Capítulo 2
Último ano de faculdade...
-Eu não aguento mais um episódio dessa serie miserável.
Isadora remexia a cabeça apoiada nas minhas pernas enquanto assistíamos a Friends, eu nem a culpava, era o milésimo do dia.
-Hoje é o meu sábado da TV, okay?
-Tudo bem, mas sempre essa série?
Ela se levantou se sentado ao meu lado e encarando as unhas da mão recém pintadas de preto fosco. Não falei nada e continue olhando a televisão focando toda a minha atenção naquilo.
-Bia...
-Oi
-Thales e eu não estamos bem, a gente meio que brigou feio ontem à noite.
-Outra vez? Vocês vão se resolver já.
Olhei pra ela observando os cabelos escuros sobre os ombros enquanto a maioria dos fios estava presa, a roupa amarrotada e as meias que ela sempre insistia em usar com a desculpa de estar frio, mas ela já tinha dito uma vez um pouco bêbada que odiava seus pés.
-O que você acha da gente tomar aquele sorvete com whisky que você faz?
-O que? Aquela bebida é exclusiva pra términos ou traições.
Isa me olhou com o rostinho pidão.
-Por favor, por favor, por fa...
-Você venceu.
Ela levantou os braços e soltou um gritinho enquanto eu andei até a minha cozinha para fazer a tal bebida.
Acontece que Isa bêbada e eu não tão sóbria não somos uma boa combinação, Isadora adora experimentar coisas, Isadora é curiosa e sem preconceitos, ou seja, o pior tipo de heterossexual, e ela ainda tem um namorado. Duas vezes quase nos beijamos bêbadas, duas vezes em que isso chegou muito, muito perto de acontecer. E agora eu estava entre me deixar levar ou me controlar irremediavelmente.
-Anda logo com isso!
A ouvi gritar da sala e me apressei em pegar o pote de sorvete de chocolate e a garrafa de whisky.
-Pronto apressadinha.
-Eba! Chocolate?
-O seu favorito, acertei?
-O que seria de mim sem você?
Mostrei a minha língua e comecei a colocar as bolas no copo e despejar a bebida. Parece uma mistura estranha, mas é a melhor maneira de ficar bêbada e ganhar alguns quilos ao mesmo tempo.
-Chega de Friends por hoje.
Ela desligou a televisão e se sentou de frente para mim no carpete da sala.
-Odeio você.
-Pra ficar mais empolgante a gente deveria jogar um pouco.
-Eu não vou fazer um strip-tease pra você, nem insista.
Argumentei seriamente e ela riu.
-Não, não era isso, mas que tal um joguinho de perguntas, você me pergunta o que quiser e se eu não responder eu bebo, pode ser?
-Joguinhos universitários em pleno sábado?
-Por que não?
-Tudo bem, tudo bem. Comece!
Entreguei o seu copo cheio até a borda e me apoiei no sofá para ficar mais confortável.
-Bianca, minha cara Bianca, você e Camila já tiveram alguma coisa? Vocês são amigas há anos então...já aconteceu algo?
Pensei em contar pra ela que uma vez Camila e eu quase nos beijamos numa festa de ensino médio, mas eu vomitei só de pensar em beijar a boca da minha melhor amiga, mas preferi beber um gole do meu sorvete alcoólico pra deixar o jogo mais interessante vendo Isadora abrir a boca espantada.
-Sua vadia! Me conta, anda me conta.
-Você que fez as regras, só as sigo.
-Eu odeio você! Vai, sua vez.
Não queria saber nada intimo dela, às vezes eu precisava acreditar que não, mas tinha ciúmes de qualquer maneira.
-Você já sentiu vontade de beijar mais alguém, sabe, além do Thales?
-Tipo o Adam Levine? O tempo todo.
Dei uma alta gargalhada.
-Não, sabe... alguém real, do nosso núcleo de amigos.
Isadora encarou o teto parecendo pensar numa resposta convincente, mas ela não poderia só beber?
-Sim, eu tenho alguém em mente para essa pergunta.
-Quem?
Ela levou o copo a boca e deu um gole enorme e depois passou a língua entre os lábios limpando o pouco que tinha ficado. Por reflexo fiz o mesmo enquanto nos encarávamos.
-Eu não vou responder.
-Eu não conto, juro.
Levantei as minhas duas mãos como se quisesse provar que estava falando a verdade e depois dei outro gole na bebida.
-Você sabe quem é.
-Não sei.
-Sim, sabe.
-Vamos continuar com isso ou você vai me dar um nome?
Respirei fundo e foi só alguns segundos até os seus lábios colidirem com os meus, o beijo saiu desajeitado de inicio até que as nossas posições melhorassem. Seus lábios assim como os meus estavam gelados, eu não sabia se deveria insistir mais com as mãos, não sabia se deveria aprofundar as coisas, mas ela o fez. Isadora colocou o seu corpo sobre o meu e disparou a andar com as mãos sobre ele até que o ar fez falta e nos separamos.
-Que grande merd* acabou de acontecer.
-Bia... eu...eu...e
-Foi só um beijo, não precisa se preocupar, nada vai sair daqui.
-Eu preciso ir pra casa.
-Tudo bem, quer uma carona?
-Não precisa se preocupar, não é longe.
Revirei os olhos, a casa dela era bem longe da minha.
-Não seja idiota, eu levo você.
Não demorou muito, mas o silencio parecia fazer o espaço-tempo andar muito mais devagar, o caminho do apartamento ao elevador, do elevador ao estacionamento e do estacionamento a casa de Isa foi massacrante e sem qualquer palavras ou qualquer expressão. Parei o carro uma rua antes da dela.
-Isa, eu não quero que isso fique mais estranho do que já está, foi uma coisa do momento, eu entendi, tudo bem? Sei que você tem um namor...
E ela me beijou outra vez.
Isadora tocou os meus lábios com delicadeza agora, uma sutileza que não existiu no outro, nos separamos com rapidez e ela destravou o cinto e me prendeu num abraço apertado.
-Eu só não consigo falar disso agora.
Ela disse com o nariz afundado no meu pescoço.
-Me deixa ir pra casa pensar um pouco, por favor, eu não consigo agora.
Acenei com a cabeça e destravei as portas, ela beijou o canto dos meus lábios uma ultima vez e saiu. Consegui dar ré com certo esforço por estar com a cabeça naquilo e dirigi pra casa com pressa.
Fim do capítulo
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