Capítulo 4

Capítulo 4

de A dama de ferro!, por Tyka

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Clarisse Soares, 43 anos, galega alta e interesseira. Casara-se com o ex-empresário Antony Foster com a intenção de colocar as mãos em sua fortuna, mas descobrira logo após o matrimônio que o marido nada tinha de rico e era, na verdade, sustentado pela filha, Dominique. Pensou em se separar, mas recebeu a notícia de que estava grávida. Chegou a cogitar o aborto, porém a enteada lhe garantiu vida boa e mordomia caso levasse a gravidez até o fim. Sabia que a morena jamais gostara dela, mas a tolerava unicamente por causa de Katherine; só por isso continuava ali.

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Já era noite. Kath fora dormir por estar cansada, e Dominique resolveu ir conversar com a madrasta sem demora. Chamou a mulher até o escritório, e esta a acompanhou um tanto desconfiada.

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- O que você quer comigo? - perguntou Clarisse.

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- Algo simples para você: quero que passe a guarda de Katherine para mim - disse a morena.

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A outra a encarou como se ela tivesse enunciado o maior absurdo do mundo e abriu um sorriso incrédulo.

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- Por que acha que eu faria isso?

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- Porque você só tem duas opções: ou me dá a guarda dela e continua desfrutando da boa vida que lhe ofereço, ou eu aciono a justiça, ganho a guarda de qualquer maneira e a ponho na rua em completa miséria.

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- Você não faria isso com a mãe de sua irmã.

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- Quer pagar para ver?

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- Q-quero. - A mulher estava apavorada, mas tentou bancar a corajosa.

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- Pois bem, já pode começar a arrumar suas coisas.

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Dominique virou-se em direção à porta, mas, antes que pudesse abri-la, ouviu um grito desesperado:

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- Espera!

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Clarisse conhecia a enteada o suficiente para saber que ela jamais blefava.

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- Eu faço o que você quer, mas vou continuar morando nesta casa recebendo uma boa mesada. Fechado?

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- Assine os papéis amanhã - limitou-se a dizer a morena, sem se virar, saindo e deixando a madrasta sozinha.

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***

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O dia mal clareara e Dominique já estava de pé. Não conseguira pregar os olhos devido a um sonho — ou melhor, a um pesadelo. Aquele rosto, aquela voz e até mesmo o perfume pareciam tatuados em sua mente. Será que nem durante o sono encontraria paz?

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Tomou banho, arrumou o cabelo, vestiu um terninho cinza impecável e sapatos de salto alto branco. Apanhou a pasta e saiu. Iria trabalhar; era a única forma de ocupar a mente.

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Estava no saguão de entrada quando uma funcionária, caminhando de cabeça baixa, esbarrou nela com força, derrubando sua pasta no chão e azedando ainda mais o seu humor.

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- Por acaso você é cega? - disparou contra a moça, que, antes mesmo de erguer o rosto, já recolhia apressada o objeto do chão.

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- Desculpe-me, eu estava distraída... - murmurou a funcionária, estendendo a pasta. Quando finalmente levantou o olhar e reconheceu a patroa, empalideceu instantaneamente. - S-senhorita Foster... Perdoe-me, eu juro que não a vi!

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- É claro que não, já que anda por aí vagando com a cabeça nas nuvens.

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- Senhorita, por favor...

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- Suma da minha frente, sua desastrada.

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Dominique viu a jovem quase correr para longe e seguiu seu caminho até o elevador privativo que a levaria à sala da presidência. Percorreu o corredor ignorando todos que ousavam cumprimentá-la, até parar diante da mesa de sua secretária.

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- Senhorita Foster, bom dia! O seu advogado ligou e...

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A secretária interrompeu-se ao ver a mão erguida em sinal de parada. Dominique avançou até a porta de sua sala, girou a maçaneta e, antes de entrar, ordenou:

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- Samantha?

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- Sim, senhorita?

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- Paulina Souza. Demita-a.

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Bateu a porta ao entrar. Tinha reparado perfeitamente no crachá daquela idiota que a atropehara no saguão.

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- Parece que hoje o dia vai ser daqueles... - comentou Samantha em voz baixa para o segurança postado perto do elevador, que assentiu em concordância.

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E a secretária não se enganava; conhecia bem a patroa. Mal passara das dez da manhã e a executiva já havia demitido três pessoas: a moça desastrada do saguão, um rapaz pego jogando no celular durante o expediente e outra funcionária que trocara o café amargo por uma versão adocicada. Dominique estava com os nervos à flor da pele, e os funcionários evitavam cruzar seu caminho pelo temor de perderem o emprego por qualquer ninharia.

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Apesar do receio, Samantha precisava falar com ela. Respirou fundo e bateu à porta.

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Silêncio absoluto.

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Bateu de novo. Nada.

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Quando já se virava para retornar à sua mesa, ouviu a voz cortante ordenar que entrasse.

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A morena estava recostada na poltrona executiva, com os olhos fechados, segurando um copo de vidro contendo um líquido âmbar — claramente uísque.

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- Com licença, senhorita Foster. Vim trazer o relatório com as opções de casas, mas posso voltar depois se preferir.

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- Não. - Ela abriu os olhos lentamente. - Mostre agora.

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Samantha aproximou-se e estendeu algumas fotografias impressas.

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- Dentre todas, a que melhor atende às exigências da senhora é esta — apontou para a imagem de uma mansão imponente com piscina e amplos jardins. - Fica em um condomínio fechado de alto padrão, extremamente seguro e com excelente infraestrutura para crianças.

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- Perfeito - sentenciou Dominique.

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Enquanto a patroa falava, Samantha sentiu o hálito alcoólico misturado ao perfume caro da morena e, por uma fração de segundo, distraiu-se olhando para os lábios carnudos dela, perdendo o fio da meada.

​

Despertou com dois estalos secos de dedos bem diante de seu rosto. Dominique a fitava com uma sobrancelha erguida.

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- Droga... - pensou a secretária, corando violentamente. - Aconteceu de novo...

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- Perdoe-me, senhorita - balbuciou, envergonhada, abaixando a cabeça.

​

Dominique ponderou por um instante, surpresa consigo mesma por não tê-la demitido. Era o privilégio de ser extremamente competente.

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- Bom... Como eu ia dizendo, antes de você se distrair olhando para a minha boca... - Samantha corou ainda mais. - Encaminhe os dados da imobiliária para o Dr. Pedro e oriente-o a fechar a compra imediatamente.

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- Sim, senhorita.

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- E cancele todos os meus compromissos de hoje. Só me interrone se for uma emergência de vida ou morte. Pode sair.

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- Com licença.

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Assim que a secretária se retirou, Dominique voltou a encarar o copo. Abriu o e-mail para enviar as instruções finais ao advogado, serviu-se de mais uma dose e recostou a cabeça na poltrona, fechando os olhos. O cérebro, implacável, trazia de volta fragmentos do passado:

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— Me dá um beijo?

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— E por que eu faria isso?

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— Porque quero eternizar o gosto do seu beijo em minha boca...

​

...seu beijo... minha boca...

​

O eco daquela voz fantasma reverberava em sua mente como tortura.

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Três batidas firmes na porta a sobressaltaram. A irritação a tomou de assalto.

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- Que inferno... - resmungou, massageando as têmporas. - Entre, Samantha, eu já disse que...

​

- Nem mesmo para mim?

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Dominique travou. Não ergueu a cabeça, mas reconheceria aquela voz em qualquer lugar do mundo.

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- Principalmente para você.

.

Fim do capítulo

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Comentários

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Flamy

28/03/2018 às 21:45

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