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Sob o Encanto de Maya por Solitudine

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Palavras: 17017
Acessos: 11024   |  Postado em: 13/04/2020

Sétima Temporada - RECOMEÇO II

 

 

Camille e Ivone conversavam na livraria da Travessa, enquanto bebiam cappuccinos.

 

--Eu agradeço muito por você ter aceitado se encontrar comigo. -- a loura dizia -- Afinal de contas tive medo de que não quisesse me ver por desconfiar que seria uma consulta não remunerada. -- olhava sorridente para a psiquiatra

 

--Jamais teria restrições com você ou qualquer outro ex paciente -- respondeu com sinceridade -- Apenas não poderia fazer isso toda hora. -- sorriu

 

--Preciso desabafar e só você me entenderia. -- bebeu um gole de café -- De mais a mais, você já me conhece e eu não tenho que contar a longa história toda de novo.

 

--Certamente. -- sorriu -- Mas... só me responda uma coisa antes de começar: você ainda faz terapia?

 

--Eu me dei alta no dia em que me assumi pra minha família. -- respondeu orgulhosa -- Acho que não preciso mais de ajuda profissional.

 

--Todos nós temos nossos pequenos grandes problemas. Se considera que pode viver com eles de modo confortável, isso é o que basta. -- bebeu um gole de café -- Agora me conte sobre o que anda lhe incomodando.

 

--É Seyyed... -- suspirou -- Eu não consigo entendê-la! Acho que aquela mulher é a própria esfinge: eu não a decifro e ela me devora! -- pausou brevemente -- E como devora, ô louco! -- sorriu e corou em seguida

 

--Ai, ai... -- achou graça -- E o que sua esfinge tem aprontado? Quais são os enigmas que você não consegue desvendar? -- olhava para a loura

 

--Ela é aquele tipo de mulher que pode te levar pro céu e depois pro inferno e depois pro céu mais uma vez e você fica louca! -- gesticulava -- Eu não sei o que ela quer. Não sei quem ela quer!

 

--Explique melhor. -- cruzou as pernas

 

--Ed e eu começamos a namorar em junho. -- passou a mão nos cabelos -- E vinha sendo tudo tão bom, sabe? Seyyed é uma pessoa agradável, engraçada... Ela me faz me sentir a mulher mais plena do mundo! -- sorria -- Eu fico me sentindo segura, amada, poderosa... É gostoso estar com ela, inclusive na intimidade... -- ficou um pouco envergonhada e abaixou a cabeça -- Ela me dá a maior atenção, é amiga e posso dizer que graças a ela recuperei a empolgação no trabalho. -- olhou para Ivone novamente -- Consegui até uma transferência pra trabalhar numa área bem motivadora e foi por causa dela que tive o senso de correr atrás disso. -- sorriu -- Nós temos muito diálogo, nosso relacionamento é rico e percebo partes dela dentro mim como se fossem coisas que já estivessem aqui. -- pôs a mão sobre o peito -- Ela me inspira, me faz ter paciência com um monte de coisas e reconsiderar outras tantas. -- mexeu o café com a espátula -- Eu vou entrar de sócia com meu primo e comprar uma espécie de trailer pra ele vender lanches. A freguesia aumentou e Ricardo quer investir. -- contava -- Se Ed não tivesse me convencido com certeza eu não entraria nessa. -- suspirou -- Ela não guarda mágoas, mesmo tendo sido roubada por ele... -- pausou brevemente -- Diga se Ed não é apaixonante? -- bebeu o café até o final

 

--Apaixonante e sedutora sei que ela é. -- limpou os lábios com o guardanapo -- Ela costuma agir de um modo todo especial com suas namoradas e isso as encanta muito.

 

--Você deve saber... -- afirmou pensativa -- Afinal de contas tratou de Juliana por muito tempo. -- ajeitou-se na cadeira -- Mas eu achava que Seyyed e eu éramos o casal perfeito... Perfeito sob todos os aspectos... -- apoiou o queixo sobre a mão -- E quebrei a cara, que merd*! -- resmungou -- Subitamente sinto rancor por coisas que nem sei definir quais são!

 

--Por que? O que aconteceu? -- perguntou com jeito

 

--Eu tava usando o computador dela e decidi bisbilhotar. Aí vi que Ed tinha o hábito de escrever e-mail pra ex, que nunca se incomodou de responder. Só que tudo isso aconteceu antes da gente namorar. -- contava -- Mas, -- enfatizou a palavra -- o último e-mail ela tinha escrito em agosto e por isso fui ler; tinha que saber, né?-- olhou para Ivone -- Não me condene, porque qualquer pessoa faria o mesmo no meu lugar! -- defendeu-se

 

--Mas eu estou quieta. -- objetou

 

--Conheço esse teu olhar de condenação, meu. -- argumentou -- Acha que durante minhas sessões era só eu que tava sendo avaliada? Eu também te estudava sem você perceber!

 

--Sei. -- achou graça -- Mas e então? O que ela dizia no e-mail?

 

--Resumindo ela dizia que estava se envolvendo comigo mas que não tirava a outra do pensamento. Era como se pedisse socorro. Algo do tipo: “Isa venha me salvar porque ainda te amo!” -- fez aspas com os dedos

 

--E isso te decepcionou terrivelmente. -- concluiu

 

--O que?! Ô louco, você não tem idéia... Foi como diria aquela cantora: meu mundo caiu!

 

--E você chegou a conversar com Seyyed sobre isso?

 

-- E ela deixou? Tentei, mas não consegui.

 

--Como assim? -- riu brevemente -- Você não conseguiu?! É até difícil de acreditar...

 

--Ivone, você não entende! -- debruçou-se sobre a mesa -- Quando ela vem assim, toda romântica, toda cheia das mãos e dos beijos você não consegue pensar ou falar nada! Aquela mulher é uma loucura... -- suspirou -- E depois é aquele clima tão gostoso... -- sorriu -- Aí eu deixo rolar e fico quieta. Não toco no assunto.

 

--Mas se está sofrendo por conta dessa indecisão dela não pode ir adiando essa conversa. -- pausou brevemente -- Será que você também não quer ter essa conversa, Camille? Já pensou que talvez não queira ouvir o que ela tem a dizer?

 

A engenheira nada respondeu.

 

--Como esse relacionamento começou? -- olhava para a outra

 

--Bem... -- ajeitou-se na cadeira mais uma vez -- tudo começou com uma visita que eu fiz a ela em março. Fui na oficina pra ver a estrutura de restauro que ela montou lá. -- a psiquiatra fez cara de descrença -- Tá, Ivone, fui pra vê-la também! -- confessou --Saímos da oficina e fomos conversar no shopping e eu reparei que ela ainda usava aliança de casada. Ela disse que não conseguia tirar, mas que quando o fizesse era sinal de que tinha desistido da bailarina.

 

--E o que mais? Não ficou só nisso.

 

--Meu, mas você gosta de uma fofoca, viu? Ô louco! -- reclamou de cara feia -- Quer saber de tudo!

 

--Como quer que eu analise a situação se não me deixar entender o contexto? -- argumentou achando graça

 

--Mas eu não quero que você analise! -- protestou calando-se em seguida -- Mentira, eu quero sim! -- admitiu

 

Ivone riu. -- Ai, Camille, você me diverte mesmo com os assuntos mais sérios. -- balançou a cabeça -- Não fique na defensiva, você sabe como eu sou. Sabe que gosto de analisar cada cena. -- sorriu -- Diga-me, o que aconteceu depois dessa conversa?

 

--A gente saiu pra conversar algumas outras vezes até que chegou o aniversário de Flávia. E ali a coisa pegou fogo! -- afirmou enfática -- Ed me tirou pra dançar e entreguei pra Deus. Soltei a franga na pista de dança e liberei geral! -- contava

 

--Como é?? -- não entendeu

 

--Nem queira saber! -- revirou os olhos -- A gente dançou como se aquela noite fosse a última vez! -- pausou -- Um monte de gente ficou desconfiado da minha feminilidade depois daquilo!

 

--Imagino! -- achou graça novamente -- Pena que não pudemos conversar melhor na minha festinha de despedida. -- lamentou -- E o que mais?

 

--Fui na casa dela pra falar do carro de Sidney e a convidei pra almoçar fora. -- pausou brevemente -- Tudo bem, eu confesso que inventei um pretexto pra ir lá. -- passou a mão nos cabelos -- Ficamos o dia todo no shopping e na volta um dilúvio me forçou a dormir na casa dela. Então... -- corou -- aconteceu...

 

--E como foi isso? O que deflagrou o que aconteceu? -- queria entender -- Vocês estavam conversando e o assunto evoluiu pra outro sentido, como foi? É importante lembrar disso.

 

--Ah, a gente tava conversando e ela confessou que ficava pesquisando a ruiva pela internet. Coisa que faz até hoje, diga-se de passagem. -- fez um bico -- Aí eu disse a ela que era hora de se libertar daquilo, tirei a aliança e ela me beijou. -- respirou fundo -- E foi lindo... Pareceu um reencontro, um momento muito esperado por ambas.

 

Ivone gastou um tempo calada até que começou a expressar sua opinião: -- Porque talvez ambas estivessem buscando uma na outra por coisas que se perderam no passado. Um passado além da vida que têm hoje. Um passado de outras eras. -- afirmou calmamente -- Outra coisa também, que às vezes fica me parecendo, é que você não ama Seyyed, mas o que ela representa. Já pensou nisso? -- pausou brevemente -- Você diz que não sabe o que ela quer, mas e o que VOCÊ quer? Por acaso sabe?

 

--Ô louco, agora você me confundiu de vez!

 

--Antes do acidente que sofreu, você era uma moça muito ligada às aparências. É certo que se superou bastante em todos os sentidos, mas nunca me passou despercebido que sua objeção com Fátima também se devia ao fato de achar que as duas formavam um casal ridículo: ‘uma cega e uma aleijada’, como você diria.

 

Camille corou e nada respondeu. “Cheguei a dizer isso pra Fátima uma vez.” -- pensou rememorando

 

--Seyyed sempre foi a perfeição pra você. Ela é bonita, atraente, sedutora, uma presença marcante... Apesar de ter sofrido violência e um acidente de moto, não foi uma cicatriz no rosto e uns dedos a menos que fizeram essa imagem que você construiu se desmoronar. -- pegou um biscoitinho -- Também, ao que me parece, ela é uma espécie de troféu pra você; a prova de que foi capaz de superar Isabela em alguma coisa.

 

--Ah, Ivone! -- protestou

 

--Você sempre competiu com Isabela e sempre se julgou derrotada. -- comeu biscoito e depois de uns segundos perguntou: -- Vai negar isso?

 

Camille ficou em silêncio. Sabia que, dentro de si, competia com a ruiva há anos.

 

--Você ficou decepcionada com Seyyed e eu não tiro sua razão, -- ajeitou-se na cadeira -- afinal de contas essa coisa mal resolvida entre as duas se arrasta há muito tempo. Só que... repare bem: ela não foi atrás você; -- olhava para Camille -- você é que ficou procurando por ela. E Seyyed também não disse pra você, ou sequer demonstrou, que tinha desistido da ex mulher. Você decidiu que era o momento de partir pra outra e você tirou a aliança do dedo dela.

 

--Eu não queria mais esperar... -- falou como criança se justificando

 

--Ainda era cedo pra ela, Camille. Mesmo que pra você parecesse que já era mais do que em tempo. -- descruzou e cruzou as pernas novamente -- Eu acompanho Seyyed por tabela há anos e tenho a impressão de que ela ainda não aprendeu a amar plenamente porque se mantém escrava de seus desejos e vontades, embora leve os relacionamentos muito à sério. -- pausou -- Talvez agora o sofrimento a ajude a se libertar, porque acredito que ela sofra bastante. -- olhava para a ex paciente -- O tempo dirá.

 

--Mas você acha que ela me quer ou quer Isabela? -- perguntou agoniada -- Ah, mas se ela quiser as duas eu meto-lhe um tapão! -- ameaçou de cara feia

 

Ivone riu brevemente. -- Eu não tenho como saber isso! Sequer sei o que você quer!

 

--Eu quero ela! -- respondeu como quem diz o óbvio

 

--Quer mesmo? -- provocou -- Você a quer ou quer o que ela representa?

 

Camille nada respondeu e ficou pensando.

 

***

 

Novembro estava em seus primeiros dias quando Juliana e Suzana receberam uma notícia que as deixou eufóricas. Controlando a ansiedade, as duas seguiam uma assistente social que lhes narrava uma história.

 

--Ela chegou aqui, quase se arrastando, coitada, e trazendo os dois bisnetos na maior dificuldade. -- lembrava -- Disse que viu a senhora na TV por várias vezes, deputada, falando em adoção -- olhou rapidamente para a japonesa -- e me implorou pra fazer de tudo pra contatá-la. -- parou diante de um berçário -- Esse não é o protocolo, mas eu prometi a ela e cumpri com a promessa. -- olhou para o casal -- Dona Joselina me deixou patente todo o sofrimento de quem abandona uma criança por amor e não por leviandade. -- pausou brevemente -- Foi um dos episódios mais comoventes da minha vida!

 

--E onde estão as crianças? -- a enfermeira perguntou ansiosa

 

--Onde?? -- a delegada também não se agüentava

 

--Aqui mesmo! -- entraram na sala e caminharam até duas caminhas próximas -- Estes são Celina e Murilo. -- mostrou as crianças

 

--Ai, meu Deus, olha amor!! -- Juliana sentiu uma emoção muito forte -- Que coisinhas das mais fofinhas!! -- os olhos marejaram

 

--Pode segurar? -- a delegada perguntou a assistente social

 

--Por favor! -- sorriu

 

As duas amantes se entreolharam empolgadas e cada uma segurou uma criança.

 

--Olha que menininha fofa! -- a morena beijou a cabecinha dela sentindo o coração disparar -- Nossa, eu tô sentindo uma emoção que nem sei explicar!

 

--E essa belezinha aqui! -- sorria para Murilo -- Ele gostou de mim, amor! -- olhou para a delegada, que lhe sorriu feliz

 

--Devo adverti-las que Murilo é um bebê que vai dar trabalho... -- a mulher falou receosa -- A mãe dele era viciada em crack e... Certamente não levou a gravidez como deveria! -- pausou brevemente -- O menino não será muito saudável segundo o médico nos disse...

 

--Não tem problema! -- Suzana afirmou com firmeza

 

--E a diferença de idade entre eles é muito pequena. Menos de um ano! -- advertiu

 

--Nós estamos dispostas a ter quase gêmeos! -- a japonesa brincou

 

--Sendo assim, -- a assistente social concluiu sorrindo -- agora é brigar na Justiça com unhas e dentes! Aliás, essa briga vem de longa data...

 

--Ah, minha filha... -- a enfermeira riu -- Brigar é com a gente mesmo! -- olhou para a esposa -- Ela não deve ter visto na TV o que aconteceu na marcha que comandei em Brasília! -- sorriu

 

--Se é pra ter briga, vai ter briga com toda certeza! -- a morena assinou embaixo -- Tô dentro!

 

--E nós estaremos do lado de vocês! -- Valadão afirmou resoluto -- Por todo tempo!

 

--Se Deus quiser elas ganham a guarda dessas crianças! -- Vitória olhou para o Alto

 

--Vão ganhar sim e a briga vai ser boa! -- Rodolfo esfregava as mãos sorridente -- Ah, se eu estivesse encarnado...

 

--Mas elas vão ganhar! -- Valadão olhou para o policial -- Suzana e Juliana fazem parte do plano reencarnatório de Lourdinha e Júnior. E nós vamos fazer o que estiver ao nosso alcance pra que elas consigam adotar os dois!

 

--Eu nunca imaginei que a Espiritualidade Superior apoiasse a adoção de crianças por casais homossexuais. -- Vitória comentou -- Sempre achei que isso fosse visto como... -- pensou no que dizer -- como um pecado, sei lá!

 

--Os Emissários da Luz entendem que a Terra precisa cada vez mais de famílias! -- Valadão esclarecia -- E onde há amor, -- olhou para o casal -- há toda a possibilidade de se constituir um núcleo familiar saudável para a formação do caráter dos irmãozinhos que retornam uma vez mais. -- sorriu

 

 

22:23h. 09 de novembro de 2012, Parque dos Atletas, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro

 

Lady Gaga acabava de subir no palco, acompanhada por uma cavalaria estilizada. Começaram cantando Highway Unicorn debaixo de chuva.

 

Lady Dy cantava, chorava e gritava ensandecida. -- Gaga!!!!!!!! Linda, maravilhosa!!!! Eu te amooooooo!!! -- pulava como pipoca

 

Enquanto isso, em Piraí, Priscila e Priscilinha pensavam na engenheira maluquinha. As duas estavam deitadas na cama do casal.

 

--Tia Pi, como foi que mamãe conseguiu faltar do trabalho pra ver o show da maluca da Lady Gaga? -- perguntou intrigada olhando para a outra

 

--Sua mãe conseguiu que a empresa faturasse um cliente muito rico. -- explicou acariciando o rosto da menina -- Agora o chefe dela dá a lua se ela pedir. -- riu brevemente -- Por isso ela pediu pra folgar hoje e ele deixou.

 

--Pôxa! E eu posso fazer o que for que a professora não me dá folga! -- reclamou

 

--Ah, mas é diferente, meu bem. -- achou graça -- Bem diferente.

 

--E o que será que mamãe tá fazendo nesse show, hein? Você viu a roupa esquisita que ela arrumou? -- sorriu -- Aposto que ela vai bem conhecer a Lady Gaga! Mamãe consegue tudo!

 

--Não duvido nada... -- respondeu pensativa -- "Meu Deus do céu, o que será que aquela criatura vai aprontar no show daquela outra louca?” -- pensou agoniada -- "Será que eu deveria ter deixado ela ir sozinha? Será seguro?”

 

--Hoo-ooookaaaaaaaa-er… -- Lady cantava alto e pulava – Yeah, you're my hooker. -- batia palmas -- Hoo-ooookaaaaaaaa-er... -- vibrava como louca -- Government hooker!!

 

Duas drag queens que curtiam o show reparavam na engenheira. Quando a música terminou, foram abordá-la.

 

--Mona, eu não pude deixar de notar: você tá vestindo um modelito que a Gaga usou no show da Austrália, em Sidney! -- olhava sorridente para a Lady -- Arrasou! -- deu pulinhos

 

--Adorei o sapatinho! -- a outra drag complementou

 

--Ai, amigas drags, é que conheço uma costureira maravilhosa e ela fez essa roupa pra mim! Eu achei que ficou tudo a ver! -- armou uma pose -- Born this way! -- falou afetada

 

--Gentem!!! -- bateram palmas

 

--Quais os nomes de vocês?

 

--Eu sou Madonna, -- apresentou-se -- e essa é Dany Mercury. -- apontou para a outra -- E você?

 

--Eu sou Lady Dy! -- respondeu orgulhosa -- E é meu nome de verdade!

 

--Uau! De Lady para Lady! -- Dany falou excitada

 

--É isso aí! E vocês também tão arrasando, lindas, maravilhosas e peitudas! -- sorriu -- Agora que ficamos amigas, vamos deixar nossa musa saber do nosso amor! Vamos nos unir e mostrar que aqui tem little monsters! -- apertou os seios

 

--É! -- Madonna apertou os seios também -- Aqui tem!

 

--Se tem! -- Dany repetiu o mesmo gesto

 

--Dança comigo, amiga!!! Uhu!!! -- a engenheira gritou -- No passinho! -- dançava -- AHAHAHAHAHAHAHAH!!!!!!! -- berrou endiabrada

 

--Tia Pi, se também tiver chovendo no Rio minha mãe vai ficar doente de resfriado! -- Priscilinha comentou preocupada

 

--Eu já tô doente de agonia! -- a dentista resmungou baixinho -- "Quem vai dormir nessa casa hoje?” -- pensou

 

--O que? -- não entendeu

 

--Nada, meu amor. -- beijou a cabeça da menina -- Dorme e não pense nisso. A gente já pediu a Deus pela mamãe e agora é entregar pra Ele. -- sorriu -- Amanhã ela chega cheia de história pra contar.

 

No momento mais esperado do show, na décima quarta música, Lady Gaga decidiu convidar três fãs para subir no palco. Impressionada com o desempenho de seus little monsters mais cheios de energia, convocou Lady Dy e suas amigas.

 

--Ai, ela tá chamando a gente!!! A gente!!!!! -- Dany dava pulinhos --AHAHAHAHAHAHAH!!!!!!!!!!!! -- berrou -- Me mata de emoção, Gaga! Kill me, kill me!!!! -- começou a chorar

 

--AHAHAHAHAHAHAHAH!!!!!! -- Madonna enlouqueceu sapateando

 

--AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH!!!!!!!!!!!!!!!!! -- a engenheira gritava histérica -- "Nossa, que coisa prestes a ficar famosa!” -- pensou abestalhada e chorosa

 

Completamente ensandecidos em meio às lágrimas e gritaria alucinada, os três foram conduzidos até o palco, onde a cantora veio conversar com eles.

 

--So, you are my best little monsters of tonight, don’t ya? -- piscou

 

--Ai, Dy, traduz pra gente que a tecla SAP foi pro saco! -- Dany pediu às lágrimas -- I love you, Gaga!!! -- gritou para a cantora -- Love e como love!!

 

--Amigas drags, ela disse que a gente é o máximo! -- traduziu histérica -- Ai, Gaga, you are the best singer of the world!!!!!!!!! -- gritou

 

--AHAHAHAHAHAHAH!!!! Gaga, I want to be igualzinha a you!! -- Madonna abraçou a artista, que dava risadas

 

--Oh, lovely, lovely! -- a cantora abraçou os três, que estavam à beira da morte por tietagem -- Lets sing and dance Hair, do you know the song?

 

--Amigas drags, ela quer que a gente cante e dance Hair com ela!!! -- Lady sapateava -- Ai, que emoção!!!! -- puxou a roupa a ponto de rasgar uma parte -- Gaga, you’ll see how Brazilians do a show! (Gaga, você verá como os brasileiros fazem um show!) -- prometeu jogando os cabelos e semi cerrando os olhinhos

 

--AHAHAHAHAHAH, come on, Gaga! -- Madonna respondeu resoluta -- Sing que a gente follow you!!

 

--Prepara, gentem!! -- Dany apertou os seios -- Hair! -- jogou os cabelos

 

Lady Gaga estava se divertindo com aquele trio.

 

Priscilinha havia pego no sono e a dentista se levantou da cama devagar. Estava preocupada com as confusões que Lady poderia estar aprontando.

 

“E se ela fizer amizade com gente que não presta? Lady é ingênua demais e acha que todo mundo é bom!” -- pensava enquanto caminhava para a cozinha -- "E se ela for presa, meu Deus?” -- pegou um copo para beber água -- "Calma, Priscila, entrega pra Deus, entrega!”

 

--Mãe, que roupa maluca foi aquela que você fez um dia desses, hein? -- Camille perguntou enquanto se arrumava para dormir -- Troço mais horrível, cruzes! Pensei que você nem costurasse mais pra fora, e quando vejo, me deparo com aquele vestido de dona Pomba!

 

--Que dona Pomba, menina, eu hein, bate nessa boca! -- benzeu-se de cara feia -- Aquilo foi encomenda de Lady. -- preparava a cama

 

--Ela vai sair com aquilo??? -- perguntou com os olhos arregalados

 

--É pra ir no show da Lady Gaga, que eu acho que é hoje, diga-se de passagem.

 

--Humpf! -- fez um bico -- Só podia! -- beijou a cabeça da mãe -- Boa noite, mãe. -- foi para o quarto

 

--Boa noite, filha. -- deitou-se na cama -- "E falando naquela maluquinha, o que será que ela tá aprontando naquele show, hein?” -- pensou achando graça

 

--I've had enough, enough, enough, -- Lady Dy e Lady Gaga cantavam juntas -- And this is my prayer, I swear! -- Madonna e Dany se acabavam de dançar ao fundo -- I'm as free as my hair, I'm as free as my hair, -- as duas Ladys puxavam os cabelos uma da outra -- I am my hair, I am my hair!!! -- abraçaram-se e pularam juntas

 

O público delirava assistindo o entrosamento da cantora com sua fã mais louca.

 

--You are amazing, you know? -- a artista disse para a engenheira -- And you are, let me say: delicious!!! -- olhava para os travestis

 

--Gente, ela disse que eu sou incrível e que vocês são gostosas demais!!! -- Lady traduziu histérica

 

Dany e Madonna entreolharam-se e gritaram ensandecidas rasgando as roupas.

 

--Oh, my gosh! -- a cantora achava graça -- And you, my baby, what’s your name? -- apontou o microfone para a engenheira

 

--Lady Dy, another Lady, just like you! (Lady Dy, outra Lady, como você!) -- respondeu babando o microfone -- I love you Gaga!! Please, send a kiss to my daughter, Priscilinha, and to my wife to be, Priscilona! (Eu te amo, Gaga!! Por favor, mande um beijo para minha filha Priscilinha e para minha futura esposa Priscilona!) -- pediu emocionada

 

--Oh, my, so you are gay? The three of you? (Oh, minha nossa, então vocês são gays? Os três?) -- perguntou sorridente

 

--Oh, yeah! -- segurou o microfone mais uma vez -- The most incredible drag queens of the world: Madonna and Dany Mercury! -- apontou para os amigos que enlouquecerem de vez -- And me, -- bateu no peito -- I'm a lesbian without confetes!*

 

--Without what? -- não entendeu

 

--Ai, amiga, eu não sei traduzir, não! -- respondeu sem graça

 

--OK! -- a cantora ria -- Priscilinia and Priscilonia, bejo!! Uhu!!! -- gritou olhando para o telão -- Hey everybody: -- convocou os fãs -- the world is gayyyyyyyyy!!!!!!!!! -- a multidão delirava

 

“Gente,” -- Lady pôs a mão no peito -- "realizei um sonho! Agora só falta casar e o mundo pode acabar em paz!” -- sorria abestalhada sob as luzes dos holofotes

 

(Nota da autora: Eu acho que a expressão *Lésbicas sem Confetes, título de uma das histórias de Astridy Gurgel, por si só é muito interessante e não resisti a usá-la nesse momento; com todo respeito)

 

***

 

--Lady, mas você tem titica na cabeça ou o que??? Me diz o que diabo foi aquilo?? -- Priscila reclamava aborrecida -- Não bastasse ter saído daqui vestida de oferenda, você e mais dois loucos vão sambar com Lady Gaga no palco? E no final de tudo ainda vai pedir praquela cantora doida mandar beijo pra gente? -- pôs as mãos na cintura -- E que conversa foi aquela de lesbian without confetes?

 

--Foi uma frase forte que eu usei! -- estava quase afônica e pigarreou -- Nossa, que coisa rouca! -- falava de si mesma

 

--Nossa, que coisa louca, você quer dizer! -- fazia cara feia -- Lady, o Brasil todo agora sabe que você é lésbica! -- aproximou-se da outra -- E eu por conseqüência! -- segurou-a pelos ombros -- Você não pensou na sua filha, não? No que ela vai viver daqui por diante com os coleguinhas na escola? Todo mundo vai zombar de Priscilinha! Não é fácil ser criada por um casal homossexual!

 

--Você diz isso! -- desvencilhou-se da morena -- Veremos! -- espirrou -- Acho que vão é morrer de inveja porque poucas crianças têm mãe que cantou e dançou com Lady Gaga no maior show da Terra! -- gesticulava -- Além do mais, tudo que eu mais quero é... -- tossiu sem controle

 

--É tossir, pelo que eu vejo! -- criticava -- Que exemplo pra menina, viu, Lady? Que exemplo! -- circulava pela sala -- Eu só quero ver! Piraí inteiro agora sabe que você e eu... -- cobriu o rosto com as mãos -- Ai, que coisa!!! -- gritou -- Será que eu vou ter algum cliente depois disso? -- olhou para Lady com cara feia -- E seu emprego? Você não pensa, não, é?

 

--Meu chefe não liga pra isso. -- tossiu e bateu no peito -- Nossa, que coisa moribunda! -- respirou fundo -- Ele quer mais é produção e cliente satisfeito. Não liga pra nossa vida pessoal. -- espirrou -- E você vai continuar poderosa como sempre. E Priscilinha vai fazer sucesso no colégio. -- tossiu -- Como eu tentava dizer, tudo o que eu mais quero é que ela seja feliz! -- limpou o nariz com o lenço -- E ela vai ser!

 

A morena olhou para o relógio. -- Por sorte meu pai foi buscar ela na escola. -- olhou novamente para a engenheira -- Morreria de vergonha de colocar minha cara na rua hoje! Ainda bem que eu não atendo aos sábados! -- levantou as mãos para cima agradecendo

 

--Você exagera demais, Pri. -- espirrou

 

A campanhia tocou.

 

--São eles. -- a morena foi atender preocupada -- Se essa menina chegar aqui chorando, Lady, eu nem sei!

 

Segundos depois, Priscilinha entrava em casa pulando empolgada.

 

--Hoje no colégio todo mundo queria o autógrafo meu por causa da minha mãe! -- sorria olhando para a dentista -- Agora que você virou estrela, -- olhou para Lady -- não se falava em outro assunto!

 

--Eu não disse? -- Lady sorriu orgulhosa para tossir logo em seguida

 

--Mas... -- desmanchou o sorriso -- teve um pessoalzinho que ficou zombando de mim dizendo que você é sapatão. -- contou um pouco sem graça

 

--Eu não disse? -- Priscila olhou para Lady com a cara feia -- Eu não falei?

 

--E o que você fez, meu bem? -- a engenheira se aproximou da filha e tocou o rosto dela -- Chorou? Ficou zangada com a mamãe?

 

--Eu não! O que aconteceu foi que eu perdi minha classe e saí dando cada moca violenta e pescotapas alucinantes naquele povo! -- reproduzia os gestos -- Aí fiquei de castigo. Mas isso não me impediu de dar autógrafos. -- sorriu de novo

 

--E a professora não mandou recado pra gente? -- a morena perguntou à menina

 

--Mandou. -- olhou para Priscila -- Tá dentro do meu caderno.

 

--Meu amor, vá tomar seu banho e vamos almoçar. -- tossiu -- Depois a gente conversa sobre isso, tá bem?

 

--Tá. -- beijou as adultas e foi para o quarto

 

--Viu, Priscila? -- olhou para a amante com as mãos na cintura -- Priscilinha não se abala com qualquer coisa!

 

--Humpf! -- fez um bico -- Ela é uma criança e hoje foi só o primeiro dia. Veremos os outros. Não quero essa menina de briga no colégio, Lady. E muito menos sendo vítima da provocação dos colegas!

 

--Nem eu! -- tossiu -- Mas você exagera!

 

--Ah, sou eu a exagerada aqui! -- protestou -- Por acaso sou eu que faço greve?

 

Lady sorriu e aproximou-se da morena. -- Eu faço greve por sua culpa, dona Priscila! -- acariciava o rosto da amante sensualmente -- Sabia que já realizei quatro dos meus cinco sonhos de vida? -- olhava nos olhos da outra -- Agora só falta um!

 

--Um? -- perguntou curiosa

 

--Tive uma filha, encontrei o amor da minha vida, arrumei bom emprego e fiz show com minha musa! -- aproximou-se ainda mais -- Só me falta casar antes que o mundo acabe...

 

--Ô, meu Pai amado!!! -- afastou-se nervosamente -- Mas você não tira isso da cabeça? Lady, o mundo não vai acabar! -- gesticulava

 

--Quem garante? -- duvidava -- E eu quero me casar no máximo até o dia 21 de dezembro! -- tossiu -- E tenho dito! -- bateu com o pé

 

--Lady... -- reclamou

 

--E a greve continua, viu? -- deslizou as mãos até o próprio sex* -- Firme -- apertou os seios -- e forte! -- tossiu e se retirou da sala

 

A dentista jogou-se no sofá e respirou fundo. -- Minha vida era tão mais simples antes, meu Deus... -- olhou para cima -- Por que eu tinha que me apaixonar? -- suspirou -- Casar...? -- questionou desanimada -- E essa greve tá acabando comigo...

 

***

 

Seyyed e Camille passeavam de mãos dadas no Parque do Grajaú.

 

--Eu tava aqui pensando, sabe, Ed? Tatiana e Aline estão grávidas e super eufóricas porque serão mães... Renan e Pedro estão que não cabem em si! Enquanto isso, Juliana e Suzana estão na maior batalha pra adotar dois bebês... -- a loura dizia -- Flávia e Brito têm Clara e Celso, Lady já é mãe faz tempo e colou com Priscila... Até meus primos já têm seus filhos... -- olhou para a namorada -- Parece que todo mundo tá formando família!

 

--É o tempo passando, minha gata! Natural da vida! -- beijou a cabeça da outra -- Alguma vez na vida você pensou em ter filhos? -- perguntou curiosa -- Eu nunca pensei, mas não sou contrária à idéia. -- sorriu -- Criar alguém é bacana!

 

--Eu não penso em ter filhos. -- voltou a olhar para frente -- Acho lindo também, mas não gostaria de ser mãe.

 

--Por que? -- perguntou sem entender

 

--Porque ser mãe não é pra qualquer uma. -- respondeu naturalmente -- Não é pra mim. Eu sinto. -- apontou um banquinho de piquenique -- Vamos sentar ali?

 

--Vamos. -- sentaram-se uma de frente para a outra -- Você não quer casar, não quer ser mãe... -- olhava para a loura -- Por que? Acha que são coisas ruins?

 

--Não... É porque não é o que eu desejo fazer. Nem mesmo com você, que eu amo... -- acariciava as mãos da morena -- Pra ter filhos é necessário mudar a vida completamente e abrir mão de um monte de coisas, e eu não tô preparada pra isso... -- balançou a cabeça negativamente -- Quanto ao fato de não querer casar... Gosto de morar com a minha mãe e assim queremos que permaneça. -- falava com delicadeza -- Você entende isso, ou acha egoísmo e criancice demais da minha parte? -- perguntou receosa

 

--Não te julgo mal por causa disso. -- beijou uma das mãos da engenheira -- As pessoas têm expectativas de vida diferentes e a fórmula mágica de casar e ter filhos não é a receita universal de felicidade. Foram as igrejas e religiões ortodoxas que inventaram isso. -- falava com sinceridade -- Você não é obrigada a seguir o roteiro que a maioria segue. O importante é viver bem e ser feliz!

 

--Que bom que você não me condena e nem fica magoada! -- respondeu aliviada -- É o meu jeito de pensar, mas não significa que eu não seja séria. Minha mãe também é séria e não pretende se casar com Sidney.

 

--Ah, mas isso eu sei! Ela até dedou o maluco pros seguranças do shopping! -- riu -- Muito louca! -- balançou a cabeça

 

--Mas sabe que depois daquilo Sidney deixou de cair na pilha do Romeu? -- respondeu sorrindo -- E agora, creio que por causa disso, ele já não perturba mais na mesma intensidade!

 

--Romeu é figura demais! -- riu -- Sabia que ele tá doido pra que Ricardinho perca a virgindade? Como diria Tatiana: tem base isso?

 

--Ô louco, meu, que tarado! -- arregalou os olhos -- Ricardinho é só um menino! E mesmo que fosse rapaz, cabe ele decidir com quem e quando!

 

--Pois é. Mas mamãe e Mariano não compartilham desse raciocínio machista e pequeno. -- fez um gesto despreocupado -- Ricardinho não vai ter aporrinhações!

 

Camille gastou uns segundos calada até que resolveu falar sobre o assunto que mais a incomodava nos últimos tempos: -- Ed, tem uma coisa sobre a qual eu acho que nós temos que conversar... Algo que vem me perturbando... -- pegou um pequeno graveto e ficou brincando com ele

 

--E o que é? -- perguntou preocupada

 

--Em um dos dias em que dormi na sua casa, eu fiquei usando seu computador depois que você saiu pra trabalhar... Não sei se lembra disso. -- olhava para as próprias mãos -- Sei que foi errado da minha parte, mas... você tava logada no Gmail e eu entrei pra bisbilhotar.

 

Seyyed ouvia calada. Já imaginava o que Camille diria em seguida.

 

--Eu li um e-mail que você mandou pra sua ex em agosto... -- olhou para a morena -- Também vi que você vive pesquisando sobre ela na internet... -- pausou brevemente -- Não quero ser um prêmio de consolação!

 

--E você não é! -- olhava nos olhos da loura

 

--Então por que não deixa Isabela em paz? -- perguntou chateada -- Por que nunca desabafou comigo sobre a tristeza que sente? Por que mandou um e-mail pra ela pra dizer que a gente tava junta? -- olhou para as mãos novamente -- Parecia que pedia socorro a ela!

 

--Não vou mentir, Camille, evito fazer isso ao máximo. -- segurou uma das mãos da namorada -- Na época em que escrevi aquele e-mail, que foi o último, eu tava muito mal! E é verdade, eu pedia socorro como você diz... -- tocou suavemente o rosto dela levantando-o para que a olhasse -- E eu orei muito, muito... refleti, meditei, conversei várias vezes com minha mãe até que cheguei à conclusão de que Isabela foi uma pessoa maravilhosa na minha vida, mas... nosso relacionamento acabou. E acabou por minha culpa. Falhei e a decepcionei por completo! -- confessava -- Eu não passava a segurança que ela queria sentir, a segurança que ela me fazia sentir. -- acariciava as mãos da amante -- Por muitas vezes fiquei balançada por sua causa e ela sentia isso... -- pausou brevemente -- Isa tomou a atitude corajosa de buscar o melhor pra ela e romper com minha indecisão... Indecisão que eu não admitia existir, mas que existia... -- respirou fundo -- Isa e eu estamos em dimensões diferentes... Foi ilusão minha acreditar que daríamos certo juntas... -- sorriu -- Quer dizer, a gente deu muito certo, mas era por um tempo determinado. Penso que a missão que tínhamos uma com a outra já foi cumprida.

 

--Se ela não tivesse terminado, as coisas continuariam na mesma, não é?

 

--Provavelmente sim... -- concordou -- Eu achava que meu coração era dela e que você e eu não tínhamos a menor chance... Que tudo não passava de uma admiração que eu sentia por você e de um fascínio que você sentia por mim...

 

--E agora você acha o que? -- cobrou -- Não te sinto completamente minha!

 

--Acho que precisamos aprender a amar, porque também não te sinto completa pra mim! -- respondeu olhando nos olhos da loura

 

--Como assim?! -- soltou as mãos da mecânica -- Ed, eu sou completamente sua desde que te vi pela primeira vez! -- retrucou contendo a revolta

 

--Não, não é! -- argumentou com delicadeza -- Você tá aprendendo a ser, tanto quanto eu aprendo contigo!

 

--Por que diz isso? Por causa de Fátima? -- não aceitava o que ouvia -- Eu nem penso mais nela! Sequer procuro por ela!

 

--Antes eu achava que você me via realmente como sou, depois passei a achar que você fantasiou demais comigo e gradativamente aprende a me conhecer. Com isso acabou se decepcionando um pouco... -- reclinou-se sobre a mesinha -- Mas isso é natural, Camille. Construir um relacionamento é um processo contínuo, sério, trabalhoso... -- pausou -- Eu precisei chegar no fundo do poço pra aprender algumas coisas...

 

--O que, por exemplo? -- não conseguia concordar com o que Seyyed lhe falava

 

--Finalmente acho que, no que diz respeito a relacionamentos, comecei a amadurecer... -- explicava -- No fundo, cada mulher que tive foi, de uma certa forma, um troféu pro meu ego, que é mais frágil do que eu imaginava. -- admitiu -- Acho que me escondia na fachada que criei de pessoa bem humorada e de bem com a vida pra contornar meus dilemas existenciais... -- mirou um ponto no horizonte -- Na véspera de ter mandado o e-mail que você leu, eu tava caminhando na praia e pensando... Entrei de verdade em contato com meus sentimentos, com minhas escolhas e me vi saindo do mundo das ilusões que criei sem perceber... -- suspirou -- Carrego comigo as conseqüências de meus atos passados, as conseqüências de ter brincando com sex* e com os sentimentos alheios...

 

--Você diz... coisas que fez em outras vidas? -- perguntou com interesse

 

--Sim! -- olhou para Camille -- Por causa de minhas inconseqüências, tenho sido incapaz de amar plenamente uma outra pessoa por ainda não conhecer e sentir a mim mesma... Sabe, querida, -- acariciava o braço dela -- às vezes a gente precisa chegar no fundo do poço pra só assim poder reconhecer o quanto se está mal e precisando de ajuda... Meu erro foi não ter pedido essa ajuda a você! -- emocionou-se -- Será que me perdoaria por isso? -- pediu com humildade

 

Aquele pedido e as coisas que ouvia mexeram com a jovem. -- Claro que sim, Ed. -- colocou a mão sobre aquela que a acariciava -- Claro que sim... -- sorriu ternamente -- Mas ainda me fica a pergunta: o que é que você quer?

 

--Você! -- respondeu convicta -- E quero que me ajude nesse processo de amadurecer, porque embora já seja velhinha o suficiente, confesso que a coisa é sinistra! -- brincou

 

--Ajudo sim! -- sentia firmeza na morena -- Da mesma forma que farei com que se sinta totalmente amada por mim! -- pausou brevemente -- Amo você e não uma imagem que construí!

 

Seyyed sorriu emocionada; verdes e azuis fundiram-se em promessas esperançosas.

 

(Nota da autora: Mnemsis, agradeço a perfeita análise que fez em seus comentários e usei muito dela aqui)

 

***

 

Irina sentiu o coração disparar quando chegou na sala de visitas e encontrou Juliana a sua espera.

 

--Então você veio! -- exclamou sorridente

 

Após receberem as orientações da policial que conduziu a loura até a sala, as duas ficaram a sós.

 

--Que bom que você veio! -- Irina sorriu -- Eu queria muito lhe falar!

 

--Eu sei. -- a japonesa cruzou as pernas -- Sua mãe disse isso a Suzana e ela me pediu pra vir. -- olhava para a advogada -- E foi só porque ela insistiu comigo que eu aceitei vir. -- falava com seriedade

 

--Suzana insistiu pra você vir me ver? -- a advogada estava estupefata

 

--Sua mãe conquistou o respeito dela. -- respondeu objetivamente -- Mas e então? -- cruzou os braços -- O que queria falar comigo?

 

--Sempre direto ao ponto! -- sorriu e gastou uns segundos calada enquanto o sorriso se desmanchava lentamente -- Sabe que eu recebi uma carta de minha mãe... -- olhava fixamente para a outra

 

--Sim.

 

--Ela me fez refletir sobre certas coisas... -- passou a mão nos cabelos mal tratados -- Queria pedir o seu perdão... Afinal de contas eu agi muito mal com você...

 

Juliana respirou fundo e pensou um pouco antes de responder: -- Você não teria quase destruído meu casamento se eu não tivesse me deixado seduzir pelo poder. Também tive minha responsabilidade. -- admitiu -- Não vou dizer que você é minha amigona do peito, mas não tenho ódio ou mágoas. Não há o que perdoar. -- estava sendo sincera

 

--Mas você me trata com muita frieza. Se não guarda mágoas, não sei o que há no seu coração. -- retrucou

 

--O que esperava, Irina? -- ficou indignada -- Você queria me oferecer em sacrifício pros seus capetinhas de estimação! Não dá pra chegar aqui cheia das alegrias contigo e te chamando de nêga!

 

A loura riu brevemente. -- É, eu sei... -- balançou a cabeça -- Tá certa...

 

A japonesa debruçou-se sobre a mesa e olhou nos olhos da outra. -- Me explica qual era o teu plano? -- pediu -- Eu queria entender!

 

A advogada olhou para o teto e se perdeu em pensamentos. Começou a falar mirando um ponto perdido em suas memórias. -- Minha família era pequena e bem pobre... Meu pai morreu dias antes do meu nascimento e mamãe batalhou muito pra me criar. Eu não gostava daquela vidinha que nós tínhamos! Tudo muito contado, muito no limite... -- falava com mágoa -- Eu queria poder! Queria riqueza! -- virou o rosto para a direção da outra -- Sempre soube que era inteligente e estudei pra ser advogada pensando em usar o conhecimento da lei pra me favorecer. Não sabia como seria isso, mas acreditava que no momento certo as coisas aconteceriam e eu enxergaria o caminho a seguir. -- confessava -- Desde menina eu sabia que havia algo diferente em mim. Podia ver coisas que ninguém via e sentir o que os outros não sentiam. -- continuava absorta em suas memórias -- Na faculdade conheci uma garota que lidava com magia negra e ela me ensinou muita coisa. Deus havia sido injusto comigo e decidi contar com o apoio do Mal. -- balançava a cabeça -- E foi através da magia que conheci meu ex cliente e dele pude me aproximar. -- lembrava -- Vendi minha alma às trevas em troca disso!

 

“Ave Maria! E pensar que eu quase fui amante dessa coisa meiga!” -- pensou apavorada -- Então você sempre foi essa pessoa manipuladora e fria? -- perguntou sem rodeios -- Nada ou ninguém importava pra você?

 

--Não diga isso! -- pediu chateada -- Eu amava minha mãe! Perdê-la foi a pior dor que senti a vida toda! -- afirmou com sinceridade -- Também tive um papagaio de estimação que era um grande companheiro e me acompanhava nas cerimônias de invocação. Só que roubaram ele de mim e nunca soube o paradeiro que levou. -- suspirou -- Não sei como fazer pra localizar animais.

 

--Mas... a história que me contou sobre o câncer raro da sua mãe e seu ex cliente chegando pra te oferecer recursos nos Estados Unidos era mentira? -- estava curiosa -- Mais um truque pra me enredar?

 

--Não. -- olhou para a japonesa -- Minha mãe estava realmente doente e precisava de um tratamento que não existia aqui. Ele ofereceu ajuda e me pediu fidelidade em troca, exatamente como te contei. -- pausou brevemente -- Só não te disse que eu o manipulava com minha magia. -- sorriu -- O tempo todo ele pensava que estava no controle, mas era justamente o contrário! -- falava com orgulho -- E quanto mais os anos passavam, mais eu me apossava da riqueza dele sem que o idiota percebesse. -- voltou a mirar um ponto perdido -- Tudo que ele possuía era praticamente meu!

 

“Gente!” -- a enfermeira pensou surpreendida -- E mesmo assim você não estava satisfeita? Queria ainda mais? -- perguntou

 

--Queria, lógico! Aquela coisa de comprar o apoio de políticos não vinha trazendo benefícios e riquezas suficientes pra mim! -- respondeu de pronto -- Pedi orientação aos meus guias e quando eles me pediram sacrifícios de sangue fiquei receosa... Isso me colocaria em risco e eu não podia me colocar em situações delicadas. E nem queria! -- pausou -- Então bolei um plano e localizei Lucas. Ele sujaria as mãos em meu lugar e a culpa de tudo cairia no meu ex cliente. Eu já tinha procurações dele há tempos e assumiria o controle de seu patrimônio no devido momento, além de colher os frutos porvindouros dos oito sacrifícios que deveriam ter sido feitos...

 

--Por que descambou por aquele caminho de vídeos reais de estupros? -- estava curiosa -- Por que trazer ainda mais crueldade pro que já era tão cruel? -- controlava a revolta ao perguntar

 

--Pedido dos meus guias. -- respondeu naturalmente olhando para a outra -- Eles sabem que essa coisa de vídeos reais de estupros, assassinatos e coisas do gênero movimenta milhões de dólares no mundo inteiro. E quem assiste a isso joga na psicosfera da Terra material fluídico pernicioso e precioso aos espíritos do mal. -- explicava -- O dinheiro era bom pra mim e os maus fluídos eram bons pra eles. Todos saíamos ganhando e milhares de pessoas entravam nos círculos das trevas sem perceber!

 

“E ela fala isso com uma naturalidade!” -- estava atônita -- "Também, o que eu podia esperar de uma mulher que tricotava com o Bicho Ruim?” -- pensava -- E você escolheu as vítimas com base em que?

 

--Escolhia com a ajuda dos guias. -- debruçou-se também sobre a mesa -- Mulheres que vieram de baixo e se destacaram naquilo que lhes interessava. Precisávamos da energia delas!

 

--E como foi que eu entrei nessa história? -- chegou aonde queria -- Por que eu era o sacrifício mais esperado?

 

--Porque além de se encaixar nesse perfil de mulher vitoriosa, você tem um destino grandioso pela frente. Sua energia era a mais preciosa, a mais forte! -- sorriu -- Não sabe o que a aguarda, Juliana! -- estudava o rosto da outra -- Você vai... -- decidiu não dizer -- O tempo te mostrará... -- lançou o enigma

 

--É, o tempo vai mostrar... Ele sempre mostra. -- analisava Irina -- Mas... apesar de ter me pedido perdão, você não me parece arrependida por nada! Não senti dor no seu relato. Você não lamenta pelas vítimas que fez! -- constatou

 

--Mas é claro que eu me arrependo! -- respondeu indignada -- Eu devia ter me contentado com o que já tinha e ter me limitado a controlar aquele idiota até ele se danar de vez. -- falava com naturalidade -- Aquelas mulheres não precisavam morrer! Não lucrei nada com as mortes delas e acabei nessa prisão miserável!

 

Juliana balançou a cabeça contrariada e se levantou. -- Coitada de sua mãe, ela se esforça tanto por você... -- olhava penalizada para a advogada -- E mais coitada de você, Irina. Ainda é a mesma cega e vai ter que sofrer muito pra aprender o que já deveria ter aprendido por agora!

 

--Por favor, não vá! -- segurou-a pelo pulso -- Ainda queria conversar sobre nós! -- olhava para a japonesa com olhos súplices -- Você realmente me balançou e eu... -- respirou fundo -- Por você eu tô disposta a mudar muita coisa... Eu te amo!

 

--Ih, eu, hein? -- desvencilhou-se revoltada -- Vá tomar jeito de gente pra casar com cachorro, minha filha! -- fez cara feia -- Tô fora! -- pegou a bolsa -- O máximo que eu posso fazer é orar por você e torcer pra que desperte o mais rápido, -- gesticulava -- mas não me venha com papo de amor que eu parei contigo faz tempo! -- caminhou até a porta -- E pensa na vida, que teu destino é trevoso!

 

--Juliana... -- falou como criança a beira do choro

 

--Tchau! Fique com Deus e me esqueça! -- foi embora

 

A advogada encostou a cabeça na mesa e suspirou entristecida.

 

Enquanto seguia pelo corredor a enfermeira pensava impressionada: “Como pode? Irina aprendeu foi nada! Ela continua a mesma manipuladora fria e insensível de sempre!” -- caminhava com pressa -- "E depois ainda vem dizer que me ama? Sai pra lá! Vai se pegar com o capeta, bicha!”

 

***

 

--Então foi por isso que se separou dela?? -- a francesa perguntou surpreendida -- Simplesmente porque a mulher se balançava um pouco pela quase prima?? -- achava a situação engraçada -- Eu não terminaria um relacionamento por causa disso! -- afirmou convicta

 

--Considera que foi um motivo pequeno? -- estava igualmente surpresa -- Se eu era totalmente dela, nada mais justo que querer que ela fosse completamente minha, não acha? -- olhava para a outra -- Quem quer um amor pela metade?

 

Isabela e Julie Marrie conversavam em francês em um barzinho perto de Pompidou.

 

--Eu não sabia que as brasileiras eram tão radicais assim! -- cruzou as pernas -- Sou muito intensa em meus relacionamentos mas não exijo da outra pessoa mais do que possa me dar. Há quem seja como nós, -- apontou para si e para a ruiva -- que quando se apaixona não vê ninguém mais, só que há pessoas que olham pros lados, sem que isso signifique uma traição ou que amem de menos ou pela metade! -- pausou brevemente -- É o jeito de cada um!

 

--Não sou radical como está pensando! -- afirmou resoluta -- Sou até muito paciente, mas chegou um ponto que não quis mais esperar! Nós já tínhamos vivido muita coisa e ainda assim Seyyed não se decidiu e ficou na mesma. -- passou a mão nos cabelos -- Eu sabia que se tivesse vindo e deixado ela por lá, algo acabaria acontecendo...

 

--Você não confiou no amor da sua ex mulher... -- concluiu -- E antecipou uma traição que talvez nunca acontecesse... -- olhava para a bailarina

 

--Há vários tipos de traição, Marrie. Não necessariamente precisa haver sex* na história. -- respondeu pensativa -- Seyyed queria uma vida estável em um único lugar, alguém que ficasse ali, sempre com ela... Seyyed queria Camille... -- mirava um ponto no infinito -- E eu queria viver o que vivo hoje! Descobri finalmente o tipo de sucesso que eu deveria perseguir... -- sorriu -- um sucesso digno que não pisa nos outros e nem me degenera. Um sucesso que vive de fazer as pessoas crescerem... -- balançava a cabeça orgulhosa -- Sinto-me realizada!

 

--Você não pode dizer o que a tal da Seyyed queria. Isso apenas ela sabe! -- segurou uma das mãos da ruiva -- Mas já que se decidiu por buscar alguém que ame no seu estilo, -- sorria -- considere que já encontrou! -- afirmou decidida

 

--Marrie... -- corou

 

--É serio! -- beijou a mão da bailarina -- Nessa história toda eu fico feliz por ter a sorte de tê-la conhecido! -- acariciou o rosto da outra -- Não sabe o quanto é uma mulher apaixonante! -- falava embevecida -- O modo gentil como sempre trata as pessoas, a dedicação que tem à escola, com aqueles jovens... Você vai fazer a diferença nesse país, da mesma forma como fez no seu!

 

--Assim você me deixa envergonhada... -- abaixou a cabeça sentindo as bochechas queimarem

 

--Eu me apaixonei por você, Isabelle! -- confessou -- Não é só a fria vontade de jogá-la numa cama.

 

--Marrie, eu... -- olhou para a francesa -- Eu ainda não tenho condições de retribuir esse sentimento... -- falava com jeito

 

--Você espera por ela? -- novamente acariciou o rosto de Isa -- Ainda deseja que ela tome uma decisão a seu favor?

 

--Não... -- balançou a cabeça negativamente -- Confesso que no começo pensei que ela viesse aqui atrás de mim, só que me enganei. Ela se limitou a mandar e-mails e isso é muito pouco! -- suspirou -- Eu desisti dela de verdade!

 

--Então por que não me dá uma chance? -- pediu -- Não vou exigir de você que me ame e que sinta o mesmo que eu! -- sorriu -- Amor se constrói... Se me der oportunidade, ajudo você a construir algo comigo!

 

A bailarina ficou em silêncio, ouvindo pensativa.

 

***

 

Isabela e Julie Marrie entravam aos beijos no minúsculo apartamento da francesa. Caíram deitadas sobre o sofá.

 

--Isabelle, -- Julie sussurrou no ouvido da ruiva -- eu te quero... -- arriscou falar em português -- tanto, tanto... -- mordeu-lhe a orelha

 

Ao sentir que as mãos da outra buscavam despi-la, a bailarina rapidamente se desvencilhou e se levantou corada.

 

--Não, por favor! -- falava em francês e tentava se recompor -- Eu não... -- não conseguia encarar a francesa -- Eu não estou preparada ainda e... eu...

 

--Tudo bem! -- interrompeu gentilmente o que Isa dizia e se levantou -- Se ainda não está preparada para isso, tudo bem. -- segurou o rosto da ruiva com as duas mãos -- Não há porque se envergonhar. -- sorriu -- Não é obrigada a querer agora só porque eu quero. -- acariciava os cabelos dela -- Por mais que eu lamente ter que me conter! -- brincou

 

--Eu me sinto tão envergonhada... -- sentia o rosto arder

 

--Não há razão para isso! -- beijou-a -- Vamos devagar. -- beijou-a novamente -- Quem está com pressa, hein? -- sorria

 

--Marrie, -- desvencilhou-se dela mais uma vez -- é melhor eu ir embora... -- caminhou até a porta -- Eu não sei porque fiz isso, eu... -- respirou fundo -- Eu já vou! -- decidiu

 

--Por favor, minha querida, fique! -- aproximou-se -- Não vou forçá-la a fazer o que não quer, por favor, não se vá! -- pediu com olhos súplices

 

--Perdoe-me, mas eu queria ir...

 

--Isabelle... -- insistiu

 

--Por favor, Marrie! -- insistiu igualmente

 

Insatisfeita, Julie Marrie abriu a porta tentando disfarçar a contrariedade. -- Deixe-me ao menos seguir com você até sua casa. -- olhava para Isabela

 

--Prefiro ir sozinha. -- respondeu com delicadeza -- Não insista, por favor. Eu preciso de um tempo comigo.

 

--Se é o que quer... -- deu passagem para a ruiva, que saiu rapidamente -- Será que nos vemos amanhã? Vi na previsão do tempo que será um belo sábado. -- arriscou

 

--Na segunda-feira, certamente. Preciso cuidar de algumas coisas em minha moradia e o final de semana será todo para isso. -- tentava não ser rude e ao mesmo tempo desestimular as investidas da outra mulher

 

--Sendo assim... -- suspirou desanimada -- Até segunda!

 

--Até lá! -- acenou brevemente -- Tchau! -- partiu

 

A francesa fechou a porta e foi para a janela, de onde acompanhou a bailarina com o olhar até que ela sumisse de seu campo de visão. -- Ela quase corre... -- falava consigo mesma -- Foge como se estivesse com medo. -- passou a mão nos cabelos -- Justo hoje que eu achei que tinha tudo para dar certo! -- saiu da janela -- Mas tenha calma! -- aconselhava-se -- Continue insistindo com jeito e ela vai ceder. Com certeza vai! -- sentou-se na poltrona -- E ainda dizem que as brasileiras são fáceis... -- abraçou-se com o travesseiro e deitou no sofá

 

***

 

Isa       E foi isso...

Isa       Fugi da casa dela e não sabe como tô me sentindo agora!

Pri        Como tá se sentindo??

Isa       Mal... Não era o que eu queria fazer...

Isa       Eu ainda não tô pronta pra me envolver com outra pessoa!

Pri        Mas, Isa, pelo amor de Deus! Vocês apenas se beijaram e se pegaram por alguns segundos! Por que se sentir mal com isso??

Pri        ESQUECE SEYYED!!!!!!!!!

Isa       Não é tão fácil... E eu não sou assim! Preciso de um tempo!

Pri        Se é pra ficar nessa agonia, porque você não procura a mecânica e dá uma decisão nela?

Pri        Fala na cara de pau: “Ed, chega dessa palhaçada! Vamos nos acertar e fim! Põe a loura pra rodar que acabou o recreio!”

Pri        E pronto!! Mas viver nessa agonia é que não dá!

Isa       Não vejo mais soluções pra nós, Pri. E agora nosso relacionamento já acabou! Ed é uma lembrança muito querida e bonita pra mim, mas o que tínhamos que viver juntas já foi vivido!

Pri        Então pára com esse doce e dá uma chance pra francesa!

Isa       Não é doce!!! São meus sentimentos!

Pri        Dá uma chance pra você mesma!

Isa       Marrie é sedutora, interessante, envolvente... Mas não é ela, entende?

Pri        Enquanto não aparece a pessoa certa, divirta-se com as erradas! Solta a franga, mulher!!!

Isa       kkkkk

Isa       Não é a minha filosofia, amiga!

Pri        Ai, ai... Veja como é a vida! Você tem a chance e despreza! Enquanto isso, eu vivo aqui no perrengue, trabalhando, cuidando de casa e de menina e na hora do vamos ver...

Pri        É greve!!!!!

Isa       kkkkk

Isa       Passa por isso porque quer! Casa logo e acaba com a SUA agonia! É bem mais fácil que o meu caso!

Pri        Fácil uma ova! Tá pensando que é mole?

Pri        Desde que Lady sambou com a maluca da Gaga minha vida nunca mais foi a mesma!

Isa       Por que??

Pri        Piraí inteira sabe que eu sou lésbica, tem noção???

Isa       Então casa! Seu segredo já era, meu bem! Se é que algum dia houve um segredo!

Isa       kkk

Pri        Isso, ri! Não é fácil aturar as piadinhas do povo! E vira e mexe Priscilinha tem problemas na escola! Tenho medo que isso deixe a menina complexada ou revoltada!

Isa       Tudo depende de vocês, Pri. Não é uma situação fácil, mas tudo depende de como vocês se comportarem e do exemplo que darão à menina!

Isa       E pra uma criança ela me parece até muito firme.

Pri        Só digo uma: se Priscilinha não enlouquecer, eu vou!!!

Pri        Uso todas as minhas táticas de sedução pra fazer Lady ceder, mas ela não desiste da greve!!

Pri        Acho que perdi o jeito...

Isa       CASA LOGO!!!! kkkk

Isa       Cai na real: vocês já são casadas faz tempo! É só assinar um papel!

Pri        Mas, Isa, e se a menina pirar depois disso??

Isa       É mais fácil VOCÊ pirar com Lady e sua greve! kkkk

Isa       E faz a festa que ela quer! Prometo que se eu puder, apareço lá pra prestigiar o evento! Vai que Lady Gaga também aparece??

Pri        Isa, vai tomar...

Isa       Olha a boca!!!!!!

Isa       kkkkkk

 

--Não adianta! -- a dentista resmungava sozinha -- Ninguém leva meu tormento à sério! -- fez um bico

 

***

 

Ana e Anselmo assistiram a reunião dominical no centro de Olga e após o final dos trabalhos, aguardavam por uma possibilidade de conversar com a mulher.

 

--Olá, que prazer revê-los! -- Olga veio cumprimentá-los -- Fazia tempo que não os via por aqui. -- sorriu -- Como vão? -- olhava para os dois

 

--Graças a Deus, tudo bem! -- Anselmo respondeu sorrindo -- E você? O marido, o garoto? Não pergunto por seus outros filhos porque sempre vejo Seyyed e Renan esteve na oficina nesta sexta!

 

--Ricardinho tá ali conversando, -- apontou para o menino -- e vai muito bem. Mariano tá na casa da irmã e vai bem também. -- passou a mão nos cabelos -- E comigo tudo ótimo, graças a Deus, obrigado por perguntar! -- agradeceu -- Ontem, enquanto Ricardinho conversava com Isa na internet, aproveitei pra bater um papinho com ela. Sei que está ótima!

 

--Ah, minha filha, -- deu um tapinha no braço da outra -- aquela menina está para a França assim como Elizabeth II está para a Inglaterra! -- Ana comentava exagerando -- Carla Bruni acabou -- gesticulava -- depois que minha estrela Dalva foi pra lá! Nem se fala mais nela, só na minha Isa!

 

--A princesinha do papai... -- Anselmo suspirou seu mantra

 

--Pois é... -- Olga achava graça. -- E dona Odete? Como vai?

 

--Mamãe vai bem, graças a Deus. O coração nunca mais deu problemas e ela tem sido bastante disciplinada com os remédios e todas as outras coisas. -- respondeu -- Nesse momento tá na casa da Leila. -- pausou brevemente -- Olga, será que você teria um tempinho pra conversar comigo? -- perguntou envergonhada

 

--Claro! -- respondeu enfática -- Há uma sala aqui onde podemos conversar com tranqüilidade. Só peço que me deixem avisar meu filho que estarei lá com vocês. -- pediu

 

--Acho que é melhor que vocês tenham privacidade, Olga. -- Anselmo decidiu -- Pode deixar que eu fico com seu garoto enquanto as duas conversam. -- ofereceu

 

--Sendo assim. -- indicou o caminho a outra -- Vamos? É por ali, subindo as escadas.

 

Ana agradeceu ao marido com um gesto de cabeça e seguiu na direção que lhe foi apontada.

 

***

 

--A notícia de que Mimi Siane cometeu suicídio numa clínica psiquiátrica mexeu comigo como não saberia te explicar! -- contava olhando para a outra -- Uma mulher sempre tão chique, tão impecável, rica, poderosa... -- gesticulava -- O marido dela era o rei das noites cariocas, sabe? Um homem fino, bem sucedido, cheio de garbo... -- relembrava -- E o filho deles... Que rapaz bonito! -- mirou um ponto no infinito -- Educado nos melhores colégios desta cidade, fez faculdade no exterior, falava três idiomas... Era fino, educado... o tipo do rapaz que eu sonhava pra Isa se ela não fosse artista e, conseqüentemente não tivesse sex*! -- suspirou. Olga se controlou para não rir com o comentário -- Como pode um rapaz daqueles ter se acabado por causa de drogas? -- lamentou -- Tão cheio de possibilidades diante de si, com o império do pai por herança e no entanto ele escolheu o crack! E com o crack, a morte! E que morte miserável... -- balançou a cabeça desgostosa -- Isso acabou com a família, Olga...

 

--Imagino! -- respondeu condoída -- Acompanho o drama de muitas famílias que perderam seus entes queridos pras drogas e o que vem acontecendo por causa do crack é de uma gravidade imensa! Acho que a sociedade apenas fala demais e ainda não partiu pra ação de fato! O problema tem sido empurrado com a barriga e as medidas levadas a efeito são sempre muito ineficazes. -- comentava com preocupação -- E com isso o crack continua ceifando centenas de vidas nesse país!

 

--Pois é! É o típico do problema que não respeita idade, raça, gênero, condição social, religião... -- passou a mão nos cabelos -- É pior que uma doença...

 

--E como vai o marido dessa sua amiga? -- perguntou penalizada -- Perdeu o filho, está viúvo...

 

--Depois da morte do filho, ele virou um alcoólatra inveterado. Não demorou pra ter sido engabelado por um dos sócios e ter caído na pobreza. Parece que morreu na rua, como um verdadeiro mendigo... -- continuava contando a história -- Nesse meio tempo, Mimi enlouqueceu, foi internada e cometeu suicídio há dias atrás. -- pausou brevemente -- E a história dela me fez rememorar a minha própria... -- emocionou-se -- Sabe... eu cansei de receber aquela mulher na cobertura que tivemos em Ipanema e depois do que nos aconteceu ela nunca mais entrou em contato comigo... Nem ela e nem as outras amigas que eu tinha... -- os olhos marejaram -- Cheguei a ter raiva e guardar essa mágoa, mas depois vi que era bobagem... cada um carrega sua cruz e não cabe esperar dos outros que tenham um comportamento cristão quando nós mesmos não temos... -- falava com sinceridade -- Eu estive numa clínica psiquiátrica por longos anos... pra mim, pareceu uma eternidade, embora vivesse mais fora da realidade do que dentro dela! -- derramou uma lágrima -- Sofri por saber que Mimi também viveu isso e provavelmente sozinha. -- sorriu emocionada -- Eu tive vocês... -- olhava para Olga -- E vocês me ensinaram um monte de coisas... é que aprendo devagar.

 

--Talvez aprenda mais rápido do que pensa. -- secou duas lágrimas com os dedos e sorriu igualmente emocionada -- Sua história é muito bonita, Ana. A sua e de sua família.

 

--Eu quero fazer algo pelas pessoas que vivem nessas clínicas, Olga! -- afirmou como quem faz um pedido -- Sinto que preciso fazer! -- novamente derramou algumas lágrimas -- Quero ajudar aqueles que sofrem nos hospícios, aqueles que perderam a razão por algum motivo! Muitas dessas clínicas são uma verdadeira indústria de dor e morte e eu quero fazer alguma coisa! -- passou a mão nos olhos -- Eu vi o quanto você é uma mulher sábia! Sei que pode me ajudar a descobrir como fazer!

 

--Não sou sábia como pensa, mas podemos descobrir juntas como fazer para ajudar essas pessoas que sofrem com tais problemas. E aqui na casa temos psicólogos, psiquiatras e vários irmãos de coração puro que podem se unir a nós neste esforço! -- segurou as mãos da outra -- Fico muito feliz que você esteja disposta a trabalhar pelo bem! -- sorria

 

--Acredite que nunca estive tão determinada a ajudar os outros como estou agora! -- respondeu com sinceridade

 

--Eu sei! É nítido!

 

--Mas, olha... -- sorriu igualmente -- Eu não ficarei só na sua dependência, quero fazer minha parte pra te ajudar também!

 

--Pra me ajudar? -- Olga perguntou sem entender

 

--É... -- soltou delicadamente as mãos da outra -- Você é uma mulher muito bonita e esbelta mas precisa de uma orientação...

 

--Orientação...? -- perguntou desconfiada

 

--Posso te dar umas dicas sobre moda, cortes de cabelo, -- gesticulava -- além de uns conselhos sobre como cuidar da pele, combater celulites, estrias... -- olhava para Olga -- De hoje em diante, serei sua conselheira de beleza! -- decidiu

 

--“Ai, meu Deus...” -- pensava achando graça -- "Será que eu tô preparada pra isso?”

 

***

 

Tatiana estava reunida com dois representantes de uma agência de publicidade em sua sala na emissora de TV.

 

--Nós não entendemos porque a sua emissora não aceita divulgar o nosso trabalho. -- o jovem se manifestava -- Ainda mais se considerarmos que vocês não detêm uma... -- pensava em como dizer -- audiência tão grande assim! -- cruzou os braços olhando para a repórter

 

--Nós queremos qualidade! -- Tatiana esclareceu -- Quantidade vem com o tempo. -- sorriu

 

--O que Roberto quis dizer, -- o outro homem tentava mudar a abordagem -- é que não entendemos porque a sua emissora não aceita divulgar o trabalho que as outras não se negam a veicular.

 

--Ah, mas é muito simples! -- cruzou as pernas -- Nós somos declaradamente contrários à mídia machista que domina esse país. Vendo certas propagandas eu me sinto ofendida em minha condição de mulher. -- explicava -- E o trabalho de vocês, até onde eu conheço, distorce o real contexto das mulheres na sociedade, incentivando a diminuição das nossas conquistas e estimulando a população a pensar de modo retrógrado e opressor.

 

--Eu sabia, Claudio! -- falou espontaneamente -- Isso é coisa de feminista! -- pronunciou a última palavra com desprezo

 

--Isso é coisa de quem raciocina. -- a repórter corrigiu sem alterar o tom -- E, à propósito, eu sou mesmo feminista, mas a decisão da emissora quanto a esse assunto foi tomada em consenso. Aqui funciona assim! -- olhava para os dois -- E eu até devo salientar que nós estamos organizando, junto com alguns grupos independentes, uma marcha contra a mídia machista. -- informou -- Acontecerá em meados de dezembro.

 

--Como é?? -- os dois perguntaram surpresos

 

--A mídia influencia fortemente a população, porque sua atuação é repetitiva e maçante. É ela que, muitas vezes, forma opiniões, constrói e desconstrói mitos sociais, e retrata ou distorce a realidade. -- continuava -- No meio midiático há uma grande parcela machista, como é o caso da agência de vocês, -- apontou para os dois -- cujo trabalho reforça estereótipos femininos e masculinos, alimentando a idéia de que o homem é superior à mulher e pode usufruir dela como lhe convier. A mídia machista ignora as conquistas das mulheres à medida que as trata como dependentes e brindes dos homens e as apresenta como protagonistas apenas na esfera doméstica.4 -- argumentou -- Essa emissora não compactua com tamanha mediocridade!

 

--Humpf! -- fez um bico -- E vocês pretendem queimar quantos sutiãs durante a marcha? -- perguntou debochado

 

--Roberto! -- o colega olhou para ele de cara feia

 

--Não se preocupe, Claudio. -- Tatiana continuava impassível -- Eu já estou acostumada a lidar com homens que não gostam de mulheres. Infelizmente eles são muitos! -- preparou-se para se levantar

 

--Ei, pera lá! -- protestou -- Além de tudo vem me chamar de gay?

 

--Entenda como quiser. -- olhou para ele e sorriu sarcástica -- Nossa reunião se encerra aqui. -- levantou-se -- E a queima de sutiãs à qual você se refere será o não consumo da cerveja que vocês promovem. Aliás eu nem bebo cerveja, ô trem ruim! -- revirou os olhos

 

--Vamos indo. -- Claudio se levantou contrafeito -- Acho que não há mais sobre o que conversar.

 

--Nós não precisamos de vocês pra ganhar dinheiro! Isso aqui é uma emissorazinha que nunca vai fazer frente à mídia que manda nesse país! -- Roberto afirmou ao se levantar -- E seu protesto não vai dar em nada! Não existe bicho mais desunido que mulher! -- sorria vitorioso -- Muitas vão mandar vocês procurarem roupa suja pra lavar!

 

--Em todas as épocas o número de ignorantes sempre foi maior, mas isso não nos impede de ser diferentes. -- caminhou até a porta e a abriu -- Por favor? -- indicou a saída

 

Claudio saiu sem nada dizer e Roberto ensaiou falar alguma coisa, mas se limitou a olhar Tatiana de cima a baixo com desdém antes de se retirar.

 

--É cada coisa que a gente tem que ouvir nessa vida, viu fi? -- a repórter desabafou consigo mesma enquanto fechava a porta e voltava para se sentar -- Seria bom que nenhuma mulher bebesse a cerveja que esses trogloditas promovem! Queria ver se com esse prejuízo eles não iam tirar aquela propaganda do ar! -- sentou-se -- Duvido que não! -- ouviu o telefone tocar -- Alô.

 

--Olá, maninha, boa tarde! Como vai? -- pausou brevemente -- Atrapalho?

 

--Tamires, boa tarde! -- sorriu -- Você nunca atrapalha, especialmente agora que acabo de despachar Fred e Barney. Precisava urgentemente conversar com alguém interessante! -- brincou

 

--Fred e Barney? -- riu brevemente -- Que foi, a senhora anda trabalhando com homens das cavernas, é, fi?

 

--E você por acaso também não lida com tipos assim?

 

--Ô! -- suspirou -- Essa raça parece que nunca entra em extinção...

 

--Pois é! -- cruzou as pernas -- Mas diga, minha irmã, você quer falar com a Tati ou com a repórter?

 

--Com ambas! -- respondeu enfática -- Hoje marquei de almoçar com Tânia e você não vai adivinhar! Ela reencontrou com Shirley, lembra quem é?

 

--Sei, é aquela amiga dela das aulas de violão. -- respondeu ao se lembrar -- Fazia tempo que andava sumida!

 

--Pois é, a própria! Ela almoçou com a gente e ficamos sabendo que hoje é assistente social e faz mestrado em estatística. Loucura, né? -- riu brevemente -- E ela nos disse coisas interessantíssimas! Sabia que, em geral, os casais homossexuais não fazem tantas exigências pra adotar uma criança como fazem os hetero? Eles costumam não ligar se a criança é negra, mulata, especial ou mesmo se já é grandinha. O desejo de adotar é tanto que a aceitação é bem maior.

 

--Hum... -- ouvia interessada -- Continue! -- pediu

 

--Ela também disse que se a adoção fosse permitida aos casais homossexuais, o número de crianças aguardando uma família cairia em 20%.

 

--Seria uma redução considerável! -- Tatiana comentou

 

--E você sabe que uma vez que os relacionamentos homoafetivos foram reconhecidos como uniões estáveis, não há impedimento jurídico pra adoção de um menor por parte de um casal homossexual! -- explicava -- Basta apenas quebrar o tabu e criar jurisprudência...

 

--Estamos nesse caminho de quebrar tabus não é de hoje! -- exclamou empolgada -- É meu esporte preferido!!

 

--Essa é a minha irmã! -- achava graça -- Mas tem outra notícia também! -- anunciou -- Shirley falou que, de acordo com o que vem estudando, não há quaisquer evidências publicadas no meio científico que mostrem que crianças criadas por casais homossexuais sofram de problemas psicológicos e emocionais por causa disso. Aliás, ela até citou alguns trabalhos publicados nos Estados Unidos alegando exatamente o contrário.

 

--Ótimo! -- deu um tapa na mesa -- Uma reportagem sobre isso que você acaba de me contar ajudaria bastante a quebrar esse tabu! -- decidiu -- Números e informações concretas mostrando o benefício da adoção de bebês por casais homossexuais! -- sorria excitada

 

--Essa é a repórter! -- riu brevemente -- Entendeu porque eu queria falar com as duas? -- brincou

 

--E tem outra: Suzana e Juliana são um casal carismático, elas contam com o apoio de muitos! Se elas conseguirem adotar os bebês, daí por diante outros casais também conseguirão! -- comentava -- Vamos aproveitar que vai acontecer um debate sobre esse assunto pra lançar a reportagem nas proximidades dele! -- pensava em voz alta -- Eita, lasqueira, a gente tem que correr com esse trabalho pra dar tempo!

 

--Bem, minha irmã, eu te dei a matéria-prima; agora é contigo!

 

--Ah, mas eu quero o contato da Shirley porque a gente precisa conversar! -- pediu -- Ela é a peça chave do negócio!

 

--Já te mandei por torpedo. Tá com celular, não, fi?

 

--Irmã eficiente é outra coisa! -- brincou ao retirar o telefone da bolsa -- É que coloquei esse trem no modo reunião e deu nisso. -- abriu o torpedo -- Obrigada!

 

--À serviço da sociedade, meu bem! -- continuava brincando -- Posso não querer ter filhos, mas vou fazer de tudo pra ajudar quem quer e tem condições de ter!

 

--Se é pra ajudar quem quer, então me faz mais um favor? Me dá mais fraldas de presente que eu tô montando um estoque? Quero chegar a cem pacotes! Já são sessenta e oito!

 

--Tem base isso? -- achava graça -- Num dou conta, não!

 

 

01:00h. 05 de dezembro de 2012, Rua Arquias Cordeiro, casa 6, Engenho,  Rio de Janeiro

 

Ao longo do dia Camille havia pensado bastante em Antônio e fez uma oração para ele antes de dormir. Logo que adormeceu, viu-se caminhando por um imenso jardim. Sabia que seguia em direção a uma pessoa, mas não imaginava quem seria.

 

“--Pai? -- sorriu admirada -- Meu Deus!!! -- correu para abraçá-lo -- Quantas saudades!! -- fechou os olhos emocionada ao lançar-se nos braços dele -- Quantas saudades...

 

--Figlia mia! -- estava muito feliz em revê-la -- Fligia mia... -- beijou a cabeça dela repetidas vezes

 

--Por que demorou tanto tempo pra que a gente se reencontrasse? -- olhava para ele com olhos marejados -- Tanta coisa que eu queria te dizer...

 

--Tudo acontece no momento em que deve ser, amore! -- acariciava o rosto dela -- Antes, nem você e nem eu tínhamos condições pra isso.

 

--Você não merecia morrer daquele jeito... Sofri tanto...

 

--Sofremo noi due, mas aquele foi o remédio amaro que noi precisava di sorver. Eu e tu. -- apontou para si e depois para a filha -- Em outras vidas ferimo pela spada; nesta vida, pela spada fomo ferito -- explicava -- e eu morto.

 

--O que?? -- ficou surpresa

 

--Tu e eu! È una corda che unisce sempre un po' di più, un elastico che ci riporta magnetico (É uma corda que une sempre um pouco mais, um elástico que nos traz de volta magneticamente). Noi sempre voltamo pro mesmo lugar, insistimo nos mesmos erros! -- tentava se fazer claro -- Eu tinha de sair de tua vida, antes que te arrastasse pro caminho errado di novo. Já vinha te acostumando male! Termino sempre alimentando seus desejos equivocados... -- olhava para a jovem -- Eu precisa partir daquela maneira!

 

-- Do que tá falando, pai? -- não entendia

 

--Infelizmente non temo molto tempo. -- sua expressão era séria -- Há coisas que preciso te revelar. Noi falhamo junto, junto devemo consertar. -- sorriu com ternura -- Confia em mim e principalmente nos Superiores. -- olhou para o Alto e depois para a filha -- Confia, figlia mia! -- pôs as duas mãos sobre a cabeça dela, imediatamente recebendo o amparo de Espíritos Iluminados -- Atenção, mia bambina. Dio ti proteja!

 

Camille sentiu uma espécie de torpor e de repente, após uma sucessão de imagens confusas em sua mente, viu-se transportada para uma época antiga, da qual naturalmente não podia se lembrar.

 

Encontrava-se em um sarau, trajando um belo e ornamentado vestido branco ao estilo da moda mais fina dos tempos do Império. Na cabeça, um chapéu de abas largas enfeitado com penas de avestruz. Ao seu lado, um homem maduro que, embora fisionomicamente diferente de Antônio, sabia tratar-se do próprio.

 

Olhando para a entrada do salão, que encontrava-se tomado por casais representantes da aristocracia do Império em terras fluminenses, percebeu a entrada de uma mulher que lhe chamou a atenção.

 

--Quem é aquela dama que se nos aproxima? -- perguntou ao pai em voz muito baixa -- Mulher tão altiva, de porte elegante... Um tipo diferente... -- afirmou pensativa -- Seria de Além Mar?

 

O homem olhou na direção indicada pela filha. -- Ah, sim! -- viu de quem se tratava -- Aquela dama veio do Oriente. É de uma família de comerciantes estabelecidos nesta província sob as benesses da Coroa Portuguesa. -- sorriu malicioso -- Casou-se com um rico senhor português e ambos formam um poderoso casal, com o qual muito me apeteceria a aproximação. -- comentou -- Dizem que têm quase uma centena de escravos para bem servi-los.

 

Balançou a cabeça positivamente. -- Quiçá a poderosa dama interessar-se-á em manter um colóquio sobre literatura. -- comentou sem tirar os olhos da mulher -- A aristocracia vive de fingir-se erudita. -- sorriu

 

--Tens então as ferramentas a teu dispor. -- respondeu naturalmente -- Sei que o casal aprecia as artes. E certamente ela fala nossa língua!

 

--No momento oportuno abordá-la-ei. -- decidiu -- E o senhor será apresentado ao distinto e abastado cavalheiro português. -- olhou para o pai

 

--Ela e sua família mudaram os nomes para aqui viver. Agora respondem por apelidos portugueses. -- comentou -- A dama adotou o nome de Maria Isabel.

 

--Maria Isabel... -- repetiu para si mesma em voz baixa e olhou novamente na direção da outra -- "Há algo nela que me encanta... Não sei explicar porque tal se passa...” -- pensou intrigada”

 

Camille rolava na cama agitada com as revelações daquele sonho inexplicável. As lembranças alternavam-se entre momentos distintos de sua vida.

 

“--Filha, mas o que se passa contigo? -- o pai perguntava agoniado e aborrecido -- Nunca pensei que fosses te entregar a tais abominações! Acreditei que apenas desejasses uma chance de prosperar no trabalho de escrita!

 

--Eu nunca vivi algo assim, meu pai! Sabes que me decidi celibatária desde a idade mais tenra! -- argumentava nervosamente -- Aconteceu antes que meu coração se apercebesse!

 

--Eu nunca podei tuas oportunidades mesmo sendo tu uma mulher! -- gesticulava -- Sei que és inteligente, sempre me ajudaste em meus intentos, mas não posso concordar que uses de tais artifícios para obter o que desejas!

 

--Não são artifícios, meu pai! -- protestou em voz mais alta -- Eu a amo! -- começou a chorar

 

--O que??????????? -- ficou chocado -- Não ouves tu o que o padre ensina?? Tais ligações são abomináveis aos olhos do Senhor! É pecado mortal! Vais queimar eternamente no fogo dos infernos! -- falava enfurecido

 

--Não me digas estas coisas pois não quero ouvir! -- tapou os ouvidos -- Não quero ouvir! -- chorava

 

--Filha, por favor. -- foi até a jovem e a segurou pelos braços com delicadeza -- Entendo que tu és moça ingênua em assuntos de amor... -- Camille tirou as mãos dos ouvidos -- e aquela mulher é uma víbora do Oriente que te seduziu com truques maliciosos. -- secou as lágrimas dela com um lenço que tirou do bolso -- Deus há de te perdoar, pois tu és o lado inocente da história. -- sorriu compreensivo -- Mas deves esquecê-la e abandoná-la, pois já alcançaste o relevo que desejavas e não precisas mais de Isabel. Da mesma forma os caminhos já estão abertos para mim e Filinto sequer desconfia dos gostos da senhora que desposou. -- acariciou o rosto da filha -- Acabemos com esta querela antes que sérios problemas nos surjam! -- propôs

 

--Eu amo Isabel! -- desvencilhou-se do pai contrariada -- E não abrirei mão dela por coisa alguma!

 

--Isabel é mulher de muitas amantes até onde pude saber! Será que seu coração tem dona? -- perguntou provocador -- Aquela mulher tem os sentimentos de uma pedra!

 

--Ela me ama, sim! E se não ama, aprenderá comigo! -- bateu no peito”

 

A loura continuava agoniada se revirando na cama.

 

“--Eu não esperava que tal se desse em meu coração, -- explicava tateando com as palavras -- mas apaixonei-me por ela de um modo como ainda não havia sentido! -- olhava nos olhos da outra -- Não posso continuar a teu lado se isto já não me parece o mais correto a fazer!

 

A escritora sentiu uma tristeza excruciante ao ouvir aquilo e sorriu sarcástica. -- Alguém como tu falando no mais correto a fazer?

 

--Digo-te a verdade...

 

--E qual é a verdade, se por tantas vezes disseste que me amava? -- controlava-se para não chorar

 

--Porque assim pensei, -- respondeu de pronto -- outrossim vejo que ambas iludimo-nos uma com a outra. -- lamentava dentro de si mesma por fazer a ex amante sofrer -- E tu me ensinaste muito! Antes de ti eu não vivia, apenas perdia-me em iniqüidades...

 

--Não te atrevas a dizer que te ensinei a amar, -- gritou entre lágrimas que não podia mais conter -- para em seguida justificar que por isto entregaste teu coração a outra mulher!!!

 

-- Amália, por favor, eu não disse isso... -- tocou o rosto da outra com delicadeza -- tu sabes o quanto és querida por mim...

 

--Sou querida por ti e me deixas por outra? -- deu um forte tapa na mão de Isabel -- Anne Lorrane causar-te-á a mesma dor que tu me trazes agora! -- afirmou encolerizada -- Ela é uma artista de França e todos sabem que tais mulheres são de ninguém! -- secou as lágrimas com as mãos -- Odeio-te, Isabel! Maldigo o dia em que meus olhos caíram sobre ti! -- falava com mágoa

 

Maria Isabel sofria ao perceber tamanha mágoa por parte da outra. -- Lembra-te que foste tu a te aproximar de mim e não o contrário! -- tentava se defender -- Jamais ocultei de ti que eu era mulher de muitos desejos... -- derramou uma lágrima

 

--E consideras que por isto estejas livre? -- retrucou de cara feia -- Não o serás, pois sempre carregarás uma culpa! -- aproximou-se mais -- Porque eu me entreguei -- bateu no peito -- e tu nunca foste apenas minha!

 

--Não te vitimes pois sei que tu não me amas de verdade! -- respondeu em voz bem alta -- Queres apenas mostrar que és maior do que Anne! -- pausou brevemente -- Foi assim desde o começo... Não aceitas que outra pessoa brilhe mais do que tu: a mais erudita das mulheres de teu tempo! -- falou como quem anuncia uma celebridade -- Sofres muito mais por orgulho que por amor! -- acusou -- Crês que não percebo que tu não me queres de verdade? Sou apenas o troféu de uma dama culta, inteligente e mui vaidosa!

 

--És apenas uma mulher sem sentimentos, incapaz de amar e que escolheu aquela mulher simplesmente por ela ser uma artista famosa! -- seu tom era carregado de mágoa -- Artista eu também sou, mas não tive a sorte de nascer rica!”

 

As imagens do ontem e do hoje confundiam-se na mente da engenheira.

 

“Caminhava de encontro a Isabel. Percebia o desespero dela e isso parecia lhe agradar.

 

--O que fazes aqui? -- a mulher perguntou espantada

 

--Esperas pela artista de França? -- olhou para as malas da outra -- Quantas bagagens... -- olhou novamente para Isabel -- Não entendo como podes viajar se o navio já partiu. -- falava com um mal disfarçado sarcasmo

 

--Ainda não entendi o que vieste fazer aqui! -- estava impaciente

 

--Ela não virá, por isso cá estou eu. -- olhava-a nos olhos -- Achei por bem relatar-te o que houve e evitar que prolongues o ridículo a que te dás nesta vã espera.

 

--O que houve com ela? -- perguntou enfurecida -- O que houve com ela? -- segurou-a pelos braços -- Conta-me!

 

--Ela seguiu para São Vicente. -- mentiu -- Com a baronesa de Itapagipe.

 

--Não pode ser!!! -- afastou-se desorientada -- Não pode ser, tu mentes! -- não conseguia acreditar -- Nós iríamos juntas viver em França, estava tudo decidido... Não te creio, mentes para mim! -- uma dor imensa invadia-lhe a alma

 

--O senhor Fernão de La Vedanta confirmar-te-á o que estou a dizer-te. E meu pai da mesma forma! -- continuava mentindo -- Ela abandonou-te! E de forma ainda mais vil do que fizeste comigo! -- seu tom era carregado de rancor -- É a lei do retorno, amada minha!

 

--Não, não, não... -- lançou-se de joelhos no chão e chorou copiosamente

 

“Se não podes ser minha,” -- pensava -- "de outra mulher não serás!”

 

Novamente Camille viu-se na companhia de Antônio.

 

--Figlia mia, tu tens que refletir e pensar no que te disse tua mama! -- olhava nos olhos da jovem -- É amor ou ainda estai iludida com Venecia?”

 

--Ah!!! -- a engenheira acordou apavorada olhando para todos os lados -- Meu Deus! -- pôs a mão no peito -- Que sonho esquisito, ô louco! -- estava molhada de suor -- Mas... será que...? Será verdade...? -- perguntou-se intrigada

 

***

 

Suzana e Juliana estavam sentadas na cama, uma de frente para outra. A japonesa mantinha as pernas enlaçadas ao redor da cintura da amante, que acariciava suas costas.

 

--Ontem eu estava pensando na vida, -- brincava com uma mecha dos cabelos da delegada -- e fiz uma retrospectiva mental de você e eu... -- sorriu olhando para ela -- Nossa história é tão bonita, tão intensa... Aconteceu tanta coisa que parece que estamos juntas há milênios...

 

--Quem sabe se não? -- continuava acariciando as costas da esposa -- Eu não duvidaria... -- beijou-a

 

--Nós mudamos tanto, Suzana! -- beijou-a também -- Mas permanecemos em sintonia! -- envolveu o pescoço da morena com os braços -- Graças a Deus! -- beijou-a mais demoradamente

 

--E a prova disso é o que acontece quando estamos na cama. -- sorriu maliciosamente -- Sintonia total! -- mordeu a orelha da enfermeira

 

--Você não deixa de ser uma nhambiquara danada, não é, Suzana? -- riu -- Eu aqui toda romântica, toda transcendental...

 

--Toda nua... -- beijou-a

 

--E você toda safada! -- deu um tapinha no ombro da outra

 

--Pensei que gostasse disso! -- brincou

 

--Amo! -- beijou-a -- E fazer amor com você é bom no antes, no durante e no depois. -- sorriu -- Não sei como aquela metida pôde ter dito o contrário! -- fez cara feia -- Pior foi você ter acreditado!

 

--E acreditei por vinte longos anos... -- suspirou -- Até que surgiu uma japonesa persistente que veio pra me salvar dos meus complexos! -- lembrava sorridente -- Eu tinha um medo mortal de te decepcionar! -- confessou

 

--Eu sei... -- acariciou o rosto da delegada -- E posso garantir que isso nunca aconteceu! -- pausou brevemente -- Mas também, onde você tava com a cabeça quando foi se envolver com uma mulher chamada Divalina Lomba, hein? -- perguntou de cara feia

 

Suzana riu gostosamente. -- Eu não podia adivinhar que ia dar no que deu!

 

--Humpf! -- fez um bico -- Vamos mudar de assunto! -- propôs -- Vamos falar da família que formaremos! -- sorriu

 

--Ótimo! -- exclamou empolgada -- É um assunto bem mais agradável!

 

--Os quartos das crianças ficaram tão bonitinhos, né? -- perguntou animada -- Tenho certeza de que elas vão gostar quando tiverem mais idade pra entender as coisas!

 

--Mesmo sem entender, elas vão se sentir bem! O carinho que a gente investiu ali é quase palpável!

 

--A idéia de transformar o maior quarto em dois com a colocação da porta corrediça como divisória foi bem legal! -- comentou sorridente -- Ai, Su, eu não vejo a hora da gente conseguir essa adoção! Tô na maior fé que vai dar certo, e você?

 

--Com certeza, meu bem! De mais a mais, tem um monte de gente orando por nós. -- garantiu -- O centro todo tá do nosso lado, até o pessoal que era contra minha participação como médium da casa!

 

--Porque as pessoas sabem que provavelmente Celina e Murilo não terão bom destino se não ficarem com a gente! Especialmente o menino que não tem boa saúde...

 

--Mas a gente não pode nem ter um lampejo de dúvida sequer! -- acariciou o rosto da amante -- Sinto que nessa última audiência que se aproxima nós seremos vencedoras!

 

--Seremos sim, se Deus quiser! -- afirmou convicta -- Formaremos uma família linda! -- beijou-a -- E veremos as crianças crescerem, dia a dia, ensinando e aprendendo com elas! -- emocionou-se -- Nós daremos a elas o nosso melhor e quando ambas saírem de casa para cuidar das próprias vidas, continuaremos juntas, você e eu! -- segurou o rosto da morena -- Ainda mais velhinhas e duras na queda! -- beijou-a

 

--E mesmo depois que os corpos se cansarem e libertarem nossas almas, estaremos juntas, se Deus quiser! -- também se emocionou -- Unidas por laços de amor por toda eternidade! -- prometeu

 

--Está certa de todas as decisões que tomamos? -- perguntou enquanto uma lágrima lhe escapava dos olhos -- De todas mesmo?

 

--Completamente! -- respondeu de pronto

 

--Então assim será, Suzana Mello Mitsui! -- sorriu com os olhos molhados -- Eu te amo!

 

--Também te amo, Juliana Okinawa Mitsui! -- falava com muito sentimento -- Hoje e sempre! -- beijou-a ternamente

 

As duas entregaram-se àquele beijo e deitaram-se lentamente sobre a cama. Novamente buscavam-se para se amar, fundindo todos os sentidos físicos e extra físicos numa confirmação sem palavras dos sonhos e das expectativas que juntas construíam em sua caminhada de tantos anos. Já de muito, não havia segredos entre aquelas almas afins, as quais sabiam se perceber com a mesma intensidade apesar do tempo decorrido e de suas marcas inevitáveis sobre a matéria que nos serve de templo.

 

Juliana e Suzana aprenderam a se colocar sobre as coisas que passam e já não eram suscetíveis aos pequenos grandes obstáculos que separam casais. Elas conheciam o amor e por ele se deixaram tomar completamente.

 

***

 

Priscila acabava de chegar em casa com Priscilinha, a qual havia tido seu último dia de aulas no ano.

 

--Menina vá tomar seu banho enquanto eu preparo o lanche. Hoje tem pizza!

 

--Oba! -- foi pulando para o quarto -- Dois segundos!

 

--E depois do lanche pode usar o computador mas não vai ficar muito tempo, hein? -- falou mais alto antes de entrar no banheiro -- Tomara que Lady não demore a chegar! Essa empresa tira o couro dela, nunca vi! -- lavava as mãos enquanto falava sozinha -- Coisa horrível! -- secou as mãos e saiu do banheiro

 

Lady chegou em casa muito tempo depois, quase às nove da noite.

 

--Mas isso são horas? -- a morena se levantou do sofá com a cara feia -- Agora todo dia vai ser isso, é? -- reclamou

 

--Final de ano é assim mesmo, viu, amiga? Temos uma encomenda grande pra atender e não podemos passar do prazo. -- colocou a bolsa sobre a poltrona -- Ai, que fome!

 

--Eu, hein, criatura? Eles não te pagam um centavo a mais por isso! -- cruzou os braços -- Não pode viver fazendo hora extra a troco de nada!

 

--Eu visto a camisa, amiga! -- argumentou -- E como gerenta, devo dar o exemplo!

 

--Humpf! -- fez um bico

 

--Cadê nossa filha? -- foi para o quarto da garota -- Priscilinha! -- chamou

 

--Oi, mãe! -- correu para abraçá-la -- Vem ver só o jogo que eu baixei na internet! Muito legal! -- segurou a mão dela

 

--Ai, cadê? -- ficou interessada

 

Após algum tempo de brincadeira, a dentista apareceu na porta do quarto. -- Priscilinha, suas horas de computador acabaram por hoje. -- decretou

 

--Ah!! -- mãe e filha disseram decepcionadas

 

--Ô, Lady! -- cruzou os braços indignada

 

--Ah, mas é isso mesmo! -- a engenheira disfarçou -- Chega de computador por hoje, menina! -- fechou o jogo -- São quase onze da noite e a senhora tem que dormir!

 

--Mas você bem tava gostando, mãe! -- retrucou -- Só porque tia Pi falou...

 

--Você sabe que tem hora pra usar computador e hora pra dormir, menina! -- a mãe respondeu -- Tia Pi e eu concordamos nisso! -- desligou o PC

 

--Humpf! -- a pequena fez um bico

 

--À propósito, você ainda não comeu nada! -- olhava para a amante

 

--Nossa, que coisa distraída! -- levantou-se de um pulo -- Entretida aqui com esses joguinhos, perdi a noção!

 

--Eu tenho que deitar agora mesmo? -- olhou para as adultas -- Minhas férias começaram, aí acabou a ordem!

 

--Quem disse? -- Priscila pôs as mãos na cintura -- Acabou ordem nenhuma, garotinha! A senhora vai trocar de roupa pra dormir! -- olhou para Lady -- E você vai tomar banho e lanchar! -- saiu do quarto

 

--Mãe?

 

--O que, meu bem? -- olhou para a filha

 

--Por que tia Pi manda em nós duas? -- perguntou intrigada

 

--Por que? -- não sabia o que dizer -- Ah, porque... Porque ela tem a força da mulher brasileira! -- beijou a cabeça da menina -- E você tem a força da mulherzinha brasileira, que nem ela, só que versão mirim! -- sorriu -- Já escovou os dentes?

 

--Antes de você chegar.

 

--Então vista a camisola e vá dormir! -- repetiu as ordens -- Boa noite!

 

--Boa noite... -- respondeu desanimada -- Eu amo mamãe e tia Pi, mas quando eu crescer, -- falava sozinha -- vou mandar em todo mundo! -- abriu o guarda roupas para pegar a camisola -- E ninguém vai mandar em mim! -- resmungava sozinha

 

Após o banho, Lady foi para a cozinha e encontrou Priscila preparando seu lanche.

 

--Nossa, que coisa nutritiva! -- sorriu olhando para os alimentos -- Ai, eu adoro suco de goiaba! -- sentou-se -- E você é muito fofa por preparar meu lanchinho!

 

--Lady, você tem que tomar jeito! -- colocou o prato com o sanduíche diante da engenheira -- Dá o exemplo como gerenta, mas na sua casa não faz por onde! -- despejava o suco no copo -- Chega da rua, não toma banho, não vai lanchar... A menina tá vendo isso! E ela não gosta de obedecer, então usa tudo como argumento. -- pegou um guardanapo e arrumou ao lado do prato

 

--Obrigada! -- pegou o sanduíche -- É verdade... Mas é que o joguinho era tão legal! -- mordeu um pedaço e gastou uns segundos calada mastigando -- Uma noivinha que matava todo mundo pra encontrar o noivo e poder casar! Morri de rir!

 

“Ô, meu Deus, mas até os jogos eletrônicos compactuam contra mim nesse complô maldito!” -- a morena pensou contrariada

 

--Priscila, dezembro já chegou! -- bebeu um gole de suco -- Estamos no dia sete!

 

--E? -- não entendia aonde a outra queria chegar

 

--Quando é que a gente casa? Desse mês o mundo não passa! -- mordeu o sanduíche

 

--Lady, pelo amor de Deus, você me perturba com isso desde que eu vim morar aqui! Me dá um tempo, por favor? -- pedia aflita

 

--Tempo?? -- limpou a boca no guardanapo -- Amiga, estamos com os dias contados, tem tempo não!

 

--Mulher do céu, o mundo não vai acabar! -- afirmou enfática -- Isso é papo! Igual aconteceu quando o ano 2000 chegou, você não lembra?

 

--Ah, mas eu não quero arriscar! Ou a gente casa nesse mês ou eu faço uma loucura!

 

--Você? Fazendo uma loucura? -- riu -- Qual a novidade nisso?

 

--Priscila eu não tô brincando! -- comia -- Eu quero casar... e já! -- falava com a boca cheia

 

--Mas que coisa! -- respondeu contrariada -- Lady, por que você é tão intransigente, hein? -- olhava para a outra -- Quantas vezes tenho que te dizer que o que está em jogo aqui é o futuro de Priscilinha? Você quer essa menina sofrendo por causa da nossa situação?

 

--E por que pensa que se a gente casar no papel isso vai acabar com a vida dela? -- bebeu um gole de suco -- Acha que todo mundo pensa que a gente é só amiguinha?? Depois que virei a monster preferida de minha ídola Gaga, acabou-se o segredo!

 

--Fala baixo! -- advertiu -- A menina pode ouvir!

 

--Você usa nossa filha pra fugir do compromisso, isso sim! Tá pensando que eu sou idiota, Priscila? -- deu outra mordida no sanduíche

 

--Não dá pra discutir contigo! -- considerava o assunto encerrado

 

--Tia Pi?

 

A dentista e Lady olharam surpresas para a porta da cozinha.

 

--Quando é que você vai casar com a minha mãe? -- cobrou -- Já tá na hora de ser marida dela de verdade!

 

--Ah... -- não conseguia articular palavra

 

--Nossa, que coisa exigente! -- Lady ficou radiante -- E vem defendendo a mamãe! -- sorriu orgulhosa -- Isso, Priscilinha, mostra tua força!

 

--Eu já não agüento mais essa situação! -- caminhou até a dentista -- Por que você não obedece ninguém? -- parou diante dela -- Casa com mamãe! -- cruzou os braços -- Ela quer e eu também quero!

 

--Essa é a minha menina! -- bateu palmas

 

“Sinto que me dei mal...” -- Priscila pensou encurralada

 

 

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Músicas do Capítulo:

Lady Canta no Show:

 

Government Hooker. Intérprete: Lady Gaga. Compositores: Stefani Germanotta / Fernando Garibay / Paul Blair. In: Born This Way. Intérprete: Lady Gaga. Streamline & Interscope & KonLive, 2011. 1 CD, faixa 3 (4min14)

Hair. Intérprete: Lady Gaga. Compositores: Lady Gaga / RedOne. In: Born This Way. Intérprete: Lady Gaga. Streamline & Interscope & KonLive, 2011. 1 CD, faixa 6 (5min08)

 


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Comentários para 41 - Sétima Temporada - RECOMEÇO II:
PaudaFome
PaudaFome

Em: 15/05/2024

Cai na real Camille a mulher da sua vida é Fátima. Seyyed acorda e vai buscar sua Isa que a francesa tá de olho. Priscila se ferrou kkkkkk Lady é demais amo!


Solitudine

Solitudine Em: 20/05/2024 Autora da história
kkkkkkkkkkk Vamos ver se Camille e Seyyed verão as coisas como você está vendo.

Priscila queria casar, ela estava apenas com medo. rs

Beijos,
Sol


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Samirao
Samirao

Em: 02/04/2024

Vamos passar dos 490?


Solitudine

Solitudine Em: 03/04/2024 Autora da história
Pelo visto, sim


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Samirao
Samirao

Em: 06/04/2023

Amoreeee vc anda bombando !!! Eu só vim arredondar huahuahua


Solitudine

Solitudine Em: 08/04/2023 Autora da história
kkkkkk Claro que você viria!
Feliz Páscoa, querida!
Beijos,
Sol


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Femines666
Femines666

Em: 15/03/2023

A vida conspira pra separar Seyyed e Camille é elas não veem meu Deus!!!!

Mas o capítulo foi incrível!


Resposta do autor:

Vejamos o que elas verão! rs

Beijos,

Sol

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Alexape
Alexape

Em: 12/12/2022

Fiz uma imersão completa nesse seriado incrível! Torcendo por Ed e Isa, Ju e Su juntinhas e Cami com a fofa da Fátima! Só que o que você decidir tá bom! Eu vou amar!


Resposta do autor:

Vamos ver o que você achou ao final!

Beijos,

Sol

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Alexape
Alexape

Em: 12/12/2022

Fiz uma imersão completa nesse seriado incrível! Torcendo por Ed e Isa, Ju e Su juntinhas e Cami com a fofa da Fátima! Só que o que você decidir tá bom! Eu vou amar!


Resposta do autor:

Olá querida!

Na época eu fui bem democrática na escrita e na decisão do destino destas meninas. Fico feliz com seu voto de confiança não importa o resultado.

Obrigada!

Beijos,

Sol

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Seyyed
Seyyed

Em: 17/09/2022

Cararra esses sonhos sobre o passado distante são muito reveladores! Acorda Cami e corre atrás da Fátima! Acorda Seyyed e pega tua ruiva! Cadê tua atitude porra??? Su e Ju tão um sonho lindo. E que família! Priscilinha mandou ver! Hahaha


Resposta do autor:

Cadê a atitude? Vamos ver no que tudo isso vai dar. As pessoas na ficção e na vida real têm se tempo de aprendizado. Umas são mais rápidas que outras.

Suzana e Juliana são um casal mais maduro dentro de si mesmas. Já se encontraram.

Priscilinha tem o que você deseja: atitude! kk

Beijos,

Sol

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Seyyed
Seyyed

Em: 17/09/2022

Ivone plantou uma sementinha na cabeça da loura. Tomara que ela deixe crescer porque eu tô carente e perdidona. Até a francesa deu razão! Hehe Lady com Gaga hahahaha ODIEI ver minha ruiva com a francesa tá?


Resposta do autor:

Ivone foi mais uma a fazer Camille refletir. Vamos ver o que ela fará.

A ruiva está carente, é normal! rs

E Lady é fã, muito fã!

Beijos,

Sol

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Atrevida
Atrevida

Em: 02/05/2022

Cara tô boladona contigo. Quando eu penso que não tem como ficar mais foda do que já é tu mete o louco e detona. Da hora demais pqp!!!! Ansiosa pro final e com pena de terminar 


Resposta do autor:

Olá garota!

Que bom que você ficou boladona comigo por um bom motivo! Espero que o final do conto corresponda às expectativas.

Obrigada por ler e comentar!

Beijos,

Sol

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 28/04/2020

 

Solzinha!!

 Essas conversas de Camille e Ivone eram sempre deliciosas e Ivone é de uma sabedora ímpar! As coisas que ela falou sobre o amor de Camille para a mecânica fazem tanto sentido e ela tem razão quando fala que Ed não aprendeu a amar plenamente... Forte isso né?

 

Sempre rolou uma competição velada entre Isa e Camille para ver qual das duas levaria Seyyed.

 

Que lindas Juliana e Suzaninha adotando as crianças!

 

Quando penso que nada pode superar , me vem Lady com suas amigas subindo no palco de ninguém menos que Lady Gaga, que arraso!!

Priscila demorou para deixar o preconceito de lado, hipocrisia que fala né? Dentro de casa são amantes , portão pra fora são amigas.

Priscila deu uma aula pra Priscilão!

“--Você usa nossa filha pra fugir do compromisso, isso sim! Tá pensando que eu sou idiota, Priscila? -- deu outra mordida no sanduíche” Tomaaaaaaaa.... Depois dessa Priscila ficou até zonza! Kkkkkkkk....

Aí vem Priscilinha e fecha com chave ouro!!


Resposta do autor:

Gabinha!

Sim, é forte. Ivone sabe estudar e pesquisar a psique. Ela não se limitou à Medicina tradicional mas sempre foi holística como se deve ser.

Na verdade, a competição partiu bem mais de Camille. Isa foi na reação e depois na insegurança.

Juliana e Suzana adotaram as crianças e trouxeram para perto quem mais queriam.

Como eu disse no outro comentário: Priscilinha mostrou sua força!

Beijos,

Sol

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Samira Haddad
Samira Haddad

Em: 23/04/2020

Pronto amore o último só para constelar de vez esta temporada que é o must! Aqui destaco Lady conseguindo tudo que quer e o sonho revelador. Na época arrepiei imaginando o final que eu amei!!!

Quero ver SEM na Netflix!!!


Resposta do autor:

Esta temporada foi a que escrevi com mais satisfação. E sei que você ficou muito envolvida neste final, mais que nunca.

Já esse trem de Netflix... Desapega, Samira! kkk

Beijos,

Sol

PS: Sei que a intenção é boa com esse tanto de comentário, mas deixe quieto.

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