Capítulo 27
Amélia
- Como isso é possível?? - o seu olhar pedia calma.
Soltei a sua mão e andei pela sala, não sabia o que pensar.
- Você disse que o teste havia dado negativo! - acusei.
- Era isso que eu tentei lhe dizer! - falou agitada - O teste deu um falso negativo! - respondeu rápida.
"Falso negativo!" A sua voz ecoou em meus ouvidos.
- Você quer que eu acredite nisso? - murmurei atordoada com a revelação.
- É a verdade... - voz embargada.
- Okay! Melhor acalmarem os ânimos, principalmente você Elena, não quero que passe estresse para o bebê. Por favor, vista-se e vamos conversar em minha sala. - pediu a ginecologista.
Passei por aquela porta como furacão. "Falso negativo?"
- Isso é possível? - murmurei - Ela disse que teve sangramento e fez o teste e que deu negativo!
- Olha, existem casos e casos, mas sim pode dar falso negativo e é comum no início da gestação haver um pequeno sangramento, acontece em cerca de 20 por cento das gestações. E se Elena teve algum sangramento, ela deveria ter me procurado para eu examiná-la e descobriríamos a causa.
- Isso não está certo! Esses testes não deveriam ter margens de erro! - apoiei na cadeira, me sentia sufocar.
- Não deveria, mas tem! Nem sempre exames laboratorias são cem por cento confiáveis, justamente por isso alguns são repetidos até mais de duas vezes! - pausa - Amélia, eu realmente gostaria de entender o que está acontecendo? Eu fiz a inseminação do seu óvulo em Elena e se tem algo errado com a gestação, eu preciso saber.
Nesse momento Elena entrou, sustentei o olhar brevemente desviando em seguida. Aproximou, sentando-se em seguida.
- Elena, como sua médica, eu preciso saber o que realmente está acontecendo em sua rotina. Acabei de saber que você teve um sangramento e não me procurou. Pode até não ser nada, mas eu tenho de verificar o motivo para não haver riscos a essa gestação.
- Dra., o maior problema já está sendo tratado. O que irei te contar preciso ter certeza que será singiloso, pois só diz respeito ao meu casamento.
- O que acontece em meu consultório permanece aqui, Elena.
Aproximei da janela ouvindo a breve narração de Elena, procurei bloquear ao máximo as imagens. Janaína entendeu o quão delicada era a situação e questionou sobre os exames feitos a meu pedido sobre a saúde de Elena, a loira havia trazido eles.
- Quando você descobriu? - respirei fundo - Sobre a gravidez? - virei para ela.
- Foi na primeira semana que estive internada. Os medicamentos que eu estava ingerindo estavam dando algum tipo de reação; como sonolência, enjoo constante e tonturas. Como eu já havia trocado o medicamento antes, o Dr. Stein ciente do por que eu estava lá, pediu outro exame beta hcg que acabou dando positivo.
- Por isso não permitiu que eu há visse?
- Sim. Sentia vontade de sumir quando vi aquele positivo, ao mesmo tempo chorei por estar gerando essa vida. Tive uma consulta com o médico da clínica e quando ele falou aproximadamente o meu tempo, marquei consulta com a minha ginecologista... - interrompi.
- E como tem tanta certeza que é meu? Que realmente é um falso negativo? Afinal, você teve o dobro de chances para ele ter dado positivo. - ironizei.
- Amélia, eu fiz os exames nela e posso garantir que ela está no tempo certo, porém, se realmente precisa sanar essa dúvida posso pedir um exame de DNA pré-natal. É o tempo de Elena entrar na décima semana, é possível realizar o exame devido a presença de DNA fetal no sangue dela. Há várias alternativas, e eu vou recomendar apenas as não invasivas. E Elena, eu irei marcar alguns exames mais detalhados para você, principalmente por ter havido esse sangramento. - levantou - Vou deixar vocês conversarem, enquanto farei o pedido dos exames. Com licença.
Senti uma leve tontura, lembrei que não tinha comido nada até então. Sentei ao seu lado, sentindo o seu olhar quando comentou:
- Não precisava me humilhar... - falou sentida.
Olhei sem acreditar, minha língua estava ferina:
- Humilhar você? - ri suavemente - Eu apenas disse uma verdade! Afinal, a chifruda aqui sou eu, não sou??
- Então faça o exame, não irei me opor! Sei que tem raiva de mim e do que eu fiz, mas vamos ter um bebê nosso!
- Isso não muda nada, Elena! - voz baixa - Na verdade só piora as coisas! - encarei o seu olhar - Bastava você ter me esperado que iríamos acabar descobrindo a verdade, em vez disso, preferiu encher a cara e tentar do modo tradicional. - falei amargurada.
- Eu fui impulsiva sim, e vou ter que passar o resto da minha vida com essa culpa! - respirou fundo - Quando vi o resultado daqueles testes e quando eu sangrei... Aquele sangue, era como se eu tivesse revivendo aquele maldito dia! - tocou o seu ventre e prosseguiu com olhar vago - O meu filho que nunca pude ouvir o seu choro, ou ter tido ele em meus braços... Eu revivi tudo aquilo com tanta intensidade que sim, eu acabei bebendo muito além do que deveria e não pensei duas vezes... - interrompi.
- Ele também era meu filho!
- Mas não foi você que o sentiu crescendo, se desenvolvendo e por fim morrendo aqui dentro! - seu rosto estava vermelho, não ligava pra lágrimas que escorria - Não foi você, Amélia! Eu não pude fazer nada para salvar o nosso garotinho.
- Não havia nada que pudesse ser feito, Elena. - amenizei o meu tom.
- Eu te amo, Amélia... - respirou fundo - Você aceitando ou não que ele é seu, eu vou amá-lo muito mais!
***
Esther
Verifiquei novamente se havia alguma chamada perdida em meu celular e nada. Estava ficando preocupada com a falta de noticias de Mia.
- A Dra. Emily já vai atendê-la. - informou a secretária.
- Okay. Obrigada.
Depois de muito conversar com Lorraine sobre a última experiência com Mia, decidi procurar um especialista em TVP. Olhei novamente a placa na parede. "Psicologia Dra. Emily Vallentin, Psicoterapia Reencarnacionista/ Neuropsicologia/ Psicologia Clínica/ Avaliação", seguida de um trecho do Livro dos Espíritos:
“Mergulhando na vida corpórea, perde o Espírito, momentaneamente, a lembrança de suas existências anteriores, como se um véu as cobrisse. Todavia, conserva algumas vezes vaga consciência, e lhe podem ser reveladas. Esta revelação, porém, só os Espíritos superiores espontaneamente lhe fazem, com um fim útil, nunca para satisfazer a vã curiosidade.”
A primeira vez que estive aqui conversamos muito a respeito sobre os meus sonhos, e principalmente a minha experiência com Mia, o que despertou muito interesse em Emily. A porta abriu, e Emily veio me receber. Ela não deveria ter mais que uns trinta e oito anos; era esbelta, pele alva, o seu cabelo castanho escuro era longo repicado em camadas, seus olhos eram do mesmo tom. Ela passava uma energia gostosa, era o tipo de pessoa que você passa horas conversando sem se dar conta.
- Boa tarde, Esther! - sorriu simpática.
- Boa tarde, Dra.! - cumprimentei.
Deu passagem, fechando a porta em seguida.
- Está preparada?
- Sim.
Indicou o divã para eu deitar, enquanto diminuia a claridade do ambiente.
- Então vamos iniciar os exercícios de respiração e relaxamento. Mantenha os seus olhos fechados.
A voz de Emily era agradável, me deixei ser guiada por ela. Não tinha mais noção de tempo, sentia o meu corpo pesando aos poucos, mas permanecia consciente de tudo. Ela repetiu alguns trechos de nossas conversas sobre os meus sonhos, sem interromper o processo de hipnose.
- Se veja em um campo florido, a brisa suave acariciando o seu corpo. Relaxe e respire o ar fresco do campo. - pausa - Você sente muita paz nesse lugar?
- Sim.
- Olhe em volta e me diga se já esteve nesse lugar antes?
- Sim, há muito tempo.
- Me fale o que está vendo?
- Uma árvore enorme próxima a um riacho... gosto de deitar ali e ler quando o dia está muito quente, depois me banho no riacho.
- Você está sozinha?
- Não.
- Quem está com você?
- Minha irmãzinha... Alene é o seu nome.
- Quantos anos vocês têm?
- Eu tenho 26 anos e ela 13 anos.
- Como ela te chama?
- Gael.
- Sabe o seu sobrenome?
- Kroetz.
- O que vocês estão fazendo?
- Estou estudando um livro de medicina e ela recolhendo flores para a nossa mãe.
- Consegue ver algo além do campo?
- Não. Existe uma claridade que está ofuscando a minha visão.
- Eu quero que vá até o riacho. - pausa - Sinta a água passando atráves de seus dedos. Consegue senti-lá?
- Sim, está fria.
- Quero que olhe o seu reflexo na água. O que sente ao se ver?
- Muitas emoções; melancolia principalmente.
- Me conte o que acontece e deixe a história ser contada através de você. - falou suavemente.
"Fechei os meus olhos por um instante, abrindo-os em seguida ao sentir arrepio do contato da água em meu rosto.
- Não durma aí! Sabe que não sei nadar, caso você caía, morrerá afogado! - resmungou, olhando-me preocupada.
Meu coração aqueceu diante daquele rostinho delicado e cheio de sardas. Sorri para ela, tocando em sua face.
- Já passou da hora da senhorita aprender a nadar!
Arregalou os grandes olhos castanhos, recuando.
- A água está fria!
- Não tem problema, hoje o dia está quente! - brinquei.
- Não!
- Sim!
- Gael, não! - correu.
- Não adianta correr! - levantei e corri atrás dela.
Passamos uma tarde agradável, infelizmente estava na hora de voltar para casa. Alene era curiosa e aprendia as coisas rápido. Sempre que eu podia, ensinava coisas novas para ela, tornando-me cada vez mais a figura paterna que não tínhamos há anos.
- Chegamos! - silêncio - Alene vá se lavar e depois desça para o jantar. - pedi.
Assentiu. Adentrei os comodos daquela casa, sentia nostalgia ao ver espaços vazios na maioria deles. Os poucos móveis que restavam eram simples, sentia o meu semblante pesando cada vez mais. O choro abafado chamou a minha atenção, entrei na cozinha.
- Mãe? - estava de costas para entrada, cortando algo.
- Meu filho! - falou agitada - Não te ouvi chegar. Pode subir e descansar, te chamo quando o jantar estiver pronto. - voz abafada.
Permanecia de costas, percebi que seu corpo tremia, aproximei.
- O que ele fez? Mãe, olhe para mim! - a fiz virar - O que aquele bastardo fez a senhora! - toquei com cuidado a face machucada.
- Não o chame assim! Tenha respeito, ele é seu pai! - defendeu.
- Ele é doente! - falei entredentes.
- Foi minha culpa! Eu faltei com respeito, eu mereci isso... - interrompi.
- Não! Mãe, para! Pelo bom senhor! Estou cansado que fingir que as coisas não acontecem nessa casa.
- Gael, por favor! Seu pai é um bom homem, entendeu! - segurou-me pela camisa - Só teve um dia ruim, apenas isso. - justificou.
- Não vou ficar mais calado... - interrompeu exaltada.
- SIM, VOCÊ VAI! Ele é o meu marido e seu pai! - respirou fundo - Em breve você irá desposar a jovem Elizabeth e vocês vão viver longe daqui. Você irá honrar o nome da nossa família sendo um excelente médico e marido, entendeu?
- Sim! - engoli seco.
- Meu bom rapaz! - acariciou a minha face.
- Vou pegar a minha valise e cuidar desse ferimento.
A fiz sentar e cuidei do pequeno corte com cuidado. Sentia o meu sangue ferver com aquilo.
- Estive pensando... - finalizei o curativo - Quero que Alene venha morar comigo em Córdova, após o casamento. Quero que ela tenha a educação apropriada para uma jovem da idade dela. E também fará companhia a Elizabeth.
- Não acho que seja uma boa ideia, vocês serão recém casados, vão precisar de privacidade.
- Mãe, você tem feito de tudo para que eu tenha a melhor educação, e se hoje sou médico é por sua causa. Me deixe retribuir isso e dar Alene o melhor. Eu queria que vocês duas viessem, mas sei que você jamais deixará o meu pai, não importa o que ele faça. - lamentei.
Abaixou a cabeça um momento, olhou em meus olhos acariciando o meu rosto.
- Eu vou pensar com calma."
- Avance no tempo, até o dia em que você conhece Samuel.
"Estava concentrado terminando de esterilizar os instrumentos quando Judite, a filha do Dr. August me chamou.
- Sim?
- A condessa de Aragão está requisitando o meu pai.
- Ele ainda não voltou.
- Foi o que eu disse, mas eles têm pressa.
- Eles? - acompanhei ela até a saleta - Dr. August ainda não voltou, mas se eu puder ajudar. - Observei o jovem casal.
- Você é o ajudante? - a mulher perguntou arrogante.
- Sou médico! - corrigi - Faz pouco tempo que trabalho para Dr. August, ele foi o meu professor.
- Acredito então que ele seja mais que capacitado para cuidar de nossa mãe! - tocou o ombro da mulher - Por favor, se puder nos acompanhar, a condessa precisa de seus cuidados.
Peguei a minha vasile e os acompanhei até a carruagem. Assim que ajudou a mulher entrar virou-se para mim e disse:
- Sinto pela grosseira de minha irmã, não tive oportunidade de me apresentar. Sou Samuel Vargas, conde de Aragão. - estendeu a mão em cumprimento.
- Dr. Gael Kroetz. - retribui o gesto.
O caminho foi feito em silêncio. A jovem tinha uma expressão preocupada, distante. Encontrei com aquele olhar negro intenso, encarando-me."
- O que a condessa tinha?
- Tuberculose.
- Você consegue tratar dela?
- Sim. Foi um longo tratamento, pois ela já estava bastante debilitada.
- Avance mais e me conte como era o seu relacionamento com Samuel?
"Estávamos saindo da igreja após a missa dominical. Alene de braços dados com a minha mãe e eu ao seu lado. Samuel estava acompanhado de sua irmã Margareth, conversavam com o pároco. No período em que estive cuidando da condessa ás vezes era necessário pernoitar devido as suas crises iniciais, foram nesses dias que acabávamos conversando e apreciando alguma bebida.
- Gael, apresente-me ao conde, quero agradecê-lo por ter arrumado um trabalho digno ao seu pai. - pediu.
- Mãe, não acho que seja o momento, eles estão ocupados... - interrompeu.
- Não levará mais que um minuto, Gael! - falou sério.
Aproximamos, o bispo pareceu não ficar muito contente por ter sido interrompido. Minha mãe beijou respeitosamente o anel do pároco, e antes de falar algo, Samuel se adiantou:
- Permita-me senhora. - envolveu a sua mão beijando-a - Senhorita. - repetiu o gesto. - Apenas o homem deve curva-se a uma mulher, e não ao contrário. - sorriu para elas.
O bispo corou, respodendo:
- É um sinal de respeito beijar o anel que é símbolo de minha autoridade eclesiástica.
- Obviamente.
- Ele só está sendo galante, por favor, ignore-o. - tocou suavemente o braço do bispo levando para longe, continuando a conversa.
- Em que posso ser útil a família de meu bom amigo Gael?
- Eu gostaria de agradecê-lo pessoalmente por ter usado sua influência para que meu esposo conseguisse um trabalho mais digno dele. - disse orgulhosa.
Notei que Samuel não havia gostado da colocação de minha mãe, justamente pela origem dos seus antepassados, nada comentou a respeito.
- Apenas conversei com as pessoas certas. Mas onde está o bom homem para que eu possa cumprimentá-lo?
- Harrison está um pouco indisposto devido ao cansaço. - mentiu - O bom senhor certamente perdoará a sua ausência hoje.
- Certamente. - olhou-me - Meu bom amigo, espero revê-lo em breve. Com sua licença senhora. - despediu-se.
Samuel aproximou de sua irmã e se despediu do bispo, partiram em sua carruagem.
- Acabamos de assistir uma missa e a senhora já está mentindo. - recriminei.
- Seu pai está indisposto! - caminhamos para casa.
- Sim, mas não pelo cansaço do trabalho. - ignorou-me.
- Espero que o convide para o seu casamento, Gael. Com a influência de um conde não lhe faltará oportunidades. - encerrou o assunto.
Após o almoço sai para caminhar, havia recebido carta de Elizabeth, queria poder ler em paz. Dez minutos de caminhada até chegar naquele campo afastado de tudo.
- Não deveria ficar tão distraído, ainda mais em um lugar desses.
Assustei com a voz, estava concentrado lendo e pensando nas doces palavras escritas por Elizabeth, em poucos meses estaríamos casados.
- Samuel... - olhei surpreso - Como me encontrou?
Olhava-me de cima do cavalo.
- Você está em minhas terras. - sorriu.
- Desculpe, não tive intenção de invadir.
Desmontou, levando o cavalo para saciar a sede no riacho e depois o deixou solto.
- Não culpo um homem por querer um pouco de paz e contato com a natureza. Importasse em compartilhar tal calmaria?
- Não tem que pedir, são suas terras. Eu que sou invasor.
- Não me sinto dono de algo tão belo, até por que quando eu morrer, desejo que ela permaneça intocada pelo homem. - sentou-se ao meu lado - E sobre invadir, apenas aproximei já que percebi o seu semblante pesado. O que te atormenta meu amigo?
- Assuntos pessoais. - a sua presença perturbava-me.
- Mulheres. - sorriu, encostando-se na árvore - Mas no seu caso, acredito que seja apenas uma em específico.
- É um assunto que você entende bem. Mulheres. - desconversei.
- Não tanto quanto eu gostaria. - lamentou.
Engoli seco, seu olhar sempre buscava pelo meu, o que me deixava inseguro em sua presença.
- Não é o que demonstra. - levantei.
- Tive um bom mestre. - esticou a mão - Uma mão amiga?
Ajudei a se levantar. Nossas mãos permaneceram unidas e nossos corpos próximos.
- Uma mão firme e forte, como um médico deve ter. - seu tom era baixo, sem desviar o olhar - Gael...
- Eu preciso ir agora. - desfiz o contato - Passar bem! - recuei.
Antes que eu virasse a sua mão envolveu o meu braço fazendo-me ficar de frente para ele. A sua boca engoliu a minha, senti o meu corpo despertar em contato com o dele. Não durou mais que alguns segundos, antes do meu punho acertar a sua boca. Cuspiu um filete de sangue, tocou o pequeno corte em seu lábio. Minha respiração estava alterada, a minha mão tremia. Caminhei de costas até virar e correr."
- Você fugiu?
- Sim.
- Por quê?
- Tive medo...
- Do quê? - insistiu.
- Do que ele me fez sentir. - confessei.
- O que ele te fez sentir?
- Desejo.
- Só desejo?
- Não... não sei definir.
- Prossiga e conte o que acontece com vocês.
"Sentia-me exausto. Dedicava-me mais do que nunca ao consultório e no tratamento dos meus pacientes. Era o único jeito que encontrei para não pensar naquele beijo e no que ele havia despertado em mim. Os dias se passaram e ansiedade parecia só aumentar. O conde parecia ter entendido bem após o meu soco, por um lado sentia alívio e não ter a sua presença, mas por outro angústia em sua falta. A batida na porta despertou-me.
- Dr., uma carruagem o aguarda. - entregou-me uma carta.
Estava sendo chamado para examinar duas servas a pedido do conde de Aragão. Samuel recebeu-me formalmente, levando-me até a ala onde elas estavam.
- Ela amanheceu tossindo e com febre alta.
- Teve contato direto com a condessa?
- Sim. Ela e outra cuidam da limpeza do quarto de minha mãe.
- Só ela tem tossido e apresentado febre?
- Sim. Achei prudente deixá-las afastadas dos outros, afim de não acontecer um contágio, caso estejam doentes. - parou de frente para a porta - Caso precise de algo, Anestor providenciará. - saiu.
A sua indeferença me incomodou mais do que imaginava. Coloquei a proteção facial, Anestor colocará um lenço em sua face. Entramos no quarto, aproximei da cama e comecei a examiná-la.
- Está delirando. Traga água e panos limpos. - percebi que iria pegar os lençóis sujos - Não os toque diretamente, mande queimá-los! Quem mais esteve em contato com ela?
- Apenas eu tenho cuidado dela. - respondeu a outra serva.
Olhei para a jovem que repousava na outra cama, tinha uma expressão de cansaço.
- Já irei examiná-la.
- Não carecê senhor, fico para cuidar dela.
- Não diga tolice, se não estiver doente, não há necessidade de ser expor!
- Se eu não ficar, quem cuidará dela? Todos têm medo de padecer pela enfermidade... - sufocou a tosse.
- Eu cuidarei dela, agora descanse...
- Isadora.
- Descanse, depois cuidarei de você.
Durante os dias que tratei delas raramente encontrava com o conde. Questionava-me porque sentia tristeza diante do afastamento dele. Anoitecia quando estava saindo do quarto, após trocar minhas vestes. Percebi a sua presença oculta pelo corredor mal iluminado.
- Como elas estão? - voz abafada.
- A jovem melhorou, a outra por ter certa idade a sua recuperação demorará um pouco mais.
- Entendo. Enquanto eu estiver fora, Anestor continuará cuidando de tudo o que precisar. A carruagem o espera, passar bem doutor.
Estava retirando-se quando questionei:
- Ficará fora por muito tempo?
- Tempo indeterminado.
Silêncio.
- Por que fez aquilo?
- Por quê? Era o que queríamos.
- Está delirando!? Jamais te pedi tal coisa...
Aproximou-se, senti o tremor em minhas mãos diante da intensidade de seu olhar.
- Foi um pedido silencioso. Nem tudo o que desejamos conseguimos proferir.
Estávamos a menos de um passo, fechei meus punhos afim de esconder o tremor em minhas mãos, sorriu suavemente percebendo.
- Vai me agredir novamente, Gael?
Olhei seu lábio que estava terminando de cicatrizar o pequeno corte. Toquei o seu rosto, pressionando o seu lábio com meu polegar, abrindo o corte novamente. Venci a distância envolvendo a sua boca com a minha."
- O que houve depois?
- Enquanto ele esteve em Saragoça, trocávamos cartas.
- Qual era o conteúdo delas?
- O que estávamos sentindo um pelo outro. O medo, o desejo, amor.
- Vocês consumaram o seu amor?
- Sim. - minha voz embargou.
- Por que está chorando?
- Nos podemos ficar juntos.
- O que impediu vocês?
- Elizabeth. - senti o calor das minhas lágrimas - Samuel não entende porque não podemos ficar juntos, pensa que eu só o usei.
- E o que acontece?
- Eu me caso. Minha mãe fica chateada pelo o conde não ter comparecido.
- Vocês ainda trocam cartas?
- Eu tento, mas nunca houve respostas.
- Você se muda para Córdova?
- Não, meu pai adoece e eu preciso cuidar deles.
- O que ele tem?
- Algum tipo de infecção, não consigo defini-lá.
- O que acontece com você?
- Uso parte do dote de Elizabeth para quitar algumas dividas, no início é dificil, mas aos poucos a nossa situação financeira melhora com a chegada do meu primogênito, Lorenzo.
- E o conde?
- Casou-se com a filha de um nobre, criando uma aliança entre eles.
- Ele te procurou novamente?
- Sim. Está muito alterado, eu o nunca vi assim. - falei agitada.
- Tenha calma. Conte o que houve?
"Era entardecer quando eu estava voltando para a casa, a carruagem estava aproximando-se. Pensei que passaria direto como as outras vezes, porém, parou ao meu lado.
- Eu preciso de seus serviços. - suas vestes estavam manchadas.
Entrei sem pensar duas vezes. Seu corpo tremia e sua respiração estava alterada.
- O que houve com você? Está sangrando? - tentei aproximar, mas fui repelido.
- Estou bem! Ande mais rápido! - esbravejou com o cocheiro.
Não tive tempo para prestar atenção no ambiente, a jovem que se contorcia na cama exigiu a minha atenção. A senhora terminava de limpar o corpo machucado.
- Salve-os! Eu te imploro, Gael!
Comecei a examiná-la, estava muito machucada e seu rosto inchado, a barriga estava baixa. A senhora havia trazido mais panos limpos, e bacia com água.
- A senhora é parteira?
- Sou.
- Vou precisar de sua ajuda.
- Meu senhor... - murmurou.
Reconheci a voz, parei um instante tentando reconhecer aquele rosto delicado entre as feridas.
- Estou aqui. - aproximou, pegando-lhe a mão com cuidado.
Soltou um grito abafado, doloroso. Samuel olhou-me furioso.
- SALVE-OS! - exasperou.
O parto foi difícil, o bebê havia nascido morto. Entreguei ele para a parteira, minha prioridade era tentar parar a hemorragia da mãe. Ainda era madrugada quando mandei um mensageiro avisando sobre emergência que tive para Elizabeth. Quando retornei ao quarto, Isadora havia despertado.
- Meu bebê... ele é tão quietinho... deixe-me vê-lo? - voz cansada.
Samuel, pegou o bebê dos braços da parteira e se aproximou de Isadora.
- Tão lindo! Será um...meu senhor, não sou digna de ti...mas ele tem seu sangue, faça dele o seu herdeiro... - voz falhava.
- Eu o farei! - colocou o pequeno corpo ao lado da mãe - Durma agora, pois quando acordar, estaremos juntos. - beijou-lhe a testa.
Samuel deixou o quarto assim que ela entrou em sono profundo. Aproximou-se.
- Não há muito o que eu possa fazer por ela. Perdeu muito sangue, existem muitas lesões internas. - lamentei.
- Ela não deve comer há dias! Ela não passa de uma jovenzinha, que animal faria tanto mal a ela? - voz embargada.
- Um que não viverá por muito tempo! - Samuel falou enravecido.
Pela manhã Isadora não resistiu mais, seu corpo foi deixado aos cuidados de Violeta, a parteira."
- Você sabe de quem Samuel se referiu?
- Sim. Isadora havia sido vendida para um escravagista.
- E o que ele fez?
- Quase o matou com as próprias mãos. - senti a minha voz falhar - Consegui impedi-lo a tempo.
- O que aconteceu?
- Foram tempos difíceis, o conde não o atacou diretamente, mas usou toda a sua influência para arruiná-lo.
- Então foi uma guerra silenciosa?
- Sim.
- Quem venceu?
- Não houve vencedores... - sentia opressão em meu peito - Outro escravagista assumiu, Samuel conseguiu o que queria, mas isso custou-lhe a vida.
- Estava com ele quando morreu?
- Sim... - fio de voz.
- Avance no tempo, momentos antes da morte de Samuel.
" - Algo te preocupa, marido? - Ouvi a voz de Elizabeth ao meu lado - Está novamente com olhar vago. Se tem algum problema, por favor, diga-me? - tocou delicadamente o meu ombro.
- Não é nada sério, apenas um incomodo.
- Está doente? - falou preocupada.
- Não, não se preocupe. Vou caminhar um pouco, faça companhia para a minha mãe, sim? - beijei a sua face e sai.
Senti necessidade de ir até aquela colina, sabia que o encontraria ali. Ao longe avistei o seu cavalo pastando livre, Samuel estava em pé, com olhar distante. Aproximei.
- O que eu fiz, Gael? - havia dor em seu olhar - Foi tudo minha culpa! - lamentou. - Eu sempre te culpei por tudo. - olhou-me - Deus como eu te odiei, e me odiei mais ainda por não ter ido atrás de ti e provado o meu amor. - em sua confissão percebi o cansaço em sua voz.
Não sabia o que dizer, tinha vontade de vencer a distância e tocá-lo. Samuel chamou o seu cavalo, montado-o.
- Podemos voltar a ser amigos? - pedi.
- Beber, fumar, conversando por horas enquanto nossos filhos crescem juntos? - deu um sorriso cansado.
- Sinto a sua falta... - toquei sua mão que repousava em sua coxa.
O som do galope se fez presente, seguido do som ensurdecedor, o cavalo empinou assustado, levando ao chão o corpo de seu dono.
- Samuel! - corri em seu auxílio, pressionando o ferimento no peito - Olha para mim...
Senti a sua mão envolvendo a minha, em um aperto forte.
- Não me deixe! Resista, você é forte! - tentava estancar o sangue.
A dor que senti diante daquilo não me deixava raciocinar direito, os meus olhos ardiam, os seus lábios fizeram um último movimento.
- Eu sempre irei te amar. - sussurrou.
- Não me deixe! - implorei.
Não mais que alguns segundos, a sua mão perdeu força. Vi a vida se esvaindo de seu olhar.
- Samuel? - chamei, tocando seu rosto com minha mão ensaguentada - Eu te amo. - envolvi seu corpo em meu colo."
- Esther, ouça a minha voz... Você permanece consciente, apenas siga a minha voz... Quero que você retorne... isso, estou aqui... Abra os olhos, Esther.
- Eu te amo... Eu te amo... Eu te amo...
Meus olhos estavam embaçados, repetia sem parar "Eu te amo". Emily olhava-me preocupada enquanto examinava o meu pulso.
- Respira fundo. Calma, já passou...
O pranto veio forte, fui envolvida em um abraço acolhedor.
***
Amélia
Heloísa permanecia em silêncio ao lado de Elena que já estava mais calma. Olhei sem interesse a paisagem atráves do vidro do carro.
- Mês que vem já estarei liberada para voltar nossa casa. - avisou.
- Para aquela casa eu não volto, Elena.
Silêncio. Um suspiro.
- Tudo bem. Quer saber? Realmente estou cansada daquela vista, podemos ver aquela casa no bairro próximo, ela é menor mas aparentemente confortável. Depois eu ligarei para Ana agendar uma visita.
- Rodrigo estará quando em São Paulo? - mudei de assunto.
- Dentro de um mês. - Heloísa respondeu.
- Eliezer está na cidade?
- Sim, está resolvendo alguns assuntos para o meu pai.
- Preciso falar com ele.
- Algo urgente? - desconfiou.
- Sim, eu preciso de um afastamento por tempo indeterminado da direção dos seus bens. - deixei claro o cansaço em minha voz.
- Por que isso agora?
- Meio óbvio! Estou esgotada, Elena! Preciso dar um tempo de tudo. - respondi ríspida.
- Ele está no escritório de Elena, tratando de algumas vendas. - Heloísa tentou amenizar.
- Matias, por favor, me deixe no escritório. Quero resolver ainda hoje.
- Tem certeza disso? - Heloísa questionou preocupada.
- Sim.
Elena não comentou nada, elas voltaram a conversar entre si. Quando o carro estacionou, a loira me chamou:
- Amélia? - voz suave.
- Sim?
- É para você. - entregou-me um envelope - Havia pedido para Janaína fazer uma cópia... Obrigada por vir! - nossos dedos tocaram-se um instante.
Guardei em minha bolsa e me despedi delas.
***
Esther
Não conseguia dormir, a experiência que vive foi única. Mesmo tendo revivido apenas alguns momentos eles foram suficientes para entender muitas coisas. Fui até o banheiro e lavei o meu rosto. Olhava para o espelho tentando encontrar algum traço semelhante ao rosto de Gael. Nada. Encarei o meu olhar, agora existia um entendimento, uma outra perspectiva das coisas.
- Os olhos são a janela da alma e o espelho do mundo. - sussurrei - É Léo, imagino o tipo de experiência que deve ter tido para tal pensamento.
Fui até o criado-mudo e peguei o meu caderno de croqui, sentei na cama e iniciei os primeiros traços. Por diversas vezes fechei meus olhos forçando minha mente lembrar claramente os seus rostos. Quando finalmente terminei, não conseguia desviar o olhar deles. O meu corpo dava sinais de exaustão, percebi que já amanhecia. O som vindo da cozinha chamou a minha atenção, guardei os retratos na gaveta, levantei e fui tomar uma ducha.
- Bom dia...
- Bom dia! Você caiu da cama? - olhou-me surpresa - Nunca acordou tão cedo!
- Na verdade eu nem dormi. - sentei e me servi do café recém feito.
- Esther, acho que você precisa ir ao um médico ver isso! Aliás, deveria deixar a dra. Micaela examiná-la, ficar sem dormir faz mal! - comentou preocupada.
- Ontem foi um dia cheio, Maria, por isso não consegui descansar direito. Não se preocupe, vou ligar no escritório e avisar que só irei a tarde. Ser a "chefe" tem lá as suas vantagens. - sorri.
- Vou ficar de olho em você! - sinalizou - Qualquer coisa...
- Já sei! Vai informar ao meu pai. - pressionei a minha nuca - Vocês se preocupam demais. - suspirei.
- Amamos você, sua ingrata! - resmungou.
- Também amo vocês! - sorri.
Conversamos até o interfone tocar, estranhei o horário e fiquei surpresa, liberei a sua entrada e aguardei. Pela sua expressão de cansaço, percebi que não fui a única que passou a noite em claro.
- Bom dia! Desculpe pelo horário, mas eu preciso conversar contigo.
- Bom dia, Mia! Entre! Aconteceu algo? Aceita um café?
- Sim, sim. - meio sorriso - Eu vou sair da cidade por alguns dias. - comunicou.
- E para onde você vai?
- Ainda não sei... só preciso me afastar, preciso de um tempo só para mim. Não quero tomar o seu tempo, vim explicar pra Júlia que vou ficar devendo o nosso passeio dessa vez. - havia tristeza em sua voz.
- Júlia ainda está dormindo.
- Ainda é muito cedo... - pressionou o maxilar - Desculpe por ser inconveniente, estou perdendo a noção das coisas. - falou baixo - Eu deveria ter ligado, mas achei melhor explicar pessoalmente... - toquei seus lábios, interrompendo-a.
- Quer me contar o que houve?
Hesitou por um momento, mas concordou. Peguei sua mão e a levei até o meu quarto para termos privacidade. Pedi para sentar-se na poltrona e peguei café para nós, avisei a Maria para não nos interromper.
- Obrigada. - aceitou a xícara.
Sentei na beirada da cama, a morena tinha um olhar vago.
- Meu escritório está um pouco bagunçado, na verdade muito! - sorri - Espero que não sinta desconfortável em está no meu quarto.
- De maneira alguma. - olhou com cuidado - Você sempre teve muito bom gosto!
- Não para tudo. - murmurei - O que aconteceu Mia?
Silêncio.
- Elena está grávida... e o filho é meu.
Respirei fundo, questionei:
- Como? Estou um pouco confusa.
- Posso estar diminuindo a situação, mas seria tudo mais fácil se não fosse meu. Resumiria-se em apenas um ato desesperado e uma gravidez não planejada. - pausa - Uma consequência... - bebericou o café - Eu dei um ultimato à ela. O nosso casamento estava... está fragilizado. Ela estava obcecada em ter um filho meu e consequentemente não deixava o corpo dela descansar devidamente. Uma noite foi a gota d'água e deixei claro que faríamos uma última tentativa, e caso fosse negativo, eu iria gerar um filho nosso.
Engoli seco, jamais pensei na possibilidade de Mia abraçar a maternidade para si.
- Quando chegou a hora, fecudamos o meu óvulo com o mesmo doador de Daniel...- senti sua voz falhar ao citar Daniel - Ele e Elena são muito parecidos, por isso eu insisti que fosse o mesmo.
- Entendo.
- Confesso que procurei não ter muitas esperanças, mas no fundo queria que desse certo.
- E o que deu errado?
Mia umedeceu o lábio, o mordiscando em seguida, dando um meio sorriso irônico.
- Falso negativo.
- Ela não esperou o tempo certo?
- Elena estava ansiosa demais, acabou fazendo um teste uma semana depois, o que não foi surpresa quando deu negativo. Eu não esperava que desse positivo logo de cara, o difícil foi convencê-la, as suas expectativas estavam altas. Eu precisei viajar a trabalho e não pude acompanhar de perto. Tive um imprevisto e precisei ficar mais tempo, foi quando ela teve um pequeno sangramento e resolveu fazer outro teste, que novamente deu negativo antes de completar duas semanas. Resumindo: ela "pirou", encheu a cara e resolveu tentar do modo tradicional.
- Mas você tem certeza disso? Dar falso negativo no beta hcg é muito difícil... - questionei ainda absorvendo aquelas informações.
- Difícil, mas não é impossível! - sorriu amargurada - Esther, ontem eu acompanhei o ultrassom e quando a médica falou o tempo de gestação, eu não acreditei! Eu fiz ela verificar todos os exames, conversamos muito a respeito e por fim ela sugeriu opções não invasivas de teste de DNA.
- O que Elena disse a respeito?
- Estará de acordo com o que eu decidir.
- E o que você fará?
- Eu achava que sabia o que fazer, mas isso muda tudo, agora eu preciso de tempo e de espaço. - bebericou o café.
Estávamos não mais que um metro de distância, mas a sensação é que havia um oceano separando as nossas realidades. Mia abriu a bolsa e tirou um envelope, entregando-me. Era a imagem do ultrassom. Sorri, tocando-o com carinho.
- Gostaria de poder sorrir como você e sentir essa sensação.
Os seus olhos estavam marejados, a sua barreira se quebrou.
- Como eu vou olhar para essa criança e não lembrar do que a mãe dela fez?? - perguntava para si mesma.
- Mia, independente do que Elena fez, esse bebê não tem culpa! - defendi.
- Será mesmo?? - passou a mão no cabelo em um gesto nervoso - Afinal tudo isso começou por causa de um desejo de maternidade. As nossas vidas viraram do avesso por causa disso! - havia raiva reprimida em sua voz.
- Disso? Mia, você não está falando sério?! - olhei assustada.
Levantei, peguei a sua bolsa e encontrei o seu celular, abrindo a imagem. Júlia já havia perguntado uma vez quem era o bebezinho dormindo. Lembro que Mia explicou que era o seu anjinho que estava no céu e um dia eles se encontrariam novamente, parecendo entender, a pequena disse que a sua mãe Vanessa também estava lá e pediria em suas orações para ela cuidar dele para Mia. Jamais esquecerei a emoção no olhar da morena diante do que Júlia disse.
- Olha para ele, e repete que ELE, foi um engano!? Olha! - insisti.
Deixou as lágrimas caírem, o seu queixo tremia levemente. Entreguei o celular com a foto de Daniel que foi tirada por Lúcia. Limpei a lágrima que escorreu em meu rosto, respirei fundo e peguei o ultrassom, colocando-o ao lado da tela.
- Qual é o seu medo, Mia? - perguntei suavemente - De que ele não seja seu? - ajoelhei ao seu lado - Eu te conheço! Independente da sua situação com Elena, tenho certeza que você irá acolhê-lo como seu. - fiz carinho em sua perna - Vejo como trata Júlia, do carinho incondicional que tem por ela. Do cuidado. Você poderia apenas ter ligado e remarcado o passeio de vocês, mas está aqui, depois de tudo o que passou para conversar com ela, e ela é só uma criança... - sorri - Uma criança que você não deseja decepcionar.
Toquei a sua face e limpei as suas lágrimas, havia um conflito em seu olhar.
- Por que as pessoas que eu amo me traem? - voz embargada - Meu pai, Elena... - olhou-me.
- ...Eu! - completei.
- Você...!
Levantei, toda aquela situação mexeu em uma ferida antiga. Pressionei a minha nuca, não esperava por aquilo.
- Eu não posso falar por eles, Mia. Todos nós cometemos muitos erros durante a nossa jornada... Eu jamais quis te magoar, te trair... Acredito que nunca foi intenção deles também. - sentei na cama - Pensei que tivesse me perdoado? - aquele olhar mexeu comigo.
Sustentou o olhar, parecia refletir o que eu disse.
- Eu perdoei!
- Mas não consegue esquecer... - senti tristeza diante disso.
Pressionou o maxilar, assentindo levemente.
- Eu tento.
- Tudo bem... Um dia sei que me perdoará completamente.
Levantei e fui até o criado-mudo, senti necessidade de estar com o meu pingente, assim que abri a gaveta encontrei o olhar de Gael no retrato. Coloquei o pingente, e olhei para Mia que estava distraída vendo o ultrassom.
- Mia, eu preciso que você me escute. - peguei os desenhos - Te prometi ser sempre sincera e nunca mais te magoar. Eu queria te contar isso algum tempo, entretanto, acho que o tempo foi necessário para um entendimento melhor sobre muitas coisas, principalmente que envolve a gente. Eu incluo Elena no meio disso.
Parei em sua frente, ela estava fragilizada e olhava com curiosidade.
- Peço apenas que me ouça e deixe qualquer comentário sarcástico e cético quando eu terminar de falar e explicar. Okay? - estreitou os olhos, assentindo - Você lembra que desde que éramos crianças ás vezes tínhamos sonhos que de certo modo eram parecidos? Como se fossem um quebra-cabeça... Eu nunca entendi muito bem o por que disso, mas quando você me deixou, eles se tornaram mais frequentes e intensos para mim.
- Não estou entendendo aonde você quer chegar.
- Quando contou o sonho que teve com a minha mãe e sobre os outros... Você não foi a única que teve esse tipo de experiência.- arqueou a sobrancelha - Ontem eu fiz uma TVP (Terapia de vidas passadas) - falei rapidamente.
Antes que falasse algo mostrei os desenhos. O seu olhar cético aos poucos ficava sério, estava expresso em seu rosto que reconhecia aqueles homens.
- E por ter feito essa regressão, eu consegui ver claramente quem nós fomos. - falei baixo, tive medo de sua reação.
- Nós?? - olhou-me surpresa - Gael? - murmurou.
- Sim...
Pressionou a têmpora, encostando na poltrona.
- Conte-me tudo. - pediu.
***
Amélia
Coloquei mais lenha na lareira, a ventania e o céu cada vez mais escurecia, denunciando o temporal. Há semana estava hospedada ali. Uma pequena chácara em condomínio fechado numa cidade qualquer do inteiror. Pesquisei rapidamente e mantive aberta minha estadia. Somente minha mãe sabia onde eu estava para caso de emergência. Sem celular, ou internet, apenas a vista para a natureza que Manuela resumiria em mato, mato denso e mais mato. Fui até a cozinha e esquentei água para o meu chá. Olhei um momento o livro Lições que a vida oferece de Eliana Machado Coelho, estava em cima do balcão. Esther entregou-me após a nossa conversa, dizendo que para ela era um dos livros espíritas mais completos, e queria compartilhá-lo comigo. Brincou, dizendo que se meu ceticismo falasse mais alto, pelo menos a história em si era maravilhosa. Beberiquei o líquido, ouvindo o som da trovoada.
- Sem chance de sair. - peguei o livro - Seremos apenas nós dois.
Passava um pouco mais das duas da manhã quando finalizei o livro.
- É! Isso explica muito coisa... - coloquei nele no criado-mudo - Que Esther não me ouça, mas você foi bem didático. - pressionei a minha nuca - Que situação eu cheguei, já estou conversando com um livro. - desliguei a luz.
Deitei olhando para o teto, iluminado pelos clarões do temporal.
Na manhã seguinte percebi o estrago do temporal em algumas casas. Precisava ir até o mercado comprar alguns mantimentos. Acionei o alarme pra destravar o meu carro quando ouvi um tipo de rosnado. Assustei de início, olhei e não tinha nada.
- Mas que merd* é essa? Algum filhote de ch*pa-cabra com cruz-credo?
O som era rouquinho e baixo. Peguei a vassoura que estava encostada e procurei de onde vinha o som. Afastei do carro, e abaixei. Estava se escondendo atrás da roda. Por um momento parecia um filhote de lobo, mas era um mestiço de pastor alemão. Deveria ter poucos meses, estava magro e pelagem faltando em partes do corpo. Ele tremia muito, e sua pata estava ferida. Coloquei a vassoura no chão e tentei aproximar para pegá-lo. Sua resposta foi quase arrancar os meus dedos.
- Nunca é fácil! - resmunguei - Anda garoto, vem?
Suspirei. Entrei na casa e peguei uma toalha e dois pequenos potes; em um coloquei as sobras do dia anterior, no outro água. Coloquei no chão e afastei. Ele tentava andar, mas o ferimento da pata o fazia soltar pequenos gritos. Peguei a vassoura e usando o cabo empurrei para próximo dele, comeu com certa dificuldade e gula.
Sentei no chão, próxima a ele. Estava ficando agonizada com aquilo. O tempo não ajudava, ele se assustava fácil com as trovoadas. Peguei a toalha e abri, voltei a chamá-lo:
- Vem garoto... vem... Eu sei que você está assustado e com dor, deixa eu te ajudar? Hmm... vem cá, vem?
Devo ter ficado uns dez minutos chamando, até que mudei de estratégia. Joguei a toalha sobre ele, e consegui tirá-lo debaixo do carro.
- Filho da... Nem doeu! - falei entredentes, senti o meu olho lacrimejar - Antirrábica, acabou de ir para o topo da lista! - respirei fundo - Shhh, calma garoto. Vai ficar tudo bem. - ouvi um chiado vindo peito dele - Calma, garoto...
Abri a porta do passageiro e consegui acomodá-lo no chão, vi o pequeno estrago em minha mão. Entrei rapidamente na casa e lavei o melhor que pude o ferimento, enrolando um lenço em minha mão. Assim que entrei no carro, vi que ele estava quietinho se aquecendo na toalha.
- Tivesse colaborado antes, já estaria quentinho a mais tempo! - resmunguei, tentando disfarça a tristeza pelo abandono dele - Que dono mal caráter te deixou desamparado assim? - manobrei o carro.
Consegui localizar um hospital veterinário, após conversar com umas duas pessoas. Deixei os meus dados para que entrassem em contato. Precisei levar alguns pontos e tomar vacina.
- Algum restaurante sem muita frescura, com comida caseira para um paladar nada exigente? - perguntei para a enfermeira que achou graça.
- Não só tem comidas deliciosas, como algumas bandas a noite tocam acústicos; rock clássico, mpb, pop... - interrompi.
- Funk? - tentei disfarçar a careta.
- Ahhh, não!
- Já me ganhou! - sorrimos - Qual é o endereço?
Disse o nome de onde ficava, por fim pegou a minha mão que estava com o curativo, e anotou o número de celular, caso eu me perdesse ou quisesse companhia. Na verdade nem tinha prestado muito atenção nela, tinha um sorriso bonito. Quando entrei no carro, olhei para o número em minha mão esquerda, depois para a minha aliança.
- Hoje em dia você se tornou apenas mais um acessório.
***
Após o almoço, fiz algumas compras e passei na farmácia para comprar um analgésico, a minha mão estava começando a dor. Na volta não resisti e passei novamente no hospital para saber noticias do filhote. Estava em observação, tratando início de pneumonia, sarna e por pouco não teria que amputar a patinha.
- Deus! Como alguém consegue maltratar e abandonar um ser inocente desses? - comentei com o veterinário.
- É, realmente triste. Não somente cães, como gatos, pássaros... - suspirou - Por isso, eu prefiro bicho a gente. Alguns vivem menos, mas o suficiente para demonstrar o que é amor incondicional.
- Eu nunca tive um cachorro. - comentei.
- Bom, agora você tem um! - piscou.
***
- Achei que você tivesse largado tudo e se mudado para o Tibete! - minha mãe reclamou, antes de vir me abraçar - Pensei que ficaria alguns dias e não quase um mês! - reclamou.
- Não exagera mãe! Também senti a sua falta!
- O que houve com a sua mão? - olhou a pequena cicatrização.
- O que houve? - envolvi a sua cintura - Foi isso o que houve!
Indiquei a casinha de transporte para cachorro bem presa no interior do meu carro. Abri a porta, o pequeno ainda estava sonolento por conta da medicação, mas já havia sarado da pneumonia, e a sua pelagem voltava a crescer, tinha ganhado peso. Teria que prosseguir o tratamento para curar de vez a pata, mas ele já não corria nenhum risco.
- O que significa isso, Amélia? - olhou incrédula.
- Isso? Eu ainda to tentando definir se é filhote de ch*pa-cabra ou experimento cientifico... - levantou a cabeça, virando sutilmente - Viu? Eu acho que ele concorda! - sorri, imitando o gesto - Sabe que ele é um ótimo ouvinte? - arqueei a sobrancelha.
- Nem pense nisso! - cruzou os braços.
- Em quê? - dei o meu melhor sorriso.
- Não pense em deixar ele ou ela, aqui!
- É ele! Ainda estou pensando em chamá-lo de Batman, ele é todo preto, mas veja, as orelhas dele que não são totalmente eretas, elas dobram na pontinha. - abri a porta da casinha - Ou de Rasputin... - levantei a mão - Como diria Manu: Não precisa nem de legenda! - ajudei ele sair com cuidado.
- Amélia, eu não quero esse cachorro aqui!
- Mãe, por favor? É temporário! No meu apartamento ele não pode ficar, não aceitam animais no prédio. Eu não fiquei quase duas semanas indo diariamente visitá-lo para largá-lo na rua. Por favor?
Suspirou alto.
- Que seja temporário! - advertiu - E não quero ele dentro de casa, só no quintal!
- Eu prometo... fazer o possível para mantê-lo longe do sofá.
- Mia!
Estávamos tomando café, notei os olhares de minha mãe.
- O quê? - mastiguei a fatia de bolo.
- Você está bem filha?
- Estou sim, mamãe. - beberiquei o café.
- Mamãe? - sorriu - Fazia muito tempo que não me chamava assim. - observou.
- Ué, mas você é... Pode ficar! - ralhei com ele para não entrar.
- Antes de viajar você tinha uma carga tão negativa, mas agora parece tão... leve. É quase como se a Mia adolescente estivesse de volta.
- Deus, não! - ri gostosamente - Passar pela adoslência de novo não, por favor! - joguei um pedacinho do bolo para ele - Mãe, eu precisava de um tempo para mim, foi isso.
Olhou-me um pouco insegura, tive que rir.
- Eu não tive um surto psicótico, se é o que está pensando!
- Longe de mim, pensar isso! - ergueu as mãos.
- Sei! - sorrimos - É bom estar em casa. - latido rouco - Júlia vai amá-lo!
- E Elena será que vai?
Não deixei de sorrir ao repetir o seu nome.
- Elena...
***
Assim que deixei o meu pequeno monstrinho na clínica, fui até o escritório saber em que pé estavam as coisas. Ana me recebeu um pouco surpresa. Me colocou a par sobre os assuntos da minha empresa, foi quando descobri que Elena nesse período que me ausentei estava retornando aos poucos a sua rotina empresarial. A princípio Eliezer estava cuidando, até ela iniciar reuniões novamente com a direção e ficar a par de tudo. Sorri, por ter sido uma grata surpresa. Cumpriu o prometido, vendendo a casa (que estava em seu nome) e comprando outra casa (que era consideravelmente menor) no bairro próximo. Ana, mostrou as fotos do interior dela. Elena planejou algumas reformas, mas a casa em si era muito bonita. Soube também que já estava ocupando a casa, e suas consultas passaram a ser semanais.
- Ana, organize a minha agenda, mas humildemente te peço para ter intervalos para que eu possa respirar. - brinquei.
- Vou ver o que posso fazer. - piscou divertida.
Estacionei e observei a casa por um tempo. Francisca me recebeu surpresa.
Encontrei Elena na pequena varanda, não deixei que falasse, apenas disse a minha decisão:
- Ficarei pelo o meu filho!
Sustentou o olhar, concordando em seguida.
- Vou pedir para preparar o quarto de hospedes para você. - aproximou - Saberei ser paciente... - beijou a minha face e saiu.
"As almas afins, se engrandecem constantemente repartindo as suas alegrias e os seus dons com a Humanidade inteira, não existindo limitações para o amor, embora seja ele também a luz divina a expressar-se em graus diferentes nas variadas esferas da vida."
Emmanuel
Continua...
Fim do capítulo
Ufâ!! Até que fim! Meninas nunca um capítulo exigiu tanta leitura e pesquisa a respeito, repetindo que sou apenas uma curiosa com a temática espírita e estou usando a tal licença poética, okay? Foram muitas conversas a respeito e pesquisas, num resumo bem básico para o entendimento sobre a vida passada das meninas. De coração espero esse seja o último cap, que demande tanto a minha atenção. E que os próximos capítulos venham com menos tempo de intervalo. Obrigada a todas, bjs suas lindas! ♥
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Runezinha
Em: 16/06/2018
Entendi, nossa Autora!! Mia esta quebrada, nao possui mais a quela linha, que diferencia realidade da fantasia, agora pude entender quando a alguns capitulos anterior quando ela diz que algo quebrou e ela nao sabia o que era. Quando Mia afrima que "nao sabe como olhar para criança sem lembrar o que a "mae" fez", a onde ela deixa clara sua confusao para mim, na verdade ela se refere a todos que lhe trairam, se fosse se referi a penas a esposa, individo, diria "o que a "Elena" fez", nisso ela segue culpando a criança pelo estado da Elena, deixando claro que ela nao aceita e provavelmente quer sua Elena de volta, o amor nao se perdeu mais a Mia se perdeu, para que culpar a criança pelo estado mental em que Elena ficou se nao fosse uma tentativa de justificar as atitudes da esposa nao so pelo ato mais todo a quele ano infeliz, e mostra claramente que ela no fundo sabe que Elena adoeceu e se culpa, e acredito que a ama. Na verdade a pessoa que mais precisa de ajuda e a Mia, estado emocional ela se encontra e preigoso e muito delicado, mesmo que o afastamento tenha lhe feito bem e é necessário, isso nao seria o bastante para um ser humano normal, ja que se tornou incapaz de diferenciar suas emoçoes e diferencias as ações das pessoas, ela diz tenta perdoar parece que por instantes ela esqueceu e foi lembrada, nao seria um absurdo achar que num desses surtos que ela tem, dor de cabeça, mal estar, acabe levando ela... Vou ser mais direta e dizer que na vida real poucos que saem vivos nesse quadro que a Mia esta, agrande maioria tira sua vida... Ajuda proficional urgente para Mia!!!
A sim fantastico Autora!!! Espero que de para entender que eu disse rsrsrs.
Resposta do autor:
Pois é, a vida da Mia não está nem um pouco fácil, muito menos de Elena. Esther aos poucos está tentando seguir em frente, procurando ser novamente a amiga que Mia precisa. Esther talvez aprenda finalmente a pensar no bem estar mental da morena antes de pensar no que elas já viveram... mas o que irá acontecer ainda vou escrever :}
Mille
Em: 31/12/2017
Olá Karina tudo bem?
“A aventura da vida renova a cada 365 dias e só desejo que os próximos sejam os melhores de sempre.“
Que você tenha inspiração e continue nos proporcionando a alegria de histórias maravilhosas personagens cativantes.
Feliz Ano Novo!
Não desistir e tenho esperança de seu retorno para a continuação desta linda história.
Resposta do autor:
♥
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Mille
Em: 25/07/2017
Oi K tudo bem??? Espero que retorne a escrever essa linda história mega saudadeeeeeeeeeeeeeesssssssssss. ;)
Hoje é o dia do escritor desejo muita inspiração, alegria e sucesso a ti. Tem uma frase muito linda que vi hoje pena que o site não aceita anexar figura.
"As melhores viagens da minha vida eu fiz sem sair do lugar".
Já viajei muito por lugares, conhecimentos de culturas e sentimentos, a torcida por os personagens queridos, ou vilões para ver sua queda.
Obrigada por sempre nos presentear com belissimas histórias.
Resposta do autor:
Muito linda as suas palavras, muito obrigada! É extremamente gratificante para uma autora receber tanto carinho e um feedback tão positivo com o seu trabalho. Eu mesma me perco visualizando tudo, pensando e conversando com as minhas personagens rs São divertidos os pensamentos e fantasias de nós autores. Estava morrendo de saudades disso tudo, obrigada por me acompanhar. Logo teremos a finalização de DD, abçs ;}
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Mille
Em: 31/12/2016
Olá Karina tudo bem? Saudades :)
"Desejo a você…
365 dias de felicidade.
52 semanas de saúde e prosperidade.
12 meses de amor e carinho.
8760 horas de paz e harmonia.
Que neste novo ano você tenha muitos motivos para sorrir!"
E muitas inspirações para nos presentear com lindas histórias. Abraços
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lia-andrade
Em: 26/05/2016
Perfeito.. É um tema que chama muito minha atenção. Parabéns!
Até o próximo.
Resposta do autor em 26/05/2016:
Obrigada rsrs tmb gosto muito! :}
Até ^^
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lis
Em: 26/05/2016
Boa tarde KF, tudo bem? Uauu belo capitulo bem escrarecedor para quem ainda não tinha entendido a história rs, gostei muito ainda mais a Esther fazendo a Mia enxergar a importancia do filho e que ela vai ama-lo muito sim, parabéns sua história é maravilhosa, mais eu ainda torço para que a Mia e a Esther fiquem juntas pois elas se amam muito, gostei de ver a Elena retomando a sua vida e reagindo tb.
Resposta do autor em 26/05/2016:
Obrigada linda :}
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Mille
Em: 26/05/2016
Amei o capítulo, acho que o pequeno cachorrinho trouxe algumas reflexões para a Mia com a Elena e o filho, a decisão de ficar com eles.
Bjus autora 😚😚😚😚 👀👀👀👀👀 e até o próximo
Resposta do autor em 26/05/2016:
Né rsrs bem isso! hahaha
Bjs linda, inté o próximo :D
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