No mundo ocidental perpetuou no imaginário coletivo a imagem do dragão, como uma criatura cheia de ódio e furor, perdurou por séculos, principalmente com a disseminação do Cristianismo institucionalizado, do mito de Eva e da necessidade de concentração de poder masculino.
No entanto, antes que o dragão fosse transformado em monstro, na antiga Mesopotâmia era sinônimo de criação, proteção e sabedoria, passou a ser uma ameaça, principalmente como a morte da deusa dos deuses (Tiamat), e em seu lugar assume uma figura masculina e autoritária, um Deus patriarcal. Com isso, as sociedades perderam o equilíbrio, perderam a noção de realidade.
Nas sociedades mais antigas, essas criaturas eram vistas como protetoras, criadoras e guardiãs dos mistérios. Principalmente, com a deusa Tiamat. Que era tido como o mar primordial. A deusas dos deuses, era o útero cósmico, em que o universo fora concebido. Tiamat fluía com as marés. Mas esse ser também tinha outra face, a do dragão. Ele não era mau por natureza. - Ele era um caos criativo, fértil, como uma tempestade que incide sobre a terra no intuito de irrigar a plantação e produzir frutos abundantes.
Entretanto, no épico Enuma Elish, diante da necessidade de concentração de autoridade, o mito fora estigmatizado. - E de sabedoria a ser consultada, passou a ser uma fera a ser combatida. - um jovem ambicioso, cujo nome era Marduk, armado com um arco, uma rede e uma flecha, combate violentamente e mata o dragão, assumindo o lugar uma figura masculina. - Que passa a ser venerado como Deus e o dragão fora reduzido a uma ameaça.
E a partir dessa mudança de narrativa, o mundo antigo perdeu não apenas um mito, mas a intuição, a sabedoria, a proteção. Porque se Tiamat causava caos e destruição, porque para ele o caos podia ser um ato sagrado e a destruição um ato de amor. - Porque Tiamat tinha as chaves para atravessar os mundos, da vida e da morte, do visível e invisível, consciente e inconsciente. - Ela era a senhora de todos os mistérios.
Na cultura Grega, o mito foi redesenhado, seguindo o mesmo roteiro, só mudando os personagens, Apolo invade o santuário de Delfos e mata a serpente oracular Piton, e instaura uma nova ordem, extirpando da cultura, o feminino sagrado. E assumindo a força masculina, executora da ordem.
Já na cultura Nórdica, a figura de Thor mata Jamunganden que era tida como a serpente do mundo. - Que circunda a terra como forma de manter o equilíbrio do universo. E é no Ragnarok que o mito se transforma em ameaça.
Na hebraica, principalmente no mito de Eva, a serpente é redesenhada, sendo amaldiçoada e condenada a rastejar. - Antes ela era quem iniciava. - Era aquela que era portadora de sabedoria, criadora e guardiã dos portais.
Na cultura celta, a deusa Morrigan, associada à guerra e ao destino. Que tinha a aparência de um corvo ou serpente. Ela representava o poder feminino de guiar batalhas e escolher quem continuava vivo e quem morreria. Ela teve o mesmo destino que em outras civilizações, fora considerada como uma feiticeira maligna. Reduzida a uma criatura sombria. Então, caçada pelo guerreiro, tomando seu lugar, uma figura masculina. - Deus.
Dessa maneira, durante muito tempo o homem viveu dissociado do sagrado feminino, por uma imposição dogmática e hierárquica que fez essa separação, entre espírito e matéria, céu e terra.
No entanto, na índia, o dragão é visto como símbolo sagrado e sabedoria. Porque entenderam que só eles são capazes de mudar de um estado de ser para outro, pois eles guardam os portais entre a vida e a morte. - Sabem que são curso de um mesmo ciclo.
Nesse contexto, da união dos opostos, surge algo transformador, pois quando cada qual aprende a controlar o poder adormecido dentro de si, equilibrando os contrários - Isso é aprender a viver com sua própria sombra. - Não sendo necessário matar algo que é uma extensão sua. - porque os opostos são partes de um mesmo elemento. - Não sendo preciso excluí - lo. E os ensinamentos de Jung nos revelam bem isso quando diz : “Porque aquilo que resiste, persiste “ .
Então porque esconder ou aniquilar algo, sendo que são extensão de um mesmo ser? Assim como o amor e ódio são frutos de um mesmo tipo de sentimento. - sendo um para complementar ao outro, não emoções independentes.
Nessa perspectiva, os alquimistas acreditam que a verdadeira transformação ocorre, quando duas forças se fundem, que a priori são opostas, mas quando integradas é capaz de renovar e fazer renascer uma nova criatura. Eles acreditam que essa é a verdadeira alquimia. - É pegar substâncias em estado mais grosseiro possível e transformar sua forma. É transmutação do chumbo, não em ouro, mas em espírito, despertando para a natureza original.
A menina representa o feminino sagrado, aquilo que estava adormecido em nós. - A intuição, a sabedoria, o útero cósmico. Na sua forma mais primordial. - A criança figura como catalisador para que haja transformação naquele ambiente, inóspito, grosseiro, dominado pelo ódio, força bruta, em que faltava o essencial para complementar, sem necessidade de fazer desaparecer um para surgir outro. - Porque é preciso integrar os opostos para reinar com sabedoria
Apesar de que no período de dominação romana, principalmente no reinado do Papa Gregório Magno, que temendo a força do feminino, que não podia ser domesticado ou controlado. - O cristianismo institucionalizado, transformou em pecado toda prática ancestral, que ameaçava o poder da igreja. Então a narrativa apresentada de que o dragão era um monstro, que precisava ser derrotado, nos desviou da nossa verdadeira natureza, a de que cada ser humano, poderia adquirir iluminação própria sem que necessitasse de intermediação para isso, fez com que houvesse a separação entre o feminino sagrado e do masculino, pois esse modelo não era aceitável para uma sociedade que vendia salvação e precisava centralizar autoridade. - Então demonizam toda prática ancestral que preconizava esses tipos de ensinamentos. - transformando - as em heresias. O que culminou em anos de perseguição religiosa. - E a imagem que outrora era sinônimo de sabedoria, fora transformado em pecado. O dragão sendo visto como um animal feroz que foi derrotado pelo cavaleiro romano, a figura de um heroi surge em nome de uma morte silenciosa.
E com isso a humanidade começou a acreditar numa história incontestável, viver em verdades absolutas, os que os mais velhos diziam não podia ser contestado. Mas o mais chocante não era que os saberes fossem falsos, mas que os que diziam não sabiam explicar o porquê de determinadas situações acontecerem. Porém, isso era baseado num modelo dogmático reproduzido pela igreja como irrefutável, tenha contribuído para cercear os pensamentos livres, ficando refém de uma única vertente, as do que os outros falavam (uma autoridade). Em que os pensamentos não eram aceitos livremente, haja visto que eram inibidos, quando ameaçava a ordem dominante, e tudo que ousasse ultrapassar os limites colocados pela igreja, então eram distorcidos como heréticos. O que contribuiu para uma sociedade, carente de afeto, que para ser aceito, vendia sua dignidade para no fim viver uma vida vazia.
Quando pensei na história do dragão e da menina, foi para externalizar o que a programação tinha incutido na mente das pessoax - E desprogramar décadas de confinamento, de limitação de pensamentos, crenças limitantes é meio que subjacente, mas só o indivíduo tem a chave para se libertar dessas correntes invisíveis. Sendo possível ter uma nova percepção que difere da maneira de pensar antiga, em que a pessoa é capaz de escrever seu próprio roteiro. Não como as sociedades antigas fizeram ao longo dos séculos, construindo uma narrativa que molda a forma de pensar e se comportar de diversas civilizações, como forma de centralizar o poder. Para isso, fazendo separação entre feminino e masculino. - O que culminou num desequilíbrio total nas pessoas, porque enquanto que a função do feminino era integrar e renovar, a do masculino era dominar e hierarquizar.
Pois, quando reescreveram o mito de Tiamat, as sociedades perderam tudo. - o primordial, e a consciência que sempre existiu e esteve ali.
Então, o dragão era visto como inimigo e não como extensão do próprio reflexo. O contato com o outro lado da história e outras culturas fizeram com que ampliasse a percepção, visse o dragão não apenas como um animal feroz, aquela disseminada pelo cristianismo romano, assim como fora invertida quando Marduk, derrotou Tiamat e assumiu o poder masculino, matando não somente um mito, mas o princípio de toda uma sabedoria, símbolo de poder divino, que foi sendo adequada a cada povo, só mudando a forma da narrativa para caber nos interesses das civilizações. - Que conta a história sobre uma ótica de povos vencedores e dominantes. Em que o masculino combate o femimino e derrota - o. Isso, leva a um desequilíbrio descomunal no mundo, porque o homem despojado de sua essência, força intuitiva, se torna bárbaro, capaz de práticas incondizentes como a verdade sobre o amor. Enquanto isso, há uma distração constante no sentido de lembrar a verdade sobre nós mesmos. - A verdade adormecida - e não as que nos foi imputada.
Surge algo inquietante, mas que em meio ao barulho não é possível ouvir, pois tem verdades que somente podem ser sussurradas na quietude silenciosa. Por isso, compreender quais são os anseios individuais torna - se imprescindível.
No entanto é um caminho árduo, porque como falta tempo de se fazer a escuta interna, e as partes negadas estão fragmentadas. - As sombras revelam, mas não paramos para escutar, pois é mais fácil sermos manipulados por arquétipos, transvestidos de bondade, do engraçado, do salvador, do curador e outros. - E como se diz: “a história se repete como uma farsa”, por isso é mais cômodo lidar com algo que já lhes é familiar do que com as que não se conhece, mas a vida cobra um preço por isso, pois há um círculo persistente, a pessoa fica presa nessa roda, repetindo as mesmas ações, sem ter tempo para parar e pensar sobre as causas. E Carl Jung nos faz lembrar bem disso quando fala sobre o consciente e inconsciente : “Até você se tornar consciente, o inconsciente irá dirigir sua vida e você vai chamá - lo de destino”
A menina representa aquilo que já fomos um dia, inocentes, puros, livres de mágoas. Já o Dragão é aquilo que é desvirtuado, é o reflexo do que nos tornamos. - Porque à medida que nós afastamos daquilo que fomos criados para sermos, aderindo às máscaras sociais, aceitando migalhas em nome da ilusão de possuir, conquistar. - Anulando nossos pensamentos para sermos aceitos pela sociedade.
Nesse sentido, soltar fogo não significa ser violento, nem intempestivo, mas mostrar como é naturalmente, sem precisar se moldar para ser aceito. - Ser dragão é chorar suas dores da forma que sua natureza quiser. - Cada qual precisa viver seu luto para não ser escravizado, por não tê - los externalizado. - Não precisa dizer que está bem sem realmente estar.
Fim do capítulo

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