Capitulo 1 - Paola
Passei mais um dia extremamente cansativo no meu trabalho. Sou delegada de uma DEAM, que é a Delegacia de Apoio a Mulher. Com o tempo passei a me 'acostumar' com os casos que chegavam sempre dia após dia, mas ainda assim, eram muitas as coisas que não gostávamos de ver, sempre fui muito idealista em minha profissão, e ter que me 'acostumar' a tudo aquilo me enojava, mas fazer o que né, não havia saída.
Ao chegar em casa encontrei minha sobrinha/filha assistindo um filme com uma 'amiga', sorri e decidi não as atrapalhar, tentei passar direto para ir ao meu quarto, mas ela me viu.
-- Tiaaa, vem cá, deita aqui com a gente, esse filme é ótimo - disse abraçada a sua 'amiga'.
--O que vocês estão vendo? - perguntei ficando curiosa
--Se beber não case - disse a menina
--Qual seu nome mocinha? - disse deixando ela sem graça
--Verônica - falou tímida
--E o que você é da minha filhota? Quais são suas intenções com ela? - me divertia horrores por dentro com aquela cena
--Ehh eaahhrr - suspirou
--Tiaa, por favor - suplicou Clara - Eu e a Vê estudamos juntas, e estamos nos conhecendo, apenas isso, ok???
--Calma menina, foi só uma pergunta, mas olha Verônica, ela é uma chata, sabia??? - disse e entrei correndo no meu quarto, antes de ouvir ela me xingar com alguns nomes feios.
Meu nome é Paola, tenho 27 anos, e sou delegada de polícia e professora universitária. Vivo com minha sobrinha Clara desde que ela tinha 5 anos, quando seu pais morreram em um acidente de carro. Assumi a responsabilidade por ela quando completei 18 anos, e não me arrependo, ela é minha razão de viver. Não sou casada, nunca namorei por muito tempo nenhum homem, e não tenho coragem de assumir um relacionamento com uma mulher, sim, sou bissexual, e nunca consegui lidar bem com isso. E minha sobrinha é lésbica, ou ao menos acredita ser nesse momento, pois há menos de 2 meses eu descobri que ela namorava garotas, no começo foi um choque, pois ela representava tudo que eu não tinha coragem de fazer. E essa descoberta foi quase trágica.
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FlashBack
Havia presenciado uma conversa de Clara com sua melhor amiga, Fernanda, ao telefone, em que ela chorava muito e dizia que não a queria mais. Parei na hora e passei a escutar a conversa sem que ela percebesse, e aquilo era uma discussão de fim de relacionamento amoroso, e não de duas amigas.
Após esse fato, tentei por diversas vezes chamá-la para conversar, mas acho que ela sentia sobre o que seria a conversa, e sempre se esquivava. Ela nunca soube que eu ficava com algumas mulheres, sempre separei muito bem isso, e nunca deixei nada transparecer a ela, acho que por conta disso, ela deve ter imaginado que haveria alguma reação ruim minha com relação a condição sexual dela.
Voltando a conversa não iniciada, certo dia, ela saiu do cursinho de Inglês a tarde e não apareceu em casa, liguei por diversas vezes a ela, e ela não me atendia, resolvi apelar e liguei para uma colega sua, e ela me disse que ela estava em um bar, próximo ao seu cursinho, e como já estava ficando tarde, e o Rio de Janeiro é uma cidade perigosa, resolvi ir até lá. Tal foi a minha surpresa ao estacionar o carro do outro lado da rua, sem que ela visse, vê-la sentada no colo de uma garota, enquanto conversavam rindo de alguma coisa. Não gostei nada do jeito possessivo que aquela estranha estava segurando a minha pequena, quando elas se beijaram foi a perda da minha sensatez, aquele beijo era exigente demais, pegajoso demais, indecente demais, não aguentei e fui até lá.
--Clara, sai daí agora - disse bufando enquanto olhava para estranha.
--Calma - disse nervosa com minha presença ali.
--Anda, saí daí agora - disse tentando controlar a respiração.
--Ei Clarinha, ela é sua namorada?? Porque não tem idade para ser sua mãe - disse a abusada me olhando, porque ela me olhava daquele jeito?
--Não, ela é minha tia - e virando-se para mim - por favor, escândalo aqui não - falou nervosa.
--Então entra na porr* do carro agora e não ande mais com essazinha, tá me entendendo? - Porque aquela infeliz mexia tanto comigo? Não me reconheci falando aquilo tudo, e a desgraçada não parava de me olhar, com o narizinho em pé.
--Opa opa opa, muita calma nessa hora, quem você pensa que é pra chegar aqui falando desse jeito, me ofendendo desse jeito?- veio me encarando.
--Olha aqui, sua, suaaa... – as palavras me escaparam.
--Sua o que? Anda, diz - desafiou-me de novo
--Pervertida, abusada - e saí do local, Clara já me esperava no carro, quando de repente ela falou em voz alta
--'Sabe o que eu penso sobre mulheres homofóbicas??? Que toda noite elas sonham que estão trans*ndo com outras mulheres'
Ai que eu me irritei de vez e fui embora, com Clara quieta ao meu lado, num misto de raiva e choro.
Quando chegamos em casa, saímos da garagem e ela quieta no elevador, sem me olhar, preferi chegar no nosso apartamento para resolver conversar. Ao entramos em casa ela partiu correndo para seu quarto, tentando se trancar lá, mas fui mais rápida e impedi que ela fechasse a porta, entrei, fechando a porta atrás de mim, e ela se sentou de costas para mim na cama.
Sentei na mesma posição que ela e comecei a falar:
--"Quando eu tinha 15 anos, fui passar férias na casa da nossa família em Búzios, nunca fui uma adolescente de ter muitos amigos, eu era muito fechada, naquela época, havia uma menina que morava lá, junto com a tia, que era mulher do caseiro do lugar, tinha poucos anos além de mim, quando a vi pela primeira vez, senti tantas emoções desconhecidas em mim, e parecia que nela também, porque ela me olhava sempre de um jeito tão lindo, que me deixava tonta. Fomos ficando cada vez mais próximos, papai e mamãe felizes porque enfim eu brincava com pessoas da minha idade. Até que um dia fomos a praia, antes de irmos fomos colocar a roupa no quarto, emprestei um de meus biquínis a ela, ela colocou eu não consegui disfarçar meus olhares, e ela percebeu, me perguntando se eu havia gostado, disse que sim, ela riu e disse que tinha gostado do meu também, nesse momento senti um calor desconhecido no meio das minhas pernas - sorri ao lembrar - e então fomos. Mas alguma coisa dentro da gente havia mudado, nossos olhares não eram mais os mesmos. Ficávamos o tempo todo olhando uma para a outra. Não aguentei aquilo e disse que queria ir para casa. E fomos. Quando chegamos disse que ia tomar banho, ela disse que me esperaria, concordei e então fui em direção ao banheiro, tirei a roupa, e comecei a tomar banho, quando sinto que estava sendo observada, era ela, Carolina me olhava sem pudor, e foi entrando no box, ainda de biquíni, e disse que não aguentava mais de vontade de me beijar, e foi então que dei meu primeiro beijo, naquele chuveiro, meu corpo explodia em emoções, sentia minha barriga doer estranhamente, meu corpo se arrepiava mesmo debaixo da água quente, ela passava as mãos pelo meu corpo com uma necessidade urgente, eu estava totalmente entregue, quando a porta do banheiro abriu e mamãe nos flagrou lá, expulsou Carolina do meu quarto imediatamente, e me deu a maior surra que eu poderia receber em toda a minha vida. O casal foi demitido, e nunca mais vi Carolina. - Falei com lágrimas nos olhos-
--Essa história é verdadeira? - enfim Clarinha havia se virado e estava me olhando
--Sim, você pode perceber que nunca tive uma relação boa com mamãe, é por conta desse fato - Nunca contei isso a ninguém, isso me dói muito, são lembranças ruins, só não quero que você pense que eu tenho algum tipo de preconceito quando a sua condição sexual, sobre suas escolhas - respirei fundo tirando um peso de cima de mim.
--Mas porque agiu daquele jeito mais cedo? - me questionou
--Eu não sei - como explicar a ela que havia ficado irada simplesmente pela presença daquela garota petulante? - acho que foi o susto, e não gostei do jeito da sua namorada.
--Ela não é minha namorada, a Júlia é apenas uma amiga - disse rapidamente.
--Você senta no colo e beija suas amigas na boca? - fiquei surpresa e ela vermelha.
--Não, é que aquele é o jeito dela, e eu terminei um namoro a pouco tempo, fui traída, eu estava querendo relaxar um pouco - disse calma.
--Queria que você tivesse confiado em mim - disse triste.
--Desculpa tia, é que eu fiquei com medo da sua reação, não sabia o que fazer, me perdoa? - e fez aquela carinha que eu não consigo dizer não nunca
--Vou pensar - me fiz um pouco de difícil - claro meu anjo - e pedi um abraço, que foi prontamente atendido.
Ficamos quase 1 hora daquele jeito, revelações feitas, nenhum segredo entre nós, além de tia e sobrinha, amigas.
--Lola -chamou-me do jeito que só faz quando quer alguma coisa, se afastando do abraço e me olhando - essa Carolina foi a única mulher que você ficou?
--Não - ri sem graça, jamais me imaginava tendo uma conversa daquelas com Clara - conheci algumas outras, me envolvi, mas nada sério, não consigo me entregar a ninguém, seja homem ou mulher.
--Então quer dizer que minha tia gatona é também uma pegadora em potencial? - disse rindo e me levando ao riso também, desfazendo qualquer resquício de briga.
Desde esse dia, nossa relação só melhorou, mas ela nunca mais tocou no nome daquela garota, e nunca disse a ela o quanto havia me incomodado, e que ainda andava pensando naquela menina. E lá se foram 2 meses
Fim do flashback
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Precisava dormir, amanhã tenho trabalho logo cedo, mas graças a Deus, nada de plantão na delegacia.
Consegui acordar cedo, bem disposta, coloquei uma calça jeans, blusa social, salto e um blazer, e peguei meu carro para ir ao trabalho.
Fim do capítulo
boa noite meninas,
espero que estejam gostando <3
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Julia Eidrian
Em: 13/11/2019
Esta sendo maravilhoso ler essa história de novo!
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