Capítulo 19 - Você que ontem me sufocou de amor e de felicidade, hoje me sufoca de saudade
Acordei com a sensação de que algo me fora arrancado pela boca, sem anestesia. Não quis sair da cama, mas também não me obriguei a fazê-lo. Desmarquei meus compromissos e decidi ficar em casa.
No celular, havia 37 ligações do número de Carol e outras tantas de um telefone internacional que também devia ser dela. Joguei o aparelho para o lado e não me animei em retornar as ligações.
O telefone de casa começou a tocar nesse exato momento. Não me mexi. Quem quiser que fosse, não valia o esforço. A secretária eletrônica atendeu:
– Lu, pelo amor de Deus, sei que você está ai. Já liguei para o escritório, para nossa casa e para o seu celular. Você é a mulher da minha vida. Eu amo você. Me perdoa. Deixa eu pelo menos explicar o que aconteceu.
Ouvi tudo sem mexer um músculo. Só não pude impedir as lembranças de virem. Lembrei-me do dia em Londres em que ela disse que eu era a mulher da vida dela.
Como eu quis ser a mulher da vida de alguém. E depois como eu quis ser a mulher da vida dela. Só dela.
Levantei com a certeza de que naquele momento eu não era a mulher da vida de ninguém, talvez nem mesmo da minha.
O celular tocou, eu estava em frente ao espelho, sem me reconhecer.
– Alô – disse
– Lu, o que aconteceu? Carol acabou de me ligar aos prantos, dizendo que já te procurou em todos os lugares – era Marcos.
– Só não quis atender – respondi.
– Ai, Lu, será que não é melhor vocês conversarem? – disse ele.
– Marcos, talvez seja, mas agora não tenho condições – eu disse.
– Bom, você quem sabe. Qualquer coisa eu estou por aqui – falou.
Continuei na cama. Levantei apenas para almoçar e voltei para a cama.
Tinha convicção do que eu não queria, mas não sabia ainda o que eu faria dali em diante. Nem fiz questão de sabê-lo naquele momento.
Não saí da cama. A campainha tocou às 10h da noite. Eu saí da cama, pronta para abrir a porta e dizer que era engano. Pensei em deixar tocar também, mas já era tarde e queria paz, preferi despachar logo o intruso.
Quando abri a porta, dei de cara com Carol.
Ela estava bastante abatida, com uma mala na mão, como se tivesse acabado de chegar de viagem. Ela me olhou e disse:
– Posso conversar com você, por favor? – pediu ela.
– Entra – eu disse.
Ela passou da porta arrastando a mala e ficou de pé como se nunca estivesse estado ali. Convidei-a para sentar e ela começou a chorar descontroladamente no meu sofá.
Fui até a cozinha e peguei um copo de água e lhe ofereci. Ela teve dificuldade para segurar o copo com as mãos trêmulas.
Sentei perto dela e pedi que se acalmasse.
Ela só pedia desculpa e dizia que tinha sido uma irresponsável.
Concordava, mas sabia que aquela não era a melhor hora para um massacre. Então disse que cada coisa tem seu tempo de maturação e que essa história toda ainda estava doendo muito em mim e que preferia não fazer nada de cabeça quente. Perguntei desde quando ela estava no Brasil e ela disse que tinha acabado de chegar – o que explicava a mala. Quando perguntei até quando ela ficaria, respondeu que voltaria às 4h da manhã do dia seguinte.
– 8h apenas no Brasil? – perguntei.
– Vim só para conversar com você – soluçou ela.
– Você não devia ter vindo. Se desgastado. Esse vai e vem todo é muito desgastante – eu disse.
– Você não me atendia, foi a minha única opção – justificou.
Esperei ela se acalmar e disse:
– Você quer que eu chame um táxi para você? – ofereci.
Ela fez que sim com a cabeça enxugando as lágrimas que caíam.
Quando o táxi chegou levei ela até a porta. Ela me abraçou forte e disse:
– Por favor, volta pra mim?
– Carol, vamos dar tempo ao tempo – respondi.
Ela sumiu no elevador.
Fechei a porta e desabei no chão, lutando contra meu corpo que queria abrir aquela porta e sair correndo atrás dela.
Abracei meu próprio corpo enquanto sufocava o grito de dor dentro do meu peito.
Um medo enorme de ter minha vida roubada outra vez, de começar de novo ou de perder completamente a vontade de recomeçar.
O dia amanheceu e eu continuava ali sentada, de costas para a porta, abraçando minhas pernas, como quem quer entrar em si mesma.
Não podia continuar assim. Eu tinha colocado ela para fora. Tinha resistido. Tinha feito o que era certo.
Será?
Levantei antes de pensar em uma resposta confortável para dar a mim mesma. Tomei banho, troquei de roupa e quando me olhei no espelho me vi magra, sem formas.
Resolvi que era preciso retomar a vida, nem que fosse a profissional. Fui trabalhar. Produzi pouco, quase nada, mas consegui me mover.
E assim foram os dias.
Um por vez.
Mas sempre saudosos de um passado próximo, ainda tão presente.
Fim do capítulo
Carol está mesmo disposta a fazer tudo pra ter Luisa de volta. Será que ela vai conseguir? Ou será que acabou pra sempre?
Talvez seja melhor fazer o que Luisa disse, dar tempo ao tempo, e a vida se revelará.
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mtereza
Em: 25/11/2017
Difícil muito difícil de se perdoar uma quebra de confiança nesse nível. Mais cada relação tem seus limites e sua história vamos esperar dizem que o tempo cura todo quem sabe cure tb a perda de confiança e a mágoa
Resposta do autor:
Curar eu já não sei, mas acho que a gente acaba se reinventado Tereza. Acho que Lu vai conseguir se transformar, só não sei se vai ser com Carol!
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