Capítulo 5 - Eu não te peço muita coisa, só uma chance (me liga)
Cheguei em casa e, quando abri meu computador, a sensação que eu tive foi que tinha me ausentado do mundo durante um mês. Existiam mais de 100 mensagens no meu e-mail, entre propagandas nada segmentadas, tipo "aumente seu p*nis" - logo pra mim, que nem tinha e nem gostava -, e coisas de trabalho.
Tentei colocar tudo em dia, focar numa coisa que desse resultado e me mantivesse distante das questões ético-emocionais que me rondavam naquele momento. Já era noite quando consegui acabar tudo o que a minha caixa de entrada me solicitava.
Quando terminei, estava exausta e com fome. Olhei para mim e percebi que ainda estava de biquíni. Subi as escadas correndo para me livrar daquelas roupas e entrei no banheiro já me desfazendo delas. Estava embaixo do chuveiro quando escutei o telefone tocar. Não me apressei. Ele tocou diversas vezes e depois de tanta insistência eu já tinha certeza que só podia ser minha mãe. Isso me fez demorar ainda mais no banho. Desde que eu e Carol tínhamos nos separado, minha mãe estava ainda mais controladora, me tratando como se eu fosse uma adolescente descompensada. Resolvi então que ficaria mais alguns minutos no banho.
Estava vestindo roupas dignas depois de 24h, quando o interfone tocou. Atendi e o porteiro anunciou Solange. Liberei sua entrada e em alguns minutos ela tocou a campainha.
- Oi! - disse eu, surpresa pela visita inesperada. - Entra - disse, escancarando a porta.
- Desculpa, Lu, aparecer assim sem avisar, mas é que liguei aqui para sua casa várias vezes e você não atendeu - explicou.
- É que eu estava no banho! - disse, ficando um pouco assustada com a situação. Eu não atendo ao telefone e ela vem até a minha casa, assim, imediatamente? Isso me parecia um pouco obsessivo.
- Lu, é que você esqueceu o celular na minha casa e ele tocou várias vezes. Liguei pra cá para te avisar, mas você não atendeu. Como as ligações eram todas da mesma pessoa, fiquei preocupada e resolvi vir te entregar - esclareceu ela.
- Ai, Solange, desculpa - disse eu, colocando as mãos na cabeça - Minha mãe às vezes não tem limites. Liga até eu atender - expliquei.
- Só que não era sua mãe, Lu - disse, me entregando o telefone com cara apreensiva. - Era Carol.
Peguei o telefone, desbloqueei o aparelho e vi 35 ligações não atendidas registradas.
- Não quero falar com ela - disse eu, categórica.
- Lu, podemos conversar um pouco? - disse ela, olhando para o sofá.
- Claro, fique à vontade - disse, sentando com ela.
- Lu, você não acha que devia ligar e ouvir o que ela tem a dizer?- perguntou.
- Olha, Solange, se é sobre isso que você quer conversar, acho que vou ter que pedir a você que vá embora - falei, áspera.
- Bom, só queria te ajudar - disse ela, se levantando.
- Eu, francamente, não entendo. Eu devo ser muito ruim de cama, viu? Você passa a noite comigo e vem na minha casa mandar eu ligar para minha ex - disse de costas pra ela.
Quando acabei a frase, ouvi o barulho da porta batendo nas minhas costas. Quando virei, ela não estava mais lá.
Abri a porta correndo, a tempo de encontrá-la esperando o elevador.
Ela me olhou magoada, enquanto eu pedia:
- Desculpa, por favor!
- Não, Luísa, não desculpo, não. Mas entendo você - falou enquanto a porta do elevador se abria.
- Não vai embora. Volta, por favor - pedi, quase numa prece.
Ela soltou o botão que mantinha a porta do elevador aberta, deixando que ele partisse vazio. Então, entrou de volta no meu apartamento, enquanto eu fechava a porta num suspiro aliviado.
Ela parou no meio da minha sala como se esperasse o próximo comando. Eu, então, disse:
- Você não quer sentar?
- Não. Voltei apenas para escutar o que você tem a dizer sobre o que acabou de acontecer - cobrou ela.
- Desculpa, falei sem querer - disse.
- Não, Luísa, não foi sem querer. Você disse exatamente o que você quis, como você quis - decretou.
- Você tem razão. Estou insegura e acabei descontando em você - justifiquei.
Ela sentou como se enfim tivesse escutado algo que fazia sentido e pelo que ela esperava desde o começo. Fez sinal para que eu sentasse junto dela, mas eu não atendi. Sentia como se qualquer aproximação pudesse ameaçar a minha integridade ou a dela. Ela pareceu entender o recado:
- Lu, senta. Eu não vou te fazer mal. Sou eu. Confie em mim - falou com um carinho que me fez lembrar a noite anterior.
Sentei ao lado dela, mas guardei uma certa distância.
- Lu, olha só, o que eu vim fazer aqui não tem nada a ver com o que aconteceu entre a gente. Eu gosto muito de você e estou pronta para viver isso. Mas acho que você não está. Quero te ajudar, seja lá qual for nosso final - falou olhando diretamente pra mim, enquanto eu abaixava os olhos, num misto de vergonha e fragilidade.
- Então foi só uma noite né? Devo ser um troféu na sua estante - falei sem pensar no que estava dizendo.
- Luísa, acho que seria mais digno da sua parte ter me deixado ir embora. Você tem certeza que me pediu pra ficar pra me dizer isso? - perguntou.
- Desculpa - pedi sem jeito.
- Quantas vezes você pretende me pedir desculpas? - falou ela com firmeza, levantando e me olhando de cima.
Eu me encolhi no canto do sofá, como um animal encurralado.
Comecei a chorar. Soluçava sem controle. Tudo que eu não queria era isso.
Ela sentou bem perto de mim e tentou fazer com que eu soltasse minhas pernas e saísse da posição fetal na qual me encontrava.
Ela me colocou sentada no colo dela e encostou minha cabeça no seu ombro e disse:
- Lu, eu só quero que você fique bem. Não estou te jogando pra cima de ninguém, mas acho que você precisa aprender a concluir as coisas, fechar os ciclos. É só isso, não tem nada a ver com a nossa noite. O que aconteceu ontem foi como um sonho. Foi ótimo, você é ótima de cama! - falou ela, tirando meu cabelo que estava grudado no rosto por causa das lágrimas e me beijando suavemente.
Soltei um riso tímido e segurei o braço dela.
- Vou te botar na cama. Vamos lá? - chamou.
Levantei e subi as escadas, segurando a mão dela atrás de mim.
Ela me deitou na cama, ligou o ar-condicionado, colocou o edredom em cima de mim, me deu um beijo no rosto e disse:
- Fica bem!
A ideia de ficar sozinha era a morte pra mim. Não queria enfrentar a noite, os pesadelos, o medo, tudo, sozinha. Eu segurei o braço dela tão forte que acho até que a machuquei.
- Que foi? - perguntou.
- Fica comigo - pedi.
- Fico sim, eu vou em casa rápido pegar uma roupa pra poder ir para o trabalho amanhã e volto, pode ser?- perguntou.
- Quanto tempo? - perguntei.
- Em 30 minutos, no máximo, estou de volta - calculou ela.
- Posso ir com você? - perguntei, sem querer ficar ali, só.
- Meu amor, você já está de pijama, eu volto rápido - prometeu ela.
- Tá bom - concordei.
Assim que ela saiu comecei a chorar novamente e assim fiquei até ela voltar.
- Meu amor, o que aconteceu? - perguntou olhando para meu rosto vermelho e meus olhos inchados.
- Você demorou - disse.
- Desculpe, peguei um pouco de trânsito. Mas eu cheguei. Você jantou? Quer comer alguma coisa?
- Não quero nada - respondi.
- Eu vou fazer um chá pra você - sugeriu.
- Tá - concordei.
Acordei gritando por causa de um pesadelo.
Solange subiu as escadas correndo e me encontrou mais uma vez chorando.
- O que foi, Lu? - perguntou me abraçando.
- Você prometeu que não ia me deixar só! - disse nervosa.
- E não deixei. Estava no sofá, lá embaixo - explicou.
- Fica aqui comigo? - pedi.
- Claro, meu amor - aceitou.
Ela deitou ao meu lado embaixo do edredom e colocou minha cabeça em cima do ombro dela, como se fosse um travesseiro.
Consegui dormir relativamente bem, com algumas intercorrências de um ou outro pesadelo.
Acordamos cedo, tomamos café da manhã juntas e saímos na mesma hora para trabalhar. Eu estava cansada da noite anterior e Solange também não parecia ter tido a melhor noite da vida dela, mas agia como se tivesse dormido em lençol 200 fios.
Fim do capítulo
Meninas, estamos vendo que não está sendo fácil para Luisa, mas o que eu gostaria de saber é:
vocês acham que Solange está certa ou Luisa não deveria ligar para Carol e apenas tentar esquecer?
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Quando a Solange fala que Luiza precisa fechar os ciclos, completamente certa. Passado meu resolvido resgate o presente e corrompe o futuro.
Bjs
Bee20
Em: 29/05/2018
Luisa precisa ter uma conversa definitiva com a Carol, nem que seja pra dar um ponto final nessa historia.. Apesar de achar que a atitude da Carol foi errada, eu ainda não estou preparada pra vê esse casal assim separados ????????
Resposta do autor:
Completamente sem maturidade para Carol esm Lu e Lu sem Carol. (Emoji de carinha chorando rios!!!!)
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Jebsk
Em: 29/05/2018
Eu não gosto de Solange, não sei explicar o por que.
Luísa tem muito problema retido, contido e guardado. Queria saber sobre os pesadelos. E os fatores que a levaram a ser assim tão dependente de outra pessoa.
Espero que Carol volte a conquistar Luísa.
Resposta do autor:
Será sexto sentido?
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Rita Dlazare
Em: 28/05/2018
Boa tarde
Acho q ficar fugindo não adianta nada, eu já teria conversado e colocado resolvido a situação.
Parabéns autora
Resposta do autor:
Será que Lu não resolve, justamente pra cultivar algum elo com Carol? Vai entender o que nem a razão explica!
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Tatta
Em: 28/05/2018
Concordo com Solange, Luísa precisa ser madura e aprender a encarar os problemas de frente. Eu particularmente torço pra que ela e Carol se resolvam. Mas mesmo que for pra por um ponto final, elas tem que conversar, afinal, se minha memória não me trai, elas ainda são casadas, não?!
E esse lance de tentar esquecer toda a merda que ela virou emocionalmente com Solange também não é nada saudável.
então espero que ela tome as rédeas da vida dela e aja com maturidade!
Resposta do autor:
Sua memória não lhe traiu, aqui só quem traiu mesmo foi Carol! São casadíssimas!!!
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Nocturne
Em: 28/05/2018
Olá!
Nesse capítulo deu para notar bem a fragilidade da Luísa. Ela está muito mal ainda, tadinha.
Eu torço pelo melhor para a Lu, pode até mesmo ser ficando sozinha. Mas nesse ponto, respondendo ao questionamento, concordo com a Solange: acho que ela deveria falar com a Carol, para encerrar esse capítulo da vida dela, virar a página.
Obrigada pela história e por atualizá-la sempre.
Resposta do autor:
Conversar é sempre o melhor remédio.
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