Capitulo 57
Êxtase.
A palavra êxtase vinha do grego ékstasis, que significava nada mais e nada menos que estar fora de si. E estar fora de si é quando você sente um sentimento tão poderoso que te tira completamente do eixo, te deixa em estado de êxtase, te deixa completamente anestesiado, sem capacidade de pensar claramente, te arrebata e te joga para bem longe desse plano. E entrar em estado de êxtase normalmente se vem após uma grande revelação ou acontecimento, um poderoso orgasmo ou resumindo, após uma grande experiência emocional, seja ela boa ou ruim.
E assim estava Amélia, em um completo estado de êxtase, sendo praticamente carregada de volta para o carro como uma mera marionete, já que não conseguia mover-se por si só e muito menos conseguia abrir a boca para falar, sua mente parecia completamente incapaz de formular uma mísera palavra completa, ao invés disso o seu cérebro parecia trabalhar incansavelmente para reviver sem parar o momento exato em que viu o breve movimento da mãe e logo em seguida Helena impedindo que uma grande tragédia emocional acontecesse, uma ainda maior do que a que acabara de ocorrer. De fato parecia fora de si, como se estivesse fora do próprio corpo e enxergasse somente a sua carcaça vazia, quase inexpressiva sentada dentro do carro enquanto Helena avançava para longe daquela casa o mais rápido possível.
Amélia de fato não soube quanto tempo passou, seus olhos não eram capazes de focar em qualquer lugar que fosse para que ela pudesse ter alguma mínima noção de onde estavam indo, tudo o que conseguia fazer era realmente reviver aquele momento incansavelmente em sua mente. Tomou um pequeno susto e fora puxada de volta quando sentiu o toque em sua face, automaticamente olhou para o lado e encarou o olhar sereno e carregado de compaixão.
— Chegamos a minha casa, você não precisa se preocupar com mais nada a partir de agora, eu vou cuidar de você. — Helena falou de forma um pouco mais lenta, para que a clareza de suas palavras fossem ainda maior.
Amélia sorriu automaticamente, um sorriso fraco, terno.
— Sua presença não aliviou muito bem as coisas como eu tinha planejado.
Helena deu um sorriso fraco com as palavras da namorada.
— Talvez seja a hora de começar a usar o Elijah.
Mia sorriu um pouco mais, segundos antes de acenar com a cabeça. Mas não teve chance de responder já que logo em seguida Helena estava saindo do carro, acabou fazendo o mesmo, devagar e logo com a ajuda de Helena que dera a volta no carro com rapidez justamente para auxiliar a namorada.
— Como você soube? — Amélia questionou repentinamente enquanto caminhava devagar, na verdade enquanto era praticamente arrastada por Helena que segurava a sua mão.
— Como eu soube o que? — Helena questionou de volta enquanto subia os degraus de sua varanda.
— Que ela iria me bater.
Helena olhou para a namorada assim que parou em frente a sua casa, a encarou por alguns segundos como se silenciosamente buscasse indícios se deveria ou não dizer a verdade naquele momento, mas acabou dando de ombros, era Amélia, não tinha por que mentir para ela.
— Costume, eu acho, não sei bem se essa é a palavra certa. — respondeu enquanto dava meia volta e ia atrás da chave reserva que ficava escondida sempre no mesmo local. — O corpo mostra indícios alguns segundos antes e eu reconheci todos eles por motivos óbvios, mas na Vera foi ainda mais claro... — quando voltava já com a chave em mãos a ajeitando entre os dedos, ergueu o olhar para, naturalmente, encarar sua morena, deparou-se com a expressão completamente contraída em choro e os olhos azuis completamente inundados por lágrimas.
Helena suspirou, não de pesar ou cansaço, suspirou de alívio ao finalmente ver a sua garota reagir. Imediatamente abriu a porta de casa e em uma fração de segundos já puxava a mulher em prantos para dentro e já a acalentava em seus braços.
— Chora, mi Cariño, eu vou cuidar de você. — garantiu com toda a certeza que sentia dentro de si.
O que ocorreu a seguir, fora bons minutos de choro e abraços muito apertados até que o choro desse lugar ao cansaço e enfim ambas as mulheres se renderam, mesmo contra a vontade, ao sono que tomava conta de tudo, afinal, muito pouco haviam dormido na noite passada, a exaustão tomava conta tanto dos corpos quanto das mentes e não havia motivos para que lutassem contra isso.
**
Helena teve uma leve noção de quanto tempo havia dormido quando olhou para a janela de seu quarto e já não viu raios de sol lá fora, na verdade encontrou apenas a penumbra de uma noite recém chegada, isso a fez sorrir fraco e se acomodar ainda mais na posição em que estava, deitada de lado e abraçando uma Amélia ainda completamente adormecida, em suas pernas sentia o peso de Vadia completamente acomodada em um sono profundo.
Helena respirou um pouco fundo, uma sensação estranhamente boa em seu peito, se ajeitou um pouco de uma forma que ficasse com a cabeça erguida e apoiada em sua mão direita, assim olhava vagamente para a sua janela e para a noite lá fora. Pensava em como era estranha a situação que se encontrava, era uma sensação completamente nova, em circunstâncias comuns ou em meses antes, se tudo o que havia acontecido na noite anterior acontecesse, ela estaria completamente perdida dentro de si em uma grande maré de desespero e terror, tinha absoluta certeza que perderia o controle muito fácil, mas agora sentia que tinha o controle absoluto sobre si mesma a ponto de conseguir escantear seus problemas e dar atenção a sua amada, mas não somente escanteava, ela tinha plena noção de que eles estavam ali, mas ao mesmo tempo havia um sentimento novo dentro de si que lhe dava a segurança de que tudo iria se resolver e que não era preciso se esconder dentro de si mesma, não mais, ela não era mais uma pessoa solitária e havia demorado demais para se dar conta disso, mesmo que tivesse sempre Ally ao seu lado. Sorriu fraco, um repentino orgulho de si mesma, por que sabia do progresso que aquilo ela, era algo tão grande que conseguia reconhecer com muita facilidade, de repente sentiu-se até mesmo ansiosa para contar tudo aquilo a Samantha.
Tinha plena noção de que tinha muito a se fazer a respeito da noite passada, principalmente a respeito daquelas garotas, mas mais uma vez pensava que agora ela finalmente era capaz de fazer algo, ela tinha meios para isso, tinha muito apoio, tinha dinheiro e todos os meios possíveis.
— No que está pensando? — ouviu a voz rouca da namorada soando preguiçosa e muito baixinha. Olhou para baixo e sorriu ao encarar os olhos que mal se abriam por culpa do sono. Logo em seguida Amélia se ajeitou, antes deitada de lado e encaixada no corpo de Helena, agora virava de barriga para cima. Helena não se moveu, só ergueu a sua mão esquerda para acariciar o rosto de sua amada.
— Nada relevante. — sussurrou de volta enquanto a olhava com paixão. — Você dormiu bem?
— Muito. — Amélia sorriu sem mostrar os dentes enquanto apreciava e muito o carinho que recebia. — Dormimos muito?
— O dia inteiro. Merecido, não?
— Completamente. — Amélia se encolheu um pouco embaixo das cobertas e se aconchegou um pouco mais contra o corpo de Helena. A mexicana aproveitou para voltar a deitar a cabeça no mesmo travesseiro que Mia até que seu nariz ficasse roçando na face da namorada. — Como está se sentindo?
— Um pouco preocupada com você. — Helena respondeu com sinceridade.
Mia franziu um pouco o cenho, mas nem se deu ao trabalho de abrir os olhos.
— Eu só briguei e quase apanhei da minha mãe, você que passou por um pesadelo maior.
— Não diminua a sua dor para validar a minha, Amélia.
Amélia sorriu com o tom de bronca e então abriu os olhos, virou a cabeça para encarar os olhos de sua morena.
— Você está ficando muito boa nisso, Helena.
— A terapia tem seu benefício, mas você também contribuiu imensamente com isso.
— Te corrigi várias vezes somente para que você usasse isso contra mim no futuro.
Helena riu e acenou suavemente com a cabeça.
— Você sabe que jogou muito baixo com sua mãe, não é?
Amélia não respondeu.
— Você perdeu o seu pai, amor e isso te destruiu a ponto de negligenciar o que te é mais sagrado, que é você mesma. A Vera perdeu o amor da vida dela, eu nem mesmo consigo imaginar a dor que deve ter sido e acredito que nem você consiga... É claro que não foi correto ela negligenciar os filhos, mas acredito que não o fez por querer, só se perdeu na própria dor.
— Eu sei. — Amélia respirou um pouco fundo enquanto virava a cabeça e agora fixava os olhos azuis no teto do quarto. — Na verdade eu sempre soube, nunca culpei realmente ela por isso por que eu sei o quanto ela amava ele e sempre vai amar... Mas naquela hora eu não pensei direito, eu só fiquei furiosa por ela me culpar, não foi justo.
— Não, realmente não foi. Mas foi só uma mãe que não soube reagir sozinha pela primeira vez na vida a um problema grande na família, ela sempre teve alguém para resolver com ela.
— Ela achava que tinha tudo sob controle sendo agora viúva e de repente tem um filho meio alcoólatra que indiretamente apoiava um esquema de prostituição e uma filha que acobertava tudo por que achava que tinha tudo sob controle.
— E uma nora ex stripper que apoiava ainda mais o esquema de prostituição. — Helena adicionou.
Amélia rolou os olhos exageradamente e riu logo em seguida, sendo acompanhada por Helena. No segundo seguinte voltaram a se encarar, com sorrisos pequenos nos lábios.
— Mas em todos esses anos de brigas descontroladas, ela nunca havia levantado a mão para mim. — Amélia ficou um pouco mais séria.
— Eu acredito, você é o bem mais precioso daquela mulher, se ela te batesse hoje ela iria se culpar pelo resto da vida, assim como deve já estar se culpando. Mas ao meu ver, Cariño, o que difere esse dia de todos os outros anteriores, é que você tocou na maior ferida que existe na Vera e quando uma ferida grande é exposta dessa forma, acontecem reações inimagináveis.
— Fala por experiência própria?
Helena concordou com um aceno de cabeça ao mesmo tempo em que pensava na própria mãe e no último dia que haviam se encontrado, no caos que havia sido e de como suas próprias feridas haviam sido expostas naquele dia.
— Também entendo você, afinal, você é a maior princesinha da mamãe, por isso fiquei tão preocupada.
Amélia riu e fechou os olhos enquanto era abraçada pela namorada e riu um pouco mais ao receber beijos seguidos na face, era realmente incrível como tudo parecia tão leve quando estava com Helena.
— Vamos pedir pizza hoje? Eu não quero cozinhar. — Amélia fez um pequeno bico, enfim mudando de assunto.
— Com certeza e Yakisoba, estou sedenta por aquele molho agridoce.
— Parece perfeito.
Alguns bons minutos e vários beijos depois...
Helena pacientemente limpava os arranhões em seus antebraços, apoiada na pia do banheiro e sendo auxiliada pelo espelho enquanto logo ao lado Amélia tomava seu banho.
— Não tem indícios de inflamação, tem?
— Não, está sequinho, ainda doendo, mas seco, são só arranhões, amor.
— Arranhões de um chão imundo.
Helena riu enquanto acenava com a cabeça.
— Como será que aquela garota está? — questionou mais para si mesma do que para a namorada ocupada no chuveiro, mas não teve tempo de ouvir a resposta, a campainha soou e automaticamente Helena olhou em direção a porta. — Uma das nossas refeições acabou de chegar pelo jeito.
— Mais rápido do que imaginei.
— O que é ótimo, estou morta de fome, vou arrumar tudo e te espero, mas só vamos comer quando tudo chegar.
— Sim senhora.
Helena sorriu enquanto borrifava remédio em seus cortes, em seguida e com certa pressa guardou o que havia utilizado e fora em passos rápidos para fora do quarto, não esqueceu de pegar a sua carteira no caminho pronta para pagar o que tivesse chegado primeiro, mas assim que abriu a porta, deu de cara não com um entregador, mas sim com Vera.
Então, silencio. As duas mulheres se encaram por alguns segundos e o silêncio só fora quebrado quando Helena deu um passo a frente, saindo de dentro de casa e então, fechou a porta atrás de si e cruzou os braços.
Vera entendeu, ela não era bem vinda, não naquele momento, mas sentiu-se bem ao ver como Helena protegia aquela porta como uma leoa.
— Não tinha ninguém na casa dela, imaginei que estava aqui.
— Eu sei, eu sabia que aqui seria mais difícil de você alcança-la.
— Helena...
— Você não vai ver ela hoje, Vera. Ela está bem, mas ainda assim não irei permitir.
— Eu não sei onde eu estava com a cabeça. — Vera soltou um suspiro pesado, tinha uma expressão completamente cansada, vestígios claros de uma mãe preocupada e perdida. A mulher mais velha baixou a cabeça e respirou fundo antes de dar alguns passos até uma cadeira que havia na pequena varanda, sentou-se, sentia-se inteiramente esgotada. — A Amélia e o Frederick são os bens mais preciosos que eu tenho nesse mundo, são minhas duas relíquias, eles compõem a minha alma... E depois que o Lorenzo morreu, o meu único dever sempre foi manter nossos meninos bem e eu fracassei completamente.
Helena respirou fundo e calmamente caminhou para perto de Vera, devagar sentou-se ao seu lado e cruzou as pernas.
— Você foi extremamente irresponsável ao colocar toda a culpa na Amélia, praticamente ignorando o Fred, Vera.
— Eu não estava pensando claramente, eu jamais imaginaria que ele estaria envolvido com esse tipo de coisa e eu nunca nem mesmo desconfiei, mas também nunca imaginei que ela me esconderia algo tão grave.
— A Amélia sempre achou que tinha tudo sob controle, ela não fez por mal, ela só não queria te trazer mais um problema depois que você lidou com uma perda tão grande, é normal que os filhos tentem proteger as mães de alguma forma e sabemos como a Amélia é.
Vera sorriu fraco e acenou com a cabeça.
— Ela é uma verdadeira preciosidade e eu me sinto a pior mãe do mundo por imaginar que eu teria machucado minha menininha.
Helena sorriu fraco enquanto olhava para a sogra, era fácil perceber a dor da mais velha e era fácil entender toda a situação, ela havia sido levada pelo impulso e pela dor. Não a culpava.
— Ela sabe que você não fez por mal e ela vai te procurar na hora certa, não se preocupe, você não vai perder a sua menininha, ela vai voltar correndo pra você logo, ela está magoada, mas sabe que tem uma parcela de culpa e além do mais, ela é mimada demais pra ficar tanto tempo sem ser paparicada por você.
Vera soltou um suspiro realmente pesado, como se as palavras de Helena tivessem tirado um grande peso de suas costas.
— Sabe, Helena... Eu nunca imaginei que sentiria tanto orgulho em ter uma nora... O que você fez hoje foi... Inimaginável e incrível, eu nunca tive tanta certeza de que alguém faria a Amélia genuinamente feliz, como tive hoje.
Helena sentiu um salto em seu coração ao ouvir tais palavras, baixou o olhar, não tendo força o suficiente para olhar para Vera, ainda não era nada boa em receber elogios.
— Sabe, Vera, eu não fui uma boa namorada ou sequer uma boa pretendente, eu tive e tenho bagagem demais na vida depois de tudo o que o Trevor fez comigo, mas mesmo assim todas as vezes que eu estava quase me perdendo nos meus pesadelos, a Amélia me abraçava como se eles fossem irrisórios e me fez entender que de fato eles são. Ela fez curativos em tantas feridas minhas das quais nada tinha a ver e continua diariamente cuidando delas com todo carinho... Então tudo o que eu vou e quero fazer em troca é amar ela e cuidar dela como a preciosidade que ela é e ser uma namorada a altura.
Então, ergueu os olhos e encarou a mulher ao seu lado, só para ver que a sogra limpava as próprias lágrimas com calma e com um brilho no olhar que fez Helena sorrir e sentir até mesmo seus olhos ameaçarem encher-se de lágrimas. As duas mulheres se encararam em silêncio por alguns segundos e de alguma forma ambas tiveram certeza de que agora tudo ficaria bem, que o que aconteceu naquela manhã nada mais havia sido do que apenas um mero acidente.
— É melhor eu ir, ela deve estar estranhando que você ainda não entrou.
— Ela estava tomando banho, provavelmente agora está ocupada com a skin care de sempre. — respondeu enquanto erguia-se ao mesmo tempo que Vera.
A mulher mais velha riu brevemente enquanto acenava positivamente com a cabeça, pensando que definitivamente aquilo era a cara de sua filha, nada além do esperado.
— Fica tranquila, ela logo vai até você. — Helena garantiu mais uma vez pouco antes de receber Vera em um abraço apertado, quase cumplice que durou alguns bons segundos.
Quando se separaram, notaram que já não mais estavam a sós ali, já que mais a frente um jovem rapaz caminhava para perto trazendo consigo uma caixa de pizza em mãos. As duas mulheres se despediram sem mais palavras ou rodeios e Helena logo entrou de volta para sua casa agora carregando a pizza em mãos, assim notou que Amélia nem mesmo havia saído do quarto ainda, acabou rindo com a confirmação da vaidade de sua garota.
Deixou a pizza sobre a mesinha na sala e foi para a cozinha atrás de algo para beber.
— Preciso fazer compras. — constatou em um sussurro assim que abriu a geladeira e notou como estava relativamente vazia, pegou a garrafa de suco de laranja, dois copos no armário e voltou calmamente para a sala, estava se inclinando sobre a mesinha, calmamente deixando as coisas sobre ela quando ouviu a campainha tocando.
— O último pedido, imagino eu? — Amélia questionou ao surgir na sala carregando Vadia em seu colo.
— Muito provavelmente. — deduziu enquanto voltava a pegar a sua carteira e então seguia até a porta mais uma vez. Haviam deduzido certo, recebeu as caixinhas de yakisoba e deu uma boa gorjeta ao entregador enquanto sentia o estômago se revirando com a fome que ganhava cada vez mais vida.
— Nossa, eu não sei se é a fome ou se essa pizza está mais cheirosa que o normal. — Mia comentou, a morena já estava sentada no tapete, rente a mesinha cada vez mais preenchida com coisas, havia aberto a caixa de pizza e agora a admirava.
— Eu tenho absoluta certeza que já engordei alguns quilos depois que começamos a namorar. — Helena reclamou enquanto colocava tudo sobre a mesinha e logo em seguida sentava-se bem ao lado da namorada. Vadia por sua vez subia na mesa e ia cheirando tudo o que podia antes de ser retirada de lá por Amélia de forma quase automática.
Fora um momento descontraído, as duas comendo em meio a assuntos descontraídos com a voz de fundo da TV ligada, nenhuma das duas queriam continuar a conversa que iria se iniciar no banheiro a respeito de como deveria estar a garota da noite passada, não queriam lembrar, a mera lembrança trazia uma sensação nada agradável a ambas as mulheres. Quando faltava pouco para que elas estivessem satisfeita pararam de comer instintivamente quando ouviram o típico som da porta da frente sendo aberta e em seguida fechada, elas nem mesmo precisaram se olhar, haviam parado de comer no automático, mas já sabiam muito bem quem era, afinal, só uma pessoa tinha a liberdade de entrar ali daquela forma, por isso mesmo quando Ally apareceu na entrada da sala, já deu de cara com ambos os olhares em sí.
Mas diferente de qualquer outro momento onde normalmente Ally somente sentaria e conversariam o resto da noite, Helena ergueu-se muito rapidamente do chão ao mesmo tempo em que Ally vinha com certa urgência em sua direção e em segundos as duas se abraçaram, um abraço tão apertado e repleto de preocupação. Ainda sentada, Amélia apenas sorriu com certo carinho ao ver o abraço das duas amigas.
— Você me assustou pra caralh*, Helena. — Ally falou um pouco baixo enquanto amparava a amiga em seus braços de maneira firme, só Deus sabia o medo que ela sentiu quando recebeu um telefonema de Hernando tarde da noite explicando o que havia acontecido. Acariciou a cabeça da mexicana com a mão direita e calmamente virou o rosto para beijar-lhe a lateral da cabeça algumas vezes e então se afastou um pouco e a encarou. — Eles machucaram você?
— Não, eu estou bem, está tudo bem. — Helena garantiu.
Ally logo em seguida olhou para Amélia, aquele olhar sério e inquisitivo que fez Amélia entender que ela silenciosamente lhe direcionava a mesma pergunta.
— Estamos fisicamente bem. — sorriu fraco com a preocupação da ruiva e acenou positivamente com a cabeça, garantindo as próprias palavras.
— O Hernando te contou tudo? Ele contou o que fizeram com a garota? — Helena questionou de forma um pouco urgente enquanto se afastava um pouco.
— Calma, você não precisa se preocupar com nada, eu já resolvi tudo.
— Tudo? — Amélia questionou, só então percebendo que Alysson estava extremamente bem arrumada.
— Tudo. — garantiu enquanto indicava para Helena o local que antes ela estava sentada, indiretamente pedindo que ela voltasse a sentar. Então logo em seguida retirou os saltos que usava e o blazer que vestia e os deixou sobre o sofá antes de acomodar-se no chão junto com as mulheres, mas ficando de frente para as duas. — As garotas estão bem, todas, a que foi machucada ontem já está sob cuidados no hospital, não resistiria mais um dia, então mesmo que todo o caos dessa noite, vocês salvaram uma vida.
— Mas... Como? — Amélia tinha os olhos um pouco arregalados, sentia como se seu coração fosse sair do peito a qualquer momento.
Helena não estava diferente, sentia até mesmo o corpo mais fraco que o normal, como se não estivesse suportando mais nenhum peso.
— Desde o que aconteceu com a Helena, eu consegui todos os tipos de contato, desde os melhores advogados do país, até mesmo a polícia e principalmente muitos, muitos jornalistas. Entrei em contato com absolutamente todos e foi descoberto muito facilmente que já existia uma investigação em aberto sobre tráfico contra o marido da Seline e ela estava sendo indiretamente investigada, com as informações que receberam por causa de vocês, foi tudo muito rápido por que não queriam correr o risco de que se livrassem da garota machucada e claro não queriam que tudo saísse na mídia antes de agirem, então, há cerca de duas horas a polícia fez uma batida no lugar.
Nem Helena e nem Amélia souberam exatamente como reagir aquela notícia, Helena já tinha lágrimas escorrendo por seus olhos com um alívio que percorria todo o seu corpo.
— Com a ajuda da fundação de imigrantes e com a fundação de proteção a mulher, as quais você patrocina, nós conseguimos proteção para todas as garotas, sem exceção, assim todas começaram a contar todas as atrocidades que acontecia lá, sem medo e todas estão sendo assessoradas pelos advogados, absolutamente nada de ruim vai acontecer novamente com elas, além de proteção, elas a partir de agora tem abrigo garantido, estão no hospital fazendo exames e dando seus depoimentos.
Helena desabou, seu coração parecia prestes a rasgar seu peito de tão forte que batia, chorou, chorou de alívio e de culpa enquanto era amparada por Amélia e agora por Ally.
— Helena. — seu rosto fora seguro com firmeza pelas mãos de Ally e ela a olhou nos olhos antes de falar: — Você salvou todas aquelas garotas, sem você, sem os seus recursos, sem as suas doações e sem todo o conhecimento que graças a você, eu consegui, nada disso seria possível.
**
— Você conseguiu viver tudo isso em uma semana? — Samantha tinha o olhar um pouco surpreso enquanto encarava a sua paciente confortavelmente deitada no sofá logo a sua frente.
Helena sorriu, antes olhava fixamente para o teto, agora mantinha os olhos fixos na psicóloga.
— Consegui e não pensei nenhuma vez em desistir.
— Isso me deixa extremamente orgulhosa, sabia?
— Eu sei, eu também me sinto assim e já me peguei pensando algumas vezes nisso, é uma sensação indescritível, principalmente depois de saber que mesmo depois de todo o mal que fiz aquelas garotas...
— Indiretamente.
— Indiretamente, eu consegui me redimir de alguma forma.
— Você foi tão vítima quanto elas, Helena. Mas me conte, como elas estão?
— A garota que foi espancada está bem após a cirurgia, uma recuperação excelente, as outras estavam com algumas IST’s e problemas pequenos relacionados a saúde, todas foram muito bem cuidadas é claro, independente do dinheiro que isso me custou, eu realmente nunca me senti tão bem por ter tanto dinheiro... Para as que precisam, o visto americano está sendo providenciado, as outras que fugiram de casa e acabaram lá de alguma forma, estão sendo orientadas, serão remanejadas para empregos decentes, talvez até a faculdade comunitária, elas tem todo o direito de escolher a partir de agora.
Samantha sorriu de forma realmente orgulhosa ao ouvir tudo aquilo, ficara assustada quando Helena simplesmente começou a por para fora tudo o que havia vivido a alguns dias atrás no bar que frequentava, uma situação que levaria qualquer um ao fundo do poço, mas lá estava Helena, com um sorriso no rosto e cheia de orgulho e dessa vez dava para ver nitidamente que ela não estava fingindo.
— E o que aconteceu com a dona do bar?
— Presa, todas as garotas falaram tudo nos mínimos detalhes e isso rendeu a Seline uma dúzia de acusações ou mais, tráfico, prostituição, extorsão, cárcere privado dentre vários outros, não teve direito a fiança por que aparentemente teria meios de tentar fugir e também, ela não é réu primária, mas pelo que a Ally falou, ela vai fazer um acordo, diminuição de pena em troca de uma delação premiada, nomes grandes dos que aproveitavam o serviço do lugar.
— Que grande reviravolta... E você não sente nada?
— Em relação a ela?
— Sim, afinal, vocês duas tiveram algo, mesmo que tenha sido a um tempo.
— Só sinto satisfação por ela ter o que mereceu, nada além, nem mesmo decepção.
— E por que sentiria decepção?
— Por que sempre achei que ela era uma pessoa completamente diferente, mas já não me surpreendo mais em como as pessoas podem mudar.
Samantha apenas acenou positivamente com a cabeça enquanto pacientemente anotava algumas palavras em seu caderno de anotações.
— E a Amélia, como está com tudo isso?
— Ela se resolveu com a mãe, três dias depois daquele dia ela foi ver a Vera e as duas conversaram civilizadamente, a Vera se desculpou pelo que fez e por tudo o que estava pendente entre elas e a Amélia claramente também reconheceu que pegou pesado, então tudo voltou ao normal de certa forma.
— De certa forma?
— Sim, obviamente você conhece a Vera, ela não deixaria isso passar sem castigar os filhos.
Samantha deu uma pequena risada e acenou com a cabeça, lembrando de como Vera havia contado sobre toda aquela história em sua sessão a poucos dias.
— O Frederick foi para uma clínica de reabilitação, sem chance de recusa, onde vai ficar por 1 mês e a Amélia vai tomar o lugar dele como Chef no restaurante, também sem chance de recusa, me deixa preocupada por saber que ela vai trabalhar em dobro, mas ela aceitou sem reclamar, ela leva o legado daquele restaurante como a coisa mais importante da vida e sabe também que não fez o certo acobertando o vício do irmão, mesmo sabendo que ele era o maior errado dessa história.
— Você acha que ele é o mais errado?
— Não, acho que ninguém teve realmente culpa. O Fred não soube lidar com a dor de ser traído por quem amava e sabemos que isso não é algo incomum, todos já sentiram isso um dia e lidaram de formas diferentes que no fim acabam sendo iguais: terceirizando a dor achando que um dia vai passar.
— Isso é verdade, tenho outros pacientes que tem o mesmo problema, é bem mais comum do que imaginamos.
— Eu sei. Você já passou por isso?
— Claramente, minha querida, meu primeiro marido não sabia o que era fidelidade.
Helena sorriu mesmo que não fosse algo bom.
— Sinto muito por isso.
— Eu também sentia, até perceber que foi o que me moldou a ser quem sou hoje e também me fez conhecer meu segundo marido e amor da minha vida, ele era mais bonito e melhor de cama.
Helena gargalhou e olhou para Samantha com um sorriso largo nos lábios.
— Você evoluiu.
— Divinamente. — Samantha piscou para sua paciente, a qual tanto sentia apreço, a evolução que notava na mulher a deixava tremendamente feliz, não por saber que tinha participação nisso e sim por que realmente sentia-se genuinamente feliz por ver uma pessoa tão boa como Helena finalmente vivendo. — Voltando ao assunto das garotas resgatadas, você já foi ver elas?
— Não pretendo.
— Por que não?
Helena deu de ombros como se a resposta fosse óbvia. Samantha insistiu:
— Por que não?
— Por medo, eu acho. Me deixa extremamente ansiosa pensar em enfrentar isso, eu contribuí de certa forma com tudo o que elas passaram.
— Assim como foi a principal responsável por salvar elas.
— Após tudo, era no mínimo a minha obrigação.
— Não, não era, você o fez por que é uma pessoa boa. Você tem medo que elas tenham raiva de você?
— Elas não tem, a Ally já me falou, aparentemente socar a cara da Seline fez mais efeito do que o imaginado... Mas eu acho que eu já fiz minha parte e isso deve ser encerrado assim, eu estou bem dessa forma.
— Está realmente bem?
— Sim. Eu sei que a Ally está cuidando de tudo e eu confio na Ally a minha vida, então ela lá, é como se eu estivesse, ela sempre me atualiza os mínimos detalhes.
Samantha apenas acenou positivamente com a cabeça enquanto fazia as suas anotações com calma, demorou até alguns segundos, algo que não incomodava Helena nem um pouco, ela apenas aguardava pacientemente que sua psicóloga finalizasse para seguir guiando a consulta.
— Então, vamos deixar o passado um pouco de lado, o que temos para o futuro?
— Muitas coisas. A exposição anual de Artes está se aproximando e como já te falei, eu serei a homenageada.
— Sim, eu me recordo, está ansiosa?
— Um pouco, sim... Eu ainda não falei para a Amélia e quero levar ela comigo, como minha namorada e isso significaria uma exposição gigante, não sei como ela se sentiria com isso.
— Tem certeza que não é você que está com medo?
— Sinceramente? Não. — Helena deu uma pequena risada. — Vai ser um imenso prazer posar para fotos ao lado daquela mulher maravilhosa e ver em todas as revistas e jornais que sair, que ela é minha namorada.
De fato, o evento Anual de Artes era um dos eventos mais importantes naquele meio, reunia uma vastidão de Artistas plásticos e era o lugar que também dava a oportunidade de visibilidade para uma dezena de artistas em ascensão. As notícias corriam por todo o país, saía em jornais, em revistas e com certeza Helena estaria estampada em todas elas a julgar que era a homenageada daquele ano em questão, era algo tão popular que as revistas eram consumidas pelo país, talvez por todo mundo, mas com certeza, até em algumas prisões.
**
Na semana seguinte, mais precisamente na terça feira pela manhã, Helena caminhava calmamente pelas ruas de Boston, tinha como destino a empresa de sua namorada, já não se viam há alguns dias já que a rotina de Amélia ficara extremamente corrida desde que começara a trabalhar também no restaurante diariamente e a de Helena também não estava tão diferente com a aproximação do grande evento onde seria homenageada.
— Ei, Rose! — Helena chamou atenção da secretária e amiga de Hernando e Amélia assim que saiu do elevador parado no andar onde sua namorada trabalhava.
— Helena! — Rose imediatamente ergueu-se e saiu de trás do balcão para poder encontrar a Mexicana, a saudou com um abraço caloroso. — Que maravilha te ver! Foi incrível, mas não muito surpreendente quando você e a Mia finalmente oficializaram o namoro.
Helena riu enquanto se afastava um pouco da mulher, manteve o sorriso largo nos lábios.
— Acredite, foi uma surpresa até para nós duas. Como você está? A Amélia está te tratando bem?
— Ela e o Hernando são chefes impecáveis, eles estão em reunião agora, todo mês eles fazem uma reunião com todos os acionistas para debater melhorias. — Rose indicou com um aceno de cabeça a grande sala de reuniões onde os vidros eram transparentes e Helena pode ver com clareza os olhos de Amélia em si, sua namorada estava confortavelmente sentada em uma das poltronas rente a mesa, acompanhada de Hernando sentado a sua frente e dois outros homens que Helena imaginava serem os engenheiros que trabalhavam em conjunto com eles.
Amélia sorriu no momento em que seus olhos finalmente se encontraram com o de Helena, sentiu aquele calor no peito que sempre sentia quando via a sua garota e em seguida desviou o olhar para voltar a focar na reunião que já se encaminhava para o seu fim.
— Então, mais alguma coisa a adicionar? — Hernando questionou a todos naquele tom estritamente profissional.
— Eu tenho. — respondeu pouco antes de ajeitar a própria postura, então abriu uma pasta que tinha logo a frente. — Recentemente nós recebemos críticas quanto o nosso estacionamento e sinceramente isso também sempre me incomodou, o nosso estacionamento é a primeira coisa que nossos clientes veem ao chegar aqui e quando eles chegam tudo o que veem são paredes acinzentadas e sem vida, dito isto... — fez uma pequena pausa e estendeu para Hernando uma folha impressa, fez o mesmo para os dois outros homens. — Essa é a Helena Muñoz, uma artista plástica extremamente conhecida e muito renomada.
— Renomada até demais, nós não estamos no patamar de alguém tão famoso. — um dos homens falou como se isso fosse óbvio enquanto encarava a folha que havia recebido, nela além de uma foto de Helena havia uma pequena descrição sobre quem ela era e sobre todos os prêmios que ela havia recebido, basicamente demonstrava todo o poder de Helena no mundo da arte. — Onde quer chegar com isso?
— A Helena ofereceu pessoalmente os seus serviços para dar outra vida a maior parede da nossa garagem. — Mia respondeu e deu um sorriso satisfeito, mas satisfeito ainda por que estava transbordando de orgulho da namorada.
— Ter uma arte tão grande de alguém tão famoso quanto a Helena aqui iria alavancar e muito nossos negócios. — Hernando acenou positivamente com a cabeça enquanto lia mais uma vez todo o conteúdo da folha em sua mão, apesar de conhecer Helena muito bem, nem sempre ele conseguia relacionar Helena a artista plástica tão famosa que ela era, era realmente incrível.
— E como diabos pagaríamos por isso? Ela é incrível, de fato, eu já ouvi falar sobre ela através de alguns clientes e vocês sabem que mal fico por dentro dessas coisas, minha questão é estrutural e não arte e decoração — Devon, um dos sócios falou como se isso fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Esqueci do detalhe mais importante. — Amélia mentiu descaradamente enquanto erguia-se de onde estava. — Ela é minha namorada. — declarou e deu um sorriso orgulhoso antes de dar meia volta e ir até a porta da sala de reuniões.
— Ta de brincadeira?! — ouviu em suas costas, mas nem deu ouvidos.
— Não me atrasei, não é? — Helena questionou enquanto caminhava em direção a porta da sala quando viu Mia surgir nela a sua procura.
— De forma alguma, você chegou na hora certa, vem! — Amélia sorriu ainda mais e deu espaço para que sua namorada passasse pela porta, quis abraça-la e beija-la ali mesmo no segundo em que sentiu o seu cheiro. — Pessoal, essa é a Helena Muñoz, artista plástica e por alguma sorte que eu nem imaginei que tinha, minha namorada.
Helena riu junto com todos enquanto era guiada por Mia para a cadeira onde antes Mia estava sentada.
— É um imenso prazer conhecer você, Helena. Eu sou Devon, seu currículo é realmente incrível. — o homem fez questão de levantar-se para apertar a mão de Helena de forma calorosa.
— Que gentileza sua, Devon. O prazer é todo meu. — sorriu com simpatia para o homem de poucos cabelos e corpo robusto.
— Andrew. Me sinto honrado em conhecer alguém tão talentoso. — o outro homem também se apresentou com pleno respeito e um sorriso nos lábios enquanto apertava a mão de Helena.
— Assim me deixarão envergonhada. — reclamou em tom de brincadeira e então cumprimentou Hernando com carinho em um breve abraço antes de sentar-se, cumprimentaria a namorada depois de forma muito mais calorosa quando estivessem na sala dela.
— Então, o que me dizem? — Amélia questionou enquanto caminhava para uma das cadeiras livres.
— Seria uma verdadeira honra ter uma arte sua na nossa empresa, Srta. Muñoz. Mas dado a extensão da sua carreira e do tamanho que seria a arte, eu imagino que o valor seria exorbitante. — Devon tomou a frente mais uma vez, era o que mais se preocupava com dinheiro sempre.
— Pode me chamar só de Helena, por favor. — o corrigiu com calma e sorriu para passar-lhe segurança antes de continuar: — Devon, eu adoro o trabalho desta empresa, o Hernando foi o responsável pelo projeto da minha galeria, além disso é um amigo incrível e a Amélia como minha namorada e sendo uma profissional incrível, me faz ter vontade de fazer isso para vocês sem cobrar nada além do valor dos materiais.
A verdade era que Helena não queria cobrar absolutamente nada, mas isso gerou um caloroso debate por telefone que durou quase 1 hora no dia anterior, Amélia simplesmente se recusava a aceitar que Helena trabalhasse de graça e Helena se recusava a aceitar dinheiro da própria namorada, no fim acabaram entrando em um consenso de que a empresa poderia bancar os materiais e isso seria o suficiente.
— Eu realmente não tenho pretensão alguma de cobrar nada de alguém que eu amo. — olhou para a namorada e piscou para ela de forma cúmplice.
Aquela reunião não durou muito mais do que alguns minutos após a conclusão final de que Helena teria toda a liberdade para fazer sua arte na garagem daquele lugar, assim cada um se despediu calorosamente, todos claramente muito animados com a ideia de ter uma pintura exclusiva de uma artista plástica conhecida como Helena era.
— Finalmente. — Amélia falou no momento em que entrou em sua sala acompanhada de Helena, mal fechou a porta e já foi puxando a namorada para pertinho, abraçando-a pela cintura com carinho.
Helena riu enquanto retribuía o abraço de forma calorosa, havia se segurado e muito para não fazer aquilo no momento em que viu sua morena.
— Que saudade eu estava. — Helena confessou em meio aos beijos estalados que dava nos lábios da namorada.
— Felizmente vou poder te ver muito mais quando você começar. — Mia sorriu com plena satisfação contra a boca de sua garota, referindo-se é claro ao dia que Helena começaria a trabalhar nas paredes da garagem.
— Eu estou contando com isso. — Helena riu mais uma vez antes de beijar Amélia, mas não com selinhos, desta vez a beijou de verdade, um daqueles beijos lentos e carregados de saudade a fim de sanar a falta que sentia do gosto daquela boca. — Você não pode fugir hoje não é? — questionou contra a boca da namorada, se recusando a se afastar.
— Não. — Amélia choramingou e se afastou um pouquinho para encarar Helena e então fez um bico repleto de manha.
Helena sorriu e inclinou-se só um pouco para dar repetidos beijos em seu rosto e então se afastou, mas no caminho segurou a mão de Amélia e fora a puxando, a guiando em direção ao sofá.
— Vem, você pode disfarçar a vontade com maquiagem, mas sua namorada consegue perceber facilmente a expressão cansada. — pontuou enquanto sentava-se no sofá e indicava o espaço vazio ao lado. — Deita.
Amélia rolou os olhos de forma exagerada, mas obviamente não negou, jamais negaria, tanto que no segundo seguinte estava deitando-se no sofá e apoiando confortavelmente a cabeça sobre as coxas de Helena, seu corpo inteiro relaxou no instante em que a mão de Helena espalmou-se em sua face e pode sentir o calor gostoso que a fez fechar os olhos e suspirar.
— Estou preocupada com você.
— Eu sei, mas está tudo bem. Eu tenho ficado até tarde adiantando os trabalhos daqui para que eu possa ficar mais folgada e assim posso passar o resto do dia no restaurante, isso vai acabar logo.
— É o que eu espero, o restaurante está roubado você de mim e por mais que eu saiba que você morreria ou mataria por aquele restaurante, estou com ciúmes.
Amélia deu uma boa risada com a brincadeira da namorada e então abriu os olhos para encará-la, o sorriso ainda largo em sua face.
— Realmente, aquele restaurante é a coisa mais importante da minha vida, da Mamma e do Fred também, é a nossa lembrança viva do Pappa, é por isso que eu não me importo em trabalhar dobrado.
Helena sorriu com carinho enquanto a encarava, seus dedos carinhosamente deslizando sobre a pele macia de sua morena, mapeando cada cantinho mais uma vez, matando a saudade que sentia.
— E o Fred, como está?
— Ele está bem, meio a contragosto, mas ele sabe que é o melhor pra ele.
Helena sorriu ao ouvir a resposta e então respirou um pouco fundo antes de falar:
— Tem uma coisa que eu queria falar com você.
— Muito séria? — Amélia questionou enquanto abria os olhos mais uma vez, agora um pouco alarmada.
Helena deu de ombros.
— Depende do ponto de vista.
Amélia fez menção de que iria se levantar, mas Helena mais do que imediatamente a impediu.
— Não tão sério assim, pode ficar ai. — Helena reclamou e deu uma pequena risada antes de falar. — Daqui a menos de um mês vai acontecer o Evento Anual de Artes, que basicamente é um dos maiores eventos de artes do país, reunindo uma variedade enorme de artistas e também é onde novos artistas são escolhidos para divulgar sua arte.
— Ok... E você vai?
Helena concordou com um aceno de cabeça.
— E queria que você fosse comigo.
— Mas é obvio que eu vou com você, amor, mas eu não estou entendendo a seriedade do assunto.
— Então, todos os anos tem um artista homenageado que vira basicamente a estrela do evento...
Amélia sentou-se de uma vez, dessa vez Helena não havia sido rápida o suficiente para impedi-la.
— Não vai me dizer que você é a homenageada esse ano, vai?
Helena fez uma expressão de culpa e Amélia ergueu-se do sofá de forma quase afobada e olhou para Helena com o cenho franzido.
— E você está me contando isso faltando menos de um mês??? A quanto tempo você sabe??
Helena respirou um pouco fundo antes de dar de ombros, cruzou as pernas de forma um pouco desconfortável antes de responder, por que sabia que Amélia ficaria brava.
— A bem mais tempo do que imagina.
— Helena! Pelo amor de Deus, por que não me contou isso antes?
Helena semicerrou os lábios, de fato não saberia responder aquela pergunta, por isso apenas olhou para Amélia em silêncio, ficou alguns segundos em assim antes de falar:
— Acho que tinha coisas mais importantes acontecendo.
— Mais importante do que você sendo homenageada pelo maior evento de artes do País? Isso não é justificativa. Isso é algo grandioso, Helena, você nem imagina como me deixa feliz, isso é uma notícia que deveria ser comemorada, eu deveria te encher de flores, te enaltecer como a artista foda que você é.
Helena baixou os olhos, sem graça por saber que Amélia estava indignada por não poder ter comemorado uma conquista que nem era dela, seu coração saltou dentro de seu peito, acelerado a ponto de deixa-la um pouco nervosa.
— Isso não é necessário.
— Isso é completamente necessário, é uma conquista enorme na sua vida, me enche de orgulho, você precisa se orgulhar mais das próprias conquistas, você não me conta nada sobre o seu trabalho, você não se orgulha do que faz?
— É claro que eu me orgulho, eu amo o que eu faço.
— Então porque nós nunca falamos sobre?
Helena abriu a boca para responder, mas não viera palavra algum por que ela não tinha resposta para isso, na sua mente de imediato viera que não era algo importante e foi assim que percebeu o quão errado aquilo era. Amélia estava certa, a única coisa que ela sabia era que Helena era uma artista plástica renomada que pintava quadros ousados e tinha uma história complexa, algumas outras coisas havia descoberto somente por outras pessoas.
Amélia respirou um pouco fundo e acenou positivamente com a cabeça, entendendo mais do que imediatamente que Helena tinha problemas a serem resolvidos sobre aquilo, voltou para o sofá onde sentou-se confortavelmente e encarou a namorada com certa seriedade.
— Me conte tudo, eu não quero chegar lá e descobrir por outros coisas sobre você.
Helena concordou com um aceno de cabeça de forma quase imediata antes de começar:
— Eu mensalmente faço doações para fundações que apoiam a arte, normalmente para três, uma fundação que acolhe crianças com deficiência que amam pintura e tem muito talento, mas que são esnobados por causa da deficiência que eles tem. Existe outra que promove grandes eventos em hospitais de câncer, onde as crianças se divertem pintando, desenhando e criando esculturas e já conseguiram até vender algumas, também tem a fundação de auxílio a iniciantes ou artistas de rua, ajudam dando condições humanas para que eles vivam e possam expressar livremente a sua arte, de lá já saíram uma variedade de artistas que agora são famosos. — Helena respirou um pouco fundo ao fazer uma pequena pausa, olhava para baixo, pensando bem em cada palavra que dizia para que não deixasse nada escapar. — Também ajudo a fundação que auxilia os imigrantes, mas essa você já conhece, além dela também a de ajuda contra a violência contra a mulher e o feminicídio, eu acompanho sempre o resultado de tudo, eles enviam mensalmente para a Ally, mas não me envolvo diretamente.
— Por que não?
Helena deu de ombros.
— Não queria aparecer, mesmo que as doações não sejam sigilosas, todos sabem.
Amélia acenou de forma positiva com a cabeça antes de questionar:
— O que mais?
— Eu também ajudo com o fundo de auxílio a bolsistas, que basicamente distribui bolsas de estudo para a universidade de artes para os que realmente precisam.
— Como diabos você nunca me contou tudo isso?
Helena deu de ombros mais uma vez e Amélia com certeza entendeu que não teria resposta para isso, não tão facilmente.
— Não me surpreende nem um pouco que você vai ser a homenageada, além de ser absolutamente incrível no que faz, ainda é um grande pilar de ajuda para tantas pessoas.
— O que eu mais queria quando comecei, era ajuda e apoio, eu não quero que mais pessoas talentosas precisem e não tenham... Além do mais, você vai conhecer quatro pessoas que eu ajudei diretamente e que estarão usando o evento para lançar suas carreiras profissionalmente... O Umut, é um turco que eu conheci no parque e tentava ganhar a vida fazendo pinturas abstratas no parte, ele pintava na frente de todos, eu achei incrível e o patrocinei diretamente para que ele crescesse, a Ava é uma jovem de vinte e tantos anos meio rebelde que faz pichações incríveis, é um talento bruto que tem muito futuro pela frente, o Kai é um senhor extremamente calmo que faz esculturas de argila extremamente realistas, encontrei ele em uma feira cultural onde ele esculpia o rosto das pessoas ao vivo em minutos em troca de alguns trocados e tem a Nina, é uma senhora já de certa idade, é fotógrafa, a conheci através do Kai, ela é muito delicada, conta que captura o mundo em fotos desde que tinha apenas dez anos, ela faz um trabalho lindo só por hobbie, mas eu a convenci de que é um talento que merece ser mostrado ao mundo.
Amélia olhava para Helena de forma completamente admirada, um sorriso nos lábios e a certeza de que aquela homenagem era tão merecida que já deveria ter ocorrido a muito tempo. Já achava Helena uma mulher verdadeiramente incrível e a amava demais por isso, mas agora parecia que ela estava em um patamar ainda maior, sentia-se a mulher mais sortuda do mundo por namorar Helena.
E sua felicidade fora tanta que no dia seguinte quando Helena chegou em sua galeria para trabalhar como um dia normal, tudo o que encontrou fora uma centena de buquê de flores espalhados por todo lugar e um único bilhete escrito: “Nem todas essas flores são o suficiente para enaltecer a mulher incrível que você é. Eu sou puro orgulho de você, eu te amo.”
Fim do capítulo
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