Sentimentos ocultos! por Bia Ramos


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Nunca me imaginei fazendo o que faço hoje em dia para sobreviver, ou melhor, viver. Me acostumei com os pequenos luxos que minha atual profissão me permite, e após aquela briga horrível com meus pais, não achei que valeria a pena tirar o meu diploma de arquitetura da “gaveta”, para mostrar-lhes que eu consegui me tornar uma moça “direita” como eles tanto desejavam que eu fosse.

Deixe-me ver como está minha agenda hoje à noite, ah, não. Estou começando a achar que esse cara quer exclusividade. Na minha profissão, não posso me dar ao luxo de escolher clientes, muito menos, deixar que eles pensem que podem ser meus donos, apenas por terem uma carteira “recheada”.

Maquiagem perfeita, vestido vermelho, combinando com as unhas e um scarpin branco nos pés, uma verdadeira anjinha, a nora que toda mãe pediu a Deus, se não fosse a minha forma de “ganhar a vida”, sorri com esse pensamento bobo. O porteiro acabou de anunciar que meu taxi chegou.

Hoje vou acompanhar um cliente a inauguração de uma boate, acho que esse termo é antigo, porém, foi o que ele me disse, marquei de encontrá-lo na porta do estabelecimento, não gosto de dar meu endereço aos clientes. Nunca se sabe o que eles podem fazer depois de um “não”.

O ambiente é bem aconchegante, apesar da companhia não ser das melhores, afinal, o homem ao qual acompanho esta noite é um riquinho metido a besta, que gosta de mostrar a mulher que o acompanha como se fosse um troféu, e isso me deixa exausta, sorri para um e outro por 6h seguidas é um tanto quanto enfadonho.

Noite finalizada com sucesso, e enfim volto para o meu refúgio, onde posso ser eu outra vez!

– Vamos maninha, prometo que eles não vão te atacar dessa vez, eu não vou deixar. Prometo.

– Não dá Caio, eu queria muito ir, mas não vou criar um climão em um dia tão especial em sua vida.

– Mana, não faz assim, você tem mais direito de estar lá que eles. Foi você que bancou minha faculdade, Deus sabe o quanto precisou abrir mão dos seus princípios para isso, para que hoje eu pudesse bater no peito e dizer que sou médico, não faz essa desfeita, por favor! – Meu irmão mais novo alegava do outro lado da linha, tentando me convencer a ir em sua formatura.

– Não fala assim, o pai e a mãe ralaram bastante para fazerem de nós dois pessoas de bem. Sabe muito bem que não tive escolha, era isso ou...

Ele me interrompeu depressa:

– Você não tem culpa do pai ter perdido o emprego e gastado o que tinha em jogo. É por isso mesmo que tem direito de ir a minha formatura, você faz parte da família, abdicou da sua vida para cuidar de todo mundo, se hoje a mãe tem o ateliê de costura dela e consegue manter as contas de casa com o que o pai ganha na metalúrgica, é graças a você, mana. Foi você que deu adeus ao seu sonho de sair do país, de fazer mestrado em Londres, de batalhar pela vaga de emprego naquela multinacional quando as contas começaram a se acumular por aqui.

– Para, Caio, eu fiz o que precisava ser feito, não me arrependo disso. – Lágrimas molhavam meu rosto, sempre que falava sobre o meu passado, ficava com um nó na garganta. – Não quero impor minha presença, acabei de fazer o pagamento da parcela da casa, imprime e entrega o comprovante a mãe, por favor. Na próxima semana almoçamos juntos, vou a cidade, estou com saudade daquela compota de ameixa que só vende aí. Aproveito e vejo nossos pais mesmo que seja de longe

– Já vi que não vou te convencer. Você é muito boa, mesmo eles não querendo te ver, você nunca deixou de ajudá-los.

– É minha obrigação, eles podem não se considerarem mais meus pais. Mas eu ainda me considero filha deles, e o que puder fazer para tornar a vida deles mais confortável, farei. Agora preciso ir, tenho um compromisso logo mais.

– Tudo bem. Se cuida, por favor. Você é muito importante para mim. – Ficou mudo por alguns segundos, sua respiração parecia descompassada quando voltou a falar: – Mana, muito obrigado por cuidar de nós, eu te amo e tenho muito orgulho de tê-la como irmã, nada no mundo me fará ter vergonha de você, é uma mulher muito corajosa.

– Te amo, meu amor, – limpei uma lágrima teimosa que correu por meu rosto sem permissão – também tenho muito orgulho do homem que se tornou, se cuida e cuida dos nossos pais. Beijo.

Encerrei a chamada pensativa, exatamente cinco anos que meus pais tinham cortado laços comigo. Me mudei para a capital na esperança de conseguir um emprego na minha área de formação, mas a grana que consegui juntar enquanto estava na faculdade, fazendo alguns projetos para a vizinhança, estava chegando ao final, e nada de encontrar emprego, afinal, quem contrataria uma arquiteta recém-formada, vindo do interior, sem experiência suficiente na área?

Nesse meio tempo, meu pai foi demitido da fábrica em que trabalhava e torrou toda a grana da rescisão em jogos de apostas, na mesma época em que ele e minha mãe tinham conseguido realizar o sonho da casa própria. As parcelas foram se acumulando, minha mãe “pirando”, meu irmão mais novo na faculdade de Medicina, com as mensalidades atrasadas também. Até que encontrei uma antiga colega da faculdade que me contou como estava “ganhando” a vida.

Foi aí que virei uma acompanhante de luxo, no início me associe a casa noturna em que ela trabalhava, mas o serviço era muito, a comissão pouca, a maior parte ficava para a casa, e a grana que ganhava malmente dava para pagar as mensalidades do Caio.

Conheci um cliente que costumava pagar a mais nos serviços, se estendêssemos a companhia por algumas horas, e ele sugeriu que eu virasse minha própria “patroa”, abrindo um site ou coisa do tipo, com certeza ganharia mais. Pesquisando na internet encontrei alguns vídeos a respeito de criação de site e pessoas que trabalhavam com isso, e assim, abri o meu próprio negócio.

E hoje, trabalho os dias que quero e acompanho apenas quem quero também, mentira, ainda tenho contas a pagar, não consegui me dar esse luxo ainda, mas já avancei nesse quesito, e atendo apenas clientes “conhecidos” indicados por algum outro cliente, ou com uma “ficha limpa”, sim, tenho alguém que pesquisa os antecedentes, digamos assim, dos clientes que aparecem de paraquedas em meu site.

Só não contava que algum dos meus antigos vizinhos encontrassem meu site e mostrasse aos meus pais como eu estava “ganhando” a vida. E foi assim, que eles deixaram de falar comigo, mas assumi o compromisso de pagar as prestações da casa e as mensalidades do meu irmão, o pequeno negócio que montei para minha mãe, não cobririam todas as despesas.

Dessa forma, me “fechei em mim”, consegui comprar meu próprio apartamento, modesto, mas muito aconchegante, é onde deixo de ser “Andressa, a acompanhante de luxo” e posso ser Marina, a menina do interior, cheia de medos, vergonhas e muita saudade dos pais.

Agora chega de falar de coisas que me fazem chorar, vamos trabalhar, que por mais que pareça, eu não ganho dinheiro com a facilidade que as pessoas pensam.

– Você nunca pensou em casar?

– Até pensei, mas hoje, não me vejo mais como uma esposa dedicada ao lar, filhos e marido.

– Já foi pedida em casamento alguma vez?

– Não, – sorri imitando uma timidez que não me pertencia – no meu ramo de atuação isso não é algo comum, se é que me entende.

– Entendo, mas é uma mulher muito bonita. – Sorriu sedutor. – Quem sabe se abandonar esse serviço, não consiga um bom partido, que banque todos os seus luxos.

– Não estou à procura de ninguém, nem bom, muito menos maus partidos. Além do mais, posso não ter o melhor emprego do mundo, mas é esse que paga as minhas contas. E depender de homem, não faz o meu tipo, ou então não teria saído da casa do meu pai.

– Quer dizer que mesmo casando vai continuar com esse serviço? – Levou a taça aos lábios com uma certa hesitação.

– Acho que não entendeu, não estou à procura de casamento, pelo contrário. – Olhei para o relógio em meu pulso, dele para o celular que vibrava sobre a mesa – Bom, muito obrigada pela companhia, o jantar estava ótimo. Mas, preciso ir.

– Espera, – segurou meu braço com mais força do que deveria, o olhei de soslaio, enquanto voltava a falar: – paguei para jantar comigo, não para me largar sozinho na mesa.

– Caso não lembre, – tirei sua mão cautelosamente do meu braço, não queria um escândalo, muito menos chamar mais atenção para a nossa mesa – você pagou por duas horas, e passamos metade delas, conversando em seu carro, não posso fazer nada, tenho outro compromisso agora.

– Não vai me deixar aqui sozinho, eu pago mais uma hora se o problema for esse, – fez menção de esticar a carteira do bolso do paletó – pago até a noite inteira.

– Não precisa fazer isso, – interrompi seu movimento, evitando chamar ainda mais atenção das pessoas que ocupavam as mesas perto de nós – tenho outro compromisso, sinto muito, não posso ficar. Você precisa se organizar melhor, tenha uma ótima noite, com licença.

Uma noite mal dormida, mesmo por conta de um bom sexo, jamais pode ser recuperada, estou exausta. E ainda vou pegar a estrada para almoçar com meu irmão, dirigir nessas condições nem pensar. Ainda bem que contratei um motorista de aluguel, dessa forma, consigo dormir nas três horas de viagem.

O tempo realmente voa, três anos desde que tive um último encontro decente com meu irmão. Depois de um ano de formado, ele recebeu uma proposta para trabalhar em Belo Horizonte, e com sua rotina louca, alegando que encontrará um tempo para me visitar, ainda não o fez, quando marquei de ir vê-lo, meus pais parecem ter pressentido o meu planejamento e se anteciparam, quando fiz uma chamada de vídeo para ele, para contar a novidade, minha mãe apareceu na tela, com cara de poucos amigos, dizendo que ele tinha saído e demoraria a voltar, tentei sondar como eles estavam, e ela simplesmente encerrou a chamada.

E hoje, mais uma vez, ao ligar para ele, descobri que não estará disponível na semana que planejei viajar.

– Está bem, quando tiver disponibilidade, avisa, assim não fico marcando e desmarcando passagem.

– Desfaz esse bico. – Sorriu faceiro – Se tivesse me avisado antes não teria me inscrito no simpósio. Estou louco para te ver, quero que conheça o meu cantinho. Sabe disso.

– Se quisesse mesmo, já teria encontrado um horário para mim nessa sua agenda cheia. – Afirmei birrenta.

– Fica tão fofinha com ciúmes, maninha. Agora tenho que ir, te amo. Se cuida, e nada de chegar tarde em casa, toda maquiada assim, deve estar trabalhando.

– Estou mesmo, também preciso ir. Te amo, estou com muita saudade, até mais, beijo.

Mais uma vez, encerrei a ligação frustrada, estar com meu irmão, mesmo que por poucas horas, me fazia lembrar de quem eu era de verdade, do que eu era sem aquelas roupas, maquiagens e sapatos caros.

Meus pensamentos foram interrompidos por alguém, que até então, não conhecia.

E agora que conheço, apenas de vista, preferia não ter conhecido, que mulher arrogante. Quem pensa que é, para se intrometer na minha vida, e ainda me dar conselhos tortos. A julgar pelas vestes, e o Chanel em seus pés, é mais uma riquinha metida a besta.

Último cliente da noite feliz pelo meu trabalho, e lá vou eu para o meu mundo particular, ainda bem que amanhã estou de folga, passarei o dia inteiro na cama. Droga, comemorei cedo demais, acabei de receber uma notificação do meu site e alerta da minha conta bancária que tenho trabalho amanhã, esqueci de fechar a agenda, como é um cliente regular, não posso simplesmente devolver o pagamento e dar por encerrado o passeio.

– Segunda-feira é sua folga Marina, e você fará o que quiser! – Falei para o meu reflexo diante do espelho.

Até que a programação não é de toda ruim, uma festa na piscina. Muita gente bonita e divertida, alguns esnobes, claro, para não fugir à regra desse mundo, sorri com meu pensamento.

Meu cliente está bem animado, prefiro quando esse em especifico está assim, torna o trabalho mais fácil, e me dá a certeza que depois das horas já pagas, vou direto para minha casa, sem passagem por motéis luxuosos.

Essa maldita dor de cabeça tinha que me incomodar logo agora, pedi licença a ele para me recompor, muito solícito perguntou se não era melhor que saíssemos dali, aleguei que não, que precisava apenas respirar e andar um pouco e, em poucos minutos estaria renovada.

Me afastei da piscina, indo em direção onde estavam os carros, alguns modelos muito luxuosos, porém, estranhos, por assim dizer, para mim, está aí uma coisa que ainda não quis investir, em um automóvel, quando estou atrás de um volante, é sempre de um veículo alugado, carro demanda muitos gastos, ainda mais o que eu “sonho” em ter, acabei de encontrar o modelo aqui, um BMW Z4, simplesmente lindo!

Ah, não, era só o que faltava, encontrar essa mulher outra vez. Criaturinha mais chata, nossa.

Me afastei em direção a casa, alguma coisa me atraía a olhar para trás, percebi que o carro que admirava era dela. Não falei, mais uma riquinha esnobe, agora tenho plena certeza disso.

– Está melhor?

– O que? Eu... – Me dei conta que ele falava da minha dor de cabeça, com a pequena irritação com a fulana lá, acabei esquecendo que estava com dor. – Estou melhor, vamos nos divertir.

– Essa é a minha garota! – Enlaçou minha cintura, me fazendo revirar os olhos em desagrado, esse é um dos piores momentos referentes a minha profissão, fingir gostar de algo que odeio, esse sentimento de posse me dá náuseas.

Fomos para perto da piscina, onde fui apresentada a dona da casa, meio doidinha, mas muito simpática. Conversávamos sobre política, quando ouvi barulho de água se espalhando, como por reflexo olhei para a piscina, e vi quando a fulana emergiu perto de nós, passou pouco tempo na piscina, e logo saiu, vindo em nossa direção, não sei ao certo o motivo, mas prendi a respiração quando a vi fora da água apenas de biquíni, não sou de olhar a vida dos outros, mas diria que apesar de arrogante, ela tem um corpo espetacular.

Depois disso não a vi mais, deve ter ido embora, não sei, e nem quero saber na verdade. Trabalho do dia concluído com sucesso, e agora é hora de descansar. Tomei um banho relaxante, me joguei no sofá com uma garrafa de vinho, uma taça e o controle remoto do meu aparelho de som.

Estava degustando meu vinho, ao som de Calmô – Liniker e os Caramelows, me peguei pensando naquele contato nada discreto que aquela fulana teve comigo na boate, até que ela é uma bela mulher. Mas como ela sabe o meu nome? Nunca o disse para nenhum cliente, sem falar, que nunca atendi mulheres, na verdade, nunca fui contratada para tal. E que história era aquela de me satisfazer? Será que ela é mesmo isso tudo que julga ser...

– Acorda, Marina! Está quase derramando o vinho no sofá. Melhor ir dormir, tomei sol demais, é isso. – Respirei fundo, me arrastando para o quarto.

Uma boa noite de sono, sem hora para acordar, me fará muito bem!

*****

– Você parece estranha hoje! Não quer dançar?

– Desculpa, estou com cólica. – menti, e nem pensei antes de falar. – Sinto que não estou sendo uma boa companhia hoje.

– Não se preocupe, – apoiou a mão sobre a minha – está tudo bem. Achei que fôssemos esticar a noite. – tentou me beijar, mas virei o rosto.

– Não hoje, na verdade, queria dizer... – No mesmo instante meu celular tocou – com licença, preciso atender. – Me afastei na tentativa de ouvir melhor o que falavam do outro lado da linha – Sim, sou eu. Pode falar.

– Encontramos seu número como contato de emergência do senhor Caio Monteiro. A senhora é parente dele?

– Sim, o que aconteceu com o meu irmão? – Perguntei temerosa, passei o dia com um aperto no peito.

– Senhora, só posso falar pessoalmente...

Interrompi o homem as presas:  – Pode falar, eu estou longe, até conseguir chegar aí meu irmão já pode ter m... – Sufoquei um grito, e nem precisei terminar a palavra.

A voz calma e preocupada do outro lado dizia pesarosa: – Senhora, seu irmão sofreu um acidente, e infelizmente acabou de falecer, precisamos que alguém da família compareça ao hospital para fazer o reconhecimento.

– Entendo, – minha voz estava pastosa, nem eu mesmo entendia, eu só precisava encerrar aquela ligação, aquilo não podia estar acontecendo, meu irmãozinho não tinha morrido, não podia ser. – vou providenciar isso, moro em outro estado, é bem possível que não consiga chegar aí antes do meio dia de amanhã.

– Não se preocupe, sei que é uma situação difícil e que precisa tomar algumas providencias antes de vir para. Me desculpe o transtorno pela notícia por telefone, tenha uma boa noite.

Encerrei a ligação correndo para o banheiro, precisava chorar, gritar, brigar com o mundo. Meu irmão não podia ter morrido, com quem eu ia desabafar, conversar no meio da madrugada, fazer carinho depois de brigar por bobagem.

– Não é possível, eu não posso ter perdido a pessoa mais importante da minha vida. – Respirei fundo, tentando conter as lágrimas que teimavam em correr pelo meu rosto sem permissão.

Depois de conseguir falar com meu pai o que tinha acontecido, e ele gritar que não precisava da minha ajuda para ir reconhecer o corpo do filho, saí do reservado na tentativa de que a água lavasse a minha alma, e levasse toda a dor que eu estava sentindo embora.

Encontrar alguém ali, a minha espera, foi uma grande surpresa. Apesar de ter as minhas diferenças com ela, a Beatriz foi muito gentil, ainda bem, eu não estou em condições de brigar com ninguém.

Confesso que desde aquele dia na piscina passei a olhá-la de uma forma diferente, sempre bem vestida, passos leves, olhar enigmático.

Ainda não entendi como ela conseguiu descobrir o meu nome, o vinho fez bem, assim como ter um ombro para chorar e um abraço apertado. Por mais curiosa que estivesse não podia deixá-la ir embora sozinha àquela hora, não podia perder outra pessoa em minha vida, não hoje, não agora que a gente está se dando melhor.

***

Chega a ser surreal tudo o que senti e vivi com a Bia de ontem para hoje. Ela é tudo o que nunca imaginei que fosse, linda, meiga, carinhosa, charmosa e maluca. Imaginem que agora estamos em uma ilha, onde pelo o que pude entender, passaremos o dia e é bem capaz de dormimos por aqui também.

– Bia, posso falar com você?

– Claro, em que posso ser útil? – perguntou sorridente, me dando um beijo suave nos lábios.

– Imagino que você tenha planejado todo o nosso dia, mas... – as lágrimas molhavam meu rosto, minha voz embargou e corri para o banheiro.

Não queria que ela me visse assim, passamos um dia tão bom, não quero que pense que não gostei de algo, ou até mesmo que me arrependo de tudo o que fizemos, mas preciso dar adeus ao meu irmão, e rever meus pais, preciso saber como eles estão neste momento difícil.

Encostei na porta lembrando dos momentos maravilhosos que passamos em família, deveria ser proibido que os irmãos caçulas morressem antes dos mais velhos, ele tinha tantos planos, tantos sonhos.

– Porquê meu Deus, porquê?

Só agora dei vazão as minhas lágrimas, a dor estava dilacerando meu peito, eu queria vê-lo, eu preciso enfrentar meu medo e encarar meus pais.

– Marina... – Ouvi batidas na porta, e a voz dela parecia preocupada.

– Só um minuto, já saio.

Passei água no rosto e saí, precisa dizer a ela que nosso passeio precisava ser finalizado, eu preciso ir para casa.

– Está tudo bem?

– Sim. – Respondi seca, sem encará-la, ou então não teria coragem de continuar. – Preciso ir embora agora.

– Como assim? – sua voz saiu assustada. – Estava tudo bem entre nós, eu fiz...

– Shiuu... – Coloquei o indicador sob seus lábios – Você não fez nada de errado, continua tudo bem entre nós, desculpa, mas mesmo querendo muito ficar aqui com você, eu preciso me despedir do meu irmão.

– Marina, perdão. – Me envolveu carinhosamente em seus braços – Te afastei da sua família nesse momento difícil, eu não queria ser insensível, só não queria me afastar de você assim, do nada.

– Está tudo bem, Bia, amei passar esse tempo contigo, eu nem sabia que precisava disso. Mas agora sinto que tenho que voltar para casa, devo isso ao meu irmão.

As lágrimas teimosas já corriam por meu rosto outra vez, ela acariciava meus cabelos e falava palavras carinhosas em meu ouvido.

Não demorou muito para que a Bia conseguisse alugar um helicóptero para ir nos buscar. Viajamos em silêncio, ela fez questão de me levar para casa e ainda se ofereceu para ir comigo para a casa dos meus pais, achei invasivo demais, mesmo porquê, sabia bem como seria recebida por meus pais, e ninguém além de mim precisava passar por isso.

Por mais que eu tenha tentado evitar, não consegui fazer com que a Bia desistisse de me acompanhar, e assim, seguimos para o interior, com ela na direção do carro, hora ou outra acariciando minha mão.

Confesso que nunca fui tão bem tratada por ninguém assim antes, mas me incomodava não poder retribuir em igualdade a tamanha atenção e cuidado que ela estava tendo comigo.

Assim que paramos no hotel da minha cidade, tentei me redimir.

– Bia, muito obrigada por ter me acompanhado, mas você merece uma companhia melhor. Não quero abusar de você...

– Shiu, – ela selou meus lábios com um beijo calmo e acolhedor – não se preocupe com isso. Parei aqui para você descansar, não conhecia a cidade, mas pedi a minha secretária que reservasse um quarto de hotel para nós, achei que quisesse tomar um banho antes de ir para a casa dos seus pais, descansar talvez.

– Se não se importa, eu vou agora. Pelo horário, é bem provável que o corpo dele já tenha chegado.

– Meu bem, – segurou minha mão, virando meu rosto em sua direção – já é madrugada, não é melhor descansar?

– Não, eu preciso ir. – Saí andando a passos firmes.

Não demorou muito para que me alcançasse no corredor e me abraçasse carinhosamente. Mais uma vez dei vazão ao meu prato em seus braços. Seguimos para a casa dos meus pais, onde já havia uma pequena aglomeração. Entrei quieta, sem chamar atenção, não estava ali para incomodar ninguém, só precisava me despedir do meu irmão, do meu elo com a minha família, do meu sentido da vida.

– O que faz aqui? – Ouvi a voz gélida do meu pai logo atrás de mim, preferi ignorar sua pergunta, não queria me indispor com ele naquele momento. – Você não é bem-vinda aqui, saia. –Aquelas palavras tiveram o efeito de socos no meu estomago, não consegui responder, e apenas me deixei ficar ali, alisando o lindo rosto do meu irmão, sob suas vestes brancas. – Não me ouviu, – esticou meu braço com força – saia daqui você não pertence mais a esse lugar.

– Eduardo, pare com isso, está chamando a atenção de todos. Isso não é hora para brigas. – Minha mãe entrou em minha defesa, enquanto eu continuava ali, imóvel e muda.

– Não vê que ela está zombando da nossa dor. Veio tripudiar em cima do corpo do irmão. Mostrar a vergonha que se tornou para nós, ainda por cima veio como puta.

– Homem de Deus, para com isso. Deixa essa história para lá.

– Como, Edineia, me diz. Olha como sua filha se comporta. Trouxe até a cafetina dela para cá.

– Se está se referindo a mim, – Beatriz afirmou calmamente – não atuo nesse ramo, mas caso queira conhecer alguém que o faz, precisa procurar um pouco mais. Quanto a sua filha, é melhor que a respeite, e pare de causar tumulto, quando o que ela quer é apenas se despedir do irmão. Deixe de ser mesquinho, não foi só você que perdeu um filho, Marina perdeu um irmão, e pelo o que pude ver aqui, a única pessoa que se importava com ela, além de mim. Caso queira continuar com o seu espetáculo, vou avisar que ninguém aqui é obrigado a testemunhar.

– Quem pensa...

– Pare com isso ou... – cochichou alguma coisa no ouvido de meu pai que logo se afastou.

O dia já corria solto, quando abracei minha mãe, me despedindo sem saber quando voltaria a encontrá-la.

*****

Um ano se passou desde que passei aquela noite inesquecível com a Bia. Nos encontramos sempre que podemos, não é que seja um namoro, está longe disso, mas gosto da companhia dela e faço o que posso para estarmos juntas, a cobrança existe por parte dela, mas me acostumei a ser independente, e também com a vida “luxuosa” que o meu trabalho me permite ter, e isso a Beatriz insiste em não entender.

– Já conversamos sobre isso, não vou parar te trabalhar para ser sustentada por você.

– Que mal existe nisso! Eu te amo Marina, me deixa provar isso.

– Quer provar o seu amor me tornando dependente de você! Me poupe, Beatriz. Isso eu não vou admitir.

– Você gosta dessa vida, um dia com um, um dia com outro e quando não tem ninguém para sair, chama a idiota aqui...

O tapa que dei em sua face foi tão forte, que achei ter machucado minha mão. Que ódio por ter feito isso, mas ela estava me ofendendo.

– Quer saber, eu cansei disso. Temos propósitos diferentes na vida, e você precisa de alguém que possa lhe acompanhar como sua namorada, esposa um dia, quem sabe. E essa pessoa não sou eu.

– Você me convenceu agora, não irei mais atrapalhar a sua vida...

Ela segurava a lateral do rosto, em que eu havia batido, me olhou com pesar, caminhando a passos largos para a porta do meu apartamento, quando por descuido virou o rosto em minha direção ao fechar a porta, vi lágrimas em seus olhos, uma angustia invadiu o meu peito e corri atrás dela.

Por sorte, a encontrei entrando no elevador. Segurei seu braço a puxando para fora, me joguei em seus braços beijando seus lábios.

– Me desculpa, não tinha o direito de lhe agredir, eu fiquei sem saber o que fazer depois que me disse aquelas coisas. Eu te amo, Bia, e estou muito confusa. Não quero depender de você e nem quero que aceite o meu trabalho. Queria muito poder ficar apenas contigo, mas não posso pedir que espere o dia em que isso irá acontecer.

– Você disse que me ama, é isso? – Um sorriso largo e encantador tomou forma em seus lábios, ela rodava comigo em seus braços no corredor gritando que me amava.

Contagiada por sua alegria comecei a sorrir, eu amava aquela mulher, talvez desde o primeiro dia em que a vi, eu só não havia me dado conta disso.

*****

Com a ajuda da Bia consegui um emprego na minha área de formação, algum tempo depois disso, a pedi em namoro. Ela já estava cansada dos meus “nãos” aos seus pedidos, e assim, resolvi me redimir e fiz eu mesma o pedido de namoro, que ela demorou a aceitar, talvez, tenha sido a sua forma de vingança.

Mas eu não ligo para isso, estou muito feliz ao lado dela, e a cada dia que passa me apaixono ainda mais por ela.

Meus pais a amam, se vacilar, preferem mais a ela do que a mim, assim que voltamos a conviver como “pais e filha”, contei para eles da minha orientação sexual e do meu envolvimento com a moça, que ameaçou de mandar prender o meu pai, no dia do enterro do próprio filho, por estar me ofendendo.

A Bia é uma figura, uma mulher sensacional, que eu não penso mais em viver longe, justamente por isso, estou chegando na casa dela neste instante, com um buquê de flores e um par de alianças, para pedi-la em casamento.

Porém, o meu limite de espaço está acabando, e não terei como contar a vocês se ela aceitou o meu pedido ou não. Desse modo, deixarei que ela decida, se fará isso ou não... Quem sabe um dia eu não volte e conte... Quem sabe, não é mesmo!

Notas finais:

Enfim... O fim!

Não poderia falta, um agradecimento especial a todas que me acompanharam até aqui... Agradecer também, Lilly por ter aceito o meu desafio... Apesar de ter deixado no ar o que iria acontecer no final... hehe... Adorei a visão da Marina, sobre a sua perspectiva.

Fico muito feliz em finalizar mais uma de minhas histórias, e dar segmento a todas as outras que ainda faltam acabar... Espero que como essa, apareça inspiração para mais...

Bjs a todas... Se cuidem!!

Bia



Comentários


Nome: HelOliveira (Assinado) · Data: 28/08/2021 11:49 · Para: EXTRA - A História de Marina – Lilly Porto

Parabéns adorei...sou fã de vcs



Nome: Nenete (Assinado) · Data: 21/11/2020 18:11 · Para: EXTRA - A História de Marina – Lilly Porto

Muit bom. Parabéns....



Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 12/11/2020 18:42 · Para: EXTRA - A História de Marina – Lilly Porto

Foi curto mas é um.otimo conto. Bia foi insistente e conseguiu  o Amor de Marina.



Nome: rhina (Assinado) · Data: 15/10/2020 23:16 · Para: EXTRA - A História de Marina – Lilly Porto

 

E ae.

Beleza.

Rhina



Nome: Nenete (Assinado) · Data: 14/10/2020 03:15 · Para: EXTRA - A História de Marina – Lilly Porto

Parabéns pelo extra, resumido e bem escrito. Bjuss....



Nome: Rosa Maria (Assinado) · Data: 10/10/2020 21:26 · Para: EXTRA - A História de Marina – Lilly Porto

Um final surpreendente, um resumo misturado com outra perspectiva dos fatos, muito bom esse resultado final. Parabéns 

Beijo

Rosa????



Nome: Irinha (Assinado) · Data: 10/10/2020 21:15 · Para: EXTRA - A História de Marina – Lilly Porto

Adorei o romance.bjs



Nome: Manuella Gomes (Assinado) · Data: 10/10/2020 19:45 · Para: EXTRA - A História de Marina – Lilly Porto

Adoro a sua escrita e seus trabalhos, e achei que o complemento da Lilly ficou ótimo. Foi bom ler a história por outra perspectiva e conhecer mais sobre a Marina. 

Fique a vontade se quiser depois continuar mais um pouquinho a história. Irei gostar! :) Se o fizer, queria mais "cenas" do amor entre elas, os sentimentos, principalmente da parte de Marina.



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