Capítulo 9 - Credencial
No dia seguinte Flávia questionou sobre a possibilidade de fazer um telefonema, foi levada até um corredor com seis telefones, tinha direito a uma ligação de no máximo cinco minutos. Hesitou em frente ao aparelho.
Ligou para Juliana, que demorou a atender, aumentando sua ansiedade em voltar a falar com ela.
— Oi? — Atendeu Juliana.
— Juliana? É Flávia... Pode falar agora?
— Flávia! Claro! Bom que você ligou, como você está?
— Bem, cheguei ontem no presídio, e agora estou cumprindo minha promessa, mas só tenho cinco minutos.
— Você acha que consegue sobreviver aí?
— Sim, acho que sim, mas tem um probleminha, estou longe, me mandaram para o Paraná... Nem pude escolher o hotel... — Riu.
— Isso não é problema, Paraná é aqui do lado.
Um sorriso se abriu rapidamente, Flávia alegrou-se em perceber que o interesse de Juliana permanecia vivo.
— Você pode ligar para Maurício e falar que está tudo bem comigo? Só tenho direito a uma ligação por semana.
— Claro, ligo para ele agora de manhã.
— Obrigada, pode anotar o número?
— Não precisa, já peguei o número dele no dia do julgamento, temos nos falado quase todos os dias.
Flávia paralisou surpresa.
— Sério?
— Sim, e às vezes falamos de você. Assim que for possível te visitarei, é minha vez de cumprir a promessa.
— Você não tem ideia do quanto ficarei feliz se você vier... — Flávia estava radiante.
— Já fez amizades? Tem colegas de cela?
— Não posso considerar como amizades, mas aparentemente todas as quatro companheiras de cela me aceitaram numa boa.
— Isso é bom, é importante ter aliados aí dentro, não apronte nada, ok? Você sabe que bom comportamento conta muito para sair mais cedo.
— Nunca briguei com ninguém, ficarei apenas observando.
— Ótimo... Sei que você não pode se prolongar, mas queria que você soubesse que eu tenho pensado em você. — Disse Juliana com uma voz terna.
Após alguns segundos de silêncio, Flávia respondeu.
— Não mais que eu... Droga, estão me sinalizando, preciso desligar.
— Se cuide direito aí, viu?
— Me cuidarei. Beijos, mocinha.
Flávia foi para seu primeiro banho de sol e tentou não chamar a atenção, permanecendo quieta sentada num banco, observava a dinâmica do local, cada rosto que ela via tentava adivinhar por que foi parar lá. Resolveu caminhar um pouco, atraiu alguns olhares, sentou novamente e continuou sua discreta ambientação.
***
No decorrer da semana uma interna sentou ao seu lado e iniciou uma conversa descontraída, seu nome era Adriana, destino traçado: cinco anos por assalto a mão armada numa lotérica.
— Estou completando três anos aqui, me meti numas brigas, estou tentando sair na condicional faz tempo, a qualquer momento posso receber a melhor notícia da minha vida... — Sorriu Adriana, cobrindo a boca por vergonha do dente que faltava.
— Como você passou esses três anos?
— Trabalhando, os dias passam muito mais rápido e mantém a mente saudável.
— Não vejo a hora de começar a trabalhar também... Em qual área você trabalha?
— Na fábrica de prendedores de roupa, é o local mais tranquilo, já passei por outros setores e esse é o mais sossegado, é onde trabalham as meninas mais gente fina também.
— Hum... Acho que vou tentar esse setor então.
— Tenta sim, quando você tá lá nem se sente numa penitenciária.
— Isso seria perfeito.
No primeiro final de semana após sua entrada na instituição Flávia esperou ansiosamente o horário de visitação, mas ninguém apareceu. Na semana seguinte ela iniciou o trabalho na montagem dos prendedores de roupa, onde acabou fazendo mais algumas amizades.
Na segunda-feira fez uma ligação para Maurício.
— É uma burocracia danada para te visitar, sabia? Doutor Afrânio tem nos orientado. — Ele puxou o assunto.
— Não é só vir aqui?
— Claro que não, tem que fazer uma requisição de credencial, comprovando o vínculo com você, até comprovante de residência e certidão de antecedentes criminais eles pedem, para depois analisar e emitir a credencial.
— Não pode vir para uma visita avulsa, sem credencial?
— Poder, pode. Uma vez apenas, mas mesmo assim tem burocracia.
— Poxa...
— Eu já estou reunindo tudo para requerer credencial, mas Juliana está com dificuldade porque não tem como comprovar nenhum vínculo com você.
— Ela vai tentar?
— Já está tentando.
Flávia não pode segurar o sorriso aberto.
— Você não tem falado mal de mim para ela não, né?
— Apenas coisas muito nobres a seu respeito, senhorita.
— Você acha que tenho alguma chance?
— Eu prometi a ela não fofocar nada com você.
— Isso foi um sim? — Riu.
— Foi um sim grandão.
— Meu Deus, preciso sair daqui.
— Exercite a paciência.
— Preciso desligar, semana que vem ligo novamente.
Um mês se passou, finalmente Flávia recebeu sua primeira visita: seu primo Maurício num sábado à tarde. Todos os bancos do grande pátio estavam ocupados, os dois resolveram sentar num degrau da calçada que dá para a área externa.
— Viu que linda minha credencial? — Maurício ergueu o crachá preso na camiseta, era um cara baixinho e um pouco acima do peso, com os cabelos castanhos encaracolados e cavanhaque, com pouco mais de trinta anos.
— Finalmente saiu. — Flávia olhou de perto o crachá. — Você ficou bem na foto, nem parece você.
— Obrigada pelo elogio.
— Sabe se Juliana ainda está tentando vir?
— Você levou exatos quatro minutos para tocar no nome dela, até que não estamos tão mal.
— Eu não consigo tirar essa menina da minha cabeça, Mau.
— Ela teve o pedido de credencial negado, sinto muito. – Acariciou seu ombro.
— Ah, que droga. – Disse desoladamente, encarando o chão concretado enquanto esfregava a borda de sua camiseta laranja.
— Não perca as esperanças, ela está determinada a conseguir.
— Está? – O fitou com os olhos cheios de luz.
— Ela me disse essa semana “será que terei que esperar um ano para poder conversar pessoalmente com ela?”
Flávia deu um sorrisinho olhando novamente para o chão.
— Eu lembro do cheiro dela, sabia? Acho que foi o melhor cheiro que já senti na minha vida.
— Ah... Essas pessoas apaixonadas... Tão bregas... — Riu.
— Você sabe se ela tem namorado ou namorada?
— Tem um ex-namorado tentando voltar, um tal de Anderson.
— Será que ela já ficou com mulheres?
— Nunca.
— Ela te disse isso?
— Disse. Ela tá bem confusa, Flávia.
— Tadinha... Como está o braço dela?
— Acho que está bem, não ficou nenhuma sequela.
— Eu me sinto tão mal por tudo isso... Sabe, se não bastasse destruir minha vida, eu prejudiquei pessoas inocentes, inclusive você.
— Você sabe que pode contar comigo nos bons e nos maus momentos, priminha. Você já fez muito por mim, eu sei que você não é uma pessoa ruim, te conheço desde que nasci.
— Mas fiz essa merd* enorme.
— E vai pagar para a justiça, será apenas mais uma fase da sua vida, outras melhores virão, pode apostar.
— Queria você na cela comigo, primo. – Flávia brincou.
— Prometo que volto daqui um mês, tá bom? Já olhei a escala de visitação, devo voltar novamente num sábado à tarde.
— Obrigada. — Afagou seu braço.
***
— Adriana, acho que tem algum problema com esse lote.
Flávia trabalhava na fábrica de prendedores de roupa ao lado da amiga de longos cabelos castanhos e semblante marrento.
— Também estou achando, uns cinco já se partiram na minha mão.
— Vão nos culpar, quer apostar? Semana passada suspenderam a Josiane por esse motivo. – Flávia disse.
— Então temos que avisar o supervisor, a culpa não é nossa.
Flávia ergueu a cabeça e procurou o supervisor que costumava passear entre as galerias de trabalho, não o encontrando. Chamou sua colega para ir até a sala da administração.
— Tomaz? Acreditamos que há algum problema com as peças que chegaram este mês. — Flávia começou dizendo, educadamente.
— Não tem nada de errado, vocês que não estão sabendo manusear, voltem ao trabalho. — O grandão barbudo respondeu sem tirar os olhos dos papéis sobre sua escrivaninha.
— Mas estão se partindo em nossas mãos. — Adriana completou.
— Vocês querem tomar advertência? Querem sujar a ficha e perder as regalias?
— Não, senhor. — Responderam.
— Então voltem ao trabalho.
A contragosto, as duas voltaram ao ofício, mas conversariam com outras colegas de fábrica no decorrer dos dias.
Fim do capítulo
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