34 por Luciane Ribeiro
Paz
Depois do cartório, levei Eve para a Casa Verde, onde daria início à fisioterapia. Liguei para o trabalho e pedi uma licença. O doutor Alberto sequer perguntou o motivo; em todos aqueles anos trabalhando para ele, eu nunca havia tirado férias. Em seguida, liguei para Erika e pedi que me cobrisse nas aulas de Dandara. Ela disse para eu não me preocupar, pois as duas estavam estudando e se divertindo muito no projeto de cooperação com o Isabel Montelo. Embora curiosa, não fez perguntas. Essa era uma das coisas que eu mais gostava nela: Erika sempre me dava espaço para falar - ou não - sobre o que me acontecia.
Em vez de trabalhar, passei o dia preparando todos os detalhes da surpresa que faria depois da cerimônia de casamento, organizada por minha sobrinha e Valéria.
Enquanto experimentava meu vestido, percebi que não haveria convidados da minha parte. Ainda assim, por mais que eu não tivesse pais, eu tinha família. Peguei o telefone e liguei para Heitor. Queria muito que ele estivesse presente quando Eve e eu nos casássemos.
- Heitor, vou me casar hoje à noite.
- Hoje? Pensei que vocês esperariam alguns meses. Tem certeza de que é isso que você quer?
- Tenho. Vai estar ao meu lado?
- Sempre, Helena. Me mande a localização e o horário. Jaque, Miguel e eu estaremos lá.
Para minha surpresa, ao chegar ao local da cerimônia, encontrei não apenas a família de Eve e Heitor, mas também Isaías, meu irmão mais velho, e sua esposa. Ao perceber minha expressão, Heitor se aproximou.
- Desculpa não ter avisado. Ele pediu que eu não contasse. Tinha medo de que você não permitisse a presença dele aqui.
- Por que ele está aqui? Veio estragar esse momento?
- Se fosse isso, eu não teria permitido. Converse com ele, Hel. Dê uma chance.
- Depois da cerimônia - respondi.
Jaqueline assumiu naturalmente o papel de irmã e mãe ao meu lado. Eu estava nervosa, ansiosa. Não tinha visto Eve desde que a deixei na Casa Verde e não fazia ideia de como ela estaria vestida. Não sabia se teria escolhido um vestido como o meu ou se me surpreenderia com um terno. Seja qual fosse sua escolha, eu tinha certeza de que estaria maravilhosa.
Às seis horas em ponto, Valéria pediu que eu me encaminhasse para a sala onde um juiz de paz nos aguardava. Ele era um antigo amigo dela e realizaria a cerimônia, que seria oficialmente assinada um mês depois.
Ao entrar na sala, fiquei encantada com a decoração. Rosas e lírios brancos e amarelos combinavam perfeitamente com o meu buquê. Heitor se posicionou ao meu lado e segurou minha mão sem que eu precisasse pedir.
Meu coração se apertou e, ao mesmo tempo, quase explodiu de amor ao ver Eve entrar ao lado do pai, pelo lado esquerdo. Ela estava linda em um terno perfeitamente ajustado ao corpo, os cabelos soltos e All Star nos pés. Confesso que já a havia imaginado assim algumas vezes. A parte mais ousada de mim quis sair correndo e levá-la para o quarto, mas aquele ainda não era o momento. Logo. Logo ela estaria em meus braços.
Meu sogro apertou a mão de Heitor como faria com meu pai. Em seguida, me abraçou e beijou minha testa em sinal de aprovação, acolhimento e respeito.
Heitor segurou a mão de Eve e disse:
- Vocês foram apressadas, mas às vezes a vida exige ousadia. Desejo sinceramente que a história que vocês começam a escrever hoje apague todo o passado ruim e que sejam mais felizes do que jamais sonharam.
- Obrigada, cunhado - Eve respondeu.
Ela soltou o braço do pai e segurou minha mão. Ficamos ali, de mãos dadas, diante do juiz. Tudo durou poucos minutos, mas tudo mudou.
Embora não fosse necessário, fiz questão de dizer meus votos.
Eu não quero ficar com você.
Eu preciso.
Preciso te ver dormindo com o cabelo bagunçado, com esses seus cachinhos cor de fogo cobrindo o rosto. Preciso ouvir sua voz dengosa quando acorda e pede achocolatado com biscoito. Preciso sentir seus braços envolvendo minha cintura enquanto tento me arrumar para trabalhar. Preciso que me chame de amor.
Eu preciso de você todos os dias e todas as horas.
Eu quero você todos os dias e todas as horas.
Se ainda não ficou claro: eu te amo.
Por hoje e para sempre.
Eve respirou fundo antes de falar.
- Eu te amo, Helena. Não preparei um discurso, mas pode ter certeza de que tudo dentro de mim sempre quis - e sempre vai querer - estar perto de você. Te amando, te cuidando e te respeitando. Desejo a nós um infinito de amor e felicidade. Que o nosso amor fique mais forte a cada dia. Obrigada por não desistir de mim. Obrigada por todas as vezes em que sua mão segurou a minha.
Trocamos nossas alianças, que ela própria havia escolhido. A cerimônia se encerrou com o beijo que eu tanto aguardava. O beijo que me fez perceber que eu seria dela desde a primeira vez que nos beijamos.
Em seguida, os poucos e íntimos convidados foram encaminhados para outro espaço, onde o tom solene da cerimônia deu lugar à alegria descontraída de um boteco.
Antes de ir, Isaías e eu fomos conversar.
- Oi, Hel.
- Por que você está aqui?
- Eu entendo sua reação. Apesar de ser o mais velho, permiti todos os absurdos dos nossos pais contra você... e contra a Letícia.
Ele respirou fundo.
- Você provavelmente não sabe, mas me tornei pai há algumas semanas.
Eu o encarei em silêncio.
- Dei à minha filha o nome de alguém que me mostrou o que é ser fiel a si própria, mesmo quando tudo ao redor é contra. Mas mudei de ideia. O nome dela será Letícia. Não como luto, mas como renascimento e cura. Uma criança sempre traz alegria e esperança.
Aquela revelação desarmou minhas defesas e, antes que eu percebesse, estava dentro de um abraço estranho, desajeitado, mas sincero. Eve entrou na sala enquanto ainda nos abraçávamos. Não disse nada, mas vi em seu olhar uma aprovação tranquila, uma alegria silenciosa.
Mais tarde, quando estávamos sozinhas, Eve me envolveu em seus braços e sussurrou:
- Você nunca mais estará sozinha de novo, meu amor.
Durante a festa, percebi que Isaías realmente estava diferente. Sempre contido e silencioso, agora ria alto, xingava ao falar de futebol e tomava algumas cervejas. Notei a proximidade antes quase inexistente entre ele e Heitor surgir, assim como a amizade dos dois com meu cunhado Artur, unida pelo amor ao Flamengo.
Nossas famílias estavam se integrando de um jeito suave e natural, algo que eu jamais havia sonhado. Enquanto isso, eu me derretia toda vez que minha, agora esposa, sorria para mim.
Em determinado momento, ela pediu que eu a ajudasse no banheiro. Ali, longe dos outros olhares, mostrou que estava tão ansiosa quanto eu para que estivéssemos, enfim, a sós.
Antes da cerimônia, eu havia ligado para minha sogra, avisando que levaria Eve em uma viagem surpresa de lua de mel. Pedi que ela separasse algumas roupas, e ela fez isso rapidamente. Quando cheguei em casa, as malas já estavam prontas.
Quando o último convidado foi embora, entramos no carro. Comecei a dirigir, e Eve logo percebeu que não estávamos indo para casa.
- Para onde você está me levando, esposa?
Não consegui evitar o sorriso.
- Estou te sequestrando.
- E se eu me apaixonar pela sequestradora e nunca mais quiser voltar?
- Encontrarei um cativeiro bonito e confortável para te manter.
- Vai me amarrar e me manter presa? Posso acabar gostando disso.
Ela sorriu de um jeito malicioso e provocante que me desconcertou completamente. Voltei a atenção para o volante.
A viagem foi tranquila, com algumas paradas rápidas para fotos em lugares atrativos e para lanches. Minha esposa era uma grande comilona, e os lanches que levei acabaram rápido demais.
Quando Eve começou a sentir a maresia, seus olhos brilharam, e pude sentir a leveza que aquilo trouxe a ela. Já fazia bastante tempo que eu não visitava aquele lugar e, pela primeira vez, eu estava realmente feliz em estar ali.
- De quem é essa casa, amor? - ela perguntou, quando estacionei.
- É nossa.
- Quando você comprou uma casa?
- Na verdade, comprei com o dinheiro do meu primeiro prêmio neurocientífico.
- Você não é alguém que gosta de sol, praia e areia. Por que comprou uma casa na praia?
- Porque minhas memórias mais felizes da infância são em uma praia. Vamos entrar.
Entramos, e ela ficou maravilhada com os cômodos amplos e arejados, o piso de madeira escura combinando com os móveis e as portas.
- A casa é linda!
- Espere até ver o jardim.
Levei-a pela porta da cozinha até o jardim, que parecia brilhar com as cores das flores sempre-vivas, a grama verde e, além dele, as areias brancas e o mar sereno de Búzios.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
- Acho que não vou mesmo querer ir embora.
E ali eu soube: aquela casa não era apenas um lugar. Era um recomeço. Um espaço onde o passado já não doía tanto e onde o futuro, finalmente, parecia possível.
Depois de acomodar nossas malas, deixei Eve dormindo e fui ao supermercado fazer nossas compras. Andando pelos corredores, tive a estranha sensação de estar sendo seguida, como se alguém estivesse sempre a poucos passos de mim. Olhei algumas vezes por cima do ombro, mas não vi nada que confirmasse aquele pressentimento. Concluí que era apenas paranoia, resultado do cansaço acumulado dos últimos dias.
Eu precisava dormir. Caso contrário, estaria exausta e não conseguiria aproveitar a surpresa que havia preparado para Eve naquela noite.
Quando cheguei em casa, ela ainda dormia profundamente. Tomei um banho rápido e me deitei ao seu lado, sentindo o corpo relaxar aos poucos.
- Onde você foi, amor? - murmurou, ainda sonolenta.
- Ao supermercado.
- Devia ter me chamado para te ajudar. Não devia ter ido sozinha.
- Está tudo bem. Não fiz uma compra muito grande.
- Está bem...
Ela se aproximou mais e me abraçou. O calor daquele gesto simples foi suficiente para apagar qualquer resquício de inquietação. Dormi rapidamente.
Quando acordei, Eve não estava na cama. O quarto estava silencioso demais. Me levantei e fui procurá-la pela casa. Encontrei-a na cozinha, preparando nosso café da manhã.
A cadeira de rodas deixada de lado me trazia uma grande sensação de alívio e felicidade. Suas pernas estavam mais fortes a cada dia, e ela conseguia permanecer de pé por cada vez mais tempo.
- Eu adorei esse banco - disse, sorrindo. - Consigo usar o balcão sentada sem nenhum problema.
- O cheiro do café está ótimo - comentei. - Posso me servir de uma xícara, chef?
- Claro. Mas só depois de beijar a sua esposa. Vem, amor... acordei carente.
Me aproximei. Eve colocou os braços sobre meus ombros e me puxou para perto. Apoiei a mão em seu rosto e beijei sua boca de forma leve, demorada, sentindo o sorriso que ela tentou esconder entre um beijo e outro.
Deixei o beijo se aprofundar um pouco mais, sem pressa. Não havia urgência ali, apenas vontade. Eve encostou a testa na minha e fechou os olhos por um instante, respirando comigo, como se estivesse reaprendendo o ritmo do próprio corpo.
- Gosto quando você me beija assim - disse em voz baixa. - Como se o tempo tivesse parado só pra nós.
Passei o polegar devagar por sua mandíbula, sentindo a pele quente, viva. A força que voltava às suas pernas parecia ecoar em tudo: no jeito como se apoiava em mim, na segurança com que me puxava para mais perto, na leve ousadia do sorriso.
- Eu gosto de ver você assim - respondi. - Inteira. Aqui.
Ela riu de leve e me beijou de novo, agora com um pouco mais de fome, mas ainda com cuidado. O café ficou esquecido no fogão. A manhã também. Só existia o contato, o cheiro dela misturado ao do café, a luz clara entrando pela janela e desenhando sombras no chão de madeira.
Eve deslizou as mãos pelas minhas costas e me abraçou com força.
_Finalmente estamos juntas...
Assenti sem dizer nada. Algumas verdades não precisam de palavras.
Ficamos ali por mais um tempo, encostadas no balcão da cozinha, trocando beijos calmos, risos baixos e silêncios confortáveis. Não era apenas desejo. Era intimidade. Era casa.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
HelOliveira
Em: 21/12/2025
Que lindo, finalmente casadas e em lua de mel....
Alguém pode seguindo Helena, isso já preocupa
[Faça o login para poder comentar]
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:
[Faça o login para poder comentar]