No dia seguinte ao episódio de assédio envolvendo Samantha, Alexia revisava alguns relatórios em sua sala quando o celular vibrou sobre a mesa. Ao notar a foto do noivo na tela, atendeu de imediato.
— Oi, Henry.
— Oi, amor. Que saudades! Você sumiu esses dias, parece até que me esqueceu — lamentou ele do outro lado da linha.
— Me desculpe, querido. Tenho estado soterrada de trabalho. Como você está?
— Bem... Na verdade, preciso conversar com você. Podemos almoçar juntos hoje? — insistiu com um tom manhoso.
— Claro. Saio em vinte minutos, encontro você naquele restaurante perto da Foster.
— Perfeito. Te amo!
— Eu também, beijo — despediu-se, encerrando a chamada.
Pouco tempo depois, a loira atravessava a rua apressada e encontrou o noivo já instalado à mesa. Deu-lhe um selinho rápido e acomodou-se na cadeira em frente.
— Pois bem, o que é tão urgente? — questionou direto ao ponto.
— Sabe que presto assessoria jurídica para vários órgãos e para a família Newton, não sabe?
— Não, não sabia. E continuo sem entender por que está me contando isso agora.
— Vou direto ao assunto: fui designado pelo próprio prefeito para cuidar da defesa de David Newton, aquele rapaz acusado de agressão e assédio por uma funcionária da sua empresa.
— Ah, sim. A Samantha Vasconcelos. Então você vai defendê-lo? — franziu o cenho.
— É... Só que o prefeito está apavorado com a possibilidade dessa denúncia respingar nele publicamente e virar um escândalo político. Por isso vim falar com você — disse Henry, displicente.
— E o que eu tenho a ver com isso, Henry? — ergueu uma sobrancelha, desconfiada.
— Vim pedir a você, como advogada da vítima, que a convença a retirar a queixa. Afinal, tudo não passou de um mal-entendido.
Lex paralisou por um segundo, achando que ouvira errado. — Como é que é?! Aquele desgraçado tentou agarrar a moça à força, deixou os braços dela roxos de tanto apertar, e você tem a coragem de chamar isso de mal-entendido? Ele precisa ser punido!
— Ora, Lex, vocês mulheres adoram fazer tempestade em copo d'água — revirou os olhos o noivo. — Isso é mais comum do que imagina. Nós, homens, às vezes temos a carne fraca e perdemos a cabeça, mas isso não é motivo para arruinar a vida de alguém com processos ou cadeia.
A loira sentiu o sangue ferver nas veias. — Eu não acredito no absurdo que acabei de ouvir. Nunca pensei que fosse tão canalha e machista! É essa a laia de defesa que você faz por aí? Justifica agressão só porque o agressor é homem?
— Claro que não, amor, sabe que só tenho olhos para você! Só estou dizendo que David agiu por impulso, sem intenção de machucar de verdade. Um pedido de desculpas resolve.
— Engraçado... Aposto que o prefeito não aceitaria um simples "pedido de desculpas" se tentassem agarrar a filha ou a esposa dele — disparou Lex, trêmula de raiva.
— Não complique as coisas à toa, Alexia. Converse com a sua cliente, façam um acordo; ela ainda pode sair ganhando uma boa grana. Além do mais, você não vai querer me enfrentar num tribunal — sibilou ele num tom de aviso, dando um gole em seu suco.
— Sinto muito desapontá-lo, doutor, mas vai ser exatamente no tribunal que nos veremos. Com licença — levantou-se abruptamente.
— Ei, não vai almoçar? — estranhou ele.
— Perdi completamente o apetite — cuspiu as palavras, virando as costas.
— Lex — chamou Henry, fazendo-a empacar a passos da saída. — Estarei esperando uma resposta sensata. Quando nos veremos de novo?
— Dentro do tribunal, diante do juiz. Até lá, doutor — concluiu com desdém, sumindo portafora e deixando o homem rubro de ódio.
Alexia atravessou o saguão da Foster cega de fúria, marchando tão rápido que quase atropelou uma figura conhecida no caminho.
— Ora, doutora Thompson! Quem teve a proeza de deixá-la nesse estado febril, a ponto de trucidar quem estiver na frente? — ironizou Dominique, segurando-a pelo braço de leve.
— Me desculpe, eu não a vi... — murmurou Lex, tentando desvencilhar-se.
— Notei. O que aconteceu?
— Nada que seja da sua conta. Agora, por favor, me dê licença.
— Espera — a morena apertou um pouco mais o toque, irredutível. — Você já almoçou?
Lex soltou um suspiro frustrado, sentindo a cabeça latejar. — Não.
— Ótimo. Almoça comigo, preciso tratar de alguns assuntos jurídicos com você.
— Duvido que seja uma boa ideia, minha cota de paciência com o gênero humano esgotou hoje — resmungou a loira.
— Pelo tom, parece até que sou eu quem vive infernizando a sua vida, doutora.
— Exatamente isso — disparou, sem filtro.
— Prometo me comportar como a lady impecável que sou e poupar seus nervos por uma hora. O que me diz? — insistiu Dominique com um sorriso torto irresistível.
Apesar da relutância, Lex acabou cedendo com um aceno cansado. — Tudo bem. Vamos logo.
Pouco depois, sentaram-se exatamente no mesmo restaurante em que a loira estivera com Henry minutos antes. Para alívio de Alexia, o noivo já havia desaparecido dali. Dominique pediu uma mesa reservada ao fundo, jogou a bolsa na cadeira vizinha e acomodou-se.
— Não vai sentar? — estranhou a morena ao ver a advogada estática.
— Sim... Só preciso retocar a maquiagem no toalete. Já volto — disse Lex, sumindo em direção aos corredores internos.
Passaram-se poucos minutos até que a loira retornasse. No entanto, ao aproximar-se da mesa, congelou ao ver uma mulher deslumbrante sentada muito próxima a Dominique, conversando com intimidade e arrancando gargalhadas cúmplices da executiva.
— Atrapalho algo crucial nos seus negócios? — inquiriu Lex, destilando veneno na voz.
— De forma alguma, eu já estava de saída — sorriu a desconhecida, levantando-se, piscando charmosa para a morena. — Nos vemos por aí, Nick. — E saiu rebolando de forma proposital.
— Precisa de um babador novo ou prefere que eu peça um guardanapo? — alfinetou Lex, afundando na cadeira.
Dominique soltou uma gargalhada gostosa. — Oh, ciúmes, doutora? O que vai beber?
— Um suco, apenas — cortou secas.
Sem pedir permissão, a morena ergueu a mão chamando a garçonete. — Traga duas taças de vinho, por favor.
— Branco ou tinto? — indagou a funcionária.
— Tinto para mim — respondeu Dominique, fitando a loira em seguida.
— O mesmo — resmungou Lex, revirando os olhos quando a moça se afastou. — Por que fez isso? Você sabe que eu não bebo em horário de expediente.
— Uma taça de vinho faz milagres para relaxar os nervos, e você claramente está prestes a explodir. Vai me contar o que tirou você do sério hoje?
Alexia fechou os olhos, respirou fundo para conter o tremor nas mãos e desabafou:
— O advogado de David Newton — ou melhor, meu noivo — me procurou no almoço para chantagear... quer dizer, pedir que eu convença Samantha a retirar a queixa. Alegam que foi "mal-entendido" e que o prefeito tem pavor de um escândalo político.
A feição de Dominique endureceu instantaneamente, transformando-se numa máscara gélida e aterrorizante. — Malditos cínicos... Se acham que vão acobertar esse crime, estão redondamente enganados.
A executiva já se punha de pé quando Lex segurou firme em seu braço. Aquele toque inesperado, irônica e milagrosamente, dissipou o fogo da raiva da morena, que tornou a sentar-se.
— Calma. Nada de agir por impulso ou ódio cego. David vai pagar caro, assim como o tio protector dele — ponderou a advogada com lucidez.
— O que você tem em mente, doutora?
— Se o que o prefeito mais teme é ver o nome chafurdado na lama... a população inteira precisa saber exatamente que tipo de monstro moral comanda a prefeitura desta cidade — sibilou Lex, com um brilho vingativo nos olhos.
— Então vamos transformar o pesadelo político deles em realidade absoluta — concluiu Dominique, abrindo um sorriso predatório que fez Lex estremecer, concordando com a cabeça.
***
Na manhã seguinte, pontualmente às seis horas, a cidade inteira despertou em polvorosa com as manchetes estrondosas dos principais jornais matutinos:
> "Sobrinho do prefeito de Nova York é acusado de agressão e assédio sexual em multinacional; alto escalão tenta acobertar crime."
A situação degringolou de vez por volta das dez da manhã, quando uma onda de coragem contagiou outras vítimas: várias mulheres vieram a público através de coletivas de imprensa, denunciando que também haviam sofrido assédios sistemáticos por parte de David Newton e que receberam subornos avultados para guardarem silêncio. Hordas de repórteres e cinegrafistas cercavam tanto a mansão da família Newton quanto a sede da prefeitura, exigindo respostas imediatas.
Na Foster, o telefone da sala de Alexia tocou estridente. Ela atendeu com calma olímpica:
— Pois sim?
— Por que você fez isso, Alexia?! Quer destruir a minha carreira de vez junto com a deles? — bradou a voz desesperada de Henry do outro lado da linha.
— Bom dia para você também, querido! Respondendo à sua pergunta: eu não fiz absolutamente nada de ilegal, apenas ajudei a trazer a verdade à tona para a sociedade. Por acaso achou que eu cruzaria os braços acobertando criminosos?
— Eu... eu nunca esperei ser apunhalado pelas costas assim, logo pela minha própria noiva!
Lex cerrou os olhos, comprimindo os lábios num riso cínico. — Eu não apunhalei ninguém, Henry; apenas sirvo à justiça. Aliás, se eu estivesse no seu lugar, estaria muito mais preocupada com a quantidade de novas vítimas que acabaram de lotar a delegacia para registrar boletim de ocorrência contra o seu cliente... Parece que o pobre rapaz é sistematicamente "mal-entendido" em suas investidas — ironizou ela, destilando veneno. — Nos vemos no tribunal, doutor Henry.
E desligou o telefone na cara dele, sentindo uma paz indescritível inundar seu peito.
Fim do capítulo

Keilaspm
31/07/2019 às 10:51
Eita que o trem vai pegar agora kkkkk adorando
NandaSulivan
07/05/2019 às 20:33
Amei este lado profissional e decidida da Lex...