Capítulo 2 - Dois caminhos
Capítulo 2 — Dois caminhos
Seu nome era Flávia, e enquanto corria pelas ruelas escuras se perguntava como havia parado nesta vida.
Cresceu no interior de Minas numa fazenda, e assim como seus irmãos, lidava com os animais e com a terra, nunca temeu nem o mais temperamental dos touros, estava agora temendo até as sombras da rua.
O tiro havia raspado seu pescoço e o sangue escorria encharcando a gola da sua jaqueta azul, só pensava em como chegar a algum lugar seguro. Não sentia dor, não tinha ideia do que havia acontecido, ela só percebeu que o tiro havia a acertado porque sentiu o sangue descendo por sua blusa, morno e lento.
***
A jovem de cabelos claros nasceu, cresceu, e morava com os pais num bairro calmo em São José. Karina, sua irmã mais velha já havia saído de casa, estava casada e tinha dado um sobrinho-afilhado a ela, Lucas, com três anos agora.
Havia se formado no ano anterior em Ciências Contábeis. Sua amiga Claudia havia resolvido abrir uma fábrica de bolsas e acessórios em couro, juntamente com o marido Maicon, a chamando para trabalhar com a área financeira da empresa.
A empresa era pequena, dezoito funcionários numa casa antiga, também em São José, a alguns poucos quilômetros de Florianópolis. Era o segundo lar de Juliana, que se dedicava inteiramente ao negócio como se fosse seu também.
Sua pacata vida social se resumia a festas de aniversários de colegas, uma ou outra saída com suas amigas da época do colégio e passeios no shopping. Namorou por três anos com o irmão de Maicon, um garoto aficionado por games chamado Anderson.
Era mais uma entre tantas garotas comuns, discreta, Juliana não chamava a atenção das pessoas ao redor. Sua vaidade se resumia em ir no salão perto de sua casa cuidar dos longos cabelos de vez em quando. Apesar do ar reservado, estava sempre de bom humor e disposta a uma conversa.
Seguia dentro de um carro da polícia para o hospital Regional. Ainda estava em choque, porém não estava mais assustada, relembrava os acontecimentos daqueles minutos atípicos, as imagens passavam de forma frenética diante de seus olhos, ainda estava assimilando tudo, o braço começava a latejar.
No hospital limparam seu ferimento, aguardava na enfermaria a chamarem para remover o projétil. As imagens já não transitavam confusas, agora apenas uma cena permanecia na sua mente, a da assaltante fugindo. O que havia acontecido com ela depois de ter saído por aquela porta?
***
Flávia chegou até uma rua um tanto movimentada, avistou um ponto de taxi, colocou a mão dentro do bolso, não tinha dinheiro. Resolveu pegar o taxi assim mesmo, pagaria quando chegasse em casa. Mas ela não poderia permanecer em casa, seus comparsas iriam dizer onde ela morava em questão de horas ou até de minutos. Parou, andou até um canto menos iluminado.
“Vou pegar dinheiro, algumas roupas, e vou para algum hotel barato.” Pensou.
Enquanto caminhava até o ponto se deu conta que estava ensanguentada, iria chamar a atenção do taxista. Tirou o casaco e colocou sobre os ombros, amarrou as mangas à frente, conseguiu esconder o ferimento e boa parte do sangue. Caminhou com passos rápidos até o taxi.
— Boa noite, Vargem Grande por favor.
— Ok.
—Noite agradável, hein?
Ela nem o ouviu.
Pediu para o taxista esperar e correu para dentro de casa, pegou uma bolsa de viagem e socou um punhado de roupas, objetos pessoais, e todo dinheiro que mantinha em casa, pegou também um pequeno estojo de primeiros socorros. Voltou para o taxi.
— Conhece alguma pousada... Ou pensão barata no continente?
— Tem uma no Estreito, acho que não é muito cara.
— Perfeito, me leve lá por favor.
Sentia-se sem forças, suava frio, tudo que queria naquele momento era uma cama confortável e analgésicos.
Chegou na pousada com medo que alguém visse o sangue e chamasse a polícia.
— Um quarto por gentileza. Já vou deixar a pernoite paga, pode ser?
— Pois não, setenta reais.
— Quarto 202, o café é das 6:00 as 9:00. Vai ficar até quando?
Não quis prolongar o papo e logo seguiu para o quarto. Jogou a bolsa sobre a cama, sentou-se ao lado, estava exausta. Apoiou os cotovelos em cima dos joelhos e colocou as mãos na cabeça. Estava cansada demais para se desesperar com o destino incerto de sua vida. Tirou o casaco dos ombros e foi até o banheiro ver o ferimento, havia um verdadeiro rasgo em seu pescoço. Tomou um banho, improvisou um curativo com um pequeno rolo de atadura, desfaleceu sobre a cama.
Não longe dali, Juliana não conseguia dormir no leito, contra sua vontade teve que passar a noite no hospital, algo a incomodava, além da agulha do soro na mão.
“Não vou conseguir dormir com essa coisa na mão.” — Fitava o teto. “O que aconteceu com ela?
***
Flávia acordou com o barulho de uma sirene, por um segundo achou estar acordando em casa, no segundo seguinte não reconheceu o lugar onde estava, olhou para os lados, sentiu o pescoço doer. Foi como se o mundo tivesse desabado pela segunda vez.
— O que eu fiz... — Murmurou.
O pescoço incomodava, ainda sangrava.
— Não posso ir num hospital.
Estava fraca, se apressou para pegar o horário do café, comeu rapidamente e foi à recepção.
— Bom dia, você sabe se tem algum posto de saúde aqui perto?
— Tem um, mas não é muito perto, uns três quilômetros daqui.
— Você poderia chamar um taxi? — Falava enquanto tentava disfarçar a atadura já ensanguentada no pescoço. Suas mãos tremiam.
Viu uma viatura passando pela frente da pensão, virou-se para o interior, tentando se esconder.
Esperava agora sua vez para ser atendida no posto, sentada no canto da sala de espera, encostou o corpo na parede e deixou a cabeça também apoiada na parede, pensava nos seus próximos passos, precisaria ir para outra cidade ou até mesmo outro estado. Na sua frente duas mulheres conversavam sobre banalidades:
— Tenho esse aqui de oito anos, que está com febre desde ontem, e uma menina de doze.
— Ah, meus três filhos já estão crescidos, o mais moço cismou em fazer medicina mas não conseguiu entrar na Federal. Daí foi fazer medicina na Católica em Pelotas, eu estive lá ajudando na mudança.
Pelotas, o destino a mandou para Pelotas.
O médico receitou alguns medicamentos e a encaminhou para suturar o ferimento, mas a alertou que seria melhor ela ir a um hospital, porque aquela simples sutura a deixaria com uma cicatriz bastante saliente. Deu a desculpa de estar na cidade de passagem e que depois cuidaria melhor disso.
Voltou ao hotel, descansou um pouco e resolveu não perder mais tempo, guardou suas coisas e partiu. Pegou um ônibus para o Centro de Florianópolis, almoçou, sacou todo o dinheiro de sua conta bancária, que não era muita coisa, comprou os medicamentos e se dirigiu à rodoviária.
Andava nas ruas se sentindo a pessoa mais procurada pela polícia, como se estivesse escrito “criminosa” na testa. Esquivava-se dos olhares dos transeuntes.
Embarcou no ônibus para Pelotas. Passando pela ponte Colombo Salles, sentiu-se mal por se dar conta que estava fugindo, da polícia e da sua vida. Novamente chegaria a um lugar totalmente novo. Estava deixando para trás sua casa e seus poucos amigos. E a garota de olhos verdes rasgados que a ajudou a fugir.
***
Juliana foi para casa na manhã seguinte, ligou para Claudia para saber como estava a amiga. A primeira visita que recebeu fora de Anderson, eles estavam tentando reatar o namoro depois de quatro meses afastados.
— Que bom que foi apenas um susto. — O rapaz de belos olhos castanhos claros sentou ao seu lado no sofá da sala de TV.
— Foi rápido demais, parece que nem aconteceu. — Juliana devaneou, assistindo a TV.
— Pegaram os bandidos?
— Dois deles, uma fugiu.
— Uma? Era uma quadrilha de mulheres?
— Não, só havia uma mulher.
— Então logo vão prendê-la também. Tomara que mofe na cadeia.
— Anderson, não fale assim, ela se feriu, sabia? Ela pode estar mal agora.
— Se morrer será um bandido a menos nas ruas.
— Eu não desejo que ela morra. — Juliana resmungou baixinho, incomodada.
Claudia passou a tarde na casa de Juliana, a levou na delegacia para prestar depoimento. Toda aquela burocracia valeu a pena por um motivo: agora sabia o nome da garota que atirou nela: Flávia.
Fim do capítulo
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Zaha
Em: 12/04/2018
Oieee
Agora a pessoa que já tem nome...Flávia !! Como ela foi acabar nessa vida ?Q tão desesperada estava? Ainda bem que Juli teve compaixão e viu que Flávia tava nervosa e reclamante arrependia...
Que será faz Juli pensar tanto na Flávia e estar preocupada além de sentir que ela não era uma criminosa e só comentou uma loucura?
Beijosss
Resposta do autor:
Pois é, temos mais uma sapinha se descobrindo... rs. Só que ela deu azar de se apaixonar por uma criminosa, o que vai complicar mais.
Brigada por estar aqui! Bjos!
Mille
Em: 12/04/2018
Olá Cris
Que surpresa boa vi a história e pensei eu já li essa história só com outra autora.
Adorei o início e espero para ver como a Flávia vai escapar.
Bjus e até o próximo capítulo
Resposta do autor:
Vc leu quando estava postando com minha identidade secreta? rs
Agora dei uma modificada em algumas coisas, e o mais importante: escrevi o resto! hahaha
Obrigada por continuar me acompanhando, abraços!
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Sem cadastro
Em: 12/04/2018
Oieee
Agora a pessoa que já tem nome...Flávia !! Como ela foi acabar nessa vida ?Q tão desesperada estava? Ainda bem que Juli teve compaixão e viu que Flávia tava nervosa e reclamante arrependia...
Que será faz Juli pensar tanto na Flávia e estar preocupada além de sentir que ela não era uma criminosa e só comentou uma loucura?
Beijosss
Resposta do autor:
Pois é, temos mais uma sapinha se descobrindo... rs. Só que ela deu azar de se apaixonar por uma criminosa, o que vai complicar mais.
Brigada por estar aqui! Bjos!
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SaraSouza
Em: 12/04/2018
Bom pra mim e td novo.... Ainda nao tinha lido e to adorando..
O que será que levou a Flavia a essa vida?? Parece assaltante de 1viagem ..curiosa e ansiosa
pro proximo ..
Resposta do autor:
Olá Sara!
Entrar pro mundo do crime quase nunca é justificável, né? Mas logo saberemos os motivos dessa decisão ruim dela.
Obrigada por me ler! Bjinhos!
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