Por enquanto por thaigomes


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Certa do fim, o filme de nosso relacionamento passava pela minha mente. Desde o primeiro match, o beijo inesperado, flores, viagens, família, as muitas risadas e descobertas. Eu te beijei a última vez, depois do almoço, sabendo que não mais sentiria aqueles lábios colados nos meus, o ar úmido e quente da sua respiração, nem mais poderia viciar no cheiro gostoso atrás da sua orelha.


Me senti cortando um membro meu a força, para conseguir escapar de algo, mesmo sabendo da falta que fará. Ao mesmo tempo que você era meu referencial, você também era o que estava me matando pouco a pouco desde meses.


Há quanto tempo eu não estudava política? E há quantos meses eu não ligava para nenhum amigo? Arte, nem pensar. Eu mal cuidava dos meus cabelos, unhas e pelos. Não combinava mais as roupas para sair e nem tinha mais fotos minhas no celular.


De certo modo, eu já estava parando de existir, tão imersa nesse relacionamento que me mantinha constantemente ansiosa, receosa de errar, sabendo da minha imperfeição, sabendo da briga certa que hora ou outra viria.


A hora chegou, o inadiável iria acontecer.


Sentei no sofá e te chamei. Expliquei, brevemente, sobre aquela ultima briga, aquela do carro, e lembrei que naquele dia tínhamos combinado que seria a última chance. Eis que a violência voltara e, logo, eu não tinha mais como estar nesse relacionamento, por mais que eu visse melhoras em você, não eram suficientes para saber que eu sairia melhor também. Te ajudar, por mais que eu quisesse, já estava me machucando. Te ajudar, tornara-se, me afundar.


Que eu não tinha pensado em nada, absolutamente nada sobre a separação, mas que eu estava certa que juntas não podíamos mais ficar. Sob pena de estarmos colocando tudo que construímos no lixo. Não só as nossas coisas, nem apenas nosso relacionamento… Minha e sua sanidade mental, minha e sua autoestima, minha e sua vida. Que, infelizmente, juntas estávamos fazendo mais mal a nós do que bem. Que o fim era este.


Você estava fria, me encarando e ouvindo. Eu, ciente de que qualquer coisa podia acontecer, sabia que meu celular estava carregado na pochete, colado a mim. Empinasse o queixo, olhou de canto pra mim, falou que se era assim que eu queria, porque tinhamos almoçado? Porque ir dar uma volta na praia? Porque tudo isso? Disse que não acreditava que tínhamos aguentado tudo isso para agora desistir. Que me amava, que amava nós. Enfim, disse que iria acabar com a própria vida.


Catou a maldita cordinha amarela e saiu para o quintal, determinada a fazer, não sei se cena, não sei se verdade, eu não paguei pra ver. Assim que subisse na cadeira pra tentar qualquer coisa, te agarrei pelas pernas, como um saco de batata, te arrastei pro outro lado do quintal.


Você repetia que não acreditava, que eu iria te abandonar. Implorou outra chance. Eu sabia que nessa hora o melhor era ignorar e aguardar, que logo você entenderia a dimensão daquilo. Nem fim da vida, nem continuar essa vida, renascer. Renascer eu, renascer você, sermos duas em separado, inteiras, saudáveis e dispostas.


Quando acreditei que você estava mais calma, tudo aconteceu.


Sob lamentos de que não acreditavas no que estava acontecendo, o tom da sua voz foi alterando, a respiração mais rápida, em menos de um minuto você estava desfigurada, igual a noite anterior. Berrava alto que se era o fim que eu queria, era o fim que eu teria.


Ali, no quintal, visse nossas plantas e por elas, começasse a destruição. Rúculas, cenouras, alfaces, brócolis, sálvias, hortelãs, óreganos, um por um, arrancado, revirado e jogado. Eu via galhos e folhas voando. Saí de perto, fui para a varanda. Observei e pedi para você parar. Não parou. Continuou, virou os vasos de flores, um por um e em seguida, nossos pés de ganja também. Tirou-os pela raiz e pisou contra o concreto.


Já fora de si, pegasse uma mesa de madeira de lei pelas pernas, chegou perto de mim e bateu ela muito forte no chão, a ponto do piso da varanda abrir uma rachadura. A fúria era tão grande que isso não parou você, que continuou a golpear o chão com a mesa até ela quebrar todinha.


Nessa hora eu me dei conta que não adiantaria quanto eu pedisse para você parar, você não pararia. Você não me ouvia e pegava os pedaços de madeira do chão e quebrava em partes menores, já com sangue escorrendo da junta dos dedos.


Eu me escondi dentro de casa, tremendo muito, abri o celular e disquei para o único socorro que pensei ser possível, o 180. Disse que precisava de ajuda, que estava com medo, que não sabia se eu poderia ser a próxima coisa que você iria quebrar.


Você chegou no quarto, quando eu acabava a ligação, senti meu corpo inteiro arrepiar. Seu olhar era de uma alucinada com as veias saltadas no pescoço. Eu não sei quem estava ali, mas não era mais você. Não podia ser a pessoa que amei, ela não era assim. Você ordenou que eu dissesse quem era que eu ligava dali, e eu disse. Disse que era a polícia.


Você berrou muito, dizendo que jamais me machucaria, que eu era uma exagerada, que se acontecesse qualquer coisa com você, qualquer coisa, sempre seria minha culpa. Que eu não confiava em você, que eu nunca te amei.


Se jogou no chão e socou forte o piso e ergueu o rosto, me encarou profundo. Disse que ia embora naquela hora, que não ia esperar porra nenhuma de polícia vir fazer mal a si. Te vi arrumar uma mochila meia boca em questão de segundos, lembrou do carregador do celular e da carteira. Bateu a porta muito forte antes de sair e disse que eu me arrependeria todos os dias da minha vida por ter feito aquilo contra você.


Eu ainda estava em choque quando a polícia chegou, um bom tempo depois. Reconheci pelo giroflex por cima do portão, abri sem nenhuma demora. A policial feminina entrou no terreno primeiro, perguntou onde estava a agressora.


Desabei a chorar, caí no chão e solucei repetidamente antes de conseguir explicar que ela tinha fugido. Ela esperou eu me acalmar, que não demorou muito, pois eu me sentia fraca em fazer ela aguardar eu me recompor… Afinal, era seu trabalho, deveriam ter tantas mulheres sob agressão por aí precisando também.


Eles abriram um B.O. com pedido de medida protetiva, seria encaminhado diretamente para o juiz, sairia uma ordem em poucas horas. Pediram os dados de você, telefone, endereço de algum parente. Na hora, eu fraquejei, pensei que eu estava sendo demais, ela me assegurou que tudo que eu tinha passado, ninguém na terra deveria passar. Que eu não via agora, mas depois veria, tudo que eu estava passando e saberia entender o valor daquela ordem, daquele serviço, daquela proteção.


Não me deixaram, de algum modo, desistir. Embora eu tivesse medo em cada uma das frases que eu dizia sobre as ameaças, a violência, as palavras, tinha medo do peso de cada uma delas, de como elas chegariam a ti, enfim, da tua reação.


Eles entraram em casa, era uma mulher e um homem, a equipe. Ambos sentaram a mesa comigo, ofereci agua, café, dispensaram. Anotaram tudo na maquininha, explicaram que a ordem pediria afastamento de 500 metros e que ela ficaria proibida de chegar aqui perto. Que todo o trâmite quanto as coisas dela, deveriam ser feitos com outra pessoa, um amigo ou familiar. Que eu não deveria de modo algum permitir ela chegar a mim, se possível, que não bloqueasse ela das redes, para ter provas, mas que se me fizesse mal, que eu bloqueasse. Que eu não atendesse jamais e deixasse que o unico meio de comunicação fosse terceiros. Que se eu desistisse da ordem, deveria informar diretamente o juiz, que o numero do processo chegaria para mim através de cartinha. Me orientaram a chamar alguem para ficar comigo em casa nesses primeiros dias, ou que eu me retirasse e esperasse chegar a ordem à ela. Que, de qualquer maneira, era só eu ligar e dizer que já tinha processo em andamento que eles dariam prioridade ao meu pedido e chegariam antes mesmo de eu piscar. Saíram, fiquei com o B.O. impresso nas mãos.


Sentei na soleira da porta, em choque completo. O que tinha sido aquela ultima hora? O que tinha acontecido? Foram uns dez minutos que fiquei sentindo meus dedos formigando e minha mente em estado de alerta e de tristeza, ao mesmo tempo, em conflito. Lembrei da orientação da polícia, olhei para os bichinhos, ambos, me encarando, apreensivos. O cachorro aos meus pés, com carinha doce. A gata, no rack de tv, atrás de mim, desconfiada.


Liguei para meu pai, expliquei a situação, pedi para ele vir, que estava sem força nenhuma para sair. Em menos de meia hora, ele já buzinava no meu portão. Chegou com muito chocolate, cerveja e amor.

Nome: rhina (Assinado) · Data: 25/02/2021 02:40 · Para: Capitulo 11 - Uma ligação

 

Incrível.

Rhina



Nome: kasvattaja Forty-Nine (Assinado) · Data: 03/02/2021 12:24 · Para: Capitulo 11 - Uma ligação

Olá! Tudo bem?

 

Quando li o título ''Por Enquanto'', pensei na canção, mas não com a Legião e sim com a Cássia Eller que dá outra cara para a canção, mais visceral. Então resolvi ler o texto. Isso ontem à noite e, Autora, cadê o sono? Perdi!

Seu texto leva-nos a pensar que, quase sempre, todo relacionamento tem suas nuances que vai da luz à escuridão — e de volta — sem você perceber.

Intenso, muito intenso.

É isso!

 

Post Scriptum:

 

''Nada é mais desprezível que o respeito baseado no medo.''

 

Albert Camus



Resposta do autor:

Boa noite! Acertou, é a da Cássia, sim. 

Acabei de finalizar a história, espero que goste. 

Com afeto,

Thai.



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