VII
O resto da tarde de Aline foi sem graça e sem ânimo, se sentia melhor do mal estar, porém Verena não saía de sua cabeça.
O que será que ela e meu pai conversaram?pensou.
O pai ja havia lhe contato o motivo do seu aparecimento repentino tão cedo, havia recebido uma ligação anônima e o liberaram do serviço para começarem o inquérito da investigação. A menina ficou preocupada com o ocorrido, não esperava que fosse acontecer tudo de novo e tão rápido.
Dormiu apreensiva e a noite voou, logo seu despertador a tirou do sono e a trouxe para a realidade.
Fez tudo no automático, e desceu para o café com uma sensação de medo.
- Minha filha, me perdoe por novamente isso acontecer, não me sinto nada feliz por proporcionar essa vida a você. Um abraço apertado acalentou o coração da pequena.
- Eu amo o senhor e não preciso lhe perdoar, pois o senhor não fez nada.
- Você está tão grande Line, minha princesa cresceu. Termina rápido mocinha, a princesa tem que estudar.
Assim que terminaram o desjejum, pegaram a estrada em direção a escola.
Aline entrou na sala, estava um pouco atrasada e logo Giovana e Guilherme chamaram-na para sentar com eles.
- Você tá melhor? - Giovana apertava as bochechas da menina.
- S-sim.
- Você fez falta menininha.
- Magina, Guilherme - corou.
- Sério, japinha!
A professora de Biologia logo chamou atenção do trio e eles voltaram atenção pra aula.
Naquele dia havia física no último tempo de aula, o coração de Aline saltava, somente de imaginar que ela viria.
Durante o intervalo das aulas, Aline e seus colegas foram lanchar na cantina ao ar livre, durante as conversas paralelas a menina notou um movimento na sala dos professores e voltou sua atenção pra lá. A distância da sala e dos seus olhos era enormes e a menina precisou semicerrar os olhos para poder tentar focar a imagem. Um homem alto, aparentemente forte, usava um sobretudo e um chapéu estilo retrô, muito elegante, chegou a sala dos professores e depois de um tempo Verena saiu, ela parecia impaciente e gesticulava um pouco enquanto falava, o homem mantinha-se calmo. Aline percorreu os olhos pelo corpo da sua professora.
Como pode uma mulher linda não ter ninguém?
Voltou a atenção nos dois, e o homem entregou um envelope preto a ela, que recebeu e logo entrou para sala.
Era estranho, quem será aquele homem? Pelo modo que Verena o tratava, deviam se conhecer muito bem.
Refletia.
- Que foi Aline? - Guilherme tentava descobrir pra onde a menina olhava tanto.
- N-nada não...
- Ela estava olhando pra professora de física e pro macho alpha dela - Giovanna sorriu.
Aline arregalou nos olhinhos puxados, arrancando risadas dos dois.
- Ele nunca entra aqui, eu ja o vi aí por fora algumas vezes, ele a traz até aqui. - Guilherme parecia pensativo.
- Eu ja vi também, acho que deve ser parente dela, ou pode ser uma amizade colorida.
- Pensei nisso também Gi, mas não parece que eles tenham algo, das vezes que eu o vi pela cidade, ele a trata com muito respeito.
- Algumas meninas do último ano pagam um pau pra ela, quando ela passa pelo corredor, as meninas da torcida chegam a babar, mas ela parece que não ver. Quando as meninas abordam ela no corredor pra perguntar qualquer merd*, a professora da um sorriso de lado que eu acho que todas elas tem uns orgasmos múltiplos.
Aline ouvia a conversa em silêncio. Então Verena tinha muitas pretendentes... foi o que a menina pensou.
- O que é um orgasmo múltiplo? - a menina disparou.
Giovana e Guilherme olharam-na ao mesmo tempo, ela estava muito envergonhada pela pergunta.
- Que fofa meo deos, outra hora falamos sobre isso, agora é a aula da toda poderosa.
Os três levantaram e foram para a sala de aula.
A menina sentiu-se uma idiota por fazer aquela pergunta, achou muito infantil por ter 16 anos e não saber coisas basicas sobre adultos. Sentia chateação por isso, pois se deu conta do quão boba era.
Verena entrou na sala, tinha uma pilha de papéis apoiado no braço e a sua maleta no outro O cabelo formava uma trança lateral frouxa e vestia uma calça preta de couro e uma camisa de manga comprida branca.
A menina acompanhou todo o movimento da mulher e desviou os olhos quando a professora a encarou.
- Bom dia!
- Bom dia - dessa vez Aline também respondeu com todos.
- Eu trouxe um exercício avaliativo que contém 7 questões básicas sobre a aula passada. Formem dupla e me entreguem até o fim da aula, usem calculadora, quem não conseguir terminar eu deixo trazer amanhã, valendo menos ponto, claro. E Aline - direcionou o olhar e a menina estremeceu - Você fica comigo.
A menina ficou sem entender.
- Pegue uma carteira e senta aqui ao lado da minha, você faltou na aula passada.
Aline levantou e deixou uma cadeira ao lado da mesa da professora, estava tão nervosa que quase caiu por cima do braço onde apoia o caderno
Verena saiu distribuindo as folhas de dupla em dupla e sentou-se ao lado da menina.
- Vou revisar o assunto de ontem com você, e você tenta responder algumas, tudo bem?
- Uhum.
- Você se sente melhor? - Verena falou relativamente baixo.
- S-sim.
- Comeu direitinho?
- Uhum.
- Allne, seu pai é psicólogo forense, certo?
Allne sentiu estômago revirar ao ouvi-la falar do seu pai.
- Sim.
- E ele está trabalhando agora?
Os olhos desviaram para a folha, sentia um enorme enfado, mas assentiu a contra gosto, não tinha a mínima vontade de encarar a sua professora.
O interrogatório continuou.
- Você fica sozinha, ele chega mais ou menos que horas todos os dias?
Até o momento estava se controlando, a menina achava muita cara de pau pedir essas informações logo pra ela mesma.
Pegou seu lápis e anotou o número do pai numa folha que estava embaixo do cotovelo da professora.
Verena percebeu que a menina estava recuando a conversa e não quis mais incomodar.
Explicou o assunto e logo Aline estava tentando resolver os cálculos.
Vez ou outra a menina olhava de soslaio para professora, e ela permanecia olhando pra um ponto qualquer, distraída. A sala estava num absoluto silêncio e Aline podia ouvir nitidamente a respiração dela.
O sinal da campanhia soou, e o som ecoou mais alto que o normal por causa do silêncio diante da concentração de todos, assustando a maioria, Verena sorriu discretamente pelo ocorrido, mas Aline percebeu.
Cada dupla ia saindo e deixava as folhas em cima da mesa da professora.
- Almoça comigo? - A professora sussurou próximo ao ouvido da menina.
- Almoço.
Todos ja haviam saído e elas ja estavam se preparando pra sair também.
- Você quer que eu vá na frente?
- Não Aline, pode ir junto comigo.
- Mas todo mundo vai notar isso, não será estranho? - a menina estava assustada.
- Não meu amor, não estamos fazendo nada demais, vamos apenas almoçar. - Verena disse ternamente
Saíram do colégio e foram seguidas por muitos olhares de quem havia ficado pelos arredores da escola. Aline queria corre, mas Verena permanecia inexpressiva caminhando calmamente. A professora olhava para a rua e parecia procurar algo.
Entraram no carro e Aline viu o homem elegante que vira mais cedo, ele estava outro lado da rua e segurava um jornal, mas estava com outra roupa. Um sobretudo cinza claro.
Verena pôs os óculos escuros, mas Alline percebia sua inquietação alternando a atenção entre os três retrovisores. A menina ja estava apreensiva.
Chegaram na casa, adentraram com o carro pela pequena estradinha que dava acesso a sua garagem. Aline nunca estivera ali, era do outro lado do terreno e ali havia 4 carros estacionados, a professora saiu do carro, mas a menina não se moveu.
- Não há ninguém aqui meu bem, são meus.
- O que tá acontecendo?
- Não está acontecendo nada meu amor.
- Hoje foi bem estranho, você tá agindo estranho.
- Tá tudo bem, não farei mau a você e não deixarei que ninguém faça. Venha, vamos almoçar.
Quando a menina entrou na casa, sentiu um cheiro delicioso de comida, Verena a conduziu para a sala de jantar, a menina nunca esteve ali, sentou-se na cadeira que a mais velha puxou para ela. A sala de jantar era toda branca, a mesa de 6 cadeiras era preta, o vidro era bastante espesso e as cadeiras também eram na mesma tonalidade, com detalhes em prateado, a cozinha era toda arejada por enormes janelas que podia-se perfeitamente contemplar a paisagem de árvores externas.
- Gosta de lasanha?
- Amo - a menina respondeu entusiasmada.
- Espero que goste, não foi eu quem fiz, então está deliciosa.
Verena saiu e logo voltou com uma travessa de vidro e luvas de cozinheiro. Deixou a travessa com cuidado e em seguida se ajeitou na cadeira.
- Deixa eu te servir, tá bem quente. - levou um pedaço ao prato da menina, o queijo esticava e aquilo mexia com a fome que sentia.
- Obrigada Verena.
Comeram em silêncio, realmente Aline achou a lasanha divina e repetiu. Verena comeu bem pouco e a mais nova se sentiu estranha por comer quase metade da lasanha, achou que fora deselegante.
- O que foi, não estava bom? - Verena indagou preocupada.
Recebeu um sorriso sem graça.
- Tirando o fato que quase acabei a lasanha e você deve tá me achando desesperada.
- Magina, foi feita pra vocè.
- Por isso não comeu? - Aline quase gritou.
- Calma - sorriu - Eu como pouco, nã sinto fome, apenas como pra não cair desmaiada.
- Vou fazer você comer um dia, eu sei cozinhar e você vai ter que comer tudo.
- disse orgulhosa.
- Você sabe cozinhar? - a professora estava surpresa.
- Sim, sei fazer de tudo. Você não sabe? -
Aquilo deixou Aline encabulada, a professora apenas meneou um não e sorriu.
De repente o clima mudou quando Aline passou a olhar fixamente para boca da mulher, aquilo estava deixando a professora desconcertada.
Verena não queria ir pra esse lado, mas a menina a provocava com os olhos a cada segundo. Tentava se controlar pois a menina não devia fazer intencionalmente.
Mas a mais velha se enganou, Aline levantou e a pegou pela mão.
- Quero conversar com você.
Foram para a biblioteca, Verena queria passar longe do quarto.
Sentaram em um estofado de leitura que mais parecia uma cama.
- Pronto Aline. - encaravam-se.
- Verena, está interessada no meu pai?
Aquela pergunta a deixou sem reação, mas logo ela sorriu e isso chateou a japonesa.
- Não, claro que nãdo, desculpa isso foi meio absurdo.
- Hmn. Você anda muito interessada nele.
- Tenho meus motivos, mas por enquanto é confidencial.
- Confidencial?
- Não se preocupa, tá?
- Vou tentar. Verena, porque absurdo? meu pai nem é tão feio assim.
- Porque homens não fazem parte da minha vida, Aline.
- Nenhum?
- Me refiro intimamente.
- Ah, você sempre foi assim?
- Assim...?
Aline mexia nas pulseiras inquietante.
- Não gostar de homens... intimamente. - a menina ficava sem jeito por perguntar
- Sobre eu ser lésbica?
Aline assentiu.
- Desde que eu me lembro sempre tive desejo por mulheres. - Verena estava sentada com as pernas cruzadas de frente pra Alline, não desviava os olhos em nenhum momento.
- Ah...- refletiu por alguns segundos - Nunca teve um contato - fez aspas com dois dedos - "intimamente" com algum homem?
- Nunca é uma palavra forte.
Os olhos da menina olharam-na em perplexidade.
- Nunca fui pra cama com um homem, mas na faculdade um cara bêbado me beijou.
- Nossa, você correspondeu?
- Não, não me senti bem sendo obrigada a esse tipo de coisa.
- Eu imagino. Meu pai disse que o pai dele trabalhou pra sua família, todos eram professores? você parece ser bem famosa por aqui.
- Eles eram agricultores, minha família toda, e temos negócios ainda nesse ramo, mas eu prefiro lecionar, porém entendo de tudo. As vezes tenho que me desdobrar em duas.
- O que cultivam?
A menina estava deitada de bruços e tinha o cotovelo apoiado no estofado.
- Variadas frutas, legumes e muitas estufas com várias espécies de flores.
- Flores? Nossa!! eu amo flores, você tem cheiro de flor.
Verena se remexeu na poltrona e mudou a posição das pernas, alternando.
- As flores são exportadas e muitas delas são usadas em composição de fragrâncias, eu também amo flores.
Novamente a conversa tomou o rumo proibido. Aline estava inquieta e logo sentou no braço da poltrona, no lado que Verena estava.
- Verena? - aproximou na altura do rosto da mulher.
- Diga... - sentia a respiração da menina.
- Por favor...
Verena a trouxe ao seu encontro e puxou a menina delicadamente pela cintura, Aline caiu deitada de lado, no colo da mulher e o beijo ganhou um incentivo a mais para ambas.
- Me beija, não pára de me beijar. - a menina implorava entre as carícias.
O beijo estava cada vez mais urgente e quando Verena caiu em si Aline tinha as mãos por deixado do tecido grosso da sua camisa.
- Calma meu amor...
- Não me repreende Verena.
- Aline, olha pra mim.
A menina tinha o olhar penetrante.
- Não devemos fazer isso agora, e além do mais as 16 horas eu tenho reunião no colégio. - fazia carícia naquele rostinho triste.
A menina soltou um muxoxo, talvez estivesse agindo por impulso e pensou que Verena estava poupando uma nova frustração que poderia vim caso continuassem. Agradeceu por ter conhecido alguém tão incrivel, sabia que era arriscado, mas quanto mais a conhecia, mais sentia necessidade de conhecê-la, aquilo assustava a menina, mas na presença de sua professora os medos, os receios e as dúvidas dissipavam-se como fumaça.
Verena não era aquilo que todos diziam, ela era reservada e Aline sentia-se bobamente especial por ela ser a única na qual, sua professora permitiu se aproximar.
Deixaram a casa, combinaram de Verena deixar Aline em casa, mas a menina preferiu ir andando assim que chegassem na escola, pois teria que passar na loja de conveniência. Verena estava tão distraída com sua menina que baixou a guarda e não percebeu que estavam sendo observadas.
Fim do capítulo
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