Amor incondicional por caribu


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- Mentira, a Sônia? – Bianca estava incrédula, passando o café – Sem essa, Fábio! Você está me zoando.

- Tô te falando, garota! – ele garante, enfiando dois gomos de tangerina na boca. Estava apoiado na porta porque o cheiro da fruta enjoava a mulher. Apesar do tom divertido, mantinha o rosto sério – Ela saiu de casa ontem, o Miltinho nem imagina onde possa estar uma hora dessas. Ele me mandou mensagem de madrugada, arrasado. Só vi agora de manhã, quando acordei.

- Nossa, mas ela foi para onde? Como assim?

- Fugiu, Bia! – ele revela, mexendo com as mãos, como se dissesse o óbvio. Deu uma inclinada com o corpo para ver se Joaquim estava ouvindo e continuou, um pouco mais baixo, apesar de o menino ainda estar no banheiro – Diz que escreveu um bilhete dizendo que há não sei quantos anos se encontrava com outro cara. Os dois fugiram juntos. Meteram o pé.

- Gente! – ela fala, e se apoia na pia para assimilar aquilo. Ainda não eram nem sete da manhã e o marido já cedo vinha com aquela novidade.

- Meteram o louco – Fábio continua, nitidamente envolvido com seus pensamentos.

- Sei nem o que dizer – Bianca comenta e no mesmo instante Joaquim sai do banho e entra na cozinha, sorrindo e com o cabelo molhado.

- Pronto, lavei tudo – o menino anuncia.

- É, parece coisa de novela – Fábio levanta os olhos no final da frase, observando a mulher se agachar e secar o cabelo do filho. Bianca ainda estava no começo da gravidez, mas mesmo assim tinha os movimentos todos contidos, como se já estivesse com barrigão. Joaquim, como sempre, coloca a mão na barriga e acaricia, enquanto ela o penteava.

 

- Oi, irmã – ele diz, com um sorrisinho.

 

Fábio se compadecia do amigo. Um pouco. Sabia que Milton vivia traindo a esposa, ela tinha descoberto, num passado recente, apenas uma dentre várias escapulidas do marido. Ele mesmo vivia se gabando dos seus feitos, para quem quisesse ouvir. Jamais diria isso, mas no fundo achava até que era um pouco bem feito. Nada mais justo do que receber o troco na mesma moeda. Mas se comiserava porque se imaginava vivendo aquilo; de repente a mulher some e todos descobrem que ela tinha um amante, há anos. Isso afeta o orgulho de qualquer homem.

Bianca nem tinha o que falar, e não faz nada além de um gesto repetitivo com a cabeça, negativamente. Manteve a boca entreaberta enquanto ajudava Joaquim e o olhar fixo em Fábio, mas sua cabeça estava longe daquela cozinha. Achou aquilo tudo meio absurdo porque o casal estava junto há tanto tempo, e todos sabiam das puladas de cerca de Milton, mas era uma surpresa imaginar que Sônia também era capaz daquilo. E até mais! Seria machismo pensar isso?

Ela se lembra rapidamente de uma vez que fez um teste em uma dessas revistas de banca e descobriu, por ali, que tinha pensamentos e comportamentos machistas. Na época, Bianca nem sabia que mulheres também podiam ser enquadradas assim, e na ocasião conversou justamente com Sônia, que veio com um discurso que deu um pouco de preguiça em Bianca, sobre machismo e feminismo. Havia assuntos que provocavam isso nela, e por isso nunca prestava muita atenção.

Tinha se esquecido disso! Agora, resgatando na memória, parece que a mulher sempre foi um pouco progressista, e talvez tenha inclusive dado indícios do que fazia; Bianca é que não viu.

No fim, sorriu porque considerou a amiga muito corajosa para aquilo tudo. Boa, Sônia! Quando fosse levar Joaquim na escola ela com certeza ia mandar uma mensagem para Teresa. Se alguém teria detalhes daquele rolo, certamente era ela (se é que sabia!).

 

- Como as pessoas são, né? Surpreendentes! – Bianca finalmente fala, agora realmente olhando para Fábio. Pendurou a toalha no ombro e apontou para a cadeira. Joaquim sentou diante de onde estava sua nova caneca de café da manhã, que originalmente era um medidor de receitas – Para ser sincera, eu acho ótimo, que Deus me perdoe, mas uau! Não esperava.

- Fico pensando se deixamos algo passar – Fábio estava entretido em seus pensamentos – Ela fazia as coisas debaixo do nariz de todo mundo e nunca ninguém notou nada de estranho? – ele ri – Curioso.

- Nem o marido, né.

- Pois é. O problema, Bia, é que as pessoas não conversam – Fábio diz, terminativo – Os casais não conversam, e aí sem diálogo ficam os dois insatisfeitos. Normal.

- Não é normal – Bianca retruca.

- Normal que aconteça.

 

            Ele senta ao lado do filho e puxa a cadeira para ela se sentar também. Esperou por um aceno de cabeça para colocar café na xícara, e deixou o leite de lado quando ela fez uma careta. Se serviu de café também e antes de beber deu uma assoprada forte, movimentando o bigode que ele tinha deixado crescer só de brincadeira, mas acabou mantendo o visual.

Bianca fica pensativa. Já fazia meses que escondia do marido um assunto que nem era segredo, exatamente – ou nem deveria ser, pelo menos. Aquela história com Beatriz dizia respeito a ela, é verdade, mas nada a impedia de compartilhar. Era algo grande, afinal. Agora ficava meio assim, porque ele certamente ficaria zangado quando ela falasse (e com razão), perguntaria por que demorou tanto, questionaria se não confiava nele e outros dramas previsíveis. Mas Fábio estava certo quando afirmava que o problema dos amigos era falta de diálogo. Ela também achava isso.

Se preocupou que essa falha também minasse o seu relacionamento, embora soubesse que o marido não tinha lançado nenhuma indireta. Olhou de relance para ele, distraído com seu café, com aquele bigode parecendo mexicano, totalmente despreocupado com a hora, pois naquela manhã não ia trabalhar para finalmente poder montar o berço. Fazia dias que os dois discutiam por isso, Bianca sempre achando que ele enrolava, ele sempre alegando que ainda era cedo, que ainda tinham muito tempo (praticamente toda a gestação). Mas acabou cedendo, e ia descontar o dia do seu banco de horas. O movimento na oficina andava meio fraco, então se livraria das reclamações da mulher e ainda almoçaria em casa. Só acordou tão cedo para fazer companhia à Bianca, que desde que perdera o emprego fazia questão de levar Joaquim à escola. Ele vinha se esforçando para ser o melhor parceiro naquele momento, e só as discussões a respeito do berço aconteciam.

Ela estava preocupada, de verdade. Queria que o berço servisse de comprovação da gravidez, que avançava bem, segundo os exames iniciais de pré-natal, mas tinha medo, era gata escaldada; o berço seria sua âncora. Seu medo era tamanho que dizia que nem queria saber o sexo do bebê, pois se algo ruim acontecesse, sofreria mais ainda sabendo de detalhes importantes como este. Fábio não insistia, até entendia, e Joaquim garantia que teria uma irmã. Assim a família seguia.

Bianca imaginou onde Sônia estaria naquele momento, se lembrou de sua risada e quis rir também. Aí pensou em Milton, que devia estar um caco, e sem querer relacionou o caso ao possível sentimento de traição que Beatriz também poderia estar sentindo, afinal seu pai tinha mentido durante toda a vida, e escondido fatos importantes de sua história. Descobrir essa traição era quase uma punhalada. Tipo a de Milton. Devia ser.

Sua mãe também tinha mentido, mas Bianca já tinha decidido enterrar aquela história junto com ela. Parecia muito errado julgá-la agora, que nem tinha como se defender ou se explicar. Ficava pensando que jamais a confrontaria, fosse este ou outro assunto, e se convenceu de que ela só tinha feito aquilo por um motivo realmente grandioso. Catarina jamais abriria mão de um filho, Bianca sabia, e isso parecia suficiente para ela. Acreditava fielmente que nessa história sua mãe era vítima, e o vilão sem dúvidas era o pai de Beatriz.

Além de tudo, era quase impossível pensar mal a respeito de sua finada e querida mãe. Bianca tinha aprendido tudo o que sabia com ela, e devia muito de quem era à sua matriarca. Embora tenha se sentido traída a princípio, dolorosamente, sempre se consolava pensando que Beatriz sofria mais que ela, ou carregava um fardo mais pesado. Não que lhe desejasse algum mal; mas se ambas se afogavam com aquilo, que ela ao menos tivesse alguma vantagem.

Tinha vergonha de pensar essas coisas, mas era a verdade, o que se pode fazer? Depois de superar a fase de se criticar por esses pensamentos, agora só acolhia e aceitava. O próximo passo era finalmente parar de pensar em Beatriz, ou conseguir pensar nela sem se sentir tão incomodada. Ou ir lá e resolver tudo isso logo. Não era mulher de fugir, afinal de contas, e aquela situação já estava num ponto que beirava o absurdo.

Agora mesmo, sentia que estava sendo desastroso se concentrar apenas no ocorrido entre Sônia e Milton, pois mais uma vez Beatriz invadia sua mente, deixando Bianca irritada e inquieta.

 

- A doutora Beatriz uma vez disse que o ser humano é o animal mais complicado da natureza – Fábio comenta, pensando em voz alta.

- Oxe, do nada, por que você está falando dela? – Bianca indaga, visivelmente irritada, largando sua xícara – Eu, hein.

- Ué, qual o problema? – Fábio retruca, sem entender a reação – Achei interessante quando ouvi e nesse caso...

- Tá bom, Fá. Que seja – ela interrompe, se levantando – Vamos, Joca. Já está na nossa hora, vamos senão você se atrasa.

- Deixa eu ficar para montar o berço! – o menino pede, juntando as mãos como se estivesse rezando.

- Imagina, meu amor. Isso é tarefa para o seu pai. Você tem que ir para a escola e aprender as coisas.

- Não queria ir – Joaquim resmunga.

- Joaquim! – Bianca estava séria. Não diz mais nada e o vê caminhar até o banheiro para escovar os dentes.

- Bia, para que tudo funcione bem, você precisa colaborar – Fábio diz, sem dar atenção a ela. Mexia no celular e olhou para a esposa só depois de alguns segundos.

- Fábio... – ela começa.

- Tudo bem. Quando você voltar, conversamos. Hoje estarei o dia inteiro em casa – ele interrompe, desta vez sem olhar para Bianca.

 

            Joaquim volta para a cozinha, já com a mochila nas costas, e se despede do pai com um abraço rápido. Estava de cara fechada, com bico, e não disse nada. Nem Bianca, que ao sair viu que Fábio a olhava, sério.

            Ela vira os olhos, contrariada, e a caminho da escola pensa que aquilo era tudo o que não precisava: Fábio em casa, mal humorado. Uma versão maior do homenzinho que agora dava a mão para ela, zangado por ter que estudar. Sentiu a frequência mudar e o amor a invadir quando pensou no bebê; secretamente, torcia para que Joaquim estivesse certo e fosse mesmo uma menina. Daria uma boa equilibrada nas coisas.

 

- Quanto tempo, na vida, a gente precisa estudar? – Joaquim pergunta, chutando uma pedrinha na calçada.

- Muito tempo, meu amor. Tem gente que estuda até morrer.

- Eita – ele exclama. Reparou que Bianca estava com a mão na barriga e sorriu – Vou ensinar todas as coisas para a minha irmã e aí ela não vai precisar estudar.

- Você gostava da escola. O que mudou?

- Ah – Joaquim não soube responder.

 

Pararam em frente ao portão da escola e se despediram com um beijo e um abraço apertado. Bianca o esperou entrar no prédio, pois sabia que o menino ainda daria uma olhadinha para trás antes do último aceno.

No caminho de volta ela puxa o celular do bolso e manda uma mensagem de áudio para Teresa, que provavelmente ainda estava acordando. Caso a amiga ainda não soubesse da fuga de Sônia, começaria o dia já boquiaberta. Só por isso Bianca gravou a mensagem rindo e quando chegou em casa ainda sorria.  

            Logo que entrou, ouviu os barulhos vindos do quintal, onde Fábio estava. Ia até lá, mas parou na cozinha e encarou a mesa posta, viu que ele não tinha tirado nem a própria xícara do café. “Para que tudo funcione bem, você precisa colaborar”, ela diz, usando o tom do marido. Ele ouve a louça sendo lançada na pia e vai ao encontro de Bianca. Já tinha separado todas as peças do berço, calculava que em meia hora montaria tudo.

 

- O que está pegando, Bia?

- Muita coisa, Fábio. Eu nem saberia por onde começar.

- Tenta – ele pede, puxando a cadeira para ela sentar.

 

Bianca detestava quando ele a olhava com aquela expressão, parecida com a cara que sempre fazia quando ela surtava, na TPM – só que aquela era a versão gravidez. Parecia muito fácil responsabilizar seus hormônios quando nem a porra da xícara ele tirava da mesa, mas pensar nisso a fez se sentir um pouco surtada. Não era para tanto.

Fábio, por sua vez, estava disposto a ser paciente, entendia a carga emocional que Bianca carregava, mas ela andava estranha já não era de hoje. Antes mesmo de engravidar já se comportava de maneira esquisita, arredia. Parecia que escondia algo, mas não sabia dizer se era realmente isso ou se pensava isso apenas porque ele próprio escondia coisas dela. Imaginou que com a demissão Bianca sossegaria um pouco, mas já fazia um mês que a mulher estava em casa e parecia cada vez mais distante, pensando em coisas que ele nem imaginava o que pudessem ser. E fora que andava irritada. Mais que o normal.

Os dois se sentaram lado a lado e Fábio segurou sua mão. Tudo o que fazia naquele casamento era por amor. Sorriu para Bianca e beijou seus dedos, a encorajando a falar algo.

 

- Fá – ela começa, com a voz um pouco falha – Dia desses eu estava arrumando as coisas da minha mãe e encontrei uma coisa – ela se levanta de repente e pega uma fotografia dentro da bolsa.

- Saudosa querida sogra, grande dona Catarina – ele comenta e puxa a foto para perto, para olhar melhor. Desviou e mirou um tempo no teto. Voltou para a foto e finalmente olhou para Bianca – A doutora te falou dessa árvore!

- Pois é.

- Como ela...? – Fábio começa a pergunta, mas se cala. Olha novamente para a foto e antes de se voltar para Bianca, passa os dedos no bigode, se sentindo um verdadeiro detetive de algum filme de suspense.

- Pois é – Bianca repete.

 

            Ela se levanta e caminha pela cozinha. Sentiu que precisava se movimentar, ficou agitada. Pensou em beber café, mas nem queria porque o café de mais cedo ainda estava conversando com ela, numa azia matinal que antecedia longas horas de enjoo. Serviu uma xícara e entregou para Fábio, que bebeu um golinho sem questionar.

 

- Bia, você precisa mostrar essa foto para ela – ele finalmente diz.

- Já mostrei. Desculpe, devia ter te contado – Bianca complementa, vendo a cara que Fábio fazia.

- Claro, devia mesmo! Por que não contou?

- Sei lá – Bianca volta a sentar – Tentei absorver tudo isso. Falar com ela não me ajudou muito, como pode perceber. Estou te contando agora porque você tem razão, o que complica muitos casamentos é o fato de as pessoas não conversarem, eu não quero estragar a nossa relação. Demorei, mas contei – complementa, desta vez ela segurando em sua mão – Não tenho conseguido ir muito longe, sozinha. Quer dizer, até avancei um pouco, acho. Mas estou patinando há meses.

- Nunca imaginei que você e aquela médica pudessem ter algum parentesco! Vocês são tão diferentes! – ele diz, pensando inicialmente no comportamento das duas, depois se questionando se haveria alguma semelhança física entre elas. Nunca imaginou que Beatriz fosse a irmã de Bianca!

- Nunca imaginei que minha mãe pudesse ter tido outro filho! Isso não te surpreende? – Bianca rebate. Encara o marido e aperta sua mão, diante do silêncio repentino – Fábio?

- Ela me fez prometer! – ele começa, e levanta as mãos, se defendendo, antes que Bianca dissesse alguma coisa – Na época ficou muito marcado, mas com o tempo me esqueci disso, Bia. Eu juro – Fábio se antecipa em dizer, vendo a cara de surpresa que a esposa fazia – Sua mãe me disse que teve outro filho, mas foi só isso, acho que ela só não quis morrer e levar essa história. Não me deu detalhes, juro.

- E você nunca me contou! Minha mãe morreu já tem mil anos!

- Eu ia contar, Bianca! – Fábio se levanta, se esforçando para não alterar o volume da voz – Quando essa história voltou para a minha cabeça eu tentei saber de tudo, quis achar esse irmão, e ia te contar. Mas aí a doutora disse que poderia não ser bom...

- A Beatriz sabia! – Bianca estava gritando – Puta que pariu, não sei o que é pior! – ela consegue dizer, após uma pausa. Voltou a sentar porque estava com muita raiva – E eu aqui me sentindo mal de ter te escondido... você já até sabia!

- Eu não sabia – Fábio se defende.

- Sabia! – ela berra, avançando em sua direção. Para no meio da cozinha, como se de repente mudasse de ideia – Nossa, sai da minha frente.

- Bia – ele chama, vendo a mulher balançar a cabeça. Estava com o rosto vermelho, de um jeito que ele tinha visto poucas vezes. Quando voltou a falar, ela não gritou. Na verdade, sua voz saiu por um fio.

- Sai, Fábio! Não quero te olhar!

 

            Mesmo contrariado, ele sai. Deixou as tábuas do berço todas espalhadas no quintal, com os parafusos, as ferramentas fora da caixa, tudo bagunçado – e Bianca certamente reclamaria daquilo, mas ficaria assim por causa dela. Fábio entendia sua brabeza, mas a esposa também lhe escondera coisas importantes e por isso se sentia até um pouco injustiçado. Preferiu sair apenas para que o afastamento a acalmasse, não era nem bom para o bebê (que ele secretamente torcia para que fosse um menino. Mulher dá muito trabalho!).

            Logo que fechou a porta, seu primeiro pensamento foi de que, com tantas pessoas no mundo, justamente Beatriz o ajudou quando ele mais precisou. Um auxílio pontual para aquele momento de dor, que ainda hoje refletia em seus dias. Muita coisa tinha mudado desde que a conhecera, e nem imaginavam quão próximos eles eram!

            Depois, lembrou que a própria Beatriz o alertou de que aquela busca por um irmão desconhecido poderia fazer descobrir alguém diferente deles. Ela usou o exemplo de um possível irmão gay. Que ato falho do caralho! Mas Fábio na época pensou em gay, não em lésbica, e aí refletiu brevemente de que maneira aquele detalhe afetava todo o cenário. Não soube dizer, exatamente, mas saber que a irmã de Bianca era lésbica causava um sentimento que ele tampouco conseguia definir. Quase a mesma dificuldade que teve para assimilar a imagem de Beatriz à sexualidade homossexual.

            A verdade é que ele sempre associou a figura das lésbicas às cenas eróticas que tinha visto em alguns filmes pornôs ao longo da vida. E nem Beatriz, ou Fernanda, se pareciam com aquelas atrizes, e ele ficava um pouco envergonhado porque até conhecê-las nunca tinha pensado que mulheres assim se relacionavam entre si – como os outros casais; nem tudo se resume a sexo. Beatriz, se soubesse, certamente teria dito que Fábio pensava assim porque era machista, e estaria coberta de razão. Ele só tinha começado a reparar nesses pensamentos, e alguns comportamentos (seus e de homens próximos dele), depois de conversar com Beatriz.

            Por falar em machista, parou numa sombra e mandou uma mensagem para Milton. Combinou de se encontrar com o amigo na casa dele. Já era tarde, mas o encontrou ainda de pijama, com uma aparência lastimável (parecia até que tinha chorado). Disse que ele não atrapalhava, mas Fábio não sentiu muita firmeza na afirmação. Ficou porque sentiu que era seu dever, como amigo, e porque não tinha muito mais para onde ir. Ficaria por lá e mais tarde voltaria para casa; consolaria o amigo e esperaria a fera de nome Bianca amansar. Não era exatamente o tipo de programa que planejava ter em seu dia de folga, mas teria gostado que fizessem o mesmo por ele, caso estivesse passando por situação parecida (abandonado e corno).

Almoçaram juntos, à tarde jogaram baralho e sinuca. Milton tinha mesmo uma vida boa de adulto sem filho, mas no fundo ficava sempre um silêncio que Fábio já estava desacostumado, desde que Joaquim tinha ido morar com eles. Criança sempre faz um barulho típico, que ele já associava a conforto, a lar.

No fim do dia, quando estava de saída, já indo embora, observou algumas crianças brincando na rua e se perguntou se Sônia teria ido embora se os dois tivessem filhos. Nunca tinham conversado a respeito, Milton sempre só listava os benefícios de morarem sozinhos (dizia que acordava tarde quando queria, dormia a noite inteira sem preocupações, gastava todo o seu dinheiro com cerveja e mulher). Pensou em falar algo, mas pareceu indelicado. Se despediu do amigo com a impressão de que o deixava melhor do que tinha encontrado.

Caminhou até a escola de Joaquim imaginando que em breve seu filho teria um novo amiguinho, quem sabe até se animaria a se juntar a turmas como aquelas, que estavam sempre gritando, não importava qual fosse a brincadeira ou jogo escolhido. Fábio acreditava que Joaquim se sentiria mais disposto a brincar com outras crianças depois que o irmão nascesse. Ainda era uma incógnita para ele o fato de o menino não fazer muita questão se enturmar com as crianças da sua idade, mas estava certo de que em breve isso ia mudar.

Fez o caminho que Bianca sempre fazia para ir buscar Joaquim, e foi o trajeto inteiro procurando por ela. Encontrá-la seria uma ótima desculpa para se aproximar novamente da mulher. Foram várias horas para ela se reequilibrar, afinal. Sabia que aquele não era o tipo de assunto que se desculpa de maneira rápida, mas teriam que partir de algum lugar, e ter esse primeiro contato em um local público era bastante vantajoso para ele.

Bianca detestava escândalos, nunca tinham nem discutido na rua. Não seria agora que isso ia mudar, Fábio sabia.

Caminhou lentamente, sorrindo no caminho para os meninos que disputavam de maneira quase selvagem uma bola murcha no meio da rua, a trave do gol eram dois chinelos remendados. Próximo dali uma menininha contava rapidamente números sem sequência nenhuma enquanto outras três corriam para se esconder. Aquele ambiente barulhento fez brotar um sorriso em seu rosto, que perdurou até que chegasse em frente ao portão cinza-claro da escola.

 

- Ué! – exclama, vendo Irene entre as pessoas que já aguardavam pela saída dos alunos – Achei que a Bia viria buscar o Joca!

- Ela foi lá em casa mais cedo, pediu que eu viesse – a mulher comenta, com algumas palavras abafadas pelo som das crianças, que começavam a sair da creche – Disse ia resolver um assunto importante.

- E disse o que era?

- Não, filho. Vocês brigaram, não foi?

- Não foi uma briga. Nós só...

- Vovó! – Joaquim grita, abraçando a mulher, que se abaixa para abraçá-lo – Que legal! Você e o papai aqui juntos! Cadê a mãe Bia?

- Ela teve que sair, filhão. Foi resolver um negócio, mas chega logo. Não foi o que ela disse, mãe?

- Ela não disse, Fábio. Nem onde ia, nem que horas voltaria.

- Que estranho... – ele resmunga.

- Ela estava chorando, filho – Irene cochicha – Não sei o que aconteceu entre vocês e, como sempre, não quero me meter nos problemas de casal de vocês. Mas meu filho, tome cuidado, pelo amor de Deus! Bianca está grávida, depois de ter passado aquele tempo deprimida, depois de ter perdido o bebê – Irene volta a abaixar a voz – Não a aborreça, mesmo que ela esteja te tirando do sério. Evite discussões. É difícil? É, mas vocês só têm a ganhar. E é basicamente tudo o que você pode fazer, neste momento, pelo bem da sua família. Releva, engole. São só alguns meses, depois passa.

- Sim, você está certa. Já estou arrependido, mãe – Fábio confessa, sentindo o coração apertar – A gente se desentendeu de manhã, mas achei que a encontraria aqui agora, que tudo estaria bem.

- Liga para ela – a mulher aconselha, e Fábio já estava com o celular na mão.

- Me conta o que você aprendeu hoje na escola – Irene pede, entregando um picolé a Joaquim.

- Na escola nada, a gente só fica lá sentado, fazendo desenho que nem uns bobos – o menino responde, sem pensar muito – Mas de manhã aprendi que tem gente que estuda até morrer, vovó. Você acredita?

- Acredito! Tem muita coisa para se estudar nessa vida, meu filho.

- Tanto assim? – ele fazia uma careta, um pouco desanimado.

- Bianca não me atende – Fábio comenta, se aproximando deles.

- Tenta ligar de outro número – Irene aconselha, e vê o filho ligar para Teresa. Não disse mais nada porque reparou que ele estava nervoso com aquele sumiço.

 

 

 

 

Notas finais:

 

Com este capítulo, chegamos a 500 páginas!

Livrão, né?rsrs



Comentários


Nome: Alex Mills (Assinado) · Data: 16/12/2021 00:20 · Para: Quarenta e um

Só observo que a Bianca come pouco  (mas come) a Beatriz vive de oxigênio ahahaha e um gole de chá 

Segundo a Cicera é menino o bebê, coitada da Bianca. E ninguém descobre o que tem o menino Joaquim. No aguardo o.o



Resposta do autor:

 

Beatriz não come msm. Talvez tenha algum problema rs

A primeira cena entre ela e Cícera reforça isso.

Boa vive de ar e chá rs

 

É verdade, vc tinha comentado sobre o Joquim lá no começo... e sinto informar, mas ngm vai descobrir rs Ou, se vai, não será dito rs

Me meto nas coisa, mas só um pouco rsrs

 

Tá quase terminando, hein dona Alex!

 

Beijos!



Nome: Marta Andrade dos Santos (Assinado) · Data: 29/08/2021 01:04 · Para: Quarenta e um

Onde foi para Bianca.



Resposta do autor:

Onde será, hein rsrs



Nome: cris05 (Assinado) · Data: 28/08/2021 00:39 · Para: Quarenta e um

Sextou com esse livrão da porra! Rs

Vixe, foi uma treta e tanto! Conversar é preciso rsrs.

Ain...tô torcendo que seja uma menininha só por causa do Joaquim. Ele é fofo demais!

 

P.S Menina, quando você postou o 40 eu realmente não estava muito bem. Uma moleza, um mal estar, mas agora tô recuperada.

Quer dizer que a cã tá arrasando no cooper? Muito bom! Rs

Beijos querida!



Resposta do autor:

 

Livrão da porra, isso! Vai encarecer o frete, depois de pronto rsrs 

Ainda bem que eles conversaram, msm brigando! Têm que se resolver, né

Joaquim é fofo msm!! Dá vontade de apertar!!

 

Que bom que vc melhorou! Achei estranha a sua ausência, mas fico feliz de saber que já passou! 

Pois é, coloquei a gordinha pra correr pq nessa quarentena ela perdeu a cintura rs Não quero que sofra bullying rsrs 

 

Beijos, se cuide! Fica bem!

 



Nome: NovaAqui (Assinado) · Data: 27/08/2021 23:14 · Para: Quarenta e um

Bianca surtou com o marido. Foi tenso

Adorei saber que Milton é corno kkkkk

Abraços fraternos procês aí

 

 

 



Resposta do autor:

 

Surtou, menina! Achei foi pouco rs 

E merecido pro corno, quer dizer, Milton!rs 

Originalmente, nada disso acontecia! Fiquei satisfeita com o resultado! 

Beijos!

 

 



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