Olha só quem voltou?
triste adiós
Quando Simons chegou na base do DEA instalada provisoriamente no prédio da policia federal, percebeu uma movimentação atípica. Policiais das duas federações reunidas num pequeno auditório. O comandante Mendoza falava.
—Estive falando mais cedo com pessoas do governo ligado ao DEA. A orientação que tivemos do comandante geral é que os agentes americanos retorne para NY.
—Mas ainda não terminamos o que viemos fazer aqui, ainda não temos pistas concretas sobre a identidade ‘’DELMONDRAGON’’. —Indagou a agente indignada.
—Comandante Simons, te aguardávamos, mas como demorou tivemos que começar sem você. A policia de NY fez uma grande apreensão no porto de Manhattan, eles vão precisar de toda ajuda que puderem ter. E você estar lá é essencial.
—Pode dar mais detalhes?
—A policia apreendeu esta madrugada, uma carga com 170 toneladas de pó, uma carga de fuzis israelenses. Um dos homens preso passou todos os passos de uma nova entrega na semana que vem. Ele vai entrar para o serviço de proteção de pessoas, e ajudar nessa nova apreensão. É uma oportunidade que não podemos perder. Ele afirmou que fez negócios com ‘’ELMONDRAGON’’.
—Mas essa apreensão não vai afastar seja lá quem for o vendedor dessa carga?
—A operação não foi divulgada, só pegamos dois membros da quadrilha. Eles assinaram o acordo de delação e foram liberados. ‘’ELMONDRAGON’’ não sabe, os homens estão sendo monitorados 24 horas por dia. Vamos soltar um comunicado para imprensa. Dizer que o DEA encerrou sua ajuda para com governo mexicano. Daremos um jantar no palácio do congresso com algum lideres, o embaixador americano e mexicano. Como um agradecimento por toda ajuda norte americana.
— E quando vai ser isso? — Perguntou um colega americano.
—Até o fim de semana, vamos confirmar a agenda dos embaixadores. Reunião encerrada—Decretou o homem.
Estava me preparando para sair da sala quando Mendonza me chamou.
—Agente Simons, podemos conversar?
—Sim, claro.
—Vamos até a minha sala.
E assim fizemos, caminhamos até o final do corredor onde ficava a sala do Comandante.
— Do que se trata? — perguntei enquanto o homem fechava a porta atrás da policial.
—Me atualiza sobre o caso Paula Quezada.
—Bom, o relatório da autópsia apontou infarto por misturas de substancias. Deu alta a quantidade de cocaína, rivotril,álcool e energético. Uma mistura explosiva. Toxicológico também apontou que ela usava isso já fazia um certo tempo. A casa é o cenário de um depressivo, bagunçada, suja. Analisamos todas as câmeras de segurança da região e ninguém mais teve acesso ao local. Depoimentos da família apontaram que ela travava de depressão e tinha muita dificuldade para dormir. Enfim, realmente foi suicídio por intoxicação.
— E o tal namorado?
—Nem rastros, procuramos em todos os arquivos apagados e os que ainda estavam no celular não mostravam conversas que indicassem namoro. Eu não vejo nenhuma hipótese de ter sido assassinato, desculpa. Vão anexar meus relatórios e pedir encerramento do caso.
—Muito obrigada pela ajuda. Vou conversar pessoalmente com DOM QUEZADA.
O ultimo plantão da agente Simons havia chegado ao fim, recolheu seus pertences um a um de sua mesa provisória. Apagou todos seus arquivos computador. Mas a sensação que sentia era de que faltava terminar algo. Não era um sentimento de dever cumprido como era acostumada a ter em suas outras empreitadas. Era a sua penúltima noite na cidade do México e só agora havia se dado conta de que não conhecia a cidade direito. Em seus quatro meses de estada, tinha saído muito pouco. Mais aos fins de semana, quando viajava para surf na praia de Huatulco. A praia paradisíaca, a comida barata, a cerveja gelada, ondas perfeitas. Certamente seriam coisas que sentiria falta. De repente sentiu uma certa tristeza, era como uma ancora puxando para baixo. Seus pensamentos se voltaram para o último evento que teria que ir. Talvez a última rodada de Tequila barata que tomaria com os camaradas. Sacou o telefone móvel do bolso e com os dedos nervosos foi na discagem rápida. Do outro lado o destinatário da chamada demorou atender.
—Oi, amor— Respondeu o homem.
—Oi, como você está? — A voz nitidamente abatida.
—Eu, bem e você? Quando volta, estou morrendo de saudades—Disse afoito a voz masculina.
—Eu volto no fim de semana, estão em contenção de gastos. Vamos ter que voltar de carro.
—Nossa, o seu entusiasmo é nítido amor. — Disse o homem com um sorriso sarcástico.
—Desculpa, eu estou feliz. Mas é que eu tenho a impressão que eu não terminei o que vim fazer aqui.
—Você não precisa carregar o mundo nas costas, se te disseram que você tem que voltar, volte. De onde você estiver, tenho certeza que terá capacidade de terminar o que começou.
—É muito bom ouvir isso, amor—A voz dengosa, quase sussurrando.
—Só me preocupa você viajando por ai de carro. É muito perigoso.
—A gente dirige com cuidado, fica tranquilo.
—Eu posso ver com a minha mãe se ela tem milhas disponível— E antes que ele pudesse completar a frase, ela o interrompe.
—Não precisa, a ultima pessoa que eu quero ficar devendo favores é a sua mãe. Olha, relaxa, até domingo eu estou aí.
—Bom, eu arrumei aquela infiltração na banheira que você tanto reclamava. Quero reinaugurar com você.
—Você não sabe o quanto eu preciso ficar presa em você numa banheira. Tem sido dias tensos— Apertou o pescoço para se livrar de certos pensamentos.
—Será? Não sei, estou te achado um pouco estranha. Fria, seus pensamentos parecem que estão longe. Eu já te vi estressada pelo serviço várias vezes, mas é a primeira vez que te sinto assim—O homem teve um pressentimento.
—Está tudo bem, deve ser a distância. Eu não vejo a hora de te ver. E quando eu voltar, nós resolvemos de uma vez por todas, nossa situação. Talvez eu encontre espaço no guarda roupa para uma peça ou duas sua de roupa sua. — Do outro lado o homem ria em satisfação.
—SÉ..SÉ..SÉRIO ISSO, MÉLANIE? —Disse gaguejando o homem.
—Sério, mas a gente conversa direito quando eu voltar, abrimos uma garrafa de vinho barato ao som de Sade, e discutimos em detalhes sobre isso. Mas antes me deixa pensar como vai funcionar isso, ok?
—Combinado, se depender de mim eu reformo a casa todinha.
—Vai com calma, campeão. Vamos discutir o assunto, ninguém está se mudando ainda. Olha, eu estou aqui na delegacia ainda, amanhã eu arrumo minhas coisas e ainda tenho um ultimo evento para ir. Preciso ir pra casa descansar.
—Tá bom, dirige com cuidado. E qualquer coisa me liga. Boa noite.
—Boa noite.
Guardou o aparelho telefônico no coldre e carregou com cuidado as pesadas caixas de arquivo e tranqueiras pessoais até o carro. No caminho para o apartamento, dirigia com calma. Apesar do adiantar da hora, a cidade ainda estava movimentada, alguns comércios abertos. O clima já era de despedida, olhou com calma para os lugares daquela cidade que tinha mais gostado. As escadarias do congresso eram imponentes e respeitáveis, a cidade colorida, musical. Apesar da pobreza de algumas regiões era um povo alegre e muito receptivo. Dirigia distraída quando sem que percebesse uma pessoa atravessou em frente ao carro. O que fez a agente frear bruscamente, foi tudo muito rápido. Percebeu apenas que era uma pessoa encapuzada. Alguns homens seguiam essa pessoa. Quando foi tentar se aproximar foi barrada por eles. Amedrontada, saiu acelerada. A pessoa aparentemente estava bem, tinha sido apenas um susto. Mas o suficiente para estragar a noite.
***
—Senadora, a sua agenda está tranquila. Só tem compromisso até a hora do almoço, e depois o jantar com o DEA. A senhora não precisa ir, mas seria interessante a sua presença lá, já que a aprovação da lei para tráfico ser crime hediondo está próximo— Disse a secretária enquanto percorríamos os corredores do congresso.
—Confirmalugar para dois então, meu marido também vai. E está tudo certo a viajem para Dubai?
—Sim, hotel, restaurante, reuniões. Está tudo ok.
—Peça para a empregada fazer nossas malas, a minha e a do meu marido. Vestido de gala, lingerie, pijamas—A secretária me lançou olhares sarcásticos que logo retribui com cara fechada. Nunca tinha permitido esse tipo de intimidade e não iria começar agora— Pro meu marido terno e roupas confortáveis.
Meus compromissos naquele dia não eram demorados, aproveitei a tarde livre para ir ao apartamento de Polanco. Havia uma situação em especial que precisava se resolver. Já estava passando da hora.
Chegando ao apartamento um homem me esperava. De costas para a porta, olhando para a vidraça. O homem se moveu lentamente ao perceber a movimentação no apartamento. Entrei, e joguei a pasta de documentos que segurava em cima do sofá.
—Aqui está, Javiel. Sua carta de alforria—Disse com a voz embargada.
—Eu queria que você me desculpasse, Leja.
—Não precisa se desculpar, Javiel. Você já me ajudou tempo demais. Eu exigi de você demais. 10 anos da sua vida em um casamento de fachada. Eu não tenho mais cara pra te pedir mais um ano além disso.
—É que eu arrumei alguém, e teremos que parar antes que fique parecendo que eu estou te traindo.
—Não precisa se explicar, só queria agradecer. Por ser meu marido nesses 10 longos anos— Nós dois já não continhamos as lágrimas.
—Sabe, no começo eu tinha esperanças de que isso se tornasse real. Mas aprendi a viver com seu jeito. Parece que estou me divorciando da minha irmã— Nos abraçamos, e nos consolamos.
—Vai viver a sua vida, você tem uns últimos compromissos. Mais tarde no jantar, Dubai. E uns dias depois da volta a gente anuncia o divórcio. O mais amigável e discretamente possível, e assim você pode seguir o seu caminho.
—Leja, você não precisa viver se escondendo. Você pode arrumar uma garota e se casar. Você é rica, pode viver em qualquer lugar quiser. Pra que ficar se prendendo a vida que seu pai quis pra você?
—Não é tão fácil assim como você pensa. Tem muita coisa que eu não posso te explicar, você jamais entenderia.
—Queria muito entender, mas também agradecer tudo que você fez por mim. Pela minha família, recuperado a minha empresa.
—Isso foi o mínimo, JAVI. Você abriu mão da sua vida por mim, o que eu fiz foi o mínimo. Pelos anos que você passou arrastando correntes por mim— Nos abraçamos e testa com testa permanecemos em silencio por alguns instantes, em agradecimento mutuo. —Me conta, como é a garota que você está saindo?
—Ela é incrível, está se sentindo culpada por eu ser ‘’casado’’. Mas eu já coloquei um anel no dedo dela, e vou levar os papeis do divórcio assinados para ela ver. E assim que tudo terminar, vou pedir a mão pra família dela.
—Só seja discreto quanto ao relacionamento com ela no início, se é que eu ainda posso te pedir alguma coisa, e o que mais posso te falar? Felicidades, e espero que ela seja tão bonita quanto eu— Rimos juntos.
—Ninguém é mais linda que você, Leja. Mas sim, ela é bem bonita e eu estou muito feliz.
—Eu vou transferir mais dinheiro— E antes que eu terminasse ele me interrompeu.
—Você não precisa me dar mais nada, a empresa está indo muito bem das pernas, a nossa separação não irá afetar em nada. Relaxa, como eu disse você me ajudou bastante, eu estava quase declarando falência quando ‘’nos casamos’’ —Ele fez aspas com as mãos.
—Bom, mas de qualquer maneira se você precisar de alguma coisa, só me avisar. Eu quero continuar sendo sua melhor amiga.
—Nada vai mudar isso, Leja. Eu só estou te pedindo para separar porque eu arrumei uma pessoa. Pois se não fosse isso, eu continuaria numa boa. Mas o carinho que eu tenho por você, isso nunca vai mudar.
—É muito bom ouvir isso, Javiel. Agora eu vou me arrumar para o nosso ultimo evento aqui no México. Você já verificou se tem tudo que precisa para viajar?
—Sim, está tudo certo. A nossas malas já estão prontas, eu também vou subir para me arrumar pro jantar.
—Tá bom.
Eu e Javiel seguimos em silencio no carro de Polanco até o congresso. O clima era de despedida e melancolia. Afinal de contas, era 10 anos fingindo um relacionamento, além dos laços de amizade que tivemos na época da faculdade, nos acostumamos com a presença um do outro. Nos eventos, nas viagens. E saber que não teria mais o Javiel a tira colo me deixou estranhamente triste e perdida. Por vezes tive vontade de chorar no trajeto, mas me segurei.
O último evento que iriamos juntos no México, era um pouco menor que de costume, para poucos convidados e um tom mais formal. Nas escadarias do prédio público uma pequena fila de repórteres, policiais mexicanos e americanos com suas fardas de gala. Resolvi colocar um terno um pouco mais formal, rabo de cavalo. Antes de socializar no evento tive que recompor a maquiagem, que havia borrado pelas lágrimas. Maldito sentimentalismo. Depois de recomposta, segurei os braços de Javiel e não soltei a noite inteira. Aquilo era de verdade, dessa vez não era fingimento. Eu precisava aproveitar cada minuto perto dele. E ele retribuía o carinho. Quando fomos para o meio do salão, Javiel começou a conversar com o Comandante Mendonza. Os dois ficaram conversando por um bom tempo sobre assuntos diversos e aleatórios que eu não estava minimamente interessada. Quando eu vejo do outro lado do salão, a policial que tinha me interrogado e fodido a minha vida nos últimos meses. Com uma farda gala, alta, séria, linda. Puta que pariu que mulher linda. As rugas em seu rosto davam um charme que eu não sabia explicar. Me peguei em transe olhando-a. Perdi a noção do tempo que isso durou. Segundos, minutos, milésimos de segundos. Vai saber. Os cabelos dela estavam presos em um coque na boina bakarra. Eu estava tendo sonhos eróticos acordada, apertei minha mão algumas vezes. A medida que ela se aproximava, minhas pernas tremiam. E tive a leve impressão de que ia cair.
—Deixa me apresentar, A agente Simons— Disse Mendonza.
—Já nos conhecemos— Me apressei em dizer.
—Prazer, detetive Simons— Respondeu com um sorriso, Javiel.
—Então o DEA está se preparando para deixar a cidade do México— Perguntei com sarcasmo enquanto estendia a mão em comprimento
—Sim, estamos nos preparando para voltar a NY o mais breve possível.
—Tenho certeza que fizeram um ótimo trabalho por aqui— Mais um sorriso sarcástico da minha parte.
—Fizemos sim, com toda certeza.
—Tão bem que não conseguiram prender ‘’ElMONDRAGON’’ —Neste momento a policial engoliu em seco.
Mendoza tentou apaziguar as coisas nos oferecendo uma bebida e de pronto, os quatro beberam suas respectivas taças. Quase que em movimentos ensaiados.
—Senadora, fiquei sabendo que logo vocês comemoram aniversário de casamento.
—Sim, 10 anos juntos—Respondeu Javiel—Minha esposa atenciosa como sempre, preparou uma viagem para comemorarmos.
—Nossa, isso é muito bom. Eu preciso arrumar um tempo para descansar com a minha esposa.
—Dubai é uma boa pedida, Comandante Mendonza— Disse, tentando tirar das minhas entranhas o pouco de simpatia que ainda me restava.
—Não, vamos começar por um destino mais modesto senadora. Mas obrigada pela dica. E só uma pergunta senadora, o jato de vocês vai passar por NY?
—Sim, temos uma parada programa para abastecer por lá. Qual motivo da pergunta?
—A agente Simons vai para lá de carro. Se não incomodar em dar uma carona. É só 1:30 de voo.
—Não, imagina. Vamos de carro mesmo— Interviu Simons, rapidamente. Visivelmente constrangida com o pedido inesperado e sem noção de Mendonza.
—Por mim não tem o menor problema, Agente— Respondeu Javiel, tentei repreende-lo com olhar. Mas a essa altura do campeonato ficaria de muito mau tom dizer não, ou tentar inventar qualquer desculpa.
—Para mim não há o menor problema também, querido—Respondi engolindo em seco.
—Olha, vocês vão para comemorar festa de casamento, imagina se eu vou de vela.
—Detetive, nossas comemorações nos esperam em Dubai, e além do mais, daqui até NY é um voo tão rápido. Você nem vai perceber nossa presença.
—Vamos conosco, será um prazer viajarmos todos juntos— Insisti, desta vez com mais afinco, para parecer verdadeiro.
Conversamos por ali mais algum tempo, o clima tenso foi aos poucos se dissipando. Mas a vontade que eu estava de matar Javier e Mendonça ainda permanecia em meu sangue. E tive que controlar ao máximo a minha cara feia.
—Seu filho da puta, como você me apronta uma dessas? — Fui xingando Javiel em um canto reservado do salão.
—Você acha que eu não percebi o jeito que você olhava para ela? Sorte sua que eu não sou um marido ciumento. O salão inteiro deve ter percebido, Leja. Você tem que ser mais discreta. —Ela ria do meu desespero.
Fim do capítulo
Espero que gostem.
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Vanessaduda
Em: 02/11/2018
Tá chegando a hora! A história ta ficando cada dia mais envolvente....aos poucos estão conhcendo um pouco das personagens...tô bem ansiosa para saber com será essa viagem!!! Hahahaha
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