Por enquanto por thaigomes


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Faltava tanta coisa na nossa casa que esse primeiro mês pode ser resumido a comprar móveis, medir espaços e descobrir problemas na casa. Eu tive alguns compromissos de amizade e partido, nada que ocupasse demais minha rotina a noite, depois do trabalho. Nós buscávamos nos ajustar em relação aos afazeres da nova dinâmica caseira.

Encontrávamos brechas para fazer o que gostávamos, fomos a um show gratuito da Mart’nália. Curtimos bastante. Encontramos suas amigas naquele evento. Dançamos abraçadas, do início ao fim, mesmo sem saber várias letras, vibramos com a ícone negra sapatão. Ao fim, ficamos na fila para tirar foto com a cantora. Depois de muita confusão, chegou nossa vez. Emocionante! Segundo artista famoso que conhecíamos em um mês. Eu sentia que éramos a melhor dupla que poderíamos ser.

Jamais imaginaria tudo que viria pela frente. Mas deveria ter ligado meus alertas, pois os sinais já estavam sendo colocados. Eu, cega de paixão, ignorava todos eles.

Teve aquele sinal discreto, que não deixa de ser um sinal, na casa das minhas amigas, quando estávamos conversando sobre meninos e eu contei algo sobre minha vida sexual de bi, sobre uma experiência com algum cara. Rimos muito, cada uma contando algo. Lembro que assim que saímos de lá você estava de cara fechada, parou de falar comigo, mal me respondia. Dei uma pressionada e você falou que era porque eu falei sobre isso com minhas amigas.

Óbvio que não tinha nenhum problema, ainda assim tentei te mostrar isso. Que não existe qualquer problema nisso. Depois de um tempo você parou de me tratar friamente, mas foi tão estranho. Me senti ao lado de um macho ciumento, no início da dinâmica de posse. Mas foi passageiro. Logo tanto você quanto eu já tínhamos superado isto.

Depois fui eu quem deu a mancada, eu reconheço. Fomos ao último samba do ano, quem sabe se eu soubesse que era último, tinha aproveitado melhor. Chegamos relativamente cedo, era domingo, mandamos o rango que lá tinha, sentamos junto à mesa com quem nem conhecíamos, jogamos bastante assunto fora, sambamos, vimos muitas amigas, fizemos algumas novas. Inclusive, uma das mulheres que lá estavam era uma daquelas que tinha dito para nós que formávamos um baita casal. Encontramos nossa trupe de sapatão.

Lembro que eu já estava exausta e você também, eu estava na base de água, penso que era porque você tinha dito algo sobre eu beber. Eu estava curtindo muito, mas louca para ir, você já tinha dito pra irmos em seguida. Foi quando elas chegaram, aquelas lá. Aquelas que você emprestou grana e até hoje não te pagaram. Queridas, mas aquelas que tem uma aura confusa, entre a alegria e peso. Começamos a contar histórias e uma delas disse que iria ao banheiro, ficamos nós três. A terceira disse que tinha um baseado, se você queria fumar. Você disse que queria, perguntou se eu queria, eu não queria. Você disse que iria então.

Eu disse pra você não ir naquela hora, que eu ficaria sozinha. Pedi para aguardar a outra voltar. Nisso a que queria fumar te pressionou, você ficou entre a cruz e a espada e disse que iria.

Senti muita raiva de você, por preferir ir fumar, sabendo que iríamos embora em seguida e nem sequer aguardar para eu ter alguma companhia enquanto você ia chapar. Penso que na hora você já percebeu que eu mudei completamente de feição, perdi todo o tesão de estar ali, você voltou atrás e disse para a sua amiga que não iria. Ela foi sozinha. Em questão de minuto a outra amiga apareceu e conversamos mais um pouco. Eu disse que queria ir embora naquele momento, que tinha perdido toda a vontade de ficar naquele lugar.

Saímos a pé, o carro estava bem longe. No caminho, começamos a discutir. Eu dizia que não acreditava que você ia me deixar sozinha ali, sabendo que eu tinha pedido para você aguardar, que eu jamais faria isso com você por causa de um baseado. Ainda mais para ir com uma caloteira que não tá nem aí pra ti. Eu sei que eu não estava muito certa, mas também sei que eu não estava tão errada.

Foi quando você disse para mim, a primeira vez desde que começamos, que você realmente se abriu para mim e você falou tudo aquilo, falou que você odiava viver, que não via alegria nenhuma naquilo, que lembrava muita coisa que tinha sofrido na infância e juventude, que lembra todas as dores que teve e que só a maconha que te fazia esquecer aquilo.

Eu disse aquilo que descobri depois de dois anos de terapia... Que a vida é incrível, cheia de potenciais, que tudo que precisamos é saber disso, querer estar melhor, lutar por isso e ter as condições materiais para isso. Que eu já estive em um lugar muito semelhante ao que estavas, mas que agora tinha mudado, que tinha ciência que a vida é um teatro sem ensaio e que eu não queria mais continuar vivendo como se meu dia-a-dia fosse um mero rascunho.

Você chorou e eu também. Foi dolorido saber que eu estava morando com alguém que odiava viver. Logo eu, que finalmente tinha encontrado a alegria em viver. Não era isso que você tinha me passado do seu eu. Eu, empata, logo te abracei e disse que isso tudo passaria, que você tinha muito potencial, que você não precisava viver desse jeito, que tem outras maneiras de estar nesse plano, sem tanto sofrimento.

Esse dia foi ruim, mas a sexta feira da semana seguinte foi pior ainda.

Tenho um amigo que conheci no Tinder, na mesma época que te conheci, trocamos algumas palavras e nunca passou disso. Ele logo encontrou um amor e eu encontrei você. Ele é poeta e trocamos várias ideias sobre poesia e revolução. Ele disse que faria uma poesia para mim, sobre militância e outras sociedades possíveis. Ele fez, postou no aplicativo, me marcou. Eu compartilhei.

Assinei ali meu passe para o inferno.

Você começou a inventar que eu estava de rolo com ele, por causa de um comentário em uma foto. Você berrava no celular, eu estava no trabalho, que iria embora que não queria mais viver comigo. Que eu achava que você era idiota. Que sabia o que eu queria. Que estava na rodoviária e compraria a passagem para ir para a sua cidade, que não queria nem saber.

Eu tentava te chamar para a lógica, que era uma liberdade minha comentar o que eu quisesse, onde eu quisesse, que isso não tinha nenhum problema. Muito menos receber uma poesia. Que não tinha nenhum cunho de flerte, muito menos de traição. Que eu era louca por você.

Mas não tinha razão nenhuma na briga. Eu já estava chorando de raiva no trabalho, totalmente ausente das minhas tarefas. Para piorar, naquele dia uma amiga fazia aniversário e ela tinha convidado para ir no rock, ah, se eu soubesse que era o último rock do ano, eu teria feito diferente... Ainda mais se eu soubesse onde tudo isso daria.

Eu te convidei para o aniversário, você recusou o convite. Eu disse que iria depois da faculdade. Você disse que se eu fosse, você não estaria ali em casa. Que iria embora. Por mim não teria nenhum problema se você dormir na casa de alguma amiga naquele dia, ou que, se fosse para a tua cidade, que permitisse que eu te desse um tchau e um beijo, que esperaria você voltar.

Você não queria, disse que iria terminar, que eu nunca mais te veria se eu fosse no rock. Depois disse que estava profundamente deprimida e que eu não me importava nem um pouco com você, tanto que estava indo pro rock depois de um dia daqueles.

Eu tinha jurado para mim mesma que jamais, jamais permitiria qualquer relacionamento se colocar entre eu e as minhas amigas. Mas naquele dia eu permiti. Eu estava preocupada com você, totalmente descontrolada. Pensei que eu deveria cuidar de você, ainda não tinha conhecimento dessa sua face, da face do ódio, do seu transtorno. Estava ouvindo alguém que não era aquela que eu tinha dito que amava. Completamente assustada, cedi aos seus pedidos.

Pior... Não só cedi aos seus pedidos, como atendi seu pedido de comprar maconha para você. Saí do trabalho, matei a aula, fiquei duas horas esperando dentro do carro pelo traficante para comprar para ti. Com ódio de estar fazendo aquilo de novo, depois de anos e anos a fio fazendo aquilo, depois de finalmente chegar a conclusão que eu não queria mais fazer aquilo, eu fiz. Eu fiz por ti.

Odiei cada segundo no aguardo, cada minuto no trânsito, cada frase de aula que eu perdi para fazer isso, mas eu fiz. Comprei e levei para ti.

Quando cheguei em casa, tentamos conversar. Eu expliquei para você que eu sou determinada, que posso dialogar sobre muitas coisas, mas o que não tolero é quem ameaça terminar a toda hora. Eu só falo uma ou duas vezes em terminar e, se decido, eu termino e é pra valer. Que tenho baixa tolerância às ameaças.

Você por sua vez falou tudo que queria sobre o comentário, sobre a poesia, sobre o rock, tudo aquilo que já tinha sido dito. Ao fim, disse que não queria fumar naquele dia. Fiquei sem entender. Mas acatei. Fomos dormir.

Esses foram três sinais gravíssimos que eu ignorei, sendo que o último eu me submeti à uma dinâmica que eu não queria mais ter. Esse enorme esforço que fiz, se refletiram, nas próximas semanas em pensamentos depreciativos e suicidas, logo estes, que eu tinha pensado que tinha superado, após dois anos de terapia.

 

 

Nome: rhina (Assinado) · Data: 25/02/2021 01:30 · Para: Capitulo 6 - O que ignorei

 

Pois.

Os sinais estão pra lá de gritantes.

Mas quem não!?

 Rhina



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