XXVI. Sorte
XXVI. Sorte
- A Inspetora Lacerda vai ficar furiosa e com razão. Olha o senhor vai me desculpar, mas, não vou fazer nada pelas costas dela, sei que posso até levar punição por insubordinação, só que tem uma coisa que aprendi com a minha família, foi a ter hombridade. Não consigo, isso é apunhalar pelas costas, chega ser traição, ela confia tanto na tua gestão, jamais vai conseguir perdoar, se for enganada desta forma.
- Soldado, preste atenção, em que momento eu disse que vou expulsar a Aisha desta operação? Também não vou omitir nada, ela só vai ser convidada a se retirar, se não concordar com o plano. Anteriormente ela optou por se distanciar, por conta própria. Teve êxito, mas, poderia ter sido desastroso. Desta vez, a situação é outra, chega de receber ameaças, o delinquente do Gaspar precisa ser encontrado, estamos andando em círculos, a investigação está estagnada e é descabido ficar aguardando, temos que agir. O que estou te dizendo é que uma decisão será tomada, mesmo ela discordando.
Bateram na porta, avisando que ela tinha acabado de chegar.
- Desculpe a sinceridade, tenha consciência que o senhor vai perder a sua melhor funcionária, aprendi muito sobre a profissão com ela e sou grato, ficarei ao lado da Inspetora, assim como vários colegas que são justos. Permissão para me retirar.
- Já terminamos, pode ir e peça para ela entrar.
Aisha já estava no corredor e tinha certeza de que algo estava acontecendo, pois, todos estavam estranhos naquele dia. Bateu na porta, teve autorização para entrar na sala do seu chefe e antes mesmo de sentar olhou para ele de forma avaliativa.
- Nós não conseguimos nenhum avanço, não temos ideia do local onde o Gaspar vem se escondendo, tudo o que ele tem feito é promover discórdia, com várias ameaças. Temos que mudar a tática, não podemos continuar deste modo, precisamos solucionar isso.
- Por qual motivo o senhor não está conseguindo olhar nos meus olhos?
- Aisha peço que compreenda, temos que ter sucesso e por isso, mudar os planos.
- Não gosto de rodeios, onde quer chegar? Seja direto!
- Vamos precisar solicitar a cooperação da jornalista.
- A Ohana vai ficar fora disso, ela já sofreu muito, quer distanciamento deste caso.
- Sem a colaboração dela, estamos de mãos atadas e você sabe disso.
- E qual a tua ideia? Já adianto que deixa-la exposta está fora de cogitação.
- Quero que você continue no caso, mas, se tiver dificuldade, devido, assuntos pessoais.
Aisha estava pronta para dizer que aquilo era ridículo, quando o telefone tocou, era uma ligação importante da regional, ela aproveitou para deixar a delegacia, não queria perder a razão e retornou para casa, sem nem mesmo avisar ninguém, estava muito contrariada.
- Já de volta. Algum problema?
- Anjo, por favor, nunca me esconda nada.
- Ei alto lá, não vá me acusar de algo e depois se arrepender.
- Não estou te acusando, só estou te pedindo.
- O quê foi agora?
Respirou fundo, pegou na mão da namorada e a conduziu até o sofá, ficaram sentadas uma ao lado da outra, receosas e com as mentes fervilhando.
- Linda, cheguei no departamento e fui informada que pretendem mudar a investigação.
- Você parece incomodada com isso.
- Querem a sua participação, já falei para te deixarem fora disso, mas, ficou bem claro que se for necessário me retiram do caso. Querem capturar o Gaspar a qualquer custo.
- Não me importo em ajudar.
- É que pode ser muito arriscado (lamentou).
- Amor, ainda não entendi, me explica, você sempre é sincera comigo. Quais riscos?
- Ainda não deixaram claro, mas, percebi um clima estranho, tenho quase certeza que vão querer te usar como isca para atrair aquele traste (revelou com raiva).
- Vida, eu não aguento passar por tudo aquilo novamente, foi muito traumatizante, só de relembrar fico apavorada (falou com os olhos cheios de lágrimas).
- Meu bem, não chore, eu não vou deixar ele encostar em você novamente, eu mato ele antes disso.
- Estou com medo.
- Eu sei (afirmou abraçando a morena).
Elas ficaram em silêncio, abraçadas por longos minutos.
- Você precisa voltar para o trabalho?
- Não, vou ficar aqui contigo.
- Obrigada!
- Nem precisa agradecer, você necessita de algo?
- De paz e sem nenhum criminoso de alta periculosidade tentando nos caçar.
- Posso pedir transferência, podemos nos mudar para uma cidade menor, recomeçar.
- Meu bem, seria ótimo, mas, temos que ser realistas, nós duas sabemos melhor do que ninguém, não adianta fugir, ele é tipo um bicho maligno sabe, um predador nato.
- Linda, queria te colocar numa caixinha e te cuidar (afirmou abraçando a namorada).
Elas passaram o restante do dia juntinhas, uma procurando dar forças para a outra.
No dia seguinte, Ohana foi a primeira a acordar e ficou muito pensativa.
- Vontade de jogar esse celular longe (reclamou sonolenta).
- Bom dia! Muito sono? (Perguntou desligando o despertador).
- Bom dia! Nem chega ser sono o problema, é que estou desanimada para mais um dia de trabalho.
- Sobre isso, andei pensando, me leva contigo hoje, ao menos para ouvir o que planejam. Mas, a tarde preciso trabalhar, vou acompanhar um campeonato que será transmitido on-line e redigir uma matéria para o jornal.
- Você além de toda a preocupação, acordou nervosa e agitada.
- E decidida também, assim como você cansada disso tudo, melhor acabar logo com todo esse pesadelo e se toda a operação for contigo, vou me sentir mais segura.
- Vida, é tão complicado, continuo achando muito arriscado.
- Amor, agradeço por todo o seu cuidado, primeiro vamos ficar cientes do que eles pretendem, depois a gente senta e conversa, não vou concordar com nada sozinha.
- Acho que nem temos muita opção. Então bora levantar e encarar a vida dura.
Elas se arrumaram, tomaram somente café, não estavam com apetite para comer nada.
- Amor, quer falar com teu chefe primeiro? Posso esperar aqui no teu carro.
- Não precisa, vai ser até bom pegar todos de surpresa. Você está bem?
- Estou sim, tudo vai dar certo.
- Na hora que quiser ir embora é só me avisar que te tiro daqui.
- Combinadas.
Assim que entraram os olhares foram direcionados para elas, ninguém conseguiu disfarçar, até burburinhos ouviram, tais como: "jamais que a inspetora seria passada para trás" - "a chefa mais uma vez mostrando que manda em tudo" - "é agora que ela acaba com o vagabundo" e "a jornalista é mais forte do que todos pensavam".
- Bom dia! Vamos focar no trabalho (salientou e todos dispersaram).
Já na sua sala e acomodadas, ela nem precisou avisar para o seu superior que tinham acabado de chegar, logo a secretária dele já estava batendo em sua porta.
- Bom dia! Com licença, gostaria de convidar as duas para uma reunião.
- Bom dia! Por favor, diga que recusamos o convite.
- Como? Desculpe, acho que não entendi.
- Sem problemas, eu repito, por favor, informe que o convite foi recusado.
- Compreendo (respondeu e deixou a sala).
- Namorada, o que foi isso?
- Chegar e já participar de uma reunião, eles vão entender que estamos à disposição.
- Entendi, a senhorita gosta de sempre ter o controle.
- Exato, principalmente no meu trabalho e também o controle da televisão, para sempre ver o que eu quero, detestava dividir com o meu irmão.
- Controladora então desde pequena.
- Linda, nem precisa se preocupar com isso viu, no nosso relacionamento é diferente.
- Eu sei, você é um doce comigo, sabe separar muito bem o profissional do pessoal, por isso estou aqui, por acreditar na tua competência, amor e cuidado.
- Tenho muita sorte em ter te conhecido. Mulher, você é maravilhosa.
- Você também, somos duas sortudas.
Ouviram novas batidas na porta.
- Doutor, pode entrar e fique à vontade, estava mesmo te aguardando, já adianto que o motivo da recusa, é que a Ohana veio somente para ouvir o que planejam, ela não atua mais no jornalismo investigativo, sendo assim, não tem disponibilidade para contribuir como outrora, por falar nisso, peço que seja breve, pois, ela precisa trabalhar durante todo o período da tarde. Sabe como é o mundo dos esportes, ela não pode perder nenhum lance (elucidou deixando evidente quem estava no comando).
- Lacerda, mas, é claro que vai ter que ser do seu jeito, nenhuma novidade, não é mesmo? A sua sorte é que o teu trabalho impecável te precede, você sempre faz jus ao cargo que possui e tem o respeito de todos, por isso, já até avisei na superintendência, te tirar do caso seria um tiro no pé. Precisamos de vocês duas para ter êxito e agradeço desde já pela atenção. Já foi anunciado recompensa e ainda não recebemos nenhuma informação, ou seja, ele está se escondendo, fazendo ameaças, mandando fotos e querendo causar o terror. Mas, ao mesmo tempo está sendo cauteloso e por isso, a nossa investigação está inerte. Não queremos que ele faça mais vítimas, temos que agir.
- E querem me usar como engodo. Como se eu fosse uma isca, para atrair um animal (constatou Ohana).
- Acreditamos que somente com a tua colaboração vamos conseguir chamar a atenção dele. A ideia é que uma policial disfarçada, faça por alguns dias a tua rotina de ir ao trabalho e claro que ele vai acabar percebendo que não é você, não é burro, é na verdade muito esperto, vai ficar bravo por ser subestimado, assim criamos toda uma situação e quando ele tentar se aproximar de você, vamos conseguir armar um esquema de captura. Saiba que vamos priorizar a sua segurança, vamos garantir a sua integridade.
- Entendi. Prefiro conversar com calma com a Aisha, para decidir como proceder. Compreendo a urgência, então até amanhã já confirmo. Agora quero ir embora.
- Claro, eu te levo em casa e não demoro para retornar ao trabalho (avisou).
- Fique tranquila, pode voltar só a tarde, conversem e tomem a melhor decisão.
- Certo, qualquer problema é só me ligar.
Assim que entraram no carro, as duas já começaram a analisar o que fazer.
- Ohana, o pior é que se a gente não tomar as rédeas da situação, não tentarmos fazer algo, a nossa investigação não avança como queremos e a gente sabe o quanto é mortal o modus operandi daquele facínora.
- Mor, o que significa essa palavra?
- Quem comete crime, de forma muito cruel e com excesso de perversidade.
- Entendi, ele é mesmo um facínora. Meu receio de não tentar de tudo, é com o passar do tempo ele acabar arquitetando algo que possa ser fatal. Fico com medo por nós duas.
- Também não é justo, você ficar presa dentro de casa, nem é bom para a sua cabeça.
- Então, pode avisar quê vou cooperar, eu já estava pensando em dizer sim lá mesmo, não vejo outra alternativa, só não quero que te afastem, pois, já é tudo tão difícil.
- Agora, melhor parar de pensar nisso, vamos passar o restante da manhã juntas.
- Podemos assistir alguma coisa engraçada, tentar dar uma desligada disso, depois almoçamos juntas, antes de retornarmos para as nossas tarefas.
Fim do capítulo
Estimadas leitoras, peço desculpas por não ter conseguido postar antes, meu trabalho nos últimos meses foi muito desgastante, mas, passou e agora tudo vai fluir melhor. Muito obrigada pela companhia, paciência e carinho. É não deu para terminar este romance no ano passado, como eu tinha planejado, juro que tentei, mas, de tudo aconteceu e faz parte, é impossível dar conta de tudo, o importante é ter saúde para continuar os projetos e vamos tocando conforme o tempo for colaborando. As personagens já estão me ‘cobrando' e já prometi para elas que ninguém solta a mão de ninguém kkk avante e estou pronta para terminar este romance. Feliz semana!
<3 May toda feliz em participar da primeira antologia do Lettera, que honra e espero que gostem do meu conto. Já estou ansiosa pela coletânea Futurismos. Beijocas!
Comentar este capítulo:
Marta Andrade dos Santos
Em: 07/02/2022
Tranquilo!
Resposta do autor:
Que bom!
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