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Por Acaso | A história de duas mulheres e seus acasos por Poracaso

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Palavras: 433
Acessos: 3629   |  Postado em: 11/12/2017

Capítulo 27 - O destino

Escutava rádio enquanto dirigia para a universidade, como fazia todas as manhãs, quando uma notícia me chamou atenção. Um homem, de 42 anos, que passava na calçada da Avenida Paulista, foi atingido na cabeça, por um jarro.

Pensei em quantas pessoas morriam sem qualquer cerimônia. Existem tantas outras formas mais efusivas de fazer a transição. Morrer na contramão atrapalhando o tráfego, se acabar no chão como um pacote flácido, qualquer coisa é mais digna.

Mas o que me fez refletir mesmo foi a crise de agendamento do jornalismo. Não era possível que não houvesse outra notícia para ser dada em lugar daquela.

Comungava da dor da família daquele cidadão, mas, gente, a dor é de cada um. Não tinha uma notícia de interesse comum para ser tratada naquele espaço? Cadê o jornalismo de interesse geral? Era preciso resgatar a democracia do que pautava os meios de comunicação. Não que em algum momento da nossa história essa agenda já tivesse sido democrática, mas, pelo menos, fingia-se melhor.

Morte como aquela sempre teve lugar, mas este lugar limitava-se aos anúncios fúnebres. Os espaços das notícias eram apenas das grandes mortes, aquelas buarqueanas. As mortes pequenas, eram mortinhas, morteúnculas (licença poética).

Morreu, morreu. Não há mais nada a fazer. Você só noticia uma morte quando ela pode transformar seu morto em mártir. Um ciclista que é morto por um motorista irresponsável, que dirigia bêbado e invadiu a ciclofaixa. Uma morte em nome de uma causa. Essa morte, sim, justifica uma notícia.

Pelo sim, pelo não, eu gostaria de permanecer mesmo era viva. Assim como eu estava, ou melhor, como eu estava não, mas viva. Talvez a reflexão do homem com o jarro na cabeça fosse esta. Não a morte em si, mas a vida.

Mudar o jeito que eu levo a vida, talvez fosse fundamental nesse momento.

Por onde eu devia começar?

Abri a porta do carro e saí pensando em como eu podia transformar minha vida em notícia. Não em notícia de jornal, mas em algo que eu mesma quisesse propagar, não pra ninguém, mas que me orgulhasse dela. Sabe aquele pessoal que fica feliz e diz que queria gritar pra todo mundo ouvir? Particularmente, acho super démodé, mas a ideia de felicidade passava por aí e, não posso negar, não sou nenhuma exceção à humanidade.

Dei três passos e uma aluna me interpelou:

– Professora, bom dia. É amanhã que não teremos aula, não é?

Foi quando pensei: de volta à realidade. Nem lembrava mais, mas era verdade.

– É sim. Viajo hoje e só volto amanhã à noite.

– OK. Boa viagem professora!

Fim do capítulo


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