Capitulo 14
14 - Uma cliente
Capítulo quatorze
ESTHER MOTTA
A primeira noite no Canto Vega foi maravilhosa, o restaurante em São Paulo era igualmente charmoso, pareciam o mesmo prédio que eu trabalhava em Curitiba, a cozinha tinha a mesma estrutura, o cardápio contava com praticamente todos os pratos que eu já era habituada a preparar e eu teria liberdade de inserir novos futuramente.
Sorri olhando para o local que não demorou a encher de pessoas, me sentia em casa novamente.
Fui conversar com um casal jovem que me chamou para pedir uma sugestão para acompanhamento.
-- Essa salada colorida de macarrão parece ótima. -- A moça apontou para a foto no cardápio.
-- Realmente, é feita com macarrão integral cozido com um toque de azeite e tomates cereja co-com… -- Gaguejei naquele momento ao ver a figura que entrava pela porta da frente.
Que pesadelo.
-- Com cenoura e castanhas do Pará. -- Completei anotando o pedido do casal e indo até a cozinha preparar o prato e fugir daquela figura.
Alguns minutos depois Rhuan, um dos ajudantes de cozinha abriu a porta.
-- Esther. -- A Mirian disse que tem uma mulher ali na mesa quer que você recomende algo para ela. -- Me aproximei dele que apontou para Carolina. -- Aquela ali.
Tinha que ser brincadeira.
Olhei para Carolina que vestia uma camisa branca simples e uma saia de couro exibindo um par de pernas hipnotizante. Seus cabelos castanho-escuros estavam levemente ondulados e exibiam um reflexo avermelhado sob a luz do salão.
-- Esther? Você vai lá? -- Rhuan insistiu e eu me voltei para ele assustada.
-- Sim! Claro…
-- Gata né? -- Ele falou rindo e eu corei imediatamente, provavelmente eu estava olhando demais. Ajeitei os óculos desconcertada.
-- Nem reparei. -- Resmunguei e sai indo em direção a mesa em que ela estava sentada.
-- Boa noite. -- Falei parando em sua frente e ela se recostou na cadeira e abriu aquele sorriso.
Engoli em seco, minhas pernas bambearam com aquele sorriso. Que ódio senti do meu corpo naquele momento.
-- Boa noite Esther… E então?
Respirei fundo e peguei o cardápio. Ela não ia bagunçar minha cabeça daquela vez. Ela era só uma cliente ali.
-- Você… Tem alguma preferência? -- Perguntei com os olhos no menu e me senti altamente avaliada sob aquele olhar.
Não podia perder o controle ali.
-- Não… Só me recomende algo. -- Deu de ombros. Como eu imaginava, ela estava ali única e exclusivamente para me irritar.
Recomendo que você suma daqui. Pensei..
Suspirei aborrecida, o que eu ia recomendar? Em anos de namoro eu podia contar nos dedos as vezes que vi Carol colocar algo verde na boca.
Quando o prato que ela havia pedido chegou, eu não resisti, tive que ficar observando de longe. Não conseguia imaginá-la comendo nada vegano, mas como boa cliente ela consumiu, tratou a garçonete com cordialidade (talvez até um pouco demais), pagou a conta e foi embora.
Ao menos eu pensei que tivesse ido embora.
Eram 00h30 quando saí depois de fechar o local, parei em frente a porta e peguei meu celular para pedir um Uber.
-- Você tem noção do quanto é perigosa essa rua a essa hora? -- Ouvi sua voz e suspirei aborrecida.
-- A julgar pelo tipo de pessoa que circula por aqui. -- Olhei para ela e voltei para a tela do celular. -- Eu posso imaginar.
Ela arqueou as sobrancelhas e começou a rir. Eu franzi a testa, não era uma piada.
Mas foi inevitável não lembrar há quanto tempo eu não ouvia aquela risada.
6 anos atrás.
-- Amor, vem me ajudar aqui. -- Ouvi Carolina me chamando.
-- Meu Deus! Nem uma pipoca de microondas você faz sozinha, garota? -- Falei rindo.
-- Estou com medo de explodir. -- Ela tinha o olhar fixo no microondas e eu me abaixei para ver.
-- É assim mesmo Carol. -- Falei vendo o pacote inchar e olhando para o temporizador. -- Sabe o que dá pra fazer nesses três minutos? -- Perguntei tocando seus lábios.
-- Chocolate-quente? -- Ela perguntou e eu me afastei revirando os olhos. -- Ai Carol. -- Fui até o armário pegar uma caneca para esquentar água. -- Que corta clima. -- Resmunguei enquanto ela ria.
Respirei fundo e voltei à realidade. Carolina ainda estava parada à minha frente, embora já não estivesse mais rindo. Agora me olhava como se me analisasse profundamente.
Passei a mão nos cabelos e olhei para a tela do meu celular, não tinha nenhum carro disponível. -- Que droga. -- Resmunguei.
-- Quer uma carona?
-- Não.
-- Tem certeza?
-- Sim.
Ela se aproximou e eu prendi a respiração, me sentia mal por gostar tanto daquele cheiro.
Era o perfume, obviamente. Eu adoro perfumes cítricos.
-- Esther… Por que você foi embora? -- Seu tom era baixo e suave.
Ergui o olhar para encará-la, é sério que ela estava fazendo aquela pergunta? Aparentemente os anos não lhe trouxeram bom-senso.
-- Por que precisava ficar longe de você. -- Certo, eu estava omitindo um pequeno detalhe, um pequeno detalhe que hoje tinha um metro e cinco centímetros de altura.
-- Sou tão irresistível assim? -- Ela perguntou jogando os cabelos castanho-escuros para trás e dessa vez fui em quem ri.
De nervoso, obviamente.
-- Não, você não é. -- Falei firme.
Ou pelo menos tentei.
-- Por que não chama sua noiva pra te buscar?
Fechei os olhos desanimada. O que eu poderia responder?
“Porque ela ficou com a minha filha em casa, ah! Filha que por acaso é sua também.”
Balancei a cabeça apavorada. Que belo desastre.
-- Não quero perturbar, ela acorda cedo. -- Não era mentira, Lara provavelmente tinha ido dormir no máximo até às 21h e depois minha namorada devia ter ficado mexendo em seus projetos por um tempo, mas certamente já tinha dormido.
-- Estão morando juntas? -- Ela perguntou, estava muito próxima e eu vi em seus olhos que ela queria uma resposta negativa.
-- Por enquanto sim, mas ela está procurando um apartamento. -- Desviei o olhar. -- Precisamos de espaço individual e… -- Me censurei. -- O que é que você tem a ver com isso?
Carolina sorriu e soltou um suspiro levemente indignado. -- Ela teve muita sorte de não pegar a sua versão que forçava casamento.
Aquela frase foi o suficiente para que toda raiva que eu senti no fatídico dia em que fui embora, há pouco mais de seis anos, voltasse com pelo menos o triplo de força.
Força que usei no tapa que desferi em seu rosto.
Carolina fechou os olhos e se afastou, tocou o local que provavelmente ficaria vermelho por alguns segundos.
Me arrependi no mesmo instante. Eu me considerava uma pessoa extremamente controlada. Mas Carolina me tirava do sério.
-- Você podia ter simplesmente dito que não queria. -- Eu disse, sentindo que meus olhos estavam marejando.
Ela revirou os olhos, parecendo não ter se importado muito com o tapa.
-- Você não devia me bater, como pretende voltar pra casa? -- Falou e eu respirei aliviada quando vi o carro da minha irmã despontar na esquina.
Flávia abaixou o vidro da janela e olhou de Carolina para mim, incrédula. -- Esther? O que ela tá fazendo aí?
-- Ok, estou indo embora. -- Carolina falou se dando por vencida.
Olhei para minha irmã que me analisava.
-- O que foi? -- Perguntei enquanto colocava o cinto de segurança.
-- Eu vim de buscar porque a sua noiva estava preocupada com você voltando de Uber tão tarde.
-- Obrigada? -- Falei sentindo minhas mãos suarem.
-- A Jaqueline, sua noiva. Entendeu?
Respirei fundo, eu já tinha entendido de primeira. Só não queria conversar sobre.
-- Eu sei quem é minha noiva, Flávia.
-- Eu acho bom mesmo. -- Minha irmã falou dando partida e saindo dali.
Fim do capítulo
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