do que qualquer fenda aberta.

 

— A ausência de reação é, por si só, uma reação. — disse a anciã de rosto estreito, os dedos entrelaçados com força controlada. — O Véu não deveria acomodar o Fogo Profundo.

 

— Não deveria, — Kareth concordou. — mas acomodou.

 

Silêncio.

 

— A Guardiã de Vael está… envolvida demais.  — arriscou outro.

 

Kareth não respondeu de imediato.

 

— Lysenne sempre foi a melhor contenção que tivemos — disse por fim. — e é exatamente isso que torna esta situação perigosa.

 

O mundo, perceberam todos ali, não estava esperando autorização. E enquanto Vael’Tir observava, em silêncio tenso, duas mulheres sentiam, cada uma à sua maneira, a mesma verdade se aproximar.

 

E o Véu, já começava a exigir mais do que contenção.

Fim do capítulo


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Comentários para 7 - Capitulo 2 - O que o Véu Começa a Exigir (Parte I - A Vigília não Dorme):
EmiAlfena
EmiAlfena

Em: 17/01/2026

Mais sobre sentir do que sobre pensar, mas como não sentir o que já está acontecendo?


Liara Noren

Liara Noren Em: 18/01/2026 Autora da história
Eis aí o dilema.


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