Entre linhas por CarolF
Capítulo 10- Escolhas
Chegou o dia do nosso primeiro jogo em casa no campeonato regional, o ginásio lotado, torcida empolgada até a imprensa local estava para fazer cobertura do jogo enquanto no lado de fora, o estacionamento transbordava de carros e motos e eu, no meio de tudo aquilo, descendo da minha moto com uma mochila nas costas e meu capacete na mão e a cabeça prestes a explodir.
Dani passou por mim no corredor que levava à quadra, os olhos fixos no chão com o semblante do rosto neutro, mas eu percebi um tremor sutil das mãos ela estava nervosa.
No vestiário, Junior o nosso treinador nos reuniu.
— Quero foco, meninas, nada entra em quadra com vocês além da bola, da tática e da vontade de vencer aqui dentro, não existe plateia. Só vocês.
Assentimos mas, pra mim, era mentira lá fora, na plateia, estava ele.
Leandro…Vi seu rosto quando entramos na quadra para o aquecimento ele estava na primeira fileira, sorrindo como se fosse o maior fã do time.
O jogo começou tenso, o time adversário marcava pesado, batia, provocava eu me segurava a todo custo para não perder o controle, mas minha cabeça estava em outro lugar. No lado oposto da quadra, Dani jogava bem com passes limpos e precisos, mas os olhos… os olhos buscavam os meus, sempre que podiam e toda vez que nos encontrávamos, era como se tudo ao redor sumisse por um segundo.
Fizemos o primeiro gol no fim do primeiro tempo e a torcida explodiu ao término do primeiro tempo, o treinador nos reuniu de novo no intervalo, e eu tentei ao máximo focar no jogo em vão.
O segundo tempo o time adversário empatou a partida, o jogo seguiu duro, sofri muitas faltas e em uma dessas faltas a Dani foi bater me viu e deu um passe preciso no qual fiz o corte para meu lado esquerdo e chutei com toda raiva que estava… Bola foi no ângulo…
Fim do jogo. Vitória suada. 2x1.
A torcida invadiu a quadra, as meninas pulavam, se abraçavam, tiravam fotos com os celulares e então, num movimento ensaiado, Leandro entrou pelo portão lateral — com o buquê de rosas vermelhas nas mãos. As meninas olharam curiosas e eu… soube no exato segundo em que vi a caixa vermelha no bolso da calça dele.
Leandro chamou a atenção no meio da quadra, pegou o microfone e disse, com a voz firme:
— Boa noite a todos! Desculpa interromper, mas eu prometo que vai valer a pena eu sou o Leandro, namorado da Dani, e hoje... depois de ver essa mulher jogando com tanta garra, eu percebi que não quero mais perder tempo.
As meninas começaram a gritar, algumas achando aquilo romântico demais.
E eu… estava paralisada.
Leandro ajoelhou no centro da quadra.
Dani, ainda de uniforme, parada entre as colegas, ficou branca como papel.
— Daniele — ele disse, abrindo a caixa com o anel reluzente —, você quer se casar comigo?
Silêncio.
Silêncio absoluto.
Eu sentia o coração batendo forte.
Dani olhava pra ele surpresa.
As meninas começaram a gritar “Aceita! Aceita!”. Erica nossa goleira empurrou Dani com o cotovelo, rindo. Nosso treinador, sem saber o que fazer, apenas observava, imóvel.
E eu?
Eu queria desaparecer… Queria correr, sumir, gritar, parar o tempo, mas fiquei ali estática esperando a única coisa que eu não queria ouvir.
Dani deu dois passos hesitantes e parou em frente a ele.
A plateia em silêncio e todo mundo com o celular apontado o anel brilhando entre os dois.
E então ela sorriu, um sorriso pequeno fraco, dolorido… Mas sorriu.
— Sim — ela disse, com a voz baixa.
Leandro a abraçou e a girou no ar, a torcida explodiu em aplausos e as meninas foram correndo abraçá-los.
E eu?
Eu me virei saí da quadra sem dizer nada o barulho todo ficou pra trás como se estivesse debaixo d’água quando cheguei no vestiário, sentei sozinha no banco gelado e deixei a cabeça cair nas mãos desmontando minha fragilidade e finalmente chorei, não pelo anel, não pelo sim, mas por tudo o que ela não teve coragem de dizer e por tudo que eu ainda sentia mesmo assim.
Fiquei no vestiário por quase meia hora depois do pedido.
O barulho das comemorações lá fora parecia vir de outra dimensão, as risadas, os gritos, os parabéns tudo soava longe. Irreal… Eu olhava pro nada, com o uniforme ainda grudado no corpo, os cabelos molhados de suor e os olhos inchados.
Tentei respirar fundo e não conseguia, era como se tivesse algo pressionando meu peito, uma dor densa, surda, que não era física, mas também não era só emocional, era tudo ao mesmo tempo.
“Ela disse sim.”
As palavras ecoavam sem parar na minha cabeça.
Ela disse sim.
Mesmo depois de tudo, mesmo depois de mim, mesmo depois de nós.
Não ouvi a porta abrir só percebi que não estava mais sozinha quando senti alguém sentar do meu lado.
— Cris?
Era Júlia, uma das poucas que notava as coisas sem que ninguém precisasse falar.
Limpei o rosto com minha toalha, sem encará-la.
— Tô bem.
— Não tá.
Suspirei.
— Parabéns pela vitória — ela disse, baixinho, com a voz gentil. — Você foi foda hoje.
Assenti com um aceno vago e ela esperou.
— Eles são uns idiotas, sabia? — ela soltou de repente.
Engoli seco.
— Ele conseguiu exatamente o que queria — sussurrei. — Roubar o palco fazer tudo girar em torno dele como sempre.
— E ela?
Demorei pra responder quando falei, a voz falhou.
— Ela teve a chance de escolher… e escolheu ele.
Julia não disse nada, apenas encostou o ombro no meu.
O silêncio que veio depois foi um consolo estranho pela primeira vez, não senti que precisava explicar, justificar ou esconder. Só tentei sair pela lateral do ginásio pra não cruzar com ninguém., mas o destino parecia determinado a me punir. Mesmo assim vi Dani ainda na quadra, cercada pelas meninas, segurando o buquê como se fosse uma bomba-relógio com sorriso nos lábios, era tenso e falso como se o mundo estivesse esperando uma felicidade que ela não sentia.
Por um segundo, ela me viu.
E eu vi ela.
O olhar dela gritou tudo que a boca não teve coragem de dizer.
Mas já era tarde.
Ela tinha dito "sim" para outra vida para outro mundo outro alguém.
Em casa, tomei banho no escuro, sentei no chão do box e deixei a água quente cair no rosto enquanto meus olhos se enchiam de novo e pela primeira vez em muito tempo, me perguntei se amar alguém valia tanto assim.
Se o amor que a gente sente por outra pessoa justifica abrir mão de nós mesmas se ela me amava mesmo… ou se era só medo de estar sozinha.
Dani visão
O barulho das bolas quicando ecoava pelo ginásio as vozes das meninas se misturavam aos apitos do treinador, as corridas, toques rápidos, gritos de incentivo tudo parecia normal como um treino como qualquer outro.
Menos pra mim
Pra mim, tudo era silêncio.
Mesmo com a gritaria em volta, mesmo com o suor escorrendo pelas costas o único som que eu ouvia era o do meu próprio coração batendo no fundo da garganta. Cris estava do outro lado da quadra com olhar fixo no treino,firme cobrando, elogiando, corrigindo mas nunca olhando pra mim, nem uma vez era como se eu fosse mais uma entre todas.
E eu não era.
Não pra ela.
Não depois do que vivemos.
Não depois daquela noite.
Cada vez que ela passava por mim e não me tocava, não me chamava pelo apelido, não sorria com o canto da boca um pedacinho meu morria.
Na hora do coletivo, jogamos em times opostos, ela marcava firme, rápida, como sempre, mas quando se tratava de mim… ela desviava evitava, e isso me destruía mais do que se ela tivesse me enfrentado de verdade.
Eu errei um passe bobo e depois, escorreguei tentando defender o nosso treinador já começava a se irritar.
— Dani, tá com a cabeça onde? — ele gritou.
Eu abri a boca pra responder, mas engasguei com as palavras tudo estava apertado dentro do peito as lágrimas queimavam atrás dos olhos.
E então aconteceu.
A Cris veio buscar a bola perto de mim quase tropecei tentando sair da frente ela parou por um segundo me olhou, mas era um olhar vazio puramente profissional.
E foi aí que desmoronei.
— Por que você tá me tratando assim? — soltei, no meio do treino.
Cris franziu a testa, surpresa.
— Como assim?
— Desde o pedido de noivado, você não olha mais na minha cara e me ignora como se eu fosse nada.
Cris respirou fundo e a expressão endureceu.
— Porque eu tô tentando seguir respeitando o que você escolheu.
— Eu não escolhi! — minha voz saiu alta demais, quebrada. — Eu disse sim porque... porque eu fiquei com medo! Porque eu não sabia o que fazer com tudo que estava sentindo por você!
Ela arregalou os olhos.
As meninas se entreolharam, em choque.
E eu… eu comecei a chorar.
Ali, no meio da quadra.
— Eu só queria que você olhasse pra mim de novo — sussurrei. — Mesmo que fosse com raiva.
Cris apertou os punhos e a mandíbula contraída, mas os olhos… os olhos estavam molhados também.
— Você tá noiva, Dani! Você escolheu e eu estou tentando não te machucar e nem me machucar mais.
— Mas você me machuca quando finge que não sente nada!
Ela abaixou a cabeça por um segundo, o silêncio foi tão denso que parecia que o ar ia estourar.
O treinador enfim se aproximou, com calma.
— Vamos encerrar por hoje. Dani, vai beber uma água. Cris, respira um pouco.
As meninas foram saindo, em silêncio.
Fiquei sozinha na quadra.
Cris ficou também a alguns metros de mim.
Nossas respirações pesadas preenchiam o espaço entre nós.
— Você acha que é fácil pra mim? — ela disse, enfim a voz baixa, cheia de dor. — Te ver com ele lembrar do que a gente teve e ter que fingir que foi só uma noite?
— Não foi só uma noite — rebati. — E você sabe disso.
Ela assentiu.
— Sei, mas a sua coragem terminou ali.
Engoli em seco a dor era justa. Eu sabia.
— Talvez ainda dê tempo.
Ela olhou pra mim longamente.
— A gente nunca teve tempo só entrelinhas.
E então, ela virou as costas.
E saiu do ginásio.
De novo eu fiquei ali sozinha sentada no chão, em meio às linhas brancas da quadra, tentando juntar os pedaços de tudo que eu mesma destruí.
Fim do capítulo
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