Fronteiras por millah


[Comentários - 25]   Impressora Imprimir Capitulo ou História - Lista de Capítulos

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Depois de toda aquela bagunça só sei que as três da tarde realmente começou a cair um toró interrompendo meus estudos. Fechei a vidraça da janela e voltei a mesa e foi quando minha mãe entrou no quarto com um copo de suco.

--será que você não cansa de estudar?

--é minha obrigação não é? Se quisermos mesmo sair daqui.

--(rs) fez aquilo mesmo?..defendeu Marga?

--chamaram ela de traficante. Isso ela não é. E sabe como eu sou..

--você odeia injustiças..—ela entregou o suco a mim e sentou na cama. Parecia pensativa ate mesmo com aquele sorrisinho e olhos perdidos.—sei que pensa o mesmo. Que se ela não estivesse no meio de tudo isso ela pudesse..

--estar com você? Ela é instável e controladora. Ela teve sua chance e fez sua escolha..

--eu sei. É que as vezes penso que posso ajudar ela mas sei que não posso. Não me enterrando de novo em um buraco.

--você nunca me falou sobre isso..sobre..porque tem medo de voltar a ser a mesma com ela.

--e nem vou..eu não me orgulho disso mesmo ela gostando tanto do que fui pra ela..

--(rs) Ela faz uma carinha ate que bonitinha quando ta interessada em algo. Quero dizer..—acho que me precipitei e minha mãe ate me olhou curiosa abrindo seu sorriso a mim.

--(rs)...vou deixar você estudar. Mais tarde podemos fazer alguma coisa se quiser.

--tipo o que?

--não sei. Tem a festa latina, o restaurante da Hyung com aquela comida japonesa maravilhosa e ate a sorveteria do grandão russo. O morro tem tanta coisa.

--as portas do castelo de marga estarão abertas?

--ela vai com a gente..claro se não quiser a gente pode ir sozinhas como antes..

--não, tudo bem mãe. Talvez seja interessante. A gente ir junto..todas nós.

--ta certo.—minha mãe era apenas sorrisos quando deixou o quarto e eu ainda não sabia porque aquilo me incomodava tanto.

Era obvio que ela estava gostando da Marga de novo e esse pedido seria apenas um encontro disfarçado. Ela tava brilhando.

Depois dos estudos guardei meus livros e tentei descansar, mas um barulho constante vindo da academia me tirou toda a vontade de dormir. Eram socos e como a casa estava silenciosa os ecos não me chocaram.

Marga estava lá socando um saco de treinamento, e quando me ouviu descer os degraus rapidamente olhou pra mim e puta merda como ela era desconfiada. Minha presença mesmo em silencio recostada a parede assistindo ela já era o suficiente para tirar sua concentração, por isso ela veio ate mim e deu pra perceber que pelo seu jeito cansado ela já estava ali por um tempo. Seu cabelo molhado e rosto suado se mostrou evidente. Sua roupa de treino, a calça moletom colada as pernas e o top branco e a pele molhada de suor que escorria pela barriga definida só permitiram me impressionar em ver como ela estava em forma. As mãos enroladas em faixas e ate alguns adesivos analgésicos nos braços me revelavam o quanto ela levava a sério o treinamento já que a dor parecia ser um objetivo a evitar julgando pelo balde de gelo em um cantinho ao seu lado. Detalhes que notei bem durante minha analise. Ela se aproximou tanto de mim que de onde eu estava eu podia sentir seu calor. Estávamos a centímetros uma da outra.

--o que foi?—perguntou ela bem intimidadora por invadir seu território.

--nada.—lancei meu olhar para longe dela fugindo dos seus tão fixos a mim.

--ninguém fica me encarando por nada e os que fazem isso estão enterrados.

--se você diz..sobre Lina..

--ela esta bem. Vai poder bater sua siririca por mais um dia. Como se eu fosse cortar mesmo os dedos dela.—ela se afastou voltando ao que estava fazendo e pude respirar aliviada.

--de você eu espero tudo.

--Lina é a pessoa mais próxima que tenho depois de sua mãe. Ela foi a única que queria estar perto de mim quando toda a merda aconteceu. Depois que virei a dona do morro da prata.(rs) e eu a coloquei para fazer tantas coisas..coisas que ela jamais contaria a você. Coisas que se eu mandasse ela obedeceria e sequer hesitaria. Ela é um alvo assim como eu por isso todos nos evita, todos tem medo da gente. Lina é tão brutal quanto eu.Ela sem dedos não me serviria de nada.

--ela não se importa..não se ficou tanto tempo com você.

--ela não tinha ninguém. Você tem sua mãe para chorar por você.

--falando nela, minha mãe quer sair mais tarde..

--eu sei. Ela me chamou.

--você vai?..mesmo?—aquilo foi uma surpresa. Não achei que ela iria aceitar dar uma volta com a gente.

--(rs) por que? Você vai também?—perguntou ela interessada da mesma maneira.

--vou é claro.

--(rs)...pensei que íamos sozinhas.—ela avaliou tudo com um maldito sorriso no rosto e era obvio que ela já estava pensando besteira da minha mãe.

--(rs) sabe que esta se enganando de novo né?

--sei e seria bom dividir o quarto com mais alguém..não acha?

Aquele sarcasmo era pior do que ver ela em fúria. Eram momentos como esse que toda raiva que eu podia sentir por ela eu sentia tudo de uma vez.

--se vai ficar com raiva de mim entra na fila mas faz um favor vem preparada. Vem aqui.—ela me chamou para o interior da academia e tentei não me irritar.

Ela riu tirando as luvas e sem temer caminhei ate ela. Marga pegou minhas mãos e colocou uma luva em cada. Elas eram pequenas e não iguais as de boxe que eu costumava ver por ai. Eram leves mas eu sentia a diferença.

--não tenho nada para ensinar a você é só bater.—ela se posicionou atrás do saco o segurando e eu fechei bem os punhos.

--posso fingir que é você?

--vou adorar.

Eu soquei o primeiro golpe, o segundo parecia fácil demais e foi ai que ela empurrou o saco e me acertou.

--viu só o que acontece se você se meter em uma briga? Ou achou mesmo que ele ia ficar aqui parado? Apanhando calado.

Apesar de estar dolorida depois daquela eu me coloquei novamente para socar e mais uma vez ela me bateu e mais uma vez e mais uma vez ate me fazer desviar da maneira certa o que não demorou mais que uns cinco golpes dela.

--você esta aprendendo mas ainda tem muito o que fazer.—ela me bateu novamente com o saco  de pancadas e nessa não teve como desviar. Ela estava adorando e minha paciência acabando.—da próxima você se defende assim..—ela veio ate mim e me ensinou o jeito certo de posicionar meu braço para uma defesa.—dificilmente alguém vai socar sua cara dessa forma.

Meus braços e ante pulsos já estavam doloridos dos impactos mas me propus a ficar ali aprendendo com ela.

--vocês estão ai.—minha mãe apareceu com um sorriso no rosto que logo sumiu ao ver Marga segurando meus pulsos próximo da minha cabeça e para ela parecia loucura já que bufou em um suspiro..—o que pensa que esta fazendo Marga?—o tom dela não estava nada agradável.

--ensinando a garota.—calmamente ela respondeu.

--ela não precisa aprender isso.—era nítido que minha mãe havia se irritado.

--sua garota burra vai acabar me colocando em problemas mais cedo ou mais tarde. Pelo menos quando isso acontecer ela vai pelo menos saber se defender.

--eu já te disse Marga, você não vai recrutar minha filha.eu não quero você colocando ela para ser sua nova Lina, braço direito ou esquerdo, nada!

--não recrutaria essa idiota nem que me pagasse. —eu tive que olhar desacreditada pra Marga.

--hey eu ainda to aqui!!e que merda de historia é essa?—falei.

--Marga sonha com alguém inteligente ajudando ela com esse morro.

--você ta praticamente chamando Lina de burra.—retrucou Marga cruzando os braços.

--ela é quando quer! E você faz ela se esquecer que de rainha você só manda aqui.

Marga riu debochada parecia que minha mãe não sabia um terço de nada.

--eu mando só no morro? que piada Helena.

--não quero que você machuque Mari.

--eu não vou. Somos grandes amigas já.—Marga me puxou e nem parecia que estava me chamando de burra a segundos atrás. Pousou sem braço sobre meus ombros e me apertou. Pensei que não pudesse piorar ela vem e me beija na bochecha. Seus lábios estavam gelados e se fosse somente aquela vez ela veio de novo e parecia que minha pele tinha aquecido sua boca. O que estava acontecendo? Minha cara brava fez minha mãe me puxar dos braços dela e me envolver nos dela. Ai que briguinha!

--(rs) você é uma idiota.—dissera ela a Marga.

--ta vendo? Fala assim de mim na frente dela e essa nojentinha vai ficar cheia de liberdades comigo.—ela me olhou torto mas tentei não ligar.

--ai eu não quero discutir. Hoje eu quero me divertir.

--devo te lembrar que ficar saindo por ai não é muito a minha praia. Ainda mais em grupinho.

--ué?você é a dona do morro da prata não é?(rs) nada vai nos acontecer estando com você.—minha mãe nos deixou e eu tive que me segurar para não rir. Marga estava sem fala e minha mãe partiu toda animada.

--nada vai nos acontecer..—repeti adorando essa parte que tanto preocupava Marga.

--e não vai mesmo. Aquela policial não vai entrar no meu morro.

--então é por isso que esta tão preocupada com a gente. Esta com medo que ela nos ache ou melhor seu esconderijo.(rs) quanto tempo essa mulher esta atrás de você?—perguntei e ela me olhou surpresa em seu silencio.

--(rs)..—ela não tinha como esconder que era justamente sobre aquilo que a incomodava ao pensar em sair por ai,só que rir a toa de Marga nunca era uma boa ideia e com isso ela me socou na barriga. Foi ate leve apesar de um pouco dolorido.

Só sei que a noite chegou e me arrumei como minha mãe tinha pedido.um jeans,uma blusinha de alça preta e um salto era o suficiente.me maquiei, caprichei no delineador e penteei bem meus cabelos jogando de lado. Adorava como minhas mechas mais claras ficavam.de todo modo, eu sempre me preservava com um elástico no pulso caso precisasse amarra-lo. Olhando pra mim no espelho tudo parecia ir bem demais.

Íamos jantar no restaurante de Hyung o que não era sempre mas todo mundo que ia fazia questão de ir muito bem vestido. Hyung era de uma família vinda de Okinawa e com seus pais altamente tradicionais mas falidos trouxeram ao morro da prata suas deliciosas receitas japonesas. Ela com seus 25 já sabe de cor todas as receitas de família e comanda o restaurante dragão vermelho. Ainda me lembro dos dias que trabalhei para ela lavando os pratos e ela sempre me esperava terminar tudo para fechar o restaurante com ela. Também me lembro das fofocas ao redor do seu nome, algo que também nos uniu. Diziam que ela era filha de um caso vindo da coreia porem era a filha favorita e mais velha da família e super respeitada. Enfim, a chuva era apenas uma lembrança da tarde e agora o céu escuro estava mais que estrelado. Fui para a sala de estar e encontrei Lina com seu tênis bonitão e short jeans claro e sua camisa florida de botão. Ela estava linda.

Ela olhou para mim e por alguma razão conteve o sorriso.

--você esta bem?—perguntei.

--claro. Aquilo não foi nada.—ela me mostrou a mão e o furo da faca quase era invisível além do vermelhidão.

--não deveria deixar Marga fazer essas coisas com você.

--(rs) fico feliz que..você se preocupe comigo mas Marga e eu já saímos no soco se quer saber. Ela finge que ta com raiva e eu finjo que to com medo.

--finge é?—Marga apareceu descendo as escadas já com os ouvidos atentos ao nosso papo.

Seu cabelo como sempre estava impecavelmente ajeitado e alinhado, a cor preta dos fios estava brilhante. Ela não estava tão diferente de mim tirando a jaqueta jeans e o coturno preto.

--(rs) linda como sempre.—Lina elogiou desviando do assunto e Marga se dirigiu ao sofá e se atirou nele.

--sua mãe vai demorar muito?—perguntou ela pra mim enquanto conferia as unhas.

--vai depender do quanto ela esta afim..—ela me olhou e vi que aquele ar esperançoso voltou ao seu semblante e ate quase um sorriso quando fiz questão de sentar no sofá ao lado.—de ir é claro.—ela revirou os olhos e virando a cara e de uma certa forma era bom ver ela bravinha.

--pois eu sempre estou afim de ir na Hyung.—Lina sentou ao meu lado e claro não deixou de pousar seu braço sobre o meu ombro e com isso Marga logo voltou sua atenção a nós.

--conhece Hyung?—perguntei a Lina.

--se conheço?(rs) ela tenta se enganar dizendo que não gosta de mim MAS esse ser ainda não existe na terra. É tipo impossível alguém não gostar de mim!(rs)

De repente minha mãe desceu as escadarias com um vestido florido e o cabelo magnifico. Seu sorriso brilhava e pela maquiagem bem feita eu sabia que ela bem animada com esse passeio.

 Marga de mim olhou para ela e na hora se ergueu do sofá. Ela era daquelas que adorava esconder seus sentimentos então ficou ali séria tentando controlar cada sorriso que dava.

--sua mãe ate que é gostosa.

Olhei para Lina e ela me lançou um sorriso.

--to brincando.

--então, vamos?—perguntou minha mãe botando no ombro a alça de sua bolsa.

--só to aceitando isso porque me pediu com carinho.(rs) não gosto de ficar andando pelo morro.—disse Marga e minha mãe soltou um riso.

--desde quando?—perguntou ela desconfiada.

--(rs) pra quê ela ia querer?—perguntou Lina.—ela tem tudo aqui.

--e qual a graça? Não tem ninguém.—falei.

--não preciso de ninguém.—respondeu Marga a mim.

Marga tomou nossa frente e saímos em grupo.

O morro da prata definitivamente não era um morro qualquer era uma cidade dentro de outra cidade. Um lugar único com seus becos e que em qualquer escolha que fizesse entraria em um lugar totalmente diferente do outro, com seus detalhes humildes porem cheio de cores. Marga estava no topo, mas tínhamos uma cadeia alimentar para nós, pobres plebeus.

Hyung e sua família podiam ter chegado ao morro sozinhos porem as coisas deram tão certo para eles que logo as casas do alto se tornaram como parte de outro pais. Era lindo andar pelos becos e ver toda aquela decoração de luzes e lojas que surgiam a cada esquina, muitos de sua família. Era como ir ao Japão em poucos minutos. Minha mãe logo se juntou a Marga e iam a frente conversando e Lina ia bem do meu lado. Ela tinha um sorriso incomum no rosto olhando para mim.

--o que foi?—perguntei.

--ela surtou com seu boy?

--não.

--que coisa estranha..

--por que?

--..(rs) nada não.

--então não vejo porque a surpresa.

--ela sempre surtou com sua mãe sobre qualquer homem perto dela. O engraçado é que parece que isso passou para você também.

--não acho.

--depois daquele surto dela comigo?

Lina abriu mais uma vez seu sorrisinho e me puxando para perto pousou mais uma vez seu braço sobre meus ombros e riu alto. Marga que estava tão concentrada no papo com minha mãe fez questão de virar seu olhar a nós para dar uma conferida. Foi impressionante, depois de mais alguns passos e mais uma conversinha com minha mãe eu vi minha mãe virar e me esperar para andar do meu lado. Lina nem fizera questão de dizer uma palavra e avançou para acompanhar Marga mais a frente.

--O que ta rolando?—minha mãe perguntou baixinho e ate estranhei.

--eu não to fazendo nada. Você tá?

--(rs) eu já falei que não quero mais nada com Marga além da nossa boa e velha amizade mas Lina Mari (rs) ela não quer bem isso com você.

--ela ta sendo legal e amiga também.

--ela ta querendo te pegar isso sim e se acha que ser legal é sinal para minha aprovação você ta muito enganada.

--(rs) calma ai mamãe. Por enquanto eu e Mari somos só amiguinhas.—disse Lina virando-se para a gente com seu sorriso e me puxando para seguirmos na frente.

--viu só? Até disso ela vai suspeitar.—Lina disse isso no meu ouvido e olhamos para trás e as duas estavam lá com cara feia e tivemos que rir baixinho e contido.

Não posso negar que era divertido fazer aquilo com Marga e Lina sabia como mexer seus pauzinhos. Era possível ouvir ela reclamando com minha mãe o que só confirmou o que Lina dizia.

Logo chegamos ao restaurante da Hyung. Ele era todo esquematizado para se parecer com um templo então vermelho e preto e o tom de madeira eram predominantes e já na entrada vimos que estava lotado.

--Lina e Helena poderiam procurar Hyung e pedir pela melhor mesa dela? Ela saberá o que fazer.—pediu Marga e minha mãe calmamente aceitou.

As duas trocaram olhares e adentraram e nisso Marga olhou bem para mim, diria ate que no fundo dos meus olhos com aquele jeito ameaçador. Tentei não ligar olhando para outra coisa mas ela pegou no meu queixo e virou minha atenção a ela.

--esta tentando me irritar e esta conseguindo.—ela falou e tive que puxar meu rosto daquela mão.

--ah claro porque agora você me comprou né? Eu tenho que fazer tudo que você quer.

--quem me dera. Seria tão bom para minha paz.

--é por causa do garoto né?

--eu to cagando para o que faz naquela merda de faculdade. Quer dar para ele dá. Não vou te impedir.

--(rs) eu acabei de conhecer ele.

--(rs) ah claro. Da mesma forma que você se ilude com Lina?

--do jeito que você é já deve estar ciente que não vou ter nada com Lina. Desde o começo você nunca implicou mas desde que ela te contou do garoto você ta surtando.

Minha mãe voltou acompanhada de Lina e Hyung e tive que fingir que não estava discutindo já que a bonita da Marga se colocou como desinteressada a tudo que vinha de mim com aquela pose orgulhosa.

--Marga, seja bem vinda e bem vinda a todas.venham comigo.—Hyung cumprimentou a todas e nos guiou.

Ela percorreu boa parte do restaurante ate a escadaria para o primeiro andar onde permanecia vazio.

--espero que gostem da comida. Temos pratos maravilhosos hoje e é muito bom ver você novamente Mari, ainda mais viva.—disse ela a mim e Marga lançou um olhar cheio de seriedade.

--o que é isso? Virei o monstro da historia?—reclamou Marga a Hyung e infelizmente Hyung era corajosa demais para abaixar a cabeça e preferiu encarar o olhar de Marga do que calar-se.

--ta mais para fera. O morro todo ta comentando do que aconteceu.

Marga suspirou e subiu as escadas ignorando Hyung e minha mãe assim como Lina subiram para acompanha-la.

--você realmente esta bem?—perguntou Hyung e seu semblante mudou completamente.

--estou é claro.—falei tentando acalma-la.

--todo mundo fala mil coisas e isso me deixou bem preocupada.

--não somos reféns e muito menos estamos lá obrigada.só..não tínhamos mais para onde ir e minha mãe fez as honras.eu nem sabia que eram amigas.

--isso me deixa um pouco mais aliviada. suba, antes que ela reclame.

Subi e eu ainda me impressionava com o que Hyung e sua família fizeram naquele lugar. Era praticamente um restaurante de luxo de tão perfeito.

--ai Mari,me passa o numero da Hyung?—pediu Lina com uma carinha de criança marota e os olhos a brilhar. Dava pra ver de longe seu interesse por ela.

--(rs) de forma alguma. Ela jamais me perdoaria.—respondi reparando na forma que aquela mesa tomou.

Minha mãe de um lado com Lina e Marga de outro sozinha com a mão no queixo rindo da de Lina e sua cara implorando pra mim.

--ta vendo Marga. Você fica fazendo minha fama por ai ta vendo que acontece?!—embirrou Lina.

--agora a culpa é minha? Você que não consegue manter nenhum relacionamento. Sempre procurando qual a grama mais verde para ciscar..—respondeu Marga.

--o que mais me impressiona é você ter feito Hyung reservar uma mesa tão boa como essa pra gente..da pra ver todo o restaurante daqui.—me sentei ao lado de Marga olhando tudo ao meu redor e toda sua estética oriental.

--(rs) a família dela chegou aqui sem nada mas cheia de ideias. O avô e o pai tinham um dojo no Japão e o velho sabia fazer espadas samurais. Eu sempre gostei de espadas então dei a eles o que eles queriam.—disse Marga tranquilamente.

--por uma espada?—perguntou minha mãe.

--(rs) o velhote me treinou a usar facas e todas as armas com uma boa lamina afiada. Foi uma semana foda.logo a família aumentou e eu precisava de pessoas na minha equipe. Ainda bem que gente não falta e as mulheres asiáticas sabem preparar o melhor picadinho de gente que já vi.(rs)—Marga se deliciava contando suas historias e era impressionante cada uma delas.

--se lembra daquele cara que a Yozora fez?—perguntou Lina e já me preocupei com todo o resto da conversa e minha mãe pela cara pasma a mesma coisa.

--(rs) lembro, ele já veio temperado.—as duas riam e minha mãe e eu tentávamos não imaginar a cena.

--a gente vai comer suas idiotas.—reclamou minha mãe com toda a razão.

Hyung voltou trazendo seus ajudantes e o melhor que seu restaurante podia oferecer.

--aproveitem.

Era uma enorme barca cheia de peças de sushi que encantou nossos olhos e a garrafa de saquê era bem tradicional e vinda diretamente do Japão. Parecia um item raro encima da mesa. O lamen foi preparado na nossa frente e o cheiro da sopa de missô abriu meu estomago.

--itadakimasu que fala né?—perguntou Lina a Hyung que apenas acenou. Parecia nervosa com Marga mas Marga sequer se importava com ela.

--espero que tudo esteja do agrado de vocês e qualquer problema pode me chamar.—dissera ela pronta para sair.

--eu tenho um problema.—disse Marga atraindo nossos olhares a ela.

Hyung ate paralisou na espera.

--o peixe ta cru.—Marga riu e Hyung respirou fundo e saiu com seus ajudantes.

Enquanto ela e Lina riam minha mãe fez cara feia.

--precisava disso?—perguntou minha mãe a Marga.

--ela não tem humor?—respondeu ela.

--posso saber se tem alguém aqui do morro que você não já ajudou?—perguntei.

--deixa eu pensar.....não. Todo mundo come aqui na minha mão.—respondeu ela orgulhosa.

--como é que come com esses palitinhos?!—Lina estava toda atrapalhada com os hashis.

--é só unir eles Lina.—expliquei mas ela ainda tava complicada.

--pra comer macarrão!? Fala sério! Palito de merda!

--olha a boca.—repreendeu Marga.

--são hashis.—falei mas Lina fincou seu hashi como se fosse um garfo no sushi e sua dificuldade para comer sumiu.

--e la vamos nós!—Lina enfiou o sushi inteiro na boca e eu me segurei para não rir.

--menina não faz isso!—minha mãe puxou o hashi da mão dela e ficaram numa luta pela posse dele.

--o que??—reclamou Lina tendo o hashi tomado por ela.

--é assim que se pega no pauzinho.—minha mãe mostrou perfeitamente como segurá-los e Lina depois de assistir soltou um sorrisinho.

--(rs) pegar no pau? cê ta doida!—brincou ela e era uma moleca.

--presta atenção é assim.—minha mãe ajeitou os hashis na mão dela e começou a ensinar Lina e não parou mais de falar e Lina ouvia a tudo como uma boa aluna debochada.

Foi apenas o barulho do pedaço de carne jogado na chapa da mesa pela Marga que a fumaça subiu e ela parecia bem mais concentrada em seus pensamentos com sua seriedade do que nelas.

Ela olhou para mim e por um momento eu esqueci da dupla atrapalhada do outro lado da mesa.

--isso foi uma surpresa também para você? O que fazemos com aqueles que nos contrariam?—perguntou ela a mim.

--(rs) por que quer me impressionar com as estruturas do seu reino do medo?

--(rs) essa é ótima. Reino do medo. A visão que você tem de mim é bizarra. Eu tenho sentimentos também.

--recebe uma grana dessas pessoas.

--uma grana justa. Eu não ganho dinheiro com pó.

--é uma coisa que eu ainda não acredito.

--sabe com o que eu trabalho? Chega a ser uma piada essa acusação sua. Armas! O morro da prata é impenetrável e eu gosto muito dessa palavra ultimamente porque pode não parecer mas eu me preocupo com essas pessoas.

--é mesmo?

--você não faz ideia.

--mas eles tem medo de você Marga. Hyung estava branca.

--eu não posso fazer nada em relação a isso. Passa com o tempo. Lina segura essa merda de hashi direito!

De repente ouvimos algo pesado cair no andar abaixo e víramos nossos olhos para espiar por cima do parapeito.

Lina riu mas eu me preocupei.

--olha só, um cara gordo ta enfartando.—ela era a única que sorria vendo aquilo mas ele não estava enfartando.

--não é isso.—me ergui da cadeira e corri ate o andar abaixo.

O homem estava se contorcendo no piso ficando vermelho implorando por um pouco de ar. A aglomeração já estava feita ao redor dele e nisso abri caminho.

--Hyung peça para que se afastem.—pedi ao me aproximar do cara.

--vamos pessoal!!façam o que Mari pediu.

Ele desmaiou no piso e pude verificar melhor do que se tratava.

--ele é alérgico a algo que comeu. A garganta dele ta travada.

Eu tinha que ser rápida e pensar em algo. Logo Marga e Lina e minha mãe apareceram e minha mãe já estava surtando.

--anda Mari, você quer ser medica. Salva o gordão pra gente ver.—Marga falou e quando olhei para ela eu sentia o quanto ela estava adorando meu desespero. Ela estava me desconcentrando, mas eu sabia exatamente o que fazer.

--eu preciso de uma caneta.—falei tentando manter minha calma e Hyung assim como todo mundo exibiram suas caras confusas.

Hyung correu para pegar uma e em japonês colocou seus empregados para procurar também.

--será possível que ninguém tem uma caneta aqui?!—reclamou Lina atenta as pessoas que mexiam nos bolsos.

--eu tenho!—uma mulher apareceu no cerco e com uma caneta esferográfica ela me entregou assustada.

Com a caneta já em minhas mãos eu tirei o tubo de tinta e sua ponta e tampa ficando apenas com a casca de acrílico nas mãos. Eu tinha que furar o seu pescoço porem inserir aquela caneta nele estava me deixando mais nervosa ainda. Minha mão tremia para posicionar a ponta sobre a pele e apesar de nunca ter machucado alguém ao ponto de furar uma pessoa eu sabia que era necessário agora.

--anda Mari! O cara ta ficando roxo!!

--para de apressar ela Lina!—retrucou minha mãe também nervosa.

--ela não sabe fazer.—disse uma mulher e logo mais uma e outro começaram a falar e o pouco da minha concentração estava se perdendo.

De repente Marga apareceu do meu lado e se abaixou tomando da minha mão a caneta e cravando exatamente onde eu havia demarcado. Ela sequer hesitou e o ar que estava preso nos pulmões do tal homem saiu como um assovio baixo por dentro da caneta. Ele voltou a respirar e eu sequer tinha reação para isso. Os aplausos vieram mas eu olhei para Marga e ela ainda esperava de mim algo que explicasse tudo aquilo.

--a ambulância já esta vindo.—disse Hyung porem isso não me tranquilizava.

--deixem ele..na mesma posição.—falei e com tantos olhares sobre mim eu me senti uma idiota por não conseguir ajuda-lo direito e assim que vi que estava tudo bem,a ambulância tinha chegado e levado ele eu só queria deixar aquele restaurante.

Virei meus passos para longe dali e procurando minha bombinha no bolso. Era bom sentir o peito mais leve depois daquele susto e se não fosse por Marga eu sequer tinha conseguido.

--espera.—ouvi ela me chamando alguns metros atrás mas não queria parar.

--filha!—minha mãe gritou e assim que virei meu olhar a elas vi Marga falar com Lina e pelo visto ordenou ela a levar minha mãe de volta para o esconderijo de Marga.  Eu queria muito que todas tivessem ido mas Marga apressou o passo ate mim.

--o que foi aquilo? Estava indo muito bem ate a parte quando decidiu não fazer.—disse Marga curiosa mas eu não queria falar daquilo.

--eu ia furar ele com a porra de uma caneta!—virei a ela e quase desmoronei.eu podia sentir meus olhos se enchendo mas de forma alguma eu ia chorar pra ela.

--não achei tão difícil.

--essa é a diferença entre mim e você. Você sente gosto nisso eu não.

--assim pareço uma maníaca. Eu faço porque é preciso. Aquilo foi preciso e uma hora você vai ter que fazer.se quer ser medica vai ter que fazer.

--eu sei..é que todo aquele sangue..me faz pensar em muita coisa.

--não era tanto. Foi uma grande ideia. Você foi rápida e salvou aquele homem.

--não,foi você.

--porra me escuta..eu só fiz um furo já você foi genial.

Era estranho ver Marga tentando me consolar e mais ainda ver que ela havia conseguido. Foi então que vi minha mãe e Lina retornarem descendo a rua vindo ate nós.

--você ta bem?—minha mãe me abraçou e quase não me soltou.

--to mãe.

--desculpa Marga,Helena é difícil de domar.—se justificou Lina.

--eu não ia deixar minha filha ter uma crise sozinha.

--mãe eu não to tendo nenhuma crise ok.eu só..

--arregou.

--(rs)

--Sem Mari aquele homem tinha morrido. Essa é a verdade que conheço. Foi brilhante a ideia e um dia você vai superar esse medo eu sei que vai e vai ser a melhor medica deste mundo.—minha mãe conseguiu arrancar um sorriso meu e ela era demais.

--que exagero.—dissera Marga cruzando os braços tentando estragar aquele momento feliz.

--cala a boca Marga.—retrucou minha mãe e ela me encarou.

--só estou dizendo que se tem medo de um sanguezinho talvez isso demore.

--você é um saco Marga.—respondi e ela gargalhou.

--(rs) eu mais que ninguém estou esperando você conseguir fazer isso. Tirar um pouco de sangue seja como for.—Marga me deu alguns tapinhas nas costas e sempre com sua mão pesada me puxou com seu braço sobre meu ombro.—e já que salvou aquele balofo, a gente bem que poderia curtir lá no baile né? Já que estamos nessa de rolê pelo morro. O que acha Lina?

--uma bebidinha vai ser a melhor coisa.eu sei fazer uma parada com frutas e vodca vão adorar.

--bebida não é comigo..

--ta na hora de experimentar algo novo. Bora curtir!—Lina falou e eu já me preocupava com esse rolê.

Notas finais:

dessa vez o capitulo foi daquele jeito,grandão nervoso!!

temos mais uma nova personagem na historia, seja bem vinda Hyung e já começamos com a unica certeza nessa historia,se tem essas quatro em qualquer lugar teremos um problema. Mari foi rapida ajudando o cara e Marga viu um pouco do potencial da menina apesar do seu medo do sangue. por sorte o date ainda não acabou então nos vemos no proximo capitulo.bjs amo vcs!!



Comentários


Nome: olivia (Assinado) · Data: 16/07/2021 13:05 · Para: Capitulo 8 SAVE THE DATE

Bom dia autora, estou acompanhando seu romance cheio de explosão e emoção! Você está de parabéns  mulheres corajosas e destemidas ,lindas! Trabalho impecável! Pena que, não tenho ânimo de fazer comentários!! Parabéns ,vai lá na Faculdade quebra o pau sem a Mari saber!!??’???’???’???’???????????????????????’?



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