Fronteiras por millah


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No outro dia acordei com o barulho de helicópteros sobrevoando o morro. Eram seis e dez da manha e aquele movimento em um dia normal era sinal de invasão da policia ao morro. Por isso abri a janela mas diferente de um dia comum eles não sobrevoavam o morro eles simplesmente passavam.

Era como uma fuga da cidade dos milionários. O céu azul estava tomado por helicópteros que partiam todos para a mesma direção. Era arrepiante. Como se naquela grande cidade não existisse mais a esperança de uma vida normal. Sei que pedir isso é demais depois do jornal alarmante de ontem, mas pareciam que todos tinham combinado de fugir para o mesmo lugar.

Me arrumei, meu jeans, minha camisa de manga longa, meu tênis all star ate um pouco surrado e estava pronta. Peguei minha bolsa transversal com minhas anotações e anotações de Roberta e de saída do quarto, abri a porta e para susto meu dei de cara com Marga a minha espera.

Ela estava recostada na parede do corredor e me olhou nada surpresa mas pra mim logicamente ver ela ali tão cedo foi.

--bom dia.—disse ela em sua calmaria.

--bom..dia.—respondi fechando a porta e ela desencostou da parede e me acompanhou.—o que aconteceu?

--temos um encontro antes de ir ao posto.

Marga tomou a frente, descendo as escadas e eu a segui mesmo relutante.

Ao chegar no térreo não vi minha mãe e a sala e a cozinha estavam um silencio como nunca vi.

--sua mãe já amanheceu nos portões.(rs) para alguém relutante ela foi a primeira a acordar da casa.

--não quero que ela se machuque com essa historia.

--há essa hora, ela já organizou todas as minas do morro. E era o que eu realmente precisava. Essas putas dão muito trabalho. São respondonas, briguentas e se eu não arranco a orelha de uma ninguém me obedece. O azar delas é que gosto de arrancar orelhas.

Marga me levou ate a quadra esportiva de futebol do clube do morro onde Lina já se encontrava na quadra e a arquibancada estava cheia de moradores que assim que nos viram transformaram a boa conversa em um palco atento a dona do morro.

Marga pelo visto adorou a obediência que o sorriso se abriu fácil no rosto. Já eu odiei estar na frente de tanta gente.

--sei que querem saber sobre os portões e a nova rotina e ela é bem fácil de lembrar. Os portões permanecerão fechados ate a onda de insanidade da react passar. As minas se encarregarão que nada entre ou saia sem minha permissão. Sei que muitos tem famílias e empregos que sustentam suas casas mas depois do que vimos ontem não posso correr o risco de deixa-los abertos e muito menos ter este tipo de circulação. Mari pode explicar bem o porque mas acho que depois daqueles vídeos no jornal sei que não é preciso. Por isso quem não estiver a vontade em ficar se apresentem a um dos portões e saiam do meu morro.—Marga foi fria e direta o que me surpreendeu.

Um burburinho se iniciou e algumas mãos foram levantadas bem temerosas.

--quanto tempo isso vai durar?—perguntou um cara.

--porra,se eu soubesse não estaria aqui fazendo essa reunião. Estou aqui para deixa-los cientes de que se ficarem teremos suprimentos, água e proteção contra os novos contaminados.—respondeu Marga e era uma resposta muito valida.

--e as pessoas doentes no posto? Podem se tornar violentas??—perguntou uma mulher.

Marga olhou para mim e Lina me empurrou mais para frente ao seu lado.

--os contaminados do posto estão se debilitando a cada estagio. O estagio um é controlável a base de antibióticos e alguns já saíram livres da doença. O estagio dois se tornou um meio da doença evoluir e estamos conseguindo manter os pacientes vivos. Estes que vimos na tv são de outro tipo de infecção, são mordidas vindas de um estagio a frente. Temos uma paciente mordida mas por um cão e o tempo de reação não é o mesmo e ela ainda se mantem lucida. Estas pessoas da tv, se transformam em outra coisa além da humana. Por isso é de vital importância não sair do morro.—avisei e as vozes entre eles começaram.

Todos me olhavam tão apreensivos e eu sabia que tinha assustado todos ate mesmo os mais descrentes.

--temos alguma chance lá fora?—perguntou outro a mim.

--a cidade ta um caos! Todo mundo ta fugindo pra fora da cidade.—respondeu Lina e o burburinho recomeçou.

--por isso é vital, haverá aglomeração e esses contaminados..—enquanto falava Marga me cortou.

--zumbis.—dissera ela e isso era besteira.

--o que?

--são zumbis.

--eu não vou dizer isso!

--mas são!

--é assustador.

--esses putos, vão atrás de toda baderna que tiver pela cidade. O alarde já esta feito. Vai ter roubos, saques e a policia com toda certeza não esta controlando nada la fora. Viram os helicópteros??Todos os ricaços caíram fora daqui. Ficamos para trás e nossa única opção é ficar aqui seguros ou lá fora sobrevivendo.—Marga sempre direta e ela estava certa. A cidade estava se afundando se o clima não melhorasse.

Mais um burburinho e dessa vez parecia que o discurso fizera efeito. Pelo menos na maioria.

--deveria trazer ela mais vezes nos seus discursos. Só assim não termina em tiroteio.—disse Lina a Marga e tomei como elogio.

--parece que a maioria vai ficar.—falei baixinho as duas.

--veremos os outros moradores.

Repetimos o mesmo discurso mais duas vezes. O bairro latino já tinha aceitado nosso plano e os asiáticos também não recusaram ajudar e se manter protegidos dentro do morro da prata e finalmente o bairro leste que era composto de moradores locais e apesar das inúmeras perguntas Marga foi enérgica e pôs ordem na casa.

Eles estavam revoltados o que só deixou a certeza que a baixa de pessoas no morro não seria tão baixa.

--Lina, certifique-se de que todos que vão sair não retornem.—Marga depois do discurso estava puta.

--do jeito que estão indo..não vão nem olhar pra trás.INGRATOS!!—gritou Lina irritada.

--agora tenho que ir ao posto.—falei mas não tinha mais a mesma animação de antes, na verdade um certo enjoo na barriga já me torturava.

--eu vou com você.—disse Marga prontamente e ela estava virando um ponto de interrogação pra mim.

Ontem ela viu bem o quanto pensar em ir ao posto tinha me apavorado depois das péssimas noticias sobre a react e agora estávamos caminhando juntas ate o posto e como sempre em silencio. Ela bem séria aproveitando seu cigarro e eu toda confusa. Eu não via outro motivo além deste com tantas coisas para ela se ocupar e deveres que exigiam sua atenção. Marga queria se certificar que eu ficaria bem e por enquanto estava me ajudando.

Chegando ao posto encontramos com Esteban na recepção e Marga logo apagou seu cigarro. A sala de espera já continha mais alguns pacientes que ele já os encaminhava para o preparo de internação.

--bom dia Mari,Marga.

--bom dia Esteban.como vão os pacientes?—perguntei.

--...mais alguns pacientes do estagio dois não sobreviveram a noite, no total seis.eu já liguei para o serviço do controle de doenças mas me colocaram em uma lista de espera.

--eles não virão.—disse Marga e pela seriedade conseguiu me convencer.

--o que?—Esteban por outro lado ainda tinha duvidas.

--eu tenho certeza.—respondeu ela convicta.

--vamos manter os corpos nó necrotério bem lacrados..e quanto a Rita?—perguntei.

--o estagio três tem suas melhoras e pioras. A contaminação por animais é desastrosa mas lenta.se fosse pra morrer não pensaria duas vezes a qual escolher.—ele me entregou sua prancheta com os exames dela e realmente Rita estava sendo muito forte enfrentando tantos dias de agonia.

--não diga isso Esteban.—falei e caminhamos os três para o interior do posto.

--viu os ataques?—perguntou ele interessado.

--vimos.—Marga respondeu.

--soube que o risco de contaminação é assustador. Tem médicos no Japão recomendando cada coisa sinistra e nenhuma delas funciona.

--tipo o que?—perguntei.

--..amputamento de membros mordidos e ate a morte de pacientes.um ato misericordioso. Essa gente ta sofrendo tendo paranoias e ate apagões, mata-los vai contra qualquer juramento que fazemos.

--(rs) acredite, quando chegar a hora de ver um daqueles cara a cara vai esquecer seu juramento rapidinho.—Marga ate se divertiu com aquele papo mas as lembranças ainda estavam frescas demais para mim.

--tivemos sorte ontem.—falei enjoada.

--viram um de perto?—perguntou ele curioso.

--Marga matou um infectado e ele retornou furioso.

--o que?!?

--foi igual um filme de terror. Aquela cena onde o cara morre e minutos depois levanta do mundo dos mortos todo duro e esquisito, olhando direto para sua alma. (rs)  funcionou a bala na cabeça. Por isso zumbi.—dissera ela e aquela palavra de novo.

--outra vez essa historia?—perguntei e esse lance de zumbi tava me incomodando.

--são como zumbis??isso deveria estar estampado em todos os jornais!!—retrucou Esteban curioso.

--são fortes e rápidos.se te pegarem você já era.—Marga dizia isso com muita animação parecia ate gostar do desafio de enfrentar aqueles infectados mas não tinha graça alguma.

--Marga para.—falei e ela sorriu pra mim,estava adorando meu terror a esses contaminados.

--me admira que tenha ficado no morro Esteban.

--(rs) você pira da noite para o dia com zumbis e eu que tenho que ir la pra fora?nah pelo menos aqui no morro estou ocupado.

--e sua família?—perguntei.

--estão bem, não se preocupem.

--o que vamos fazer hoje aqui?—Marga estava ansiosa por mais uma aventura com seus ‘zumbis’

--o que EU vou fazer hoje se chama autopsia.—falei.

Marga fechou seu sorriso mas continuou me seguindo pelo corredor assim como Esteban.

--lembra-se daquele corpo que reservamos? Vamos abri-lo.eu quero ver o que são os tumores.

--é pra já Mari.

Esteban trabalhou rápido para deixar o corpo reservado e frio pronto sobre a bancada de exames. As luzes fortes das luminárias sobre o corpo nu e azulado e inchado me fizera ver cada detalhe daquele corpo mesmo com um pouco de receio dele.

De luvas e bem protegida peguei o bisturi e ate Marga estava ansiosa para ver aquilo do outro lado da bancada. Engoli seco. Eu precisava abrir aquele homem ate os pulmões e não seria fácil examinar o que tinha dentro deles.

--dessa vez você me surpreendeu. Para quem tava morrendo de medo de vir aqui e enfrentar os doentes olha só a merda que você ta fazendo.—Marga lançou seu olhar pelo corpo todo e pra mim abrindo aquele cadáver.

--eu quero saber o que tem nesses pulmões. Por que a react evoluiu de bactéria viral para algo parasítico e porque justamente quando essas coisas apareceram este homem morreu.

--você viu o tamanho daqueles tumores. Seria impossível alguém sobreviver..

--Rita também os tem e ainda esta viva. Mesmo com a contaminação vinda por animais ela diferente de todos que tem esses tumores ainda resiste..

--e o filho da puta do marido dela? Já veio aqui?

--não.

--faz tempo que não vejo ele..

Marga calou-se e isso me ajudou a me concentrar mais naquela abertura torácica. Era impressionante diria ela com sua atenção tão voltada a cada corte meu naquele corpo tão gelado e inerte. Essa era a palavra chave. Inerte. Estava morto e não voltaria a vida como aquele guarda. Já tinha dias que estava ali no necrotério esperando seu destino final mas tirar isso da minha cabeça era mais difícil do que pensava. Parecia que a qualquer momento, a cada pedaço retirado ele levantaria e agarraria meu pescoço.

-- corta com vontade porque ele não ta sentindo nada.—disse Marga atenta.

--é um bisturi e não uma faca de açougue. —respondi.

--deveria ter mais fé no que faz.

--..disso sei que entende..e foi inevitável não ouvir.—lembrar dela rezando me deu uma paz apesar dela me encarando raivosa agora.

--escuta atrás de portas agora?—perguntou ela tentando não parecer interessada.

--eu gostei. Foi lindo. A entonação é claro..

--não deve ter ouvido tudo.

--que você era estranha eu já sabia, mas não que era de tão longe.

--minha família é..viemos da Espanha e da sua fabulosa elite para fugir de dividas e mais dividas de pais em pais perecendo aqui.—dissera ela sentando-se na bancada ao lado, nem parecia que com aquela conversa sobre sua vida abrindo um cadáver eu me veria tão entretida a ela.--Meu pai jamais acreditou que fazer negócios na Arábia pudesse afetar tanto sua fortuna. (rs) mas tínhamos que ajudar a família dizia ele. Ele levou uma rasteira. Quando chegamos aqui a pose de gente rica ainda estava de pé mas nossos bolsos estavam vazios.

--(rs) minha mãe te acha a maior riquinha.

--rica e porra nenhuma ao mesmo tempo. Pensei que Helena falasse de mim mais vezes..

--não mesmo, apenas me dizia para ficar bem longe.

--Quando conheci sua mãe na facul foi que o estalo aconteceu. Já tinha fugido de tanta merda de lá pra cá que eu só tenho a agradecer..ela me ensinou tanta coisa. Bons tempos.

--nem quero saber o quê.

Finalmente retirei um dos pulmões e o coloquei em uma bandeja. Marga fez cara feia mas engoli seco e continuei. Dava pra sentir o cheiro de podre mesmo de mascara mas eu não podia ter nojo por isso abri de uma vez aquele pulmão e já segurando ele enquanto cortava eu sentia os duros tumores embaixo da carne e quando finalmente o avistei me senti em um filme de terror de verdade.

Não era como um tumor normal. Era diferente de tudo que já vi. Parecia uma casca, algo feito para abrigar algo dentro dele como um casulo de borboleta, e como ainda estava selado, tratei de procurar outro e não foi difícil cutucar com os dedos por dentro do órgão e sentir mais um porem mais mole.

--que merda é essa?—Marga estava chocada.

--eu não sei. Parece que..—coloquei sobre a bandeja aquele negocio estranho e pegando uma pinça verifiquei o rasgo que continha neste tumor.—parece que foi rompido.

--não tinha dito que a react tinha evoluído? Que tipo de alien saiu dai?

--é o que quero saber.—peguei o bisturi novamente e cortei o primeiro tumor ainda selado e algo caiu morto para fora do pedaço que cortei.se assemelhava a uma ouriço do mar com tentáculos longos e pretos. Poderia ser um verme ou parasita mas nunca vi algo daquele tamanho dentro de um corpo humano e a pergunta que não queria calar era..onde estava o outro parasita?

--essa coisa é enorme.—Marga estava espantada e nem piscava vendo aquela coisa.

--tem dois tumores aqui mas só um tem essa coisa. Para onde foi o outro?—verifiquei ambos os pulmões e algo não estava certo. Aquela coisa tinha ido para algum lugar.

Marga e eu nos olhamos e acho que pensamos na mesma coisa pois nossos olhares viraram para a cabeça dele e foi impossível não pensar que aquele tiro que terminou nosso terror poderia ter sido algo além da nossa salvação mas que talvez Marga tivesse acertado o alvo certo.

--vai precisar de algo maior para abrir isso dai.

Revirei o armário de instrumentos e achei uma serra. Marga ate pulou da bancada para ver melhor se posicionando do meu lado.

--vai.—mandou ela e tive que encarar-la,ela tava ansiosa para me ver serrando a cabeça daquele cara.

--calma.—falei.eu precisava me preparar.

--esse cara ta morto há dias aqui. Se fosse pra ele levantar ele já tinha feito isso.

--eu sei!!só preciso me concentrar.

--então se concentre mais rápido.

--isso não é um coco é a cabeça de alguém.

--alguém bem morto, me da isso.—ela tentou pegar a serra da minha mão.

--não!—me afastei e ela bufou.

--então eu vou embora!

--Marga!!!

Marga parou antes de sair e não vou mentir eu só a chamei porque estava me cagando de medo.

Respirei fundo sob o olhar dela quando virou-se novamente a mim.

--não me deixa aqui.—pedi.

--eu sei que ta se borrando de medo.

--só me deixa ir com calma ok.

--é calma demais.

--então por que ta aqui? Tem muitos negócios que esperam pela atenção da dona do morro.

Ela não me respondeu e voltou ao seu lugar ao lado da bancada esperando por mim para iniciar o corte. Fui no meu tempo também.

Era preciso um corte de 360 graus cortando pele e crânio transformando-o em uma tampa.Marga era pura curiosidade e impaciência me olhando retirar o topo do crânio.ja eu não queria nem ver que tipo de coisa estaria ali quando afastei o pedaço do crânio do meu campo de visão.

--mas que merda é essa??—Marga falou e quando olhei aquela coisa bizarra me gelou.

O parasita estava alojado, agarrado com seus longos tentáculos ao cérebro e parecia bem acomodado. Era preto e cheio de espinhos que ele usava bem para se cravar a massa cinzenta e desta vez não achava que aquilo estivesse morto.

--me lembra aquelas estrelas do mar esquisitas.

--isso não tem nem logica!

Marga puxou o celular e digitou algo que segundos depois enfiou a tela na minha cara.

--estrelas quebradiças? São quase idênticos mas não acredito que estrelas do mar iam preferir trocar o mar para viver na cabeça de alguém. Essa coisa evoluiu a algo impensável. É diferente de tudo que já vi e sabendo do risco de contaminação e do seu estado final não duvido que tenha sido criada para fins...militares.

--então meus informantes não estavam tão errados.

--o cara que nos atacou. Ele tinha dito que foi mordido por alguém maluco possivelmente por mais um..zumbi? Porém essas coisas precisam de tempo para crescer e dominar o corpo, quando ele começou a sentir os primeiros sintomas da reação da mordida ele passou a sentir muita dor no braço.

--parecia que estava sendo invadido por algo.

--nunca vamos saber. Você o matou.

--(rs) pra salvar o rabo daquela loira safada!eu atirei bem na cabeça dele. Lanchinho preferido da coisinha ai.olha os olhos desse cara. Já reparou?

Olhei para o homem e seus olhos permaneciam abertos. Estavam tão brancos quanto a leite. O que era estranho.

--sabia que depois da morte, os olhos não duram mais que vinte horas para se decompor?—falei e Marga olhou para mim tão rápido que foi impossível não pensar que aquele cara pudesse nos aprontar uma boa surpresa naquela bancada.--acho melhor parar..

--é mesmo?—Marga perguntou mas sequer me deixou responder porque assim que abri a boca vi ela puxar uma faca escondida de sei lá onde e cravar no cérebro acertando em cheio aquele parasita.

--qual o seu problema??!!

--eu to me certificando que ele não vai interromper sua fabulosa autopsia.—parecia que ela tinha feito um corte em um queijo. Ela não sentia nada!!

--mas assim!!??eu acho que vou vomitar!—o sangue escorreu e a cabeça que antes firme balançou para o lado e a mandíbula do homem se abriu tortamente o deixando com um semblante horrível.

Eu tinha que ajeita-lo e com cautela arrumei a posição da sua cabeça e por incrível que pareça eu via a ponta da faca de Marga dentro da boca dele. Eu não tava só puta, mas ver ela puxando a faca de volta não melhorou em nada também.

--agora to tranquila.

Ela limpou a faca em uma flanela vermelha mas o que me impressionou foi ver o estrago que ela deixou. A boca dele não fechava mais e o cérebro nem se falava. Estava destruído.

--beleza. E agora?

--para de drama. Você abriu a cabeça dele com uma serra.

--francamente..

--você começou com essa parada de olhos. Eu não queria saber dessas merdas.

--então ta com medo também??

Ela não me respondeu, mas aquela carinha séria cheia de convicção de que estava sempre certa já me diziam que ela não ia voltar a trás e com uma lanterna foquei no interior da boca e para minha surpresa não havia somente uma perfuração de faca mas também outro furo no céu da boca.

--segura aqui.—entreguei a lanterna a Marga e peguei na bandeja uma pinça.

A boca não era tão grande mas saber que não precisaria me preocupar em meter minha mão dentro dela me deu um grande alivio pois com a pinça encontrei dentro do furo um dos tentáculos muito bem posicionado.eu realmente não entendia essa coisa.

--o que é essa coisa?

--mais um tentáculo. Tem uma ponta nele, eu não sei pra que serve.—fechei sua boca e o preparei para ensaca-lo de novo.

Marga por outro lado parecia cada vez mais curiosa a respeito desses contaminados e agora frustrada porque eu teria que finalizar aquele estudo.

--já que você fez questão de partir o cérebro do cara acho que vai fazer questão de ter esse espécime para exibir na prateleira.

Com a pinça retirei o parasita e coloquei ele dentro de um frasco. Nem comentei o quanto estava seguro no cérebro mas enfim ele estava ali dentro do frasco selado agora.

Marga olhou para aquilo com tanta fixação que era certeza que minhas palavras se tornariam verdade. Ela ia arrastar aquela coisa como um bibelô.

Assim que eu terminei de preparar o corpo novamente para guarda-lo Esteban apareceu com sua prancheta.

--aqui os resultados de hoje dos pacientes. A medicação que você indicou esta dando resultados positivos no estagio um.—disse ela me entregando a prancheta e já olhando para o frasco nas mãos de Marga.—que merda é essa??

--o monstro comedor de cérebro.—o tom misterioso fez a fama daquele parasita que Esteban encarava.

--os tumores eram uma forma de evoluir a bactéria parasítica a uma forma maior para alojar-se ao cérebro e do jeito que estava posicionada também acho que é uma forma mais rápida de contaminação. Um dos tentáculos estava saindo de dentro do céu da boca e o cara que foi mordido enlouqueceu em minutos talvez devido ao contato de alguma substancia que essa coisa soltou.

--evite falar desse bichinho para os pacientes principalmente para Rita. Ela estava muito agitada hoje. Ela diz que ouve o choro das famílias quando chegam no posto atrás dos pacientes.—Esteban nos contou e era péssima essa situação de Rita.

--será que ela já tem um bichinho desse de estimação?—perguntou Marga cruelmente.

--isso não é brincadeira Marga. Ela ta assustada e é surpreendente ela continuar viva depois do estagio dois e ainda mais estar com esses tumores prontos nos pulmões. Eu estaria em pânico!—respondi.

--ela é uma chata! tão chata que o maridão sumiu!

--deveriam procura-lo. Pode estar contaminado e escondendo sua situação.

--posso pedir Lina para verificar.

--se desses ovos existirem uma média para cada infectado acha que poderíamos tentar remove-los??com uma lobectomia??—perguntei a Esteban e ele pensou.

--retirar um dos pulmões afetados??..eu não sei, poderíamos tentar mas estamos em um posto de saúde básico só lembrando.

--e da pra viver com um pulmão?—perguntou Marga ainda brincando com o frasco.

 --...melhor do que morrer e virar aquele monstro.

--se vai transformar ela em merda nenhuma avisa antes. Só quero ver se ela vai gostar de saber que vai fazer dela um vegetal.(rs) ela ta adorando te ver no comando do posto.

--ela não vai virar um vegetal porque se tudo der certo ela vai poder voltar a viver normalmente.—Marga e Esteban olharam pra mim ainda duvidosos.—É verdade! Na medida do possível.

--a cidade la fora ta pirando de vez. Enquanto brinca de medica as pessoas fora do morro estão fugindo, saqueando e procurando pelo governo que se escondeu em algum buraco nessa merda toda. Se quer salvar pessoas como Rita que ate agora só soube reclamar que você é a única pessoa que pode salva-la,ok mas lembre-se que agora temos um morro para cuidar.

--temos?

--e gente como ela costuma morrer bem cedo sabe por quê? Morrem pela língua. Mas a língua é o chicote da alma. É o que dizem. Por isso não gaste seu tempo com ela porque se ela não te pedir desculpas ate o momento que ela pisar la fora eu mesma vou dar um tiro no resto de cérebro dela.

Marga passou por nós e levando o frasco parecia bem mais interessada naquele parasita morto do que na nossa conversa. Ela tinha acabado de ameaçar Rita e havia deixado Esteban pálido com tamanha frieza em suas palavras. Suas mudanças de humor era imprevisíveis.

--pra onde ce vai?—perguntei.

--eu quero mostrar isso pra Lina mas não se preocupe com os zumbis. Basta não se aproximar de ninguém.ah é mesmo tem que fazer essa cirurgia maluca na chatonilda.

--Marga!

--tomara MESMO que ela não tenha virado zumbi.

Marga partiu ignorando totalmente que eu ainda ia cuidar dos pacientes, mas era melhor. Por hoje eu já tava cheia dela.

--ela..realmente não gosta da Rita.—percebeu Esteban.

--ela não gosta de ninguém.—respondi para minha infelicidade.

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