— Infelizmente, acho que não curtirão por muito tempo — murmurou Dominique, encarando a motorista.
— Por que diz isso? — questionou Ianny, o cenho franzido em dúvida.
— David Newton está aqui.
Ao ouvir a revelação, uma fúria visceral invadiu o peito de Ianny. Como podia aquele canalha divertir-se livremente em uma festa enquanto tantas mulheres viviam amedrontadas pelas marcas de sua covardia? Seus dentes se cravaram com força e ela deu um passo firme para ir atrás dele, mas...
— Alguém em casa? — Dominique estalou os dedos bem perto do rosto da motorista, arrancando-a do transe imediato.
— Onde ele está? — perguntou Ianny, o maxilar travado.
— Por que quer saber?
— Vou acabar com a raça dele.
— Ah, não me diga! O que pretende fazer? Pedir educadamente que ele se deite no meio da rua para que você possa atropelá-lo com o meu carro? — ironizou a morena, arqueando a sobrancelha.
— Não, senhora — retrucou a outra, já virando as costas. — Eu vim de táxi.
Antes que pudesse dar mais um passo, Ianny deu de cara com Samantha, que retornava do corredor interno.
— Aonde vai? — perguntou a ruiva, intrigada.
— Eu... ia te procurar, você estava demorando — mentiu a motorista, disfarçando a tensão.
— O banheiro estava lotado, e eu não sou do tipo que fura fila. Senhorita Foster, olá! — cumprimentou a patroa com um sorriso amigável.
— Samantha, fico feliz que tenha vindo — respondeu Dominique. A ruiva assentiu e recostou-se levemente no balcão.
— O que vai beber? — quis saber o barman.
— Ah, um suco, por favor.
— Só servimos bebidas alcoólicas, moça.
— Claro, entendi... então um Martini — pediu ela, sendo atendida prontamente.
A festa seguiu seu curso de maneira aparentemente tranquila. Samantha continuava ignorando a presença de David Newton, e tanto Dominique quanto Ianny faziam o impossível para mantê-la distraída sempre que o rapaz cruzava o campo de visão. De vez em quando, a executiva desaparecia no meio da multidão densa, mas sempre retornava ao seu posto perto do bar.
— Ianny, acho que já dancei e curti demais por hoje, estou exausta, vamos para casa? — pediu Samantha bocejando.
— Com certeza, vamos sim.
— Você pode ficar mais um pouco se quiser se divertir...
— Que nada, estou morrendo de sono. Vamos — apressou a motorista.
As duas despediram-se brevemente de Dominique, apanharam um táxi na porta e retornaram à mansão. No entanto, assim que saltaram do veículo, Ianny tomou uma decisão.
— Pode entrar, Samantha. Eu acerto a corrida com o motorista e já subo — inventou, vendo a ruiva assentir e desaparecer pela porta da frente. Na mesma hora, Ianny tornou a entrar no banco traseiro do táxi.
— Para onde agora, senhorita? — perguntou o taxista, confuso.
— Volta para a boate.
***
— Anda, Dominique, venha se divertir com a gente! Vamos dançar com as meninas — insistia Ravena, puxando a amiga pelo braço.
— Você chama aquilo de dança? Olhando daqui, só vejo um bando de garotas estrebuchando feito loucas — recusou a morena, impassível.
— Ok, quem perde é você. Fica aí mofando com o seu uísque — resignou-se Ravena, afastando-se em seguida.
— Com o maior prazer — murmurou Dominique para si mesma. No instante em que virou o rosto, algo chamou sua atenção: uma mulher a encarava fixamente de longe, de forma estranha e persistente. Os reflexos das luzes neon dificultavam a identificação de seus traços. Aos poucos, a incômoda sensação de ser vigiada fez a morena decidir ir até lá, mas, no meio do trajeto, alguém esbarrou desajeitadamente nela, desviando sua atenção por frações de segundo. Quando voltou a olhar, a figura misteriosa havia sumido na multidão. Respirando fundo, retornou ao balcão.
— Quer gelo? — perguntou o barman a alguém que acabara de se aproximar.
— Não precisa — respondeu uma voz feminina. Dominique olhou a tempo de ver Ianny virar de uma só vez a dose de um destilado puro.
— Achei que você e Samantha estivessem dormindo a esta hora — notou a executiva, tragando um gole de seu uísque.
— Ela está — retrucou a motorista sem encará-la, estendendo o copo vazio. — Mais uma dose, por favor.
Dominique ergueu uma sobrancelha, cética. — O quê vai? Vai me proibir de beber?
— Não sou sua mãe e você é bem grandinha para saber o que faz. Contanto que não falte ao trabalho amanhã, pode beber o bar inteiro — ironizou a morena. — Mas, se aceita um conselho de quem conhece o perigo, tome cuidado. Tem muita gente aqui que não se importaria em se aproveitar de uma mulher bonita e alterada.
— Agradeço o conselho, senhorita Foster, mas eu não sou apenas um rostinho bonito. É bem difícil eu me embebedar de verdade, e eu sei me defender — disparou Ianny.
— Obviamente que sabe — respondeu a patroa, voltando a contemplar o salão.
Distraída pelo movimento, Dominique não percebeu quando David Newton emergiu do meio da pista de dança, tampouco notou quando Ianny começou a segui-lo discretamente de longe. O homem acomodou-se em um sofá reservado, fitando com olhares pervertidos as mulheres que passavam. Ele já arrumara confusão mais cedo por importunar uma moça acompanhada, e desde que o escândalo vazara à imprensa, estava cada vez mais difícil conseguir companhia que não fossem garotas de programa.
Um pouco mais afastada, Ianny começou a balançar o corpo ao som da batida eletrônica, atraindo de imediato dezenas de olhares masculinos — inclusive o de David.
— Dominique, eu estou louca ou aquela ali é a sua motorista? — apontou Ravena, boquiaberta.
— Pelo menos ela sabe se mover — comentou a morena, observando a elegância e a sensualidade com que Ianny dançava.
— E como sabe... — concordou Ravena, antes de olhar para o relógio. — Olha, preciso ir. A Stacy está lá fora me esperando e mandou tchau.
— Eu deveria saber quem é Stacy?
— Deixa para lá. Quer vir com a gente?
— Não, vou ficar mais um pouco — declinou Dominique. Sua amiga despediu-se rapidamente e sumiu.
A música, antes arrastada, transformou-se em um ritmo frenético enquanto as luzes estroboscópicas cortavam o ambiente. Oportunamente, Ianny aproximou-se do sofá e sentou-se bem ao lado de David, que a devorava com os olhos.
— Olá! — puxou ele, sorrindo de forma predadora.
— Oi — respondeu ela, mantendo um sorriso simpático.
— Te vi dançando ali na frente, parabéns. É dançarina profissional?
— Ah, quem me dera — riu dissimulada.
— Pois deveria ser. A propósito, sou David — estendeu a mão.
— Diana — mentiu ela, apertando-lhe a mão.
— Posso pagar uma bebida?
— Claro que sim — respondeu Ianny, vendo os olhos do homem brilharem de satisfação.
Alguns goles depois, David já exibia sinais claros de embriaguez, enquanto Ianny mantinha-se sóbria e calculista.
— Sabe... a gente já se esbarrou antes? Tenho a nítida impressão de que te conheço de algum lugar — balbuciou ele, estreitando os olhos.
— Com certeza não. Sou do Texas, cheguei na cidade ontem mesmo — mentiu com naturalidade, ganhando um sorriso aliviado do agressor.
Sentada ao longe, no balcão, Dominique observava cada movimento da cena. Teve impulso de intervir, mas conteve-se, mantendo-se alerta.
— Aqui está muito abafado e barulhento... o que acha de irmos para um lugar mais reservado? — propôs David com segundas intenções.
— Excelente ideia. Vi uma porta lateral que dá para um beco nos fundos — sussurrou ela.
— Perfeito. Se importa se eu for na frente? Sabe como é... pra checar se está tudo limpo, sem curiosos — disse ele, preocupado com sua imagem pública.
— Iria sugerir exatamente isso — sorriu a motorista.
— Então te espero lá fora — concluiu David, levantando-se cambaleante e apressando o passo rumo à saída de serviço.
Ianny pediu mais uma cerveja, deu uma última olhada ao redor e seguiu sorrateiramente os passos do homem. De seu posto privilegiado, Dominique viu a funcionária embrenhar-se pelo mesmo corredor escuro. Um calafrio a atingiu.
— Que diabo ela pensa que está fazendo? — sibilou a morena para si mesma, abandonando a taça no balcão e decidindo ir atrás.
***
Nos fundos da boate estendia-se uma rua estreita, fétida e mal iluminada, o tipo de lugar que pedestres prudentes evitam a todo custo. Ianny avançou até encontrar David, que a aguardava encostado na parede com um sorriso libidinoso.
— Adorei aqui, ninguém vai nos incomodar — gabou-se ele, estendendo os braços para puxá-la pela cintura.
— Exatamente. Espero que esteja preparado, porque eu tenho muita energia acumulada — rosnou a motorista.
— Vamos lá, gatinha, me mostra o que você sabe faz... — o homem sequer concluiu a frase. Um golpe seco, violento e certeiro com o joelho atingiu suas partes íntimas, arrancando-lhe todo o ar num urro agudo de dor e fazendo-o dobrar-se ao meio. — Ora, sua... vadia desgraçada!
— O que foi, querido? Achei que gostasse de uma pegada mais intensa — disparou Ianny, desferindo um soco implacável em seu rosto que o mandou direto ao chão de paralelepípedos.
— Pa-para... por favor! — choramingou David, cuspindo sangue.
— Parar? Me diga uma coisa, David: por acaso você parava quando as mulheres que você agrediu imploravam? — vociferou ela, desferindo uma bota certeira em suas costelas. — Responde, seu covarde!
— Eu... eu vou acabar com você... meu tio vai...
— Seu tio? Ele é tão covarde quanto você! — cortou a motorista, virando-se para ir embora.
— Isso não vai ficar assim... eu vou te achar e vou te destruir pior do que fiz com qualquer outra vagabunda! — urrou ele do chão, cuspindo sangue.
Cega por uma raiva incontrolável, Ianny voltou a saltar sobre ele, desferindo uma sequência brutal de socos com as duas mãos, parando apenas quando o sangue do agressor respingou em seu próprio rosto. Levantou-se respirando com dificuldade, cuspiu em cima do corpo quase irreconhecível e deu meia-volta. No entanto, congelou ao notar, na penumbra mais profunda daquele beco escuro, a silhueta imóvel de uma pessoa escorada na parede, observando tudo em silêncio.
As gotículas de suor misturavam-se à poeira daquela ruela escura enquanto o peito de Ianny subia e descia em arfadas pesadas. À medida que seus olhos se acostumavam à penumbra, a silhueta encostada na parede deu um passo à frente, revelando a feição inconfundível de Dominique.
A executiva mantinha os braços cruzados sobre o blazer, o semblante inteiramente neutro, embora houvesse um brilho curioso e quase divertido em seu olhar escuro. Ela olhou de relance para o corpo estatelado e gemendo de David Newton ao chão, depois voltou os olhos fixos para a motorista.
— Tenho que admitir, Simmons — começou Dominique, quebrando o silêncio mortal do beco com uma calma desconcertante. — Você tem métodos bastante peculiares para resolver pendências trabalhistas.
Ianny limpou o rosto com as costas da mão, borrando um pouco do sangue que havia salpicado em sua bochecha. — Eu apenas fiz o que precisava ser feito. Se a justiça formal é lenta, a gente dá uma pequena aceleração.
— O problema é que esse pequeno atraso na vida do rapaz vai nos dar um trabalho imenso com a polícia amanhã de manhã — ponderou a morena, aproximando-se mais dois passos e parando bem perto da funcionária. O cheiro de álcool, adrenalina e terra molhada pairava no ar. — Embora eu deva confessar... — um canto dos lábios de Dominique curvou-se em um sorriso irônico — ver você descer a lenha nele foi, de certa forma, revigorante. Você realmente ostentava um incrível olhar assassino enquanto o mandava para a lona.
A motorista soltou uma lufada de ar, a tensão inicial dando espaço a um meio sorriso disfarçado. — Aprendi com a melhor. A senhora tem inspirações diárias excelentes no escritório.
— Oh, entendo. Então a culpa de você ter se transformado em uma lutadora clandestina de beco é minha? — arqueou a sobrancelha a executiva, divertindo-se com a audácia.
— Exatamente. Agora, se a senhora me der licença, preciso voltar para casa antes que a Samantha acorde e perceba que sumi.
— Espere — Dominique segurou levemente o pulso de Ianny, impedindo-a de dar meia-volta. O toque foi firme, mas surpreendentemente suave. — Não vamos voltar para casa de táxi depois de toda essa confusão. Meu carro particular está estacionado na rua paralela com o motorista aguardando.
Ianny fitou o ponto onde a mão da patroa segurava seu braço por un instante antes de erguer o olhar. — E o nosso querido agressor no chão?
— Digamos que ele vai passar as próximas horas repensando suas escolhas de vida, trancado com o próprio ego ferido e sem coragem de chamar a polícia, já que o tio dele tem muito mais a perder com o escândalo — decretou Dominique com frieza corporativa, soltando-lhe o pulso. — Venha. Vamos limpar esse seu rosto antes que a ruiva entre em pânico.
As duas caminharam lado a lado por entre as sombras do beco até alcançarem a claridade da avenida principal. O peso da noite parecia ter se dissipado, substituído por uma estranha e perigosa cumplicidade que nenhuma delas ousaria admitir em voz alta.
Fim do capítulo

Marta Andrade dos Santos
26/02/2019 às 20:19
Toma distraído!
NayGomez
25/02/2019 às 22:58
Ja me apaixonei pela Ianny, torcia por demais para pela Dom e Sam mais vendo melhor a Sam com a Ianny seria perfeito tb ...
zilla
25/02/2019 às 21:24
Amei a Lanny mais ainda crlh hehe!
Com certeza a mulher parada é a Nicky!!!
Como sempre me surpreendendo Tyka, parabéns salinda!
Quando será o próximo capítulo???? Ansiosa já rs