Capítulo 23 - Sonhos adiados
Capítulo 23 — Sonhos adiados
Juliana acordou sobressaltada com o toque do celular, era nove da manhã de domingo.
— Ela não veio de novo, Ju. — Era Nick.
Suspirou fundo esfregando a testa antes de falar.
— Devem ter proibido a saída deles.
— Conseguiu contato com ela?
— Não, saí de lá ontem à noite, sem notícia alguma.
Minutos depois, o celular toca novamente quanto está tomando café na sala.
— Os presos do aberto vão ficar confinados até amanhã, eu liguei lá e me disseram isso agora. — Maurício foi logo contando.
— Bom, é uma notícia, acho que podemos ficar mais sossegados, não é? — Juliana ainda estava apreensiva, mas tentava não transparecer.
— Vamos esperar até amanhã, tomara que ela vá trabalhar e nos ligue da pousada.
— Que acha da gente dar um pulo lá pedir informações?
— Honestamente? Não acho que alguém vai nos atender.
— É... Quer vir almoçar aqui?
***
Foi um longo final de semana para Flávia e sua tosse que não a abandonava. Era difícil dormir assim, mas na segunda-feira saiu do albergado assim que as portas foram abertas, seguiu para o trabalho na pousada, precisava sair dali, o cheiro de queimado ainda era forte.
— Você está péssima, my dear. — Nick a recepcionou na copa da pousada. — O que aconteceu com você lá?
— Colocaram fogo em tudo, respirei fumaça. Mas vou ficar boa logo. — Tossiu.
— Você foi para o hospital?
— Não, só para a enfermaria, mas não me ajudaram muito. Teve notícias de Juliana?
— Sim, falei com ela todos os dias, ela está preocupada, pegue o telefone e ligue para essa menina logo.
— Posso pegar um pouco de café?
— Claro, beba e coma o que você quiser.
Flavia encheu uma caneca com café e foi até a recepção ligar para Juliana.
— Oi, fofinha, sou eu.
— Flávia! Você tá bem? Se queimou? Te torturaram? Não te fizeram de refém, fizeram? — Despejava tudo de uma vez.
— Fica tranquila, estou bem, não fui refém, não.
— Está trabalhando? Sua voz está estranha.
— Estou com tosse por conta da fumaça, mas vou comprar um xarope hoje no horário do almoço.
— Posso ir aí agora?
— Tanto eu quanto você precisamos trabalhar, você sabe disso.
— Eu já estava ficando desesperada, achando que ainda não tinham se dado conta da sua morte e por isso ninguém me falava nada, estava planejando com Maurício de pular o muro desse complexo hoje.
— Morreu um cara lá de outro pavilhão. Na ala feminina só teve gente se ferindo por conta dos focos de incêndio.
— Você se queimou?
— Não.
— Eu vou almoçar com você, tá bom? Sério, eu preciso te ver, Flávia.
Flávia suspirou pensando no caso, ela também queria ver, mas tentava frear as maluquices de Juliana.
— Já que você quer vir, me busca no final da tarde, pode ser?
— Pode, antes das seis estarei aí.
— Ótimo, vou ficar te esperando o dia todo, viu? Vou terminar meu café e começar os trabalhos, segunda-feira tem sempre um monte de coisas pra fazer por aqui.
***
Ao meio-dia Flávia foi até uma farmácia no bairro e comprou xarope para a tosse, além de uma bombinha para a falta de ar que parecia aumentar aos pouquinhos. No fim do dia sua carona a levou para o complexo, Juliana percebeu seus problemas de saúde, mas Flávia a convenceu que era só alguma alergia.
Terça e quarta-feira se passaram devagar e na quinta-feira se falaram por telefone, no dia seguinte Flávia sairia da pousada ao fim do seu expediente para o albergado, onde pegaria suas coisas e assinaria alguns documentos, depois seguiria para sua primeira noite no apartamento de Juliana.
Na sexta Flávia trabalhou com um sorriso faceiro no rosto, estava feliz demais para se preocupar com os problemas de saúde que teimavam em permanecer, contava os minutos para finalmente dormir no seu novo lar, ao lado da namorada.
Alguns minutinhos antes das seis da tarde escutou a sineta da recepção e arrepiou-se com a possibilidade de ser Juliana. E era.
O sorriso de ambas foi de orelha a orelha, estavam ansiosas por aquela data, a primeira noite do resto de suas vidas, a liberdade definitiva de Flávia.
— Eu falei que ia de ônibus, Ju. — Flávia murmurou enquanto a abraçava.
— Hoje é um dia especial demais para você andar de ônibus, pegue sua mochila e vamos para o albergado, pela última vez.
Correu para pegar a mochila no quartinho dos funcionários e chegou ofegante na recepção.
— Você ainda tá com essa falta de ar?
— Um pouco, é normal.
— E a tosse?
— Tá indo embora, espero deixá-la na casa do albergado hoje. Vamos.
— Eu nem dormi direito essa noite de tanta ansiedade.
***
O casal chegou ao apartamento no continente por volta das oito da noite, assim que abriu a porta Flávia quase morreu do coração com a surpresa: além dos gritos dos convidados, havia balões e fitas pela sala e cozinha, além de uma faixa de boas-vindas.
Juliana arquitetara aquela festinha de recepção, sua irmã Karina, Maurício, Everton, Aline, e até mesmo Cláudia estavam ali. Flávia não pode conter a emoção, cobriu o rosto tentando evitar que lágrimas caíssem, mas não deu certo. Juliana a abraçou.
— Você está em casa, amor. Você é uma mulher livre agora.
— Obrigada. — Saiu num sussurro.
A mais nova moradora daquele apartamento abraçou todos os convidados com afeto e sem pressa. Além da alegria de estar finalmente ali, lembrava de sua vida antes do assalto tão vazia e sem significado, agora se dava conta do quão sortuda fora, ganhando essa segunda chance e novas pessoas em sua vida. Tudo isso graças àquela garota que lhe deu um voto de confiança. Flávia havia se apegado com unhas e dentes a esse voto de confiança.
Conheceu finalmente Everton e Aline, os melhores amigos de Juliana, conversou um pouco com a cunhada, abraçou muito seu amigo Maurício. Juliana não deixou de acompanhar Flávia em momento algum com o olhar, estava radiante com a presença dela ali, mas ao mesmo tempo preocupada com a tosse que a namorada tentava a todo instante conter e segurar.
Juliana foi até Flávia (que estava na cozinha tomando xarope) e a levou pela mão até o sofá, onde estava conversando com Cláudia.
— Escuta o que Cláudia tem para te falar. — A jovem dizia animada, Flávia sentou no sofá devagar, Juliana sentou ao seu lado passando o braço por seu ombro.
— Juliana me disse essa semana que você está procurando emprego aqui no continente.
— Estou, bom, ainda não consegui tempo para bater perna e distribuir currículos, mas farei isso.
— A dona de um supermercado lá perto da fábrica está com algumas vagas em aberto, você tem interesse?
— Claro, eu trabalhei seis meses num supermercado no ano retrasado.
— Vou te passar o endereço e na sua próxima folga você vai lá e conversa com a Solange.
— Obrigada, Cláudia, obrigada mesmo. Sei que é difícil alguém dar emprego para ex-presidiário, mas não custa tentar.
— Ela já sabe de você, sabe que você estava na prisão, eu falei com ela. Quando você for lá, será para uma entrevista para o cargo de caixa, então pode ir confiante, viu? — Sorriu.
— Sério? — Animou-se. — Seria perfeito trabalhar aqui na cidade, mais perto da casa de Juliana.
— Da nossa casa, Flávia. — Juliana a corrigiu e entregou um beijo em seu rosto.
— Prometo que vou me acostumar com a ideia rapidinho. — Respondeu com um selinho.
Perto da meia-noite Maurício foi embora, o convidado remanescente; estavam a sós. Flávia foi dar uma organizada na louça que estava espalhada pela pia e Juliana foi ao banheiro. Sentada no vaso, enxugou-se e abriu a lixeira metálica para jogar o papel, quando viu um papel sujo de sangue. Foi até a cozinha e recostou-se no balcão da pia, de lado.
— Flávia?
— Não vou lavar, só estou ajeitando para que nada despenque durante a noite e estou jogando os restos no lixo para que não apareçam baratas. — Respondeu sem olhar sua interlocutora.
Juliana observou o peito dela subindo e descendo com vigor, era nítido que Flávia estava com dificuldades para respirar.
— Você está menstruada?
Flávia sorriu e respondeu ainda mexendo na louça
— Não, essa noite posso fazer tudo que você quiser. — Disse ainda com um sorrisinho um tanto malicioso.
— Tudo mesmo?
— É só pedir que eu faço.
— Eu quero que você vá ao hospital.
A ex-prisioneira parou com a arrumação e largou uns copos sobre a pia, finalmente virou-se para Juliana.
— Hospital? Por que?
— Você está tossindo sangue e mal consegue respirar direito, eu vou te levar ao hospital agora. — Disse num tom sério, nunca antes visto por Flávia.
Fim do capítulo
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Julika Sempre
Em: 06/05/2018
Apaixonada pela minha xara. Juliana é fdhhhh
Resposta do autor:
Julianas vivem aprontando, verdade ou boato?
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Kim_vilhena
Em: 05/05/2018
Cris eu vou te dar uns tapas. Grrr
A senhorita some e quando volta para justamente nessa parte? Agora vou morrer de preocupação com a Flávia
Resposta do autor:
De vez em quando eu não resisto e termino o capítulo no meio de algo importante, desculpe, é mais forte do que eu... hehe
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patty-321
Em: 05/05/2018
Oh fkavia. Teimosa. Qyero q eka fik bem. Ja sofreu bastante. Bom q a ju percebeu e vai leva-la ao hospital. Qye nso seja tarde. Bjs
Resposta do autor:
Se Juliana não tomasse essa iniciativa capaz da outra desmaiar na cama de tanto tossir... rs
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Mille
Em: 05/05/2018
Fiquei com medo com o título do capítulo.
Espero que dê tempo e que nada grave fique para a Flávia por falta de atendimento lá na penitenciária.
Bjus e até o próximo capítulo
Resposta do autor:
Flávia demorou muito pra receber atendimento adequado, agora lascou...
Bjão, Mille! Obrigada por acompanhar!
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