Capitulo 1 - O Baile Anunciado
O Reino de Aldoria era um lugar de belezas e contrastes. Os campos dourados se estendiam até onde a vista alcançava, os bosques eram cheios de magia antiga, e no coração do reino, erguia-se o imponente palácio real. Mas, para mim, nada disso significava liberdade. Meu mundo era limitado às paredes da casa de Lady Alira, minha madrasta, onde minha existência se resumia a limpar, cozinhar e suportar as crueldades de Amara e Isolde, suas filhas mimadas.
Após a morte do meu pai, tudo mudou. Antes, eu era filha de um respeitado comerciante, e nossa vida era modesta, mas feliz. Ele me ensinou a ler mapas e a negociar, sonhava em me levar em suas viagens para além de Aldoria. Mas quando ele partiu, Lady Alira revelou seu verdadeiro rosto. Meu lar se tornou uma prisão, e eu fui rebaixada ao papel de criada dentro da própria casa.
Naquele dia, o burburinho na vila interrompeu minha rotina. Enquanto lavava roupas no riacho, ouvi as vozes excitadas dos moradores e, curiosa, fui até a praça para entender o que acontecia. Lá, um grupo de mensageiros do palácio real anunciava um grande baile em honra à princesa Seraphina.
Seraphina.
O nome dela trouxe uma lembrança suave, como o vento que passava pelo campo na época da colheita. Eu a tinha visto uma única vez, há anos, quando ela veio ajudar os camponeses. Diferente dos nobres que apenas observavam de longe, Seraphina trabalhou ao nosso lado, riu com as crianças e sujou as mãos de terra sem hesitação. Seu sorriso genuíno ficou preso em minha mente desde então.
Lady Alira, ao ouvir sobre o baile, imediatamente garantiu que Amara e Isolde tivessem os melhores vestidos e joias. Mas, para minha surpresa, ela me chamou em seu escritório naquela noite.
— Você não irá ao baile, é claro — começou, observando-me com seu olhar frio. — Mas precisam de ajudantes extras no palácio. Fiz um favor ao rei e ofereci sua ajuda na cozinha e no banquete.
Meu primeiro instinto foi recusar. Eu sabia que ela não estava sendo gentil. Certamente esperava que eu passasse a noite servindo suas filhas enquanto elas desfilavam pelo salão. Mas algo dentro de mim queimou em resposta. Eu poderia não ser convidada como as damas nobres, mas ainda assim estaria lá.
Então, apenas assenti.
Na noite do baile, vesti um uniforme simples de ajudante e prendi o cabelo. Quando entrei no palácio, a grandiosidade do lugar me tirou o fôlego. Lustres de cristal pendiam do teto, e as paredes eram adornadas com tapeçarias luxuosas. O som da música e das risadas preenchia o ambiente enquanto eu me movia entre os corredores apressados dos criados.
Minha tarefa era levar uma bandeja de taças de vinho até o salão principal. Equilibrei-a cuidadosamente, tentando ignorar o burburinho animado ao meu redor. Mas, no momento em que passei pelas grandes portas douradas do salão, alguém esbarrou em mim.
O impacto foi leve, mas o suficiente para me fazer perder o equilíbrio por um segundo. Eu prendi a respiração, esperando pelo pior — talvez uma bronca, ou risadas zombeteiras. Mas, quando levantei os olhos, vi um par de íris azuis me observando com surpresa.
A princesa Seraphina.
Ela estava ali, a centímetros de mim, tão linda que parecia saída de um sonho. Seu vestido esmeralda realçava seus traços delicados, e seu cabelo escuro caía em ondas suaves. Mas o que mais me prendeu foi a maneira como ela me olhou. Não com arrogância, não com impaciência, mas com genuína curiosidade.
— Você está bem? — sua voz era suave, mas havia força nela.
Meu coração martelava contra o peito. Eu deveria responder, mas as palavras pareciam presas na minha garganta.
— Eu… sim, estou — murmurei, abaixando a cabeça, lembrando do meu lugar. Eu era apenas uma criada. Ela era uma princesa.
— Tem certeza? — ela insistiu, inclinando levemente a cabeça, como se tentasse enxergar além da minha resposta curta.
Antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa, um dos mordomos se aproximou e me lançou um olhar severo.
— Volte ao trabalho.
Senti meu rosto queimar de vergonha. Murmurei uma reverência apressada e me virei para sair, mas, antes de me afastar, ouvi Seraphina dizer algo em um tom mais baixo:
— Espero te ver de novo.
Meus passos vacilaram. Eu não sabia se tinha ouvido direito ou se era um truque da minha imaginação. Mas, de alguma forma, naquele breve encontro, algo dentro de mim mudou.
Eu nunca tinha sido vista antes. Não de verdade. Mas, naquela noite, sob o brilho dos candelabros e o olhar da princesa, eu me perguntei: e se eu pudesse ser mais do que apenas uma sombra no fundo do salão?
Continua...
Fim do capítulo
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Zanja45
Em: 04/01/2026
Que triste a realidade da garota, de respeitável filha de comerciante, rebaixada a uma criada servil. As pessoas de caráter duvidosos tendem a sustentar uma identidade falsa para conseguir o que desejam Mas quando não é mais necessário mostram sua verdadeira natureza. E foi o que fez Lady Alira após a morte do pai da garota, tornou ela apenas sua criada e de suas filhas Amara e Isolde. E o mais cruel, além de não a deixar a participar do baile igualmente às suas filhas. A fez ir para servir no palácio. No entanto, parece que não foi de todo ruim, porque ela teve logo um esbarrão com a princesa Seraphina, que aparenta ser uma pessoa com o coração bom.
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