Clarisse Soares, 43 anos, galega alta e interesseira. Casara-se com o ex-empresário Antony Foster com a intenção de colocar as mãos em sua fortuna, mas descobrira logo após o matrimônio que o marido nada tinha de rico e era, na verdade, sustentado pela filha, Dominique. Pensou em se separar, mas recebeu a notícia de que estava grávida. Chegou a cogitar o aborto, porém a enteada lhe garantiu vida boa e mordomia caso levasse a gravidez até o fim. Sabia que a morena jamais gostara dela, mas a tolerava unicamente por causa de Katherine; só por isso continuava ali.
Já era noite. Kath fora dormir por estar cansada, e Dominique resolveu ir conversar com a madrasta sem demora. Chamou a mulher até o escritório, e esta a acompanhou um tanto desconfiada.
- O que você quer comigo? - perguntou Clarisse.
- Algo simples para você: quero que passe a guarda de Katherine para mim - disse a morena.
A outra a encarou como se ela tivesse enunciado o maior absurdo do mundo e abriu um sorriso incrédulo.
- Por que acha que eu faria isso?
- Porque você só tem duas opções: ou me dá a guarda dela e continua desfrutando da boa vida que lhe ofereço, ou eu aciono a justiça, ganho a guarda de qualquer maneira e a ponho na rua em completa miséria.
- Você não faria isso com a mãe de sua irmã.
- Quer pagar para ver?
- Q-quero. - A mulher estava apavorada, mas tentou bancar a corajosa.
- Pois bem, já pode começar a arrumar suas coisas.
Dominique virou-se em direção à porta, mas, antes que pudesse abri-la, ouviu um grito desesperado:
- Espera!
Clarisse conhecia a enteada o suficiente para saber que ela jamais blefava.
- Eu faço o que você quer, mas vou continuar morando nesta casa recebendo uma boa mesada. Fechado?
- Assine os papéis amanhã - limitou-se a dizer a morena, sem se virar, saindo e deixando a madrasta sozinha.
***
O dia mal clareara e Dominique já estava de pé. Não conseguira pregar os olhos devido a um sonho — ou melhor, a um pesadelo. Aquele rosto, aquela voz e até mesmo o perfume pareciam tatuados em sua mente. Será que nem durante o sono encontraria paz?
Tomou banho, arrumou o cabelo, vestiu um terninho cinza impecável e sapatos de salto alto branco. Apanhou a pasta e saiu. Iria trabalhar; era a única forma de ocupar a mente.
Estava no saguão de entrada quando uma funcionária, caminhando de cabeça baixa, esbarrou nela com força, derrubando sua pasta no chão e azedando ainda mais o seu humor.
- Por acaso você é cega? - disparou contra a moça, que, antes mesmo de erguer o rosto, já recolhia apressada o objeto do chão.
- Desculpe-me, eu estava distraída... - murmurou a funcionária, estendendo a pasta. Quando finalmente levantou o olhar e reconheceu a patroa, empalideceu instantaneamente. - S-senhorita Foster... Perdoe-me, eu juro que não a vi!
- É claro que não, já que anda por aí vagando com a cabeça nas nuvens.
- Senhorita, por favor...
- Suma da minha frente, sua desastrada.
Dominique viu a jovem quase correr para longe e seguiu seu caminho até o elevador privativo que a levaria à sala da presidência. Percorreu o corredor ignorando todos que ousavam cumprimentá-la, até parar diante da mesa de sua secretária.
- Senhorita Foster, bom dia! O seu advogado ligou e...
A secretária interrompeu-se ao ver a mão erguida em sinal de parada. Dominique avançou até a porta de sua sala, girou a maçaneta e, antes de entrar, ordenou:
- Samantha?
- Sim, senhorita?
- Paulina Souza. Demita-a.
Bateu a porta ao entrar. Tinha reparado perfeitamente no crachá daquela idiota que a atropehara no saguão.
- Parece que hoje o dia vai ser daqueles... - comentou Samantha em voz baixa para o segurança postado perto do elevador, que assentiu em concordância.
E a secretária não se enganava; conhecia bem a patroa. Mal passara das dez da manhã e a executiva já havia demitido três pessoas: a moça desastrada do saguão, um rapaz pego jogando no celular durante o expediente e outra funcionária que trocara o café amargo por uma versão adocicada. Dominique estava com os nervos à flor da pele, e os funcionários evitavam cruzar seu caminho pelo temor de perderem o emprego por qualquer ninharia.
Apesar do receio, Samantha precisava falar com ela. Respirou fundo e bateu à porta.
Silêncio absoluto.
Bateu de novo. Nada.
Quando já se virava para retornar à sua mesa, ouviu a voz cortante ordenar que entrasse.
A morena estava recostada na poltrona executiva, com os olhos fechados, segurando um copo de vidro contendo um líquido âmbar — claramente uísque.
- Com licença, senhorita Foster. Vim trazer o relatório com as opções de casas, mas posso voltar depois se preferir.
- Não. - Ela abriu os olhos lentamente. - Mostre agora.
Samantha aproximou-se e estendeu algumas fotografias impressas.
- Dentre todas, a que melhor atende às exigências da senhora é esta — apontou para a imagem de uma mansão imponente com piscina e amplos jardins. - Fica em um condomínio fechado de alto padrão, extremamente seguro e com excelente infraestrutura para crianças.
- Perfeito - sentenciou Dominique.
Enquanto a patroa falava, Samantha sentiu o hálito alcoólico misturado ao perfume caro da morena e, por uma fração de segundo, distraiu-se olhando para os lábios carnudos dela, perdendo o fio da meada.
Despertou com dois estalos secos de dedos bem diante de seu rosto. Dominique a fitava com uma sobrancelha erguida.
- Droga... - pensou a secretária, corando violentamente. - Aconteceu de novo...
- Perdoe-me, senhorita - balbuciou, envergonhada, abaixando a cabeça.
Dominique ponderou por um instante, surpresa consigo mesma por não tê-la demitido. Era o privilégio de ser extremamente competente.
- Bom... Como eu ia dizendo, antes de você se distrair olhando para a minha boca... - Samantha corou ainda mais. - Encaminhe os dados da imobiliária para o Dr. Pedro e oriente-o a fechar a compra imediatamente.
- Sim, senhorita.
- E cancele todos os meus compromissos de hoje. Só me interrone se for uma emergência de vida ou morte. Pode sair.
- Com licença.
Assim que a secretária se retirou, Dominique voltou a encarar o copo. Abriu o e-mail para enviar as instruções finais ao advogado, serviu-se de mais uma dose e recostou a cabeça na poltrona, fechando os olhos. O cérebro, implacável, trazia de volta fragmentos do passado:
— Me dá um beijo?
— E por que eu faria isso?
— Porque quero eternizar o gosto do seu beijo em minha boca...
...seu beijo... minha boca...
O eco daquela voz fantasma reverberava em sua mente como tortura.
Três batidas firmes na porta a sobressaltaram. A irritação a tomou de assalto.
- Que inferno... - resmungou, massageando as têmporas. - Entre, Samantha, eu já disse que...
- Nem mesmo para mim?
Dominique travou. Não ergueu a cabeça, mas reconheceria aquela voz em qualquer lugar do mundo.
- Principalmente para você.
.Fim do capítulo

Flamy
28/03/2018 às 21:45