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Nossa canção inesperada por Kiss Potter

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Palavras: 11772
Acessos: 673   |  Postado em: 21/11/2025

Capitulo 55 - A canção que nunca termina

Pov Liz

 

3 meses depois

 

     Aquele sábado amanheceu frio e nublado, mas não de um jeito triste ou depressivo. Apenas melancólico e nostálgico. Incrivelmente Liz não sentiu somente tristeza, havia também uma leve pontada de esperança e leveza. Talvez leveza não fosse bem a palavra, mas era o que mais se assemelhava.

 

     Já fazia pouco mais de dois meses desde que Liz havia começado sua terapia e desde então alguns pensamentos e detalhes já tinham mudado um pouco a sua visão de mundo. Reconhecia que ainda havia muitos lugares empoeirados dentro de si, esperando por luz.

 

     A última sessão que teve na quarta-feira, deixou um gosto agridoce em sua alma. Novamente, Liz despejou na terapia sobre a ferida emocional causada pelo suicídio do pai. E pela primeira vez, leu a carta que ele havia deixado na frente de sua terapeuta. Era sempre difícil ler aquelas palavras tão lúcidas e desesperadas ao mesmo tempo.

 

     A psicóloga lhe fez vários questionamentos que lhe deixaram totalmente pensativa pelo resto da semana e exatamente por isso, Liz estava decidindo fazer algo que há muito tempo não fazia por livre e espontânea vontade: ir visitar o túmulo dos pais.

 

     Lia havia retornado de Londres fazia três semanas e por mais que estivesse exercitando sua independência emocional pela noiva, ainda assim, existiam coisas que não tinha como enfrentar sem ela ao seu lado. Porque encarar o passado doía menos quando ela segurava a sua mão, mas ainda estava decidindo se iria ou não.

 

    Tendo isso em vista, o primeiro ponto positivo ao acordar naquela manhã cinzenta, foi o de sentir o corpo quente dela a aquecer o seu em uma intimidade matinal gostosa e reconfortante. Liz estava ansiosa e até acordou antes de Lia — algo quase inédito.

 

Começou a fazer sua rotina matinal enquanto Lia não acordava. A ideia martelando em sua mente enquanto tomava banho e escovava os dentes.

 

Foi até a cozinha e quando já ia começar a fazer o café, ouviu a noiva chegar apenas de roupão.

 

— Bom dia. — Ela falou se encostando na bancada. Os olhos ainda miúdos.

 

— Bom dia. — Liz respondeu e foi até ela lhe dar um selinho. — Você parece que ainda está acordando.

 

— Nem me fala! Acordei com uma preguiça. — Fez manha e um biquinho. — Por que você acordou tão cedo?

 

— Tem uma coisa que eu estava pensando em fazer hoje — disse séria e meio incerta.

 

— O quê? — Lia perguntou se aproximando e percebendo sua hesitação.

 

— Visitar o túmulo dos meus pais.

 

Lia ficou com a postura ereta de repente e arregalou os olhos de leve, totalmente surpresa com sua ideia. Foi cômica a reação dela e impossível para Liz não rir.

 

— Desculpe, amor. É que fiquei surpresa. — Ela respondeu nervosa e se justificando.

 

— Tudo bem, linda. Eu sei que foi inesperado. — Ela passou o dedo por uma mexa de seu cabelo delicadamente. — Você vai comigo?

 

— Claro que sim. — Lia enlaçou seu pescoço carinhosamente. — Você tem certeza disso?

 

— Certeza absoluta, não. Mas eu sinto que preciso fazer isso.

 

— E de onde veio essa vontade? — perguntou curiosa.

 

Liz abriu um meio sorriso. Era incrível como a noiva a conhecia, e começou a detalhar a conversa com sua psicóloga na quarta-feira. Lia entendeu suas motivações e mais uma vez, afirmou que iria com ela.

 

     Após o café-da-manhã, elas decidiram não perder mais tempo e fizeram o curto trajeto de carro até o cemitério.

 

No rádio as duas iam escutando uma música leve de bossa nova que Lia amava. Enquanto dirigia, Liz percebia que Lia não tirava os olhos da bela vista que se desdobrava conforme elas passavam por todo o Leblon até chegarem em Botafogo.

 

A noiva amava seu Estado, o Ceará, mas já nutria um amor por solo carioca de tanto precisar conviver ali por sua causa. O que era ótimo, pois assim ela provavelmente não sofreria tanto quando precisasse se mudar de vez para o Rio após o casamento.

 

Finalmente elas chegaram até ao cemitério São João Batista, um dos cemitérios mais tradicionais e famosos do Rio de Janeiro.

 

     Liz sentiu o impacto ao sair do carro e encarar a entrada imponente do local. Todas as vezes que já havia estado ali, sempre havia sido em circunstâncias dolorosas e desconfortáveis.

 

Mas naquele dia, até que não. Liz estava bem e a mulher de sua vida segurava sua mão com força. Era um verdadeiro contraste.

 

— Nossa! — Ouviu Lia exclamar ao seu lado ao passarem da entrada. Ela parecia admirada olhando tudo ao redor.

 

— Bonito, não é? — Liz indagou com um sorriso.

 

— Sim.

 

Liz apertou a mão da noiva de leve enquanto seguiam o caminho. Ao seu lado, Lia carregava um ramo de flores brancas.

 

As duas foram andando silenciosas pelo caminho tortuoso de lápides. Passavam devagar por entre tumbas e jazigos luxuosos. Aquele cemitério em particular era conhecido por abrigar túmulos de muitos famosos e de famílias tradicionais do Rio, sendo a sua família uma delas.

 

Seu coração bateu forte conforme seguiam em frente até a parte final do cemitério, em uma parte um pouco mais reservada onde haviam muitos jazigos luxuosos.

 

Finalmente Liz avistou a pedra imponente de longe e seu estômago embrulhou. Ela estancou no meio do caminho e começou a respirar com dificuldade. Sua ansiedade, de repente, surgindo como uma velha conhecida.

 

Lia a olhou preocupada e não soltou sua mão.

 

— Você está bem, amor?

 

— Estou me sentindo estranha.

 

     A noiva a puxou delicadamente para um abraço e nada disse. Apenas ficaram caladas, sentindo os corações massagearem um ao outro. E funcionou. Os abraços de Lia eram reconfortantes e sempre conseguiam lhe transmitir paz em meio ao caos.

 

     Naquele momento lembrou-se do sonho que tivera uma vez com ela, naquele mesmo cemitério. Como se ela fosse uma visão etérea. E tudo fazia sentido. Ela realmente lhe salvou de si mesma, do seu passado, da culpa... Ela era o seu anjo irritado.

 

     Abriu um sorriso e se afastou o suficiente apenas para encostar a testa na dela.

 

     — Obrigada, linda — sussurrou ainda de olhos fechados.

 

     — Você quer mesmo fazer isso? — Lia finalmente perguntou quando a viu mais calma.

 

     Liz sorriu e a olhou, depois confirmou com um aceno de cabeça.

 

     — Vamos!

 

     As duas terminaram o caminho de mãos dadas, até finalmente pararem frente a frente ao jazigo imponente de seus pais. E Liz se surpreendeu com o que viu. A lápide estava mudada.

 

     Só havia estado ali duas vez. Uma no enterro da mãe, e outra no enterro do pai. E já havia sido o suficiente.

 

     Lembrou-se vagamente que na época do enterro da mãe, o seu pai não quis enterrá-la no jazigo dos Vargas e por isso havia feito um novo jazigo para a própria família, Os Vargas de Moraes.

 

     E quando ele se suicidou, foi enterrado junto de Elena, claro. Liz sempre teve esse pensamento macabro de quando seria ela a se juntar aos dois ali, aumentando mais um nome da pedra fria.

 

     A vista ao fundo, do Cristo Redentor, se erguia distante, como um sentinela silencioso sobre toda a cidade. Um símbolo de fé, mas também uma lembrança incômoda daquilo que Liz não sabia se ainda acreditava.

 

     E dos lados da pedra haviam dois anjos lindamente esculpidos como se velassem pelos pais naquela cova fria.

 

Seus olhos se encheram de lágrimas ao ver a delicadeza do jazigo e a frase sensível gravada acima:
    
     "Na eternidade repousa o que o tempo não pode apagar". A inscrição lia-se gravada na pedra escura. Era uma bela frase. Poética até.

 

Mas Liz sabia — ou queria acreditar — que o tempo apagava, sim. O tempo desfazia vozes, dissipava cheiros, diluía presenças. O
E tudo o que restava era a ausência moldada com capricho em pedra e silêncio.

 

     As lágrimas caíram sem parar quando viu que a noiva beijou as flores e as acomodou delicadamente aos pés do jazigo. E Liz não conseguiu mais segurar.

 

     Eram tantas perguntas engasgadas. Tantas dúvidas silenciadas. Anos e anos de mágoa... e também de uma culpa que nunca passou totalmente.

 

     E não havia atalhos, Liz precisava passar por isso. Pela dor de encarar seu passado na busca por um desfecho mais favorável em tudo isso.
    
     Ela passou os dedos primeiro sobre o nome da mãe, contornando as letras. A frieza da pedra contrastava com a lembrança do toque quente dela que quase já não conseguia mais acessar.

 

     Sentiu uma pontada seca. Não saberia dizer o que era — talvez uma mistura de saudade, gratidão e amor. A mãe se fora, e não por escolha. Fora arrancada desta vida por um destino cruel demais, deixando-a com a dor silenciosa da ausência materna.

 

Depois ela passou a mão pelo nome do pai. Respirou fundo. Com ele, o nó era mais profundo — feito de tudo que ficou por dizer. De tudo que ficou inacabado. Interrompido... dolorosamente interrompido.

 

     A lembrança dele era mais recente, mas também mais confusa. O pai que embalava seus cabelos quando pequena era o mesmo que a fez questionar quem ela era, que calou, e esperou dela algo que não pôde dar.

 

Mesmo assim... Liz sentia falta dele. Uma falta que não sabia onde guardar. Uma culpa que não se desfazia.

 

     E pela primeira vez, se pegou conversando com Deus, mesmo depois de ter negado a existência dele algumas vezes ao longo de sua vida bagunçada.

 

     Nunca havia entendido o mistério. Nunca. Até agora, talvez. Até Lia. E entre choro e soluços, percebeu que afinal alguma coisa boa saiu de tudo aquilo.

     Após um par de minutos, Liz retirou seus óculos escuros e limpou as lágrimas com um lenço que havia trago no bolso.

 

     Lia, ao seu lado, apenas respeitava o seu momento e lhe fazia um carinho suave nas costas, mas reparou que ela também chorava.

 

     Quando as lágrimas cessaram aos poucos, Liz fungou uma última vez.

 

— Sabe? Eu estou sempre imaginando como teria sido a minha vida se eles não tivessem morrido... Como teria sido? — Liz falou em um tom de questionamento profundo.

 

Sua voz ainda fanhosa devido o choro. Ela assoou o nariz com o lenço e finalmente se virou para encarar a noiva, que estava com os olhos avermelhados. Então continuou a divagar:

 

— Desde que eu te conheci, eu ficava sempre imaginando como seria apresentar você para eles. Se eles me aceitariam como sou. Se iam gostar de você, o que diriam. Esse tipo de coisa.

 

Lia limpou as próprias lágrimas e deu um sorriso contido, demonstrando emoção às suas palavras.

 

Mas ela não a abraçou, apenas respeitou o seu espaço, segurou firme sua mão e ficou à espera do restante do desabafo — o que Liz agradeceu — pois estava se sentindo extremamente vulnerável e não conseguiria se manter tão aberta assim por muito mais tempo.

 

— E agora eu me dei conta de que se eles não tivessem morrido, eu provavelmente nunca teria te conhecido. Entende?

 

     Liz realmente se sentia em conflito consigo mesma ao racionalizar as circunstâncias de sua própria jornada. E continuou a divagar:

 

     — Por que qual a probabilidade de eu ter saído do Rio de Janeiro e ter ido viver em um local tão longe como Fortaleza? Qual a probabilidade que a gente teria de se conhecer? Qual o sentido nisso tudo?

 

A noiva assentiu com a cabeça aos seus questionamentos. Mesmo sem dizer uma única palavra, Liz sabia que ela a entendia e agradeceu por ter uma pessoa que lhe compreendia até mesmo no mais profundo silêncio.

 

Liz não falou mais nada. E as duas entraram em um momento contemplativo e delicado. Ambas sentindo o peso das incertezas tão logicamente proferidas. Aquilo só mostrava que a vida era mesmo uma caixinha cheia de surpresas. Às vezes boas, às vezes ruins, mas sempre trazendo um novo aprendizado.

 

Após um par de minutos, Lia fungou, segurou seu braço e indagou em tom de voz suave:

 

— E essa foi uma coisa que eu realmente nunca te perguntei antes.

 

— O quê? — Perguntou Liz sem entender o que ela queria dizer.

 

— De como você acabou indo parar logo em Fortaleza. De tantos outros lugares que você poderia ter escolhido para se afastar, por que logo no Ceará?

 

Liz sorriu de leve com o questionamento de Lia. Naquele momento sentiu o clima ficar mais ameno, menos carregado de tristeza. Tocou a face dela com delicadeza e respondeu com um sorriso:

 

— Eu vou soar como uma romântica ingênua se eu disser que foi o destino? — rebateu com outro questionamento.

 

Lia sorriu lindamente e ajeitou uma mexa de cabelos atrás da orelha. Ela pareceu sem jeito com a resposta.

 

— Tão romântica quanto eu! — Respondeu ainda sorrindo e encostou a testa de leve em seu braço.

 

Liz não evitou um sorriso ao ouvir sua resposta. Ambas sabiam que Lia era a mais romântica das duas. Aliás, as duas eram, mas cada uma à seu jeito e isso era o que importava.

     Lia logo voltou a encará-la e repetiu a pergunta:

 

— Fala sério, vai! Por que escolheu logo Fortaleza?

 

Liz suspirou fundo e engoliu em seco. Aquela era outra coisa que também nunca havia verbalizado para ninguém antes. No entanto, isso era justamente o dom de Lia, lhe fazer falar tudo que estava entranhado em seu ser. Resolveu ser sincera e contar tudo.

 

— Quando eu era criança, em todas as minhas férias da escola, eles sempre me levavam para alguma viagem especial. Em uma dessas viagens, que foi uma das últimas antes de tudo acontecer, nós fizemos um tour pelas praias do Nordeste.

 

Naquele momento, pela expressão que Lia fez, ela já pareceu ter entendido tudo, inclusive o que viria a seguir:

 

— Eu simplesmente amei a viagem. Me marcou tanto que até hoje nunca esqueci.

 

Mais uma vez a emoção veio à tona. E foi impossível para Liz segurar as lágrimas quando os flashes a golpearam sem trégua, mas mesmo assim prosseguiu:

 

— Eu fiquei simplesmente encantada com as praias, com a hospitalidade do povo, com a alegria. É dessa viagem que eu praticamente tenho as memórias mais felizes de nós três juntos até hoje.

 

Liz fungou mais uma vez, e se ajoelhou sobre o cimento pela primeira vez, observando os nomes deles lindamente gravados na pedra austera do jazigo e relembrando as memórias boas que ainda restava deles — mesmo que praticamente turvas, mas ainda eram as mais felizes.

 

A dor em seu peito não era a mesma que sentira por tantos anos. Havia cólera e melancolia, claro, mas dessa vez não vieram acompanhadas de tanta culpa.

 

Liz sentiu a noiva se ajoelhar a seu lado e abraçá-la por trás, sustentando-a com carinho e paciência. Aquele era um dos momentos em que se sentia extremamente grata por ter Lia ao seu lado nos momentos mais difíceis e decisivos.

 

— Deixa doer, amor. — Lia sussurrou perto do seu ouvido. — A dor também é parte da cura. Eu te seguro. Você não precisa carregar sozinha. Agora somos nós.

 

     Liz fechou os olhos, respirando fundo, e por alguns segundos, permitiu-se apenas sentir. A dor ainda existia, mas a presença de Lia a tornava suportável, quase leve. O mundo exterior desapareceu: restavam apenas o toque, a respiração e o conforto silencioso que só a certeza de estar nos braços de quem se ama pode dar.

 

— Agora somos nós... — Liz murmurou, encostando a testa na clavícula de Lia.

 

Quando finalmente se ergueram juntas, de mãos dadas, o jazigo diante delas parecia menos imponente. A tristeza ainda morava ali, mas já não era solitária. Agora, era compartilhada — e isso bastava.

 

E tudo isso reverberava em seu coração como a certeza de que ela era a melhor escolha para a sua vida. Seu passado era de dor, mas Lia era o seu presente e também seu futuro...

 

***

 

1 mês depois

 

     Lia ouviu a campainha de casa soar. Seu coração palpitou de nervosismo. Certeza que deveria ser Liz e sua família. Estava em seu quarto na casa dos pais e já terminava de se arrumar. Passou perfume e desceu as escadas o mais rápido que pode. Era estranho estar se sentindo tão nervosa, mas estava, e muito. Queria que a noite fosse agradável e perfeita para todos.

 

     Era a primeira vez que a família das duas se encontrariam e justamente naquela noite também seria o jantar do noivado delas.

 

Quando desceu as escadas, Pedro já estava chegando para abrir a porta.

 

     — Pode deixar, mano. — Lia disse tentando forçar uma calma que não sentia. — Eu abro.

 

     Pedro apenas maneou a cabeça e deixou o caminho livre para que Lia atendesse as visitas. Assim que abriu a porta, sentiu o impacto de ver Liz, junto de Luísa, Flávio, Vitória e Tomás.

 

Sua noiva estava lindamente maquiada e trajava roupas negras elegantes. Lia nunca conseguia se acostumar com a beleza de Liz e ultimamente ela parecia estar ficando ainda mais bela do que de costume.

 

     — Oi, linda. — Liz a presenteou com aquele sorriso torto de sempre e se antecipou abraçando-a. — Chegamos finalmente.

 

     Lia retribuiu seu abraço carinhoso e beijou sua face, mas logo em seguida se dirigiu aos outros:

 

     — Boa noite a todos. — Lia os cumprimentou e em seguida recebeu um abraço caloroso de Luísa.

 

     — Oi, querida! — A mais velha falou com aquele tom suave de sempre. — Desculpe o nosso atraso.

 

     — Na verdade chegaram bem na hora, não se preocupe, Luísa. — A irritadinha disse simpática.

 

     — Você está linda, Lia. — Luísa segurou sua mão, olhando-a de cima abaixo. — Amei esse vestido, combinou com você.

 

     — Muito obrigada — respondeu sem jeito. Sempre ficava envergonhada com elogios do tipo.

 

     — Verdade, você está lindíssima, amor. — Liz concordou lhe dando um beijo na bochecha.

 

     A irritadinha sentiu sua face corar com tantos olhares sobre si, mas tratou de disfarçar e cumprimentou os outros.

 

Ela apertou a mão de Flávio com educação.

 

     — Boa noite, Flávio — saudou-o com um sorriso nos lábios.

 

     — Obrigada pelo convite, Lia. — O tio de Liz falou também super educado.

 

     — A casa é de vocês — respondeu nervosa. — Somos praticamente família já. Fiquem à vontade.

 

     — Também sinto como se você já fosse parte da nossa. — Ele disse de volta com um sorriso nos lábios.

 

     — Obrigada.

 

     Lia respondeu tímida e depois foi abraçar Vitória e Tomás. Com eles já tinha mais intimidade, talvez por serem jovens se sentisse mais à vontade.

 

     — Vamos entrando, então, por favor. — Convidou-os e seguiu de mãos dadas com Liz na frente, guiando-os pela casa.

 

      Lia se sentia nervosa e um pouco sem jeito. A família de Liz era milionária e estava acostumada a morar naquela mansão com todo o luxo e ostentação que possuíam. Não que sua residência fosse menos digna, mas eram mundos muito diferentes.

 

Eles passaram pela sala de estar, pela cozinha e se encaminharam para o grande jardim onde o jantar ocorreria.

 

O espaço estava lindamente decorado com luzes discretas amareladas, e arranjos simples de flores. As mesas grandes e redondas já estavam dispostas sobre a grama.

 

Nádia e Horácio se levantaram ao mesmo tempo ao verem os convidados mais importantes da noite. A mãe um pouco mais contida, o pai sorridente.

 

     Liz foi quem seguiu com as apresentações formais com o seu jeito natural e simpático de sempre.

 

     — Seu Horácio. Dona Nádia — A noiva os cumprimentou e depois olhou para os seus. — Essa é a minha tia Luísa, irmã da minha mãe. Meu tio Flavio, irmão do meu pai e aqui são meus primos, Vitória e Tomás, filhos da tia Luísa.

 

— Sejam bem-vindos — disse Horácio, estendendo a mão a Flávio, que retribuiu com firmeza.

 

— Muito obrigado. É um prazer enorme — respondeu Flávio.

 

     Por alguns segundos todos apenas se cumprimentaram formalmente uns aos outros.

 

— Que bom finalmente conhecer todos vocês. — Tia Luísa falou com aquele mesmo charme que Liz tinha. — Eu já me sentia íntima, de tanto ouvir as meninas falarem.

 

— O sentimento é mútuo — Horácio respondeu, simpático. — E, de fato, essa noite já estava atrasada.

 

As noivas sorriram em resposta, Liz com aquela simpatia descarada e Lia um pouco envergonhada.

 

— Mas aconteceu na hora que deveria acontecer. Isso que importa. — Lia disse suavemente e se sentindo um pouco mais segura agora, sugeriu: — Bem... como essa noite é especial pra gente, que tal um brinde?

 

Todos concordaram.

 

— Vou providenciar espumantes para nós, um momento. — O pai se ofereceu.

 

Horácio se afastou e pediu que o garçom — sim, eles haviam contratado um serviço de buffet naquela noite — trouxesse uma bandeja com taças e cada um pegou a sua.

 

— Então... — Liz começou ao ver que todos já estavam servidos. Ela ergueu a sua taça e olhou diretamente para Lia enquanto falava. — Um brinde à união das nossas famílias, ao amor e ao novo capítulo que estamos começando agora.

 

As taças se ergueram e se tocaram suavemente, em sintonia.
Por um instante, o som do cristal se encontrando no ar pareceu ecoar mais do que deveria, como se o universo quisesse registrar aquela celebração.

 

O espumante cintilava sob a iluminação quente do deck, e os sorrisos, ainda que diferentes em intensidade, carregavam a mesma verdade: estavam ali, juntos, tentando.

 

     A noite, enfim, parecia ter começado — com promessas silenciosas, reencontros improváveis e um céu aberto para tudo o que viesse depois. O momento era de alegria e o gelo parecia derreter entre as famílias. Naturalmente eles começaram a conversar entre si.

 

    — Eu confesso que estava apreensiva em recebê-los hoje. — Lia entreouviu a mãe falar baixinho para Luísa. — Já que somos de mundo tão distintos.

 

     — Pois eu credito que temos muito em comum, inclusive essa coragem imensa de criar mulheres tão fortes.

 

     Nádia arregalou minimamente os olhos. Por um instante, sua armadura interna pareceu começar a ceder. Lia sentiu que ela não esperava aquele tipo de afirmação — tão direta, tão bonita. E algo dentro dela amoleceu.

 

     — Bom... a vida nos ensinou a sermos fortes — murmurou, abaixando levemente o olhar, antes de retomá-lo com firmeza. — Mas acho que elas superaram todas as nossas expectativas, não é?

 

     — Superaram e ainda nos ensinaram um bocado no processo. — Luísa sorriu com afeto e, pela primeira vez, parecia que o ar entre elas tinha ficado mais leve.

 

     Lia e Liz bebiam champanhe e conversavam entretidas com Horácio, Flávio, Pedro, Vitória e Tomás.

 

     — Eu estava curioso pra conhecer os responsáveis pela criação dessa moça determinada — disse Flávio, com um meio sorriso no canto da boca e apontou para Lia. — Ela conseguiu dobrar a Liz, o que não é pouca coisa.

 

     Horácio balançou a cabeça com um sorriso contido.

 

— Ah, mas a Liz deve ter muita paciência... — disse Horácio. — Essa aqui é uma cabeça dura.

 

     Ele finalizou risonho, apontando para a filha.

 

     — Pai! — Lia se fez de ofendida chamando a atenção dele, mas soltou um sorrisinho.

 

     — Faz sentido — respondeu Flávio, erguendo a taça como se brindasse à provocação. — E isso vocês não viram ela teimando em reunião de acionistas.

 

     Todos riram e continuaram a conversa em um tom leve e descontraído.

 

     Nádia e Luísa haviam se afastado e sentaram-se em uma mesa ao lado uma da outra em uma conversa entretida.

 

Ainda absorvendo com alívio o desenrolar dos primeiros contatos, Lia não teve tempo de acompanhar os núcleos que foram se formando entre os familiares, pois logo a campainha soou novamente.

 

Lia sorriu de leve para os primos de Liz e pediu licença enquanto ia receber os convidados que foram chegando.

 

Para ser mais rápida ela foi pelos fundos da garagem e abriu o portão automático, que revelou a comitiva alegre de uma só vez. Um largo sorriso lhe tomou ao ver tantas faces conhecidas, mas a primeira pessoa que correu ao seu encontro foi Cris.

 

— Amiga, você está perfeita! — A loira a abraçou com carinho. — Como está se sentindo?

 

— Agora menos tensa — revelou baixinho para que só a amiga escutasse. — Depois te conto em detalhes. Vamos entrar.

 

— Tudo bem, vamos sim.

 

Lia recebeu com simpatia todos os amigos que haviam chegado. Como todos eles moravam na cidade grande e haviam se deslocado até ali, Liz teve a brilhante ideia de alugar um microônibus para que todos viessem mais à vontade e confortáveis para aproveitarem a noite sem a preocupação de dirigirem o caminho longo de volta. E todos estavam ali. Cris, Alberto, Vivi, Vanessa, Édson, Jack e os meninos da banda.

 

Sem mais delongas, Lia os guiou até o jardim. Os amigos pareciam admirados e encantados com a decoração simples e sofisticada do jardim e Lia se sentiu extremamente satisfeita por isso. Foi um detalhe que a deixou menos insegura.

 

— Uau! — Jack exclamou ao seu lado. — Lia, vocês tem uma casa linda aqui. A decoração está a cara de vocês.

 

— Gostou mesmo? Foi a Liz quem fez questão de organizar tudo.

 

— Onde está ela? — Ele perguntou com um sorrisinho arteiro.

 

— Ela está bem ali conversando com meu pai e o tio dela. — A irritadinha apontou para perto da piscina onde se via Liz, Horácio e Flavio.

 

Conforme se aproximaram mais, a presença deles chamou a atenção da família. Liz foi a primeira a olhar para eles. Com um aceno ela pediu licença a Horácio e Flávio e foi receber os novos convidados com aquela alegria e charme de sempre. Nesse momento, Cris, Vanessa e Édson puderam se aproximar mais de Lia.

 

— Não sabe como estou feliz de ver vocês duas realizando esse sonho, Lia. — Cris lhe deu um abraço e Lia se sentiu tocada pelas palavras sinceras da amiga.

 

— Obrigada, Cris. E obrigada por ter vindo. Essa noite é muito especial para nós. — A voz de Lia quis embargar um pouco. — Vocês que acompanharam tudo, merecem estar aqui com a gente.

 

— Realmente é emocionante ver vocês tão felizes depois de tanta coisa. — Dessa vez foi Vanessa quem falou.

 

— Ai, Lia! — Édson exclamou daquele jeito sensível dele. — Eu me sinto emocionado quando vejo alguém falando assim sobre um amor. Estou todo arrepiado, olha!

 

Ele levantou o braço e fez questão de mostrar os cabelos arrepiados, o que arrancou boas risadas de Lia e Vanessa. Os quatro deram um abraço apertado.

 

Lia e Liz guiaram os amigos até a mesa reservada para eles e pediram ao garçons que trouxessem baldes de gelo com espumante para a mesa dos amigos. Por um tempo, as duas ficaram ali conversando com eles e os recebendo de forma devida.

 

Lia estava trocando confidências com Cris quando a campainha voltou a soar. Dessa vez era a família de seu pai. Sua avó, tio Olavo e seus primos, Alice e Guilherme. Lia ficou muito animada, estava louca para apresentar o tio e a avó à Luísa.

 

     Lia recebeu sua família com muito carinho e foi levando a avó de braços cruzados até a mesa mais próxima. Ela já estava velhinha e toda a delicadeza com ela era o mínimo.

 

     — Você está tão linda, minha filha! — A avó disse se forma doce e gentil, já sentando na cadeira e relaxando da caminhada. — Onde está a Liz?

 

     — Eu vou chamá-la aqui. Já volto. — Lia depositou um beijo na mão da avó antes de se afastar e saiu em busca de sua noiva.

 

     Liz estava entretida conversando com Vivi, Pedro, Vitória e Tomás. Eles estavam sentados à mesa e conversavam alegremente enquanto bebiam vinho e espumante. Foi direto até ela e a puxou gentilmente da presença deles com a promessa de devolvê-la assim que possível.

 

     — O que foi? — Liz perguntou gentilmente enquanto a enlaçava pela cintura.

 

     — Minha avó chegou e ela quer te ver. Também quero apresentar ela à Luísa — disse ansiosa mais uma vez. Ainda estava tensa ao ver todos fazendo os primeiros contatos.

 

     — Entendi. Vamos chamá-la.

 

     De braços dados, as noivas foram em busca de Luísa, que ainda estava em um conversa com Nádia. Elas estavam muito entretidas e quase não perceberam a aproximação.

 

     — Atrapalhamos? — Liz perguntou com bom humor quando chegaram até a mesa, fazendo as duas sorrirem. — A avó da Lia chegou, vamos falar com ela?

 

     — Sim, sim, vamos! — Luísa concordou sem hesitação e ela e a mãe foram se levantando rapidamente.

 

As quatro se encaminharam pelo jardim, agora já mais cheio e pulsando em vozes, risos e luzes quentes. Lia sentia o coração bater rápido no peito. Sabia que aquele era apenas mais um passo, mas também sabia o quanto significava ver sua avó e Luísa se conhecendo — as duas mulheres mais maduras e sábias que conhecia, cada uma à sua maneira, mas com uma força tão parecida.

 

A senhora de cabelos brancos e olhar doce ergueu os olhos assim que viu Lia se aproximando com Liz e duas mulheres logo atrás.

 

— Vovó, essa é a Luísa — Lia disse com orgulho no olhar. — Tia da Liz.

 

A avó sorriu gentilmente e estendeu a mão com leveza.

 

— Ah, finalmente — disse com um brilho nos olhos. — Já ouvi muito sobre você, minha filha.

 

— Espero que coisas boas — Luísa respondeu com um sorriso afetuoso, apertando sua mão com cuidado. — É um prazer enorme conhecer a senhora.

 

— Maria Inês — completou a mais velha, ainda sorrindo. — Mas pode me chamar de vó, como todo mundo faz por aqui.

 

As duas riram, e o toque breve entre suas mãos pareceu selar um tipo de aliança silenciosa. Lia respirou fundo, sentindo um calor se espalhar pelo peito. Ela olhou para Liz, que apertou sua mão discretamente, como se dissesse: estamos fazendo isso acontecer.

 

Mais alguns minutos se passaram, as famílias começaram a se misturar mais naturalmente, e tudo indicava que aquele jantar seria mesmo inesquecível.

 

Enquanto os adultos da família conversavam em um canto mais reservado, o grupo mais jovem se afastou para perto da piscina iluminada com luzes e também onde estava a mesa posta de frios. O som ambiente era suave, e o riso de alguém ecoava aqui e ali, como se aquela parte da noite pertencesse só a eles.

 

Primeiro os amigos decidiram fazer um brinde à felicidade das duas. Cris fez questão de dizer algumas lindas palavras. Lia e Liz ficaram completamente emocionadas e as três se abraçaram. Cris havia sido a que acompanhara tudo entre as duas desde o início e ela era uma figura fundamental para as noivas.

 

Após o momento emocionante, eles voltaram a tirar brincadeiras um com os outros. Inclusive os meninos da banda, mais uma vez, fizeram questão de salientar como Lia havia conseguido enlaçar a Liz de vez. Isso sempre a deixava com o ego nas alturas.

 

Antes do jantar ser finalmente servido por volta das nove da noite, eles voltaram para as mesas. Era a hora do brinde oficial da noite às noivas.

 

Luísa ergueu a taça com elegância, mas os olhos denunciavam o peso leve de uma emoção prestes a transbordar. Quando o som do cristal se espalhou pelo ambiente, todos silenciaram. Liz e Lia se entreolharam, sorrindo.

 

     Luísa pigarreou, emocionada, e deixou o olhar repousar primeiro sobre a sobrinha e a nora.

 

     — Boa noite a todos. Quando a Liz e a Lia me pediram para fazer esse brinde, eu me senti muito lisonjeada... e profundamente tocada. Porque, além de tia, eu fui uma das testemunhas da trajetória que trouxe as duas até aqui hoje. E também porque sei que há pessoas que, se estivessem vivas, fariam esse brinde com ainda mais orgulho do que eu. Então é um honra que não cabe em palavras.

 

     Nesse momento Lia ouviu a noiva suspirar mais profundamente e agarrou a mão dela em uma tentativa de lhe passar forças. Ouvir sobre os pais nunca era fácil para ela. Até mesmo Lia já estava se sentindo emocionada e o brinde praticamente ainda nem havia começado.

 

     — Eu prometi que não ia chorar hoje... — continuou Luísa, arrancando risos leves de todos — ...mas já sinto que talvez eu quebre essa promessa.

 

     Tentando conter a emoção, ela respirou fundo e prosseguiu, se dirigindo apenas a sobrinha dessa vez.

 

     — Liz, minha querida... se sua mãe estivesse aqui hoje, ela diria que você está exatamente onde ela sempre soube que você chegaria. E seu pai... bem, ele tentaria esconder as lágrimas com alguma piada boba. Mas os dois... os dois estariam transbordando de orgulho por você. Até onde puderam, eles te criaram para ser forte, honesta, generosa. E você honra isso todos os dias. Mesmo não estando mais aqui, eles deixaram um legado lindo... e é um privilégio, de verdade, poder testemunhar a mulher maravilhosa que você está se tornando.

 

     Luísa fez uma breve pausa. Ela suspirou mais uma vez e enxugou algumas lágrimas teimosas, mas continuou com a voz firme apesar da emoção nítida. Nesse momento foi inevitável Liz se segurar mais. Algumas lágrimas escorreram por seu rosto e Lia a sentiu segurar todo o seu braço em busca de apoio, o qual ofereceu sem pensar duas vezes.

 

     — Você enfrentou o mundo muito cedo. Perdeu demais, e mesmo assim não se perdeu de si mesma. E Hoje, te ver assim: inteira, apaixonada, livre, é uma das maiores alegrias da minha vida. Porque você escolheu viver, você escolheu amar. Você passou por perdas que nenhuma jovem deveria enfrentar tão cedo. Mas não deixou que isso endurecesse sua alma. Pelo contrário... você virou força, virou ternura, virou mulher. E que mulher linda você se tornou. E ainda mais lindo do que isso é te ver sendo amada por alguém que te enxerga por completo. Com luzes e sombras, mas também com calma e amor.

 

     Ela virou-se então para Lia e olhou-a com uma ternura que dispensava palavras.

 

      — E que sorte a sua, Liz. Que sorte encontrar alguém como a Lia.

 

     Nesse momento Liz concordou veemente com a cabeça às palavras da tia. Lia não evitou abrir um largo sorriso e suas bochechas coraram instantaneamente ao observar que todos os olhares agora se viravam para ela também.

 

     — E, confesso... no começo, eu observei em silêncio. Tia é um pouco mãe também, e coração de mãe é cheio de medo. Mas bastou te ver com ela, bastou uma conversa... para que todos os meus receios se dissolvessem. Você é exatamente o que a Liz precisava. Só você conseguiu ultrapassar as barreiras dela com insistência e muito amor.

 

Luísa falava com tanta emoção e com tanta verdade que todos pareciam extremamente emocionados. Lia estava se segurando para não cair no choro e vez ou outra secava os olhos de leve com o guardanapo.

 

— Mas o que me encanta em você, Lia, não é apenas o amor que você tem pela minha sobrinha... é essa sua garra. A forma como você se posiciona no mundo, como defende aquilo em que acredita, como luta pelo que acha certo, mesmo quando ninguém mais tem coragem de fazê-lo. É a sua honestidade, o seu pé no chão e a sua força que transforma tudo ao redor.

 

     Ela sorriu com admiração sincera.

 

     — Ver a Liz ao seu lado é ver um amor que não sufoca, que não controla, mas sim que liberta, que impulsiona, que faz crescer. E isso, só é possível porque vocês são exatamente quem são.

 

     Luísa apontou a taça em direção a elas.

 

     — E por tudo isso... por esse amor grande, por essa parceria tão bonita e por essa coragem de serem inteiras uma na vida da outra... nós brindamos.

 

     Levantou mais a taça.

 

     — Que esse amor continue sendo abrigo, tempestade, mas também a calmaria. Que os desafios unam, não afastem. E que, acima de tudo, vocês nunca percam a coragem de serem verdadeiras uma com a outra. — Sorriu, discreta e sem mais falou em tom doce: — À Liz e à Lia. Que esse seja apenas o primeiro de muitos brindes de celebração.

 

     As taças se ergueram em uníssono, o tilintar elegante dos cristais ecoando sob o céu estrelado.

 

     — À Liz e à Lia! — repetiram os convidados e era visível como todos estavam muito emocionados com o brinde de Luísa.

 

     O salão ficou em silêncio por alguns segundos, mas logo em seguida todos os convidados deram uma salva de palmas longa e emocionada.

 

     Lia baixou os olhos primeiro, tentando conter as lágrimas que já desciam. Respirou fundo, engoliu em seco, mas não adiantou muito. Seus dedos tremiam levemente ao segurar a taça. Liz, ao lado, também estava visivelmente emocionada, mas sorria com os olhos marejados, virando-se para abraçar a tia com força.

 

     — Obrigada, tia — sussurrou no ouvido dela.

 

     Lia, ao recuperar o fôlego, também se levantou e foi até Luísa. As duas se abraçaram demoradamente, com o carinho de quem sabe o valor de uma palavra dita no momento certo.

 

     Os convidados aplaudiam, primeiro num gesto respeitoso, depois com mais entusiasmo. Alguns sorriam com os olhos brilhando, outros claramente enxugavam lágrimas discretas. Cris, de um lado da mesa, segurava o braço de Alberto, visivelmente tocada. Vivi apertava a mão de Pedro, com um olhar cheio de emoção. Até Flávio, sempre tão contido, parecia ter deixado a emoção tocar em algum lugar dentro dele.

 

     Horácio e Nádia também estavam emocionados e se aproximaram para abraçar as noivas. Nádia abraçou Lia enquanto Horácio abraçou Liz, tudo sob o olhar atento da tia.

 

     — Luísa, foi um belíssimo discurso. Eu mesma não poderia ter falando tantas verdades. — Declarou Nádia ainda limpando as lágrimas e depois abraçando-a emocionada. — Obrigada pelas lindas palavras.

 

     — Verdade, Luísa. — Horácio concordou ao lado da esposa. — Não poderia ter tido um melhor brinde para essas duas princesas.

 

     Quando Lia olhou de volta para Liz, observou o quanto ela havia ficado surpresa com as palavras de carinho do sogro.

 

     — Eu quem agradeço de coração por ter tido o privilégio de falar não só em nome dos pais da Liz, mas também em nome de vocês, que merecem todo o reconhecimento por terem criado tão bem a Lia.

 

     Depois de uns segundos, enquanto as famílias se misturavam novamente, Liz olhou para Lia e disse com a voz baixa, mas firme:

 

     — Eu te amo tanto...

 

     Lia sorriu com os olhos ainda úmidos.

 

     — Também te amo.

 

     A atmosfera no salão era de amor, de verdade e de algo raro: uma sensação coletiva de que todos estavam presenciando um momento inesquecível, daqueles que ficam gravados na pele e no tempo.

 

     E então, como se soubesse a hora exata de devolver o ar ao ambiente, começou a tocar a música: "your love is king", da Sade. A introdução suave e sensual do saxofone encheu o ambiente com uma aura elegante e agradável.

 

     Liz se virou para Lia lhe estendendo a mão. Lia sorriu com a cabeça levemente inclinada, os olhos brilhando num misto de ironia e rendição.     

 

— Vai dizer que agora você quer me fazer dançar jazz romântico no nosso jantar de noivado?

 

     — Quero te fazer dançar tudo — Liz respondeu, com a voz baixa e firme. — A gente merece dançar a vida toda.

 

     Lia engoliu em seco, tocada. As vezes a noiva falava cada coisa... Segurou a mão dela e deixou-se levar até a beira da piscina, onde o mundo ao redor parecia distante. Elas precisavam respirar um pouco e aproveitar a festa de seu noivado apenas entre elas naquele momento.

 

     Quando Liz lhe envolveu pela cintura, Lia pousou as mãos nos ombros dela, e ali ficaram, dançando devagar, como se aquele momento fosse feito só para elas.

 

     A canção dizia o que nenhuma das duas conseguia dizer em voz alta naquele instante. Um tipo de amor que fazia a alma dançar, arrebatador. E por isso mesmo, tão verdadeiro.

 

***

 

2 anos depois

 

     Lia estava sentada ao lado do pai no jipe, sentindo o vento no cabelo e a ansiedade crescendo em seu peito. O sol brilhava sobre a praia, lançando um brilho dourado sobre as ondas que batiam suavemente na costa. O cheiro do mar misturava-se com o perfume das flores de seu buquê. Os dois estavam indo rumo ao local onde seria o casamento.

 

     — Está nervosa, minha filha? — perguntou o pai, sua voz suave e tranquila, enquanto dirigia com uma mão e olhava para ela com preocupação.

 

     Lia suspirou e apertou o ramo de rosas brancas que segurava.

 

     — Estou, não posso mentir — respondeu ela, sentindo a voz trêmula. — Estou com medo.

 

     — Medo do quê? — perguntou o pai, olhando para ela com curiosidade e desviando a atenção da estrada por um par de segundos.

 

     Lia deu de ombros, sentindo as lágrimas arderem nos olhos e tentando disfarçar a emoção, respondeu:

 

     — Sei lá, pai. Medo de chorar que nem uma idiota quando eu ver a Liz no altar, ou de tropeçar e cair...

 

     O pai gargalhou bem humorado, mas imediatamente cessou o riso quando viu o olhar irritado da filha. Ele se recompôs e limpando a garganta tentou falar sério:

 

     — Desculpe. Olha, minha menina. Não precisa se preocupar com nada disso. Eu vou estar ao seu lado o tempo todo. Vou te segurar até chegar ao altar e você não vai cair. E se você chorar, o que tem de ruim nisso? É seu casamento, é natural essa emoção.

 

     Lia não gostava de chorar na frente de ninguém. Se sentia patética, mas o pai tinha toda razão, era o seu dia e tinha todo o direito do mundo de estar emocionada. O tom de voz dele foi tão suave e tranquilo que Lia acabou se sentindo um pouco mais calma.

 

     Lia estava extremamente ansiosa. Não fazia ideia do que esperar, Liz havia cuidado de tudo. Inclusive, não a via desde a tarde do dia anterior. As duas foram separadas para as suas respectivas "despedidas de solteiras".

 

     Ela havia começado a noite indo para um karaokê super badalado e animado da cidade com Cris, Pedro, Alberto, seus primos Fred e Alices, Vanessa e namorada, Edson e namorado e também com Jeniffer, a namorada de Vitória. Era engraçado, mas Lia e Jeniffer desenvolveram uma amizade forte conforme elas começaram a conviver mais.

 

     Já Liz havia saído com Vivi, com os primos, Vitória, Tomás, Fernando e Fabrício e também com os meninos da banda, mas não fazia ideia de para onde eles saíram.

 

Alguns poucos minutos depois, o jipe parou suavemente perto do campo de palmeiras que os separavam de onde a cerimônia estava devidamente organizada mais à frente. Liz havia preparado tudo nessa parte da praia em que havia uma casa à beira-mar, era um local bastante reservado.

 

     Lia sentiu o coração bater mais forte. Ela olhou para fora da janela e viu os convidados reunidos e dispersos ao longo do local, todos vestindo roupas em tons pastéis e azul claro, e conversavam entre si, à sua espera. O pôr do sol já se aproximava, lançando um brilho dourado sobre a cena.

 

O pai desligou o carro, saiu do veículo e logo foi até o lado do passageiro onde estava. Ele abriu a porta e ofereceu o braço para ela.

 

— Chegamos — disse ele sorrindo e a ajudando a descer do veículo alto. — Preparada?

 

— Sim — respondeu, mas ainda se sentindo nervosa.

 

Lia aceitou o braço do pai, sentindo uma onda de emoção perpassar por todo seu corpo. Ela respirou fundo e saiu do jipe, sentindo a areia fria sob os pés. O som das ondas encheram o ar.

 

Horácio parou por um momento e olhou em volta, apreciando o local junto da filha. Ele também parecia admirado com a vista perfeita da praia e da decoração ao pôr do sol.

 

— Liz escolheu bem — disse, sorrindo. — Esse é um lugar perfeito para vocês duas se casarem.

 

Lia assentiu sem tirar o sorriso dos lábios. Ela não fazia ideia de como tudo estaria. Liz havia insistido em montar toda a cerimônia por conta própria, pois queria lhe fazer uma surpresa. E ela havia conseguido esse êxito, estava totalmente deslumbrada com a escolha da praia e com a decoração.

 

Antes mesmo que alguém a visse, o burburinho foi diminuindo aos poucos — como se o pôr do sol tivesse pedido silêncio.

 

As sombras das palmeiras se alongaram sobre a areia branca, anunciando que algo estava acontecendo. Então uma voz suave murmurou:

 

— Acho que ela chegou...

 

E, como se um único movimento os conduzisse, todos começaram a se levantar. Apenas nesse momento, ela conseguiu ver Liz no altar que havia sido montado para a ocasião. Ela estava de costas conversando com a oficial que iria realizar a cerimônia. Lia sentiu um arrepio na espinha ao vê-la mesmo que de longe, e seu coração começou a bater mais rápido.

 

Lia não conseguia tirar os olhos de Liz. Ao se aproximar, viu que ela estava linda, com um macacão simples, solto e elegante, e seu cabelo longo solto ao vento. A irritadinha sentiu como se estivesse vendo a rockeira pela primeira vez.

 

     Lia se emocionou e admirou com a beleza de detalhes com que Liz havia planejado tudo. O altar estava montado com um lindo arco branco decorado com flores também brancas. Velas brancas estavam dispostas do "corredor" até o altar, lançando um clima suave e romântico na cena.

 

Atrás do altar, o pôr do sol estava no seu auge, criando um pano de fundo lindo para a cerimônia. Era inacreditável como Liz não parava de lhe surpreender. Ela havia conseguido a atmosfera natural e íntima que Lia comentara. Parecia até um sonho ou uma cena irreal saída de algum filme de tão lindo e perfeito que tudo estava.

 

Enquanto se aproximava, Lia começou a ver a face dos amigos e familiares. Viu os meninos da banda de Liz, Cris e Alberto, Vanessa e sua namorada Lígia, Edson com o namorado Mateus, tio Olavo e seus primos. Os primos de Liz, Fernando e Fabrício com seus pares, e nas primeiras fileiras, sua mãe Nádia, Pedro, Vivi e sua avó. Do outro lado, Luísa e Flávio, juntos de Vitória e Tomás, cada um também com seus pares. Todos a olhavam sorridentes, felizes e emocionados com o momento.

 

     Um som suave e familiar encheu o ar quando Lia chegou mais perto. Só naquele reparou em Jack, sentado discretamente ao lado do altar e de uma caixa de som portátil. Ele estava tocando as notas de "All I Wanted" do Paramore no violão. A música, que havia sido um som de fundo para muitos momentos especiais no início do relacionamento delas, agora ganhava um novo significado, ainda mais profundo e emocional.

 

     Lia sentiu os olhos se encherem de lágrimas, mas ela não se importou, não conseguiu mais se segurar. Ela estava emocionada, feliz e apaixonada. Não esperava por aquele detalhe tão bonito. Liz havia realmente pensado em tudo. E soube que esse era o momento mais importante da sua vida, e que estava se casando com a pessoa certa.

 

A versão acústica da música, era ainda mais tocante do que a original. As notas suaves e melancólicas pareciam capturar a essência do amor e da conexão entre Lia e Liz. O som parecia transportar as duas de volta ao início do seu relacionamento, quando tudo era novo e emocionante.

 

     Liz não conseguiu evitar um sorriso quando viu Lia se aproximar. Estava emocionada, feliz e apaixonada. Seus olhos também se encheram de lágrimas e a rockeira sentiu um nó na garganta, mas tentou se controlar. Esse era o momento pelo qual tinha esperado tanto tempo e Lia estava linda naquele vestido branco singelo, mas elegante.

 

Quando Lia passou pela primeira fileira, observou que sua mãe tinha lágrimas de emoção nos olhos, assim como Luísa. De longe elas eram as duas pessoas mais emocionadas depois de Lia e Liz. Finalmente ela chegou ao altar e Liz se aproximou para recebê-la. Os convidados aplaudiram as duas, o que gerou ainda mais emoção nas noivas.

 

     Horácio, que ainda a segurava pelo braço, olhou para a filha com orgulho e amor. Ele beijou a mão de Lia antes de a oferecer para Liz, e disse para a nora:

 

     — Cuide bem da minha menina, Liz!

 

     — Eu vou cuidar dela com todo o meu coração, Horácio — disse ela sorrindo exultante. — Eu prometo!

 

     Liz sorriu e apertou a mão de Lia, olhando para o sogro com gratidão. Ele as abraçou, antes de se afastar. Lia sentiu uma onda de emoção, e olhou para Liz com lágrimas nos olhos.

 

— Está perfeita, meu amor — sussurrou Liz para que só Lia a escutasse e depois levou a mão dela até os lábios, beijando-a com um leve toque.

 

— Você também — sussurrou de volta e apertou o singelo buquê na mão. Ainda estava muito nervosa.

 

     No arco do altar, a oficial que iria realizar a cerimônia estava esperando por Lia e Liz, com um sorriso nos lábios. Ela estava vestida com um traje simples e elegante, e segurava um livro de cerimônias nas mãos.

 

     Naquele momento, Jack cessou a melodia suave que estava tocando e fez-se silêncio. A oficial começou a falar sobre amor e compromisso com sua voz suave e calma.

 

     Lia sentiu os olhos de Liz sobre ela, e se virou para olhar para a mulher que amava. Os olhos de sua rockeira estavam brilhando de amor, e a irritadinha sentiu o coração bater forte no peito.

 

     Liz estava pensando em como a noiva havia mudado sua vida para melhor. E se lembrou da pessoa que era antes de conhecê-la. Cheia de medos e traumas, incapaz de se abrir para o amor. Mas Lia havia sido persistente, carinhosa e valente, e havia ajudado Liz a superar seus medos e a se tornar uma pessoa mais forte e renovada.

 

      Enquanto ouviam o breve sermão da juíza, Lia estava pensando justamente em como Liz havia crescido e amadurecido desde que elas começaram a se envolver. Lembrou das vezes que ela chorou em seus braços, das vezes em que havia lhe ajudado a enfrentar seus medos e a se sentir segura novamente. Na verdade ela própria também se sentia mais segura, mais sábia e mais madura para lidar com as situações adversas da vida.

 

Finalmente chegou o momento de trocar as alianças e a oficial segurou o microfone para que elas pudessem expressar seus votos matrimoniais da forma que achassem melhor.

 

     Lia segurou a aliança de Liz. Se sentia nervosa e envergonhada em fazer uma declaração na frente de todos, por isso a cerimônia havia sido tão íntima, ali só estavam presentes realmente todos que conheciam bem as duas.

 

     Suspirando, tentou conter a emoção e começou a falar com a voz um pouco trêmula:

 

     — Liz, hoje eu te dou essa aliança como prova do meu amor e da minha admiração. Eu prometo cuidar de você e de estar ao seu lado em todos os momentos, superando as fases ruins juntas e aprendendo sempre uma com a outra. Prometo ser fiel e leal a você acima de tudo e de te respeitar sempre, todos os dias da minha vida. Que a gente possa sempre confiar uma na outra e sermos o apoio e o consolo nos momentos difíceis. Eu admiro muito a pessoa que você é. Essa mulher
espontânea, forte, alegre, inteligente e determinada por quem eu me apaixonei. Eu prometo te amar sempre e para sempre.

 

     Lia colocou o anel no dedo dela e em seguida beijou sua mão. Quando a olhou, viu que Liz tinha os olhos cheios de lágrimas, ela também não havia conseguido resistir a emoção por mais que tivesse tentado. A oficial dessa vez aproximou o microfone de Liz.

 

— Não sei nem o que dizer depois disso tudo. — Ela respondeu rindo, mas ainda com a voz trêmula de emoção e limpando um pouco as lágrimas.

 

Todos riram das palavras dela, principalmente Lia. Era uma coisa nova isso. Elas nunca foram de se declarar dessa forma, principalmente na frente de outras pessoas, por isso o nervosismo e a vergonha estavam presentes. Mas Liz pegou a aliança de Lia, segurou em sua mão e com um suspiro começou a falar:

 

— Liana, recebe essa aliança como forma do meu amor, do meu respeito e da minha fidelidade. Quando que eu poderia imaginar que aquela garota irritada seria a minha vida, hein? — Lia e os convidados sorriram com essa fala dela. — E agora tudo o que eu mais quero é começar uma vida digna e uma família com você. Eu prometo te apoiar acima de todas as coisas, te fazer muito feliz e cuidar de você. A pessoa que sou hoje eu devo tudo a você, Lia. Obrigada por nunca desistir de mim, da gente e por ter sempre insistido na nossa relação mesmo com todas as dificuldades. Eu vou fazer de tudo para que a gente possa sempre continuar juntas assim. Todas as grandes escolhas da minha vida me levaram até você. Também prometo te amar sempre e para sempre.

 

Liz também beijou a aliança em seu dedo após terminar seu discurso. As palavras dela foram sentidas no fundo do coração de Lia, o peso daquelas promessas era demasiado forte. Sua pele se arrepiou e a emoção a tomou ainda mais forte.

 

     — Então como a união é feita de livre e espontânea vontade, as noivas podem selar os votos com um beijo.

 

     A voz suave da juíza soou longe aos ouvidos de Lia e Liz. As duas pareciam estar isoladas em uma bolha própria de amor e carinho, mas pareceram despertar depois disso.

 

     Liz lhe presenteou com um sorriso largo e sincero, e foi se aproximando. Lia também foi se aproximando, não podia acreditar que finalmente estavam casadas.

 

     O perfume de Liz lhe invadiu com a proximidade e com um leve toque as duas uniram os lábios em um selinho carinhoso, que selava os votos e o momento da união mais perfeita que poderiam ter...

 

Fim

 

***

 

"Te amar foi como aprender a respirar debaixo d'água.
No começo, tudo em mim se debatia: a lógica, o medo, a velha versão de mim.
Mas você veio como tempestade, depois como maré mansa e eu aprendi a flutuar no teu silêncio, a mergulhar sem medo no teu olhar.
Você me ensinou que amor não é algema, é vento, é liberdade.
E mesmo assim, quando me toca, eu fico.
Fico inteira, mesmo quando o mundo ao redor desmorona.
Fico tua, mesmo quando o mundo insiste em me dividir.
Eu já fui labirinto, redemoinho, muralha.
Mas você entrou em mim como quem conhece o caminho: sem pressa, sem pedir licença, sem prometer nada além de fogo e presença.
E foi aí que eu entendi:
Você não veio me completar.
Veio me transbordar.
Agora, quando o dia amanhece e eu te vejo dormindo ao meu lado, minha alma faz silêncio pra não acordar o milagre.
E mesmo assim, ela canta.
Porque o que a gente tem não é só amor.
É poesia viva"

 

Caderno de poesia da Lia.

 

***

 

Cena Extra

 

12 anos depois...

 

— Bem, então eu acho que é isso, mães — disse por fim a diretora, finalmente terminando suas considerações sobre aquela reunião. — Nos veremos em breve!

 

A mulher estendeu a mão para as duas e sorriu com educação. Lia ainda estava um pouco tonta com o teor daquela conversa, então Liz adiantou-se cumprimentando-a. Depois Lia obrigou-se a fazer o mesmo.

 

As duas se encaminharam para a saída da sala em completo silêncio, após se despedirem da professora também. O dia havia sido longo para ambas e agora estavam ainda mais sobrecarregadas de preocupação. A reunião com a diretora deixara Lia em estado de alerta. Segundo a escola, Alf vinha 'namorando' duas coleguinhas ao mesmo tempo, e isso causara pequenos conflitos em sala de aula.

 

     Enquanto andavam pelos corredores, Lia sentiu a esposa passar a mão por suas costas.

 

— Hey! — Liz chamou sua atenção. — Você está bem?

 

— O que você acha? — Lia virou-se para ela e cruzou os braços. As duas pararam e ficaram se olhando ali no meio do corredor da escola.

 

— Preciso que se acalme, amor. Isso é coisa de criança. Vai passar!

 

— Você leva as coisas bem até demais, Liz. Isso me irrita às vezes, sabia? E "isso" não tem nada a ver com coisa de criança, muito pelo contrário.

 

Liz olhou-a meio culpada e deu de ombros. Ela estava vestida em um conjunto social de alfaiataria na cor cinza, a mesma roupa com que havia saído para trabalhar mais cedo pela manhã. Lia estava usando calça social bege e uma blusa azul escura.

 

   Ela havia saído direto do instituto para a escola do filho e Liz também havia saído direto da empresa até lá. As duas se encontraram em frente à escola às pressas antes da reunião.

 

     — Fica calma, por favor! — Liz aproximou-se da esposa e abraçou-a. — Nós vamos conversar com o Alf e saber dele o que aconteceu, ok?

 

     — Claro! — Lia suspirou pesado e pegou na mão de sua mulher.

 

     As duas voltaram a caminhar novamente e logo chegaram na sala onde as crianças estavam brincando com a supervisão de uma das professoras. Liz bateu na porta e as duas entraram no cômodo onde só se ouvia o barulho dos pequenos a brincar.

 

     As crianças estavam tão entretidas que nem observaram as duas ali, incluindo Alf que brincava sob o olhar atento de duas meninas em particular. Lia e Liz se olharam apreensivas com isso.

 

     — Olá, mamães! — A professora saudou-as com educação.

 

     — Olá, Sabrina! — Lia respondeu no mesmo tom. — A reunião já acabou. Viemos só buscar o Alf.

 

     — Alfredo! — A professora falou de maneira mais firme, chamando a atenção deles. — Hora de ir para casa, querido.

 

     Alfredo tinha 6 anos de idade, era uma criança adorável e muito sapeca. Ele tinha o mesmo tom de cabelo de Liz e assim que viu as mães, correu até elas, abraçando-as. Alfredo abriu um sorriso sincero para as duas.

 

     Naqueles momentos em que o filho lhe sorria assim, todas as preocupações e raivas deixavam a mente de Lia e a única coisa que conseguia sentir era amor transbordando de si. Ela se abaixou e pegou o filho no colo beijando sua bochecha.

 

     — Vamos para casa, meu amor?! — Perguntou sorrindo enquanto ele bagunçava um pouco os seus cabelos.

 

     — Sim. — Ele respondeu sem hesitar e ainda sorrindo. Ele tinha exatamente o mesmo sorrisinho sapeca de Liz. — Vamos, vamos, vamos para casa.

 

     De repente ele a empurrou e Lia já sabia que ele queria voltar para o chão, o que foi um alívio, pois o filho já estava bem grandinho e pesado. Assim que Lia o soltou, as duas meninas que estavam brincando com ele, correram para perto de onde Alf estava.

 

     — Não vai, por favor! — Uma delas falou e segurou o braço esquerdo dele.

 

     — Não quero que você vá também! — E a outra disse segurando no braço direito.

 

     Imediatamente Lia olhou assustada para Liz, que também parecia surpresa com a situação. Antes que alguma das duas pudessem agir, a professora antecipou-se e retirou as mãos delas de Alf.

 

     — Meninas, se comportem, por favor! As mães do Alfredo vieram levá-lo para casa. Amanhã vocês vão se ver de novo.

 

     Alfredo tinha um sorrisinho inocente no rosto e em seguida disse:

 

     — A gente se vê amanhã de novo — disse ele de forma carinhosa e em seguida deu um abraço em cada uma das meninas.

 

     Lia não pode acreditar no que viu. Rapidamente aproximou-se de Liz falando baixinho e um pouco indignada para que só ela pudesse ouvir:

 

     — Esse menino não nega que é seu filho mesmo!

 

     Liz apenas sorriu culpada e em seguida pegou a mochila e a lancheira dele que a professora entregava.

 

     — Vamos, Alf! Está na hora. — Lia pegou na mão do filho e encaminhou-se até a porta com Liz no encalço dos dois.

 

     — Até mais, meninas! — Liz saudou com educação antes de fechar a porta.

 

     Lia foi o caminho de volta para casa deveras silenciosa enquanto dirigia. Só se ouviam as vozes de Liz e do filho brincando um com o outro e também do rádio a tocar. Ela não conseguia entender como a mulher era tão calma. Liz não parecia nem minimamente preocupada com a reunião que tiveram com a diretora da escola. Precisavam falar com o filho, mas iriam esperar até chegar em casa primeiro.

 

     Depois do banho tomado e do jantar, Lia e Liz decidiram levar o filho até a sala para conversarem com ele.

 

     — Filho, vem aqui, por favor! — Liz começou a falar, sentando no chão e puxando-o até seu colo. Ela retirou um desenho de colorir da mão dele. — A gente pinta depois. Agora precisamos bater um papo.

 

     Lia suspirou e desceu do sofá, sentando ao lado dos dois no chão. Ainda bem que Liz era mais calma e conseguia manobrar melhor Alfredo. O menino tampou os olhos e disse com a voz receosa:

 

     — O que foi que eu fiz agora?

 

     Lia percebeu a esposa rir ao seu lado e imediatamente repreendeu-a com o olhar para que parasse. E ela logo entendeu sua postura, e parou de rir no mesmo instante com um pigarro.

 

     — Só queremos entender uma coisa que a professora nos contou, meu amor. — Lia falou dessa vez, com a voz mais macia o possível.

 

     — Não precisa ficar com medo, filho. — Liz retirou as mãozinhas dele do rosto e depois apertou sua bochecha. — Só precisamos que você nos conte a verdade, tudo bem?

 

     — Ah, tá bom! — Ele respondeu num tom de tédio característico.

 

     — Filho, que história é essa de namoro com as suas coleguinhas de classe? — Lia perguntou receosa.

 

     — O que é que tem? — Ele perguntou visivelmente confuso.

 

     — O que você entende por namoro, Alf? — Dessa vez foi Liz quem questionou.

 

     — Ah, eu acho que namoro é andar de mãos dadas que nem vocês duas fazem, não é? Eu disse que queria casar com elas.

 

— Com as duas?! — Lia arregalou os olhos levemente.

 

— É. Porque se eu escolher só uma, a outra vai ficar triste. E eu gosto das duas — disse de forma inocente e sem desviar o olhar da mãe.

 

     Novamente Liz caiu na gargalhada e isso deixou Lia com raiva. Ela cutucou com o cotovelo de leve nas costelas da esposa para que parasse. As vezes sua mulher parecia não ter noção da seriedade da situação. O menino dizia que gostava de duas garotas ao mesmo tempo e ela apenas gargalhava. Era o cúmulo!

 

— Filho, você é muito novo e suas coleguinhas também. Não é para ficar com essa história de namoro e nem de casamento. — Lia tentou mediar a situação enquanto Liz se recompunha. — Vocês são crianças. A única coisa que vocês devem fazer é serem amigos e brincar. E mais nada.

 

— Isso mesmo, Alf. — Liz concordou e olhou para ele. — Promete que você não vai mais falar disso com suas colegas?

 

— Tá booooom. — O filho deu de ombros e olhou para Lia. — Posso ir brincar de outra coisa agora?

 

— Claro que sim, meu amor. — Respondeu afetuosa, dando um beijo no topo da cabeça do filho.

 

E sem mais, Alf saiu correndo pela casa, gritando e imitando um avião, enquanto as duas o olhavam bestas e sorrindo com a marotice dele.

 

O casal caiu em um silêncio momentâneo, enquanto apenas o observavam se afastar. Depois olharam uma para a outra e sorriram baixinho, dividindo o companheirismo e a surpresa que era a de criar um menino tão ativo como Alfredo.

 

— Vem cá! — Liz chamou com aquele charme típico e fez um carinho no braço da esposa.

 

Sem demora, Lia aninhou-se no peito de Liz, sentindo o cheiro familiar de sua amada.

 

— Que dia! — Exclamou enquanto encostava a cabeça no braço dela.

 

— Nem me fale. — Liz respondeu e suspirou.

 

Nesse momento, Alf voltou correndo para a sala e jogou-se por cima das duas sem qualquer cuidado. Elas se prepararam para o impacto. Serem mães de menino era isso afinal: desastre e bagunça.

 

— Eu quero saber quem é que vai me pegar? — Alf respondeu elétrico.

 

— Você não cansou depois de um dia todo brincando na escola? — Liz perguntou enquanto amparava as pernas dele.

 

— Não. — Ele respondeu simplesmente, enquanto tentava retirar os óculos de Lia.

 

— Nada disso, senhor. — Lia delicadamente puxou os óculos das mãos dele e falou fingindo tom de repreensão. — Lembra o que aconteceu com o último, não lembra?

 

Alf não respondeu. Apenas sorriu de forma sapeca. Era exatamente o mesmo sorriso de Liz, sem mais e nem menos. Igualzinho. Lia amava aquele sorriso.

 

— Corra, que eu vou te pegar, pequeno arquiteto. — Liz se pôs de joelhos e fez cócegas na barriga dele.

 

— Não, mãe, para! — Ele ria e se contorcia. — Para.

 

— Corre! — Liz avisou novamente em tom brincalhão.

 

Rindo, Lia ajudou o filho a se levantar e ele correu disparado pela sala enorme. Liz ficou parada e deu a vantagem de alguns segundos. Em seguida, correu atrás dele.

 

Por alguns bons minutos, eles correram pela sala, pela cozinha e finalmente saíram correndo pela varanda e deck. Lia ficou escorada no sofá — ainda no chão — sorrindo e olhando a pirraça deles através da parede de vidro.

 

Sem mais resistir, correu atrás deles se juntando na brincadeira. Seu coração estava acalentado, feliz e completo. Não tinha forma melhor de terminar o dia do que em família...

 

***

Fim do capítulo

Notas finais:

Pessoal, sinceramente eu nem sei o que dizer com esse capítulo final. Apenas que sinto um alívio e um orgulho tão grande por ter ido até o final disso. Mas também me sinto um pouco tristeza porque me apeguei muito a história. Rsrsrs


     Enfim... só queria agradecer a todos que ficaram até o fim e que eu espero que a história tenha tocado em todos que leram de forma especial.


     Tentei escrever um final satisfatório, amarrando todos os pontos e mostrando que a vida continua... E se tem algo que canção inesperada me ensinou, é que: realmente a vida sempre continua.


Bjs a todos ???


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