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Tomada de assalto por Cristiane Schwinden

Ver comentários: 2

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Palavras: 1424
Acessos: 5178   |  Postado em: 15/04/2018

Capítulo 9 - Credencial

No dia seguinte Flávia questionou sobre a possibilidade de fazer um telefonema, foi levada até um corredor com seis telefones, tinha direito a uma ligação de no máximo cinco minutos. Hesitou em frente ao aparelho.

Ligou para Juliana, que demorou a atender, aumentando sua ansiedade em voltar a falar com ela.

— Oi? — Atendeu Juliana.

— Juliana? É Flávia... Pode falar agora?

— Flávia! Claro! Bom que você ligou, como você está?

— Bem, cheguei ontem no presídio, e agora estou cumprindo minha promessa, mas só tenho cinco minutos.

— Você acha que consegue sobreviver aí?

— Sim, acho que sim, mas tem um probleminha, estou longe, me mandaram para o Paraná... Nem pude escolher o hotel... — Riu.

— Isso não é problema, Paraná é aqui do lado.

Um sorriso se abriu rapidamente, Flávia alegrou-se em perceber que o interesse de Juliana permanecia vivo.

— Você pode ligar para Maurício e falar que está tudo bem comigo? Só tenho direito a uma ligação por semana.

— Claro, ligo para ele agora de manhã.

— Obrigada, pode anotar o número?

— Não precisa, já peguei o número dele no dia do julgamento, temos nos falado quase todos os dias.

Flávia paralisou surpresa.

— Sério?

— Sim, e às vezes falamos de você. Assim que for possível te visitarei, é minha vez de cumprir a promessa.

— Você não tem ideia do quanto ficarei feliz se você vier... — Flávia estava radiante.

— Já fez amizades? Tem colegas de cela?

— Não posso considerar como amizades, mas aparentemente todas as quatro companheiras de cela me aceitaram numa boa.

— Isso é bom, é importante ter aliados aí dentro, não apronte nada, ok? Você sabe que bom comportamento conta muito para sair mais cedo.

— Nunca briguei com ninguém, ficarei apenas observando.

— Ótimo... Sei que você não pode se prolongar, mas queria que você soubesse que eu tenho pensado em você. — Disse Juliana com uma voz terna.

Após alguns segundos de silêncio, Flávia respondeu.

— Não mais que eu... Droga, estão me sinalizando, preciso desligar.

— Se cuide direito aí, viu?

— Me cuidarei. Beijos, mocinha.

Flávia foi para seu primeiro banho de sol e tentou não chamar a atenção, permanecendo quieta sentada num banco, observava a dinâmica do local, cada rosto que ela via tentava adivinhar por que foi parar lá. Resolveu caminhar um pouco, atraiu alguns olhares, sentou novamente e continuou sua discreta ambientação.

***

No decorrer da semana uma interna sentou ao seu lado e iniciou uma conversa descontraída, seu nome era Adriana, destino traçado: cinco anos por assalto a mão armada numa lotérica.

— Estou completando três anos aqui, me meti numas brigas, estou tentando sair na condicional faz tempo, a qualquer momento posso receber a melhor notícia da minha vida... — Sorriu Adriana, cobrindo a boca por vergonha do dente que faltava.

— Como você passou esses três anos?

— Trabalhando, os dias passam muito mais rápido e mantém a mente saudável.

— Não vejo a hora de começar a trabalhar também... Em qual área você trabalha?

— Na fábrica de prendedores de roupa, é o local mais tranquilo, já passei por outros setores e esse é o mais sossegado, é onde trabalham as meninas mais gente fina também.

— Hum... Acho que vou tentar esse setor então.

— Tenta sim, quando você tá lá nem se sente numa penitenciária.

— Isso seria perfeito.

No primeiro final de semana após sua entrada na instituição Flávia esperou ansiosamente o horário de visitação, mas ninguém apareceu. Na semana seguinte ela iniciou o trabalho na montagem dos prendedores de roupa, onde acabou fazendo mais algumas amizades.

Na segunda-feira fez uma ligação para Maurício.

— É uma burocracia danada para te visitar, sabia? Doutor Afrânio tem nos orientado. — Ele puxou o assunto.

— Não é só vir aqui?

— Claro que não, tem que fazer uma requisição de credencial, comprovando o vínculo com você, até comprovante de residência e certidão de antecedentes criminais eles pedem, para depois analisar e emitir a credencial.

— Não pode vir para uma visita avulsa, sem credencial?

— Poder, pode. Uma vez apenas, mas mesmo assim tem burocracia.

— Poxa...

— Eu já estou reunindo tudo para requerer credencial, mas Juliana está com dificuldade porque não tem como comprovar nenhum vínculo com você.

— Ela vai tentar?

— Já está tentando.

Flávia não pode segurar o sorriso aberto.

— Você não tem falado mal de mim para ela não, né?

— Apenas coisas muito nobres a seu respeito, senhorita.

— Você acha que tenho alguma chance?

— Eu prometi a ela não fofocar nada com você.

— Isso foi um sim? — Riu.

— Foi um sim grandão.

— Meu Deus, preciso sair daqui.

— Exercite a paciência.

— Preciso desligar, semana que vem ligo novamente.

Um mês se passou, finalmente Flávia recebeu sua primeira visita: seu primo Maurício num sábado à tarde. Todos os bancos do grande pátio estavam ocupados, os dois resolveram sentar num degrau da calçada que dá para a área externa.

— Viu que linda minha credencial? — Maurício ergueu o crachá preso na camiseta, era um cara baixinho e um pouco acima do peso, com os cabelos castanhos encaracolados e cavanhaque, com pouco mais de trinta anos.

— Finalmente saiu. — Flávia olhou de perto o crachá. — Você ficou bem na foto, nem parece você.

— Obrigada pelo elogio.

— Sabe se Juliana ainda está tentando vir?

— Você levou exatos quatro minutos para tocar no nome dela, até que não estamos tão mal.

— Eu não consigo tirar essa menina da minha cabeça, Mau.

— Ela teve o pedido de credencial negado, sinto muito. – Acariciou seu ombro.

— Ah, que droga. – Disse desoladamente, encarando o chão concretado enquanto esfregava a borda de sua camiseta laranja.

— Não perca as esperanças, ela está determinada a conseguir.

— Está? – O fitou com os olhos cheios de luz.

— Ela me disse essa semana “será que terei que esperar um ano para poder conversar pessoalmente com ela?”

Flávia deu um sorrisinho olhando novamente para o chão.

— Eu lembro do cheiro dela, sabia? Acho que foi o melhor cheiro que já senti na minha vida.

— Ah... Essas pessoas apaixonadas... Tão bregas... — Riu.

— Você sabe se ela tem namorado ou namorada?

— Tem um ex-namorado tentando voltar, um tal de Anderson.

— Será que ela já ficou com mulheres?

— Nunca.

— Ela te disse isso?

— Disse. Ela tá bem confusa, Flávia.

— Tadinha... Como está o braço dela?

— Acho que está bem, não ficou nenhuma sequela.

— Eu me sinto tão mal por tudo isso... Sabe, se não bastasse destruir minha vida, eu prejudiquei pessoas inocentes, inclusive você.

— Você sabe que pode contar comigo nos bons e nos maus momentos, priminha. Você já fez muito por mim, eu sei que você não é uma pessoa ruim, te conheço desde que nasci.

— Mas fiz essa merd* enorme.

— E vai pagar para a justiça, será apenas mais uma fase da sua vida, outras melhores virão, pode apostar.

— Queria você na cela comigo, primo. – Flávia brincou.

— Prometo que volto daqui um mês, tá bom? Já olhei a escala de visitação, devo voltar novamente num sábado à tarde.

— Obrigada. — Afagou seu braço.

***

— Adriana, acho que tem algum problema com esse lote.

Flávia trabalhava na fábrica de prendedores de roupa ao lado da amiga de longos cabelos castanhos e semblante marrento.

— Também estou achando, uns cinco já se partiram na minha mão.

— Vão nos culpar, quer apostar? Semana passada suspenderam a Josiane por esse motivo. – Flávia disse.

— Então temos que avisar o supervisor, a culpa não é nossa.

Flávia ergueu a cabeça e procurou o supervisor que costumava passear entre as galerias de trabalho, não o encontrando. Chamou sua colega para ir até a sala da administração.

— Tomaz? Acreditamos que há algum problema com as peças que chegaram este mês. — Flávia começou dizendo, educadamente.

— Não tem nada de errado, vocês que não estão sabendo manusear, voltem ao trabalho. — O grandão barbudo respondeu sem tirar os olhos dos papéis sobre sua escrivaninha.

— Mas estão se partindo em nossas mãos. — Adriana completou.

— Vocês querem tomar advertência? Querem sujar a ficha e perder as regalias?

— Não, senhor. — Responderam.

— Então voltem ao trabalho.

A contragosto, as duas voltaram ao ofício, mas conversariam com outras colegas de fábrica no decorrer dos dias.

Fim do capítulo


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Comentários para 9 - Capítulo 9 - Credencial:
Lea
Lea

Em: 10/08/2021

Será que esse encontro só irá acontecer quando a Flávia sair da prisão??

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mtereza
mtereza

Em: 21/04/2018

Ansiosa por essa visita da Juliana 

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