Capitulo 1
Pedra azul
Era quarta-feira. Um carro percorria as estradas esburacadas de um pequeno povoado com cautela. A senhora sentada no banco do passageiro estava impaciente, não pelas circunstâncias do momento, mas por estar relembrando a cada paisagem acontecimentos aos quais achava ter enterrado há muito tempo.
— É aqui, senhora? — o motorista bem arrumado indagou ao estacionar em frente a uma humilde residência.
— Sim. — Olhou brevemente para a casa e abaixou o campo de visão. Não fazia parte dos seus compromissos estar naquele local, todavia uma notícia que cortara o coração em pedaços mudara toda sua agenda.
Após o motorista abrir a porta do automóvel, a senhora prolongou o olhar por toda a estrutura daquela habitação. Era muito humilde. Isso fê-la questionar o quanto de necessidades sua amada passara em vida.
Moveu os sapatos lentamente pelos pedregulhos ao chão. Com dificuldade chegou à porta, no entanto, antes de entrar, notou uma silhueta feminina em uma das janelas.
“Seria ela?”, perguntou-se antes de bater à porta.
Ao concretizar o ato, viu a imagem do homem que sempre odiara. Não por ter feito algum mal a ela, mas sim, a quem foi e era o amor da sua vida. Cumprimentou-o com certo desagrado. Depois foi direto ao ponto:
— Diga o que queres de mim.
— Sei que não tenho nenhum direito de pedir isto à senhora, todavia gostaria que a minha filha ficasse sob vossos cuidados — um homem aparentando ter mais de 40 anos falou num tom de súplica.
— Ainda bem que sabes. Nunca moveria uma pedra para ajudar-te, porém, por Cecília, sou capaz de tudo — disse friamente.
— Agradeço-lhe. — Tentou segurar a mão da senhora, entretanto foi impedido.
— Onde está a jovem? — Virou as costas para o homem.
— Está no quarto.
— Traga-a até mim! — a dama pediu, e o homem saiu em busca da filha.
Eleonor Monteiro, a mulher que havia ficado à espera da jovem, era uma senhora muito bela e com posses na capital. Seu passado humilde não tentava esconder, contudo fazia o possível para evitar o contato.
A espera naquela sala foi de alguns minutos, tempo suficiente para poder apreciar o retrato meio desgastado de uma mulher sorrindo gentilmente.
Sentiu vontade de tocá-lo, no entanto evitou.
— Aqui está! — O homem surgiu ao lado de uma jovem que carregava nas mãos uma pequena e velha mala.
Ao olhá-la, Eleonor lembrou-se de Cecília. Eram muito parecidas fisicamente.
Catarina olhou para o pai. Não conhecia a mulher à sua frente.
— Você irá morar com a senhora Monteiro a partir de agora, filha — Alfredo falou.
Catarina encarou Eleonor.
A desconhecida era muito elegante.
Sem ouvir nenhuma palavra sendo dita pela jovem, a senhora Monteiro se aproximou e a segurou pelo queixo, permitindo reparar em cada traço.
Catarina era um pouco mais baixa. Os olhos cor de mel refletiam timidez e inocência. Os cabelos castanhos levemente ondulados tocavam um pouco abaixo dos ombros. A pele bem alva demonstrava que, mesmo morando na zona rural, ela pouco andava sob o sol. A boca era rosada e se tornou convidativa demais para a mais velha.
O pouco tempo gasto para encarar a menina foi o suficiente para Eleonor notar as batidas do seu coração perdendo o compasso.
"Elas são tão parecidas”, pensou e afastou-se imediatamente.
— Venha! Não quero chegar atrasada à estação — falou dando-lhe as costas.
Estando a sós com o pai, Catarina prolongou o olhar nele. Era difícil acreditar que estava sendo entregue a uma desconhecida como se não tivesse nenhum valor.
Pensou em contar sobre a tristeza sentida no momento, todavia não tivera coragem. Apenas abaixou a cabeça e sentiu uma lágrima escapar pelos olhos.
— Vá com ela. Ficarei bem. Cuide-se! — Alfredo falou e depois abraçou a filha despedindo-se rapidamente. Tinha pressa para isentar-se das responsabilidades.
Após se despedir do pai, Catarina saiu da casa e respirou fundo. Talvez nunca mais voltasse àquele lugar. Sua mãe havia falecido há poucos meses. Mesmo sendo pouco tempo, a sua vida já havia mudado radicalmente, os fatos recentes demonstravam isso.
— Boa tarde, senhorita! — Um homem bem arrumado surgiu e abriu a porta do carro para que Catarina pudesse entrar.
Catarina olhou para dentro do automóvel e encontrou Eleonor. Engoliu em seco. Não sabia como seria sua vida dali por diante, isso a amedrontava.
A senhora mantinha o olhar fixo na paisagem em frente ao carro, parecia ignorar totalmente a sua presença.
— Não podemos nos atrasar mais, senão perderemos o trem. Entre logo! — Eleonor ordenou ao notar o receio de entrar no veículo.
Mesmo sentindo o corpo tenso, Catarina sentou-se ao lado da senhora.
Após o motorista fechar a porta, passou a sentir o perfume de Eleonor com mais clareza. O aroma era delicado demais para aquela mulher que parecia ser muito fria.
— O que a senhora era da minha mãe? — indagou com sua voz delicada. Isso atingiu Eleonor internamente, deixando-a surpresa. Até o timbre de voz parecia o mesmo.
— Amigas... — respondeu demonstrando um certo incômodo ao responder. Esse assunto era delicado.
— Ela nunca me falou a seu respeito.
— Acontece... — Queria que, de alguma forma, Catarina se calasse, mas necessitava saber mais a respeito daquela jovem. — Quantos anos você tem? — Olhou, permitindo o encontro dos olhares.
— 19.
— Muito nova ainda! — Desviou o olhar. — Vou te matricular em um colégio interno na capital. Quero que se forme — anunciou.
— Não irei morar com a senhora?
— Irá, mas ficará no colégio durante a semana. — Ficou até mais aliviada por saber que não passaria tanto tempo juntas. — Aos fins de semana pode ir para casa se caso sentir vontade.
— Está bem. — Catarina ficou pensativa.
Eleonor olhou para Catarina de soslaio.
“Esta moça está mexendo comigo”, pensou.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Sem comentários
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook: