A leitora por caribu


[Comentários - 19]   Impressora Imprimir Capitulo ou História - Lista de Capítulos

- Tamanho do Texto +

 

Naquela noite, deitou cedo, não era nem 21h direito. Estava entediada e a chuva lá fora, que não dava trégua há três dias, a incentivava a se enfiar mesmo debaixo das cobertas. Era agosto e aquela era uma das poucas frentes frias que a obrigava a usar meias, até ali – um par bem “chegay”, listrado, que ia até a metade da canela. Nos pés calçava pantufas que simulavam patas de algum animal peludo e por cima do pijama tinha se coberto com uma manta fininha, que estava sobre os ombros, dando à moça uma aparência que em nada combinava com a sua personalidade, mas que ficava condizente com a caneca de chá fumegante que trazia em uma das mãos.

Amanda nem se importava em como estava vestida; estava friozinho, era sexta à noite e ela estava em companhia de um bom livro. Se permitia ficar em casa à vontade – na verdade aquele era o único lugar, no mundo, onde ela se dava ao luxo de ser ela mesma, comodamente. Naquela kitnet, longe de todos os olhos e de toda censura contida ali, ela usava seus pijamas velhos, suas calças furadas e roupas que um dia tiveram seu momento de glória, e agora estavam fadadas a nunca mais saírem nem mesmo até a calçada.

Estava sempre sem calcinha, o que para ela era o ápice da liberdade.

Caminhou até o quarto sem prestar atenção no trajeto, e quase pisou no gato, que estava ali na porta, se lambendo. Ele deu um miado meio contrariado, e deitou-se bem na ponta da cama – no outro extremo onde Amanda agora se sentava. Ela mantinha os olhos vidrados no celular, mal piscava. Tinha encontrado um romance muito bom num site de literatura lésbica. Era um conto bem amarrado, com personagens complexos, mas ela lia um pouco ressabiada porque a história ainda estava incompleta. Já tinha havido casos de ela se encantar por um enredo que no fim não se concluiu. Era um risco que corria tendo acesso à leitura marginal.

Ela adorava. Era um mundo que acessava ali, na palma da sua mão, distante do lobby editorial, e que lhe permitia não apenas ler (que ela amava, desde criança), mas também ter contato com as pessoas responsáveis pelas histórias que ela lia. Havia uma interação entre leitoras e escritoras e Amanda considerava aquela uma das maiores riquezas da tecnologia: ela aproxima mesmo as pessoas.

E agora constatava isso, mais uma vez, apertando o botão de “enviar”. Tinha escrito um comentário meloso elogiando a passagem dos capítulos; estava bem escrito. Gostava de acreditar que seus incentivos agraciavam as autoras e elas lhe retribuíam com histórias ainda melhores. Sorriu satisfeita, enfim tirando os olhos da tela e mirando brevemente na janela.

Aquele era um horário onde muitas famílias se reuniam para jantar, e ela gostava de todas aquelas luzes acesas no prédio à frente. Era um momento cotidiano, sempre a fazia pensar no natal, quando ela se juntava à sua própria família para celebrar e comerem juntos, a casa acesa, em clima de festa, de confraternização. Uma realidade muito distante da sua atualidade, desde que tinha se mudado de cidade, se desgarrando dos parentes.

A vida nos força a muitas mudanças, às vezes. Até de endereço, acontece.

Mas aquele era o maior e talvez o único empecilho de estar ali, agora. Gostava de morar em São Paulo, se sentia ao mesmo tempo parte e alheia a tudo aquilo, àquela agitação tão típica. Tinha vezes que saía à noitinha apenas para ver o movimento no bairro onde morava, Liberdade. Amava os cheiros das barraquinhas, dos restaurantes e o das pessoas também. Sentava ali nos degraus da saída do metrô São Joaquim só para observar aquela gente saindo com pressa – muitos pareciam só repetir um comportamento. Pressa para quê?

Acostumada a viver rodeada de histórias, Amanda criava algumas, se baseando na aparência das pessoas. Imaginava de onde vinham, para onde iam, o porquê de suas marcas, seus cortes de cabelo, seus adereços. Adorava observar grupos e analisar quem liderava quem. Eram sutis os gestos, mas notáveis e a partir daquilo ela criava toda uma estória.

Mas tudo apenas em pensamento. Jamais se arriscou a escrever algo porque se convenceu logo moça que estava fadada a ser leitora, simplesmente. No máximo se arriscava com algumas poesias, que escrevia num caderninho que mantinha debaixo do colchão. Mas isso não era um peso; ela achava uma dádiva. Tinha aprendido a ler sozinha, aos seis, porque sempre quis fazer exatamente isso: ler. Se admirava em como cabiam emoções em algumas páginas. Adulta, reverenciava a possibilidade de acesso que seu celular lhe permitia (quantos sentimentos cabem em um giga?). Lia muito mais agora.

Ainda assim, um dos seus maiores deleites era passear pelas estantes das livrarias, respirando fundo para absorver ao máximo aquele cheiro de folhas novas, virgens, ansiosas por uma passada de dedos, por uma passada de olhos. Amanda sempre cheirava os livros que comprava, fechando os olhos de satisfação, ainda no caixa. Se sentia viva respirando uma história nova!

Depois, já a caminho de casa, degustava cada palavra, cada linha. E quando a história era boa ela lia devagar, saboreando mesmo. Ficava sempre temerosa de acabar rápido e ter uma indigestão literária, ou não absorver todos os ingredientes que compunham algum personagem. Como um jurado numa competição, Amanda se deleitava com os traços de personalidade fornecidos pelos criadores de pessoas muitas vezes tão incríveis e até inesquecíveis.

Ela se apegava a eles e se flagrava pensando em algum dilema do livro como se o personagem fosse uma pessoa real, como um vizinho ou um colega de trabalho. Ou até além disso, já que ela se afeiçoava ao ponto de considerá-los amigos, mesmo. Sofria com eles, sorria, chorava. Tinha vezes que até aplaudia, ou só repousava o livro fechado por um instante em cima do peito, como que para fazer os seus batimentos acalmarem alguma tensão na narrativa.

Desviou os olhos das janelas alheias e pegou novamente o celular. Se sentia meio desorientada quando eventualmente ficava sem leitura, parecia que lhe faltava algo. Era quase um vazio existencial que sentia nessas horas, uma quase desolação, de verdade.

Tirou as pantufas e se recostou na cama. Nhoque, o gato, deu uma resmungada quando ela puxou para cima o edredom, afofando a coberta ao seu redor, mas recostou-se nela para dormir, aninhando antes o local com as patinhas. Bebericou um golinho do chá enquanto rolava com o dedo a tela, em busca de uma nova aventura.

Parou, sem querer, em cima de uma autora que até ali ela não tinha lido. Se apresentava como Letícia, mas Amanda sabia que ela poderia ter qualquer outro nome. Muitas se valiam do anonimato para compartilhar seus projetos, e ela sempre se empenhava em descobrir o nome verdadeiro da pessoa. Fazia pesquisas, infinitas, até achar em alguma rede social, e aí passava a acompanhar a vida de alguém que ela nem conhecia, mas se fingia amiga.

Letícia era nova na plataforma, postava no site há pouco mais de dois meses, mas tinha já até que um considerável número de textos – quase todos eram crônicas. Amanda afofou o travesseiro. Adorava essa sensação de autor novo.

 

Notas finais:

Quem só lê e comenta, o homem do saco pega!rs



Comentários


Nome: rhina (Assinado) · Data: 30/08/2020 14:51 · Para: Primeira Parte

 

Então! Bem,

Ulisses chamo Branco

Max só chamo Malhado e

Minha linda Pérola sai sempre Pretinha.

Rhina



Resposta do autor:

hahaha

Ótimo! Adorei!



Nome: rhina (Assinado) · Data: 30/08/2020 14:03 · Para: Primeira Parte

 

Olá

Bom dia.

Conto bem amarrado.

Personagens complexos (........)

 Traços de personalidade fornecidos pelo seu criadpr.

Toda semelhança de Amanda com Rhina será mera fatalidade, casualidade ou coincidência?????

 Rhina



Resposta do autor:

Cada personagem sempre tem um pouquinho da gente, né. De mim, de vc...

Nesse ponto, eu sou como Amanda: gosto de pensar nas histórias por trás de cada pessoa. Dá para criar milhares de personagens assim!rs

 

P.S.: não acredito em "coincidências" rsrs



Nome: Luasonhadora (Assinado) · Data: 21/08/2020 02:04 · Para: Primeira Parte

Concordo com a Amanda, a leitura te leva a lugares onde você nem sequer sonhou conhecer. E também amo essa interação leitor/autor, como sempre, adorando sua obra. Mais uma pra mim viciar, com certeza. Espero que meus elogios te incentivem a postar sempre rsrs



Resposta do autor:

Nossa, e vc acredita que só hj achei esse seu comentário?!

Os elogios ajudam muito! As críticas tb, pq às vezes eu briso rsrs Se ngm fala nada eu fico achando que tá bom hahaha

Essa intereção é maravilhosa, eu nunca tive isso! Primeira vez e estou amando! 



Nome: Aja Rocha (Assinado) · Data: 19/08/2020 02:39 · Para: Primeira Parte

hahahahahahaha e mais hahahahaha

 

deixa eu contar um segredo (que só vai ser segredo pra vc).

eu tinha onze anos quando li a metamorfose, e sofri tanto mais tanto com aquele pobre homem virando insento. desde então tenho esses envonvimento peculiar com algumas personagens, mas não ache que acontece sempre, pois é só quando as personagens são bem elaboradas. Então entendo o que amd passa nas leituras hahaha. Chamo isso da maldição kafkiana. 

 

 

vou ficar aqui na parcimônia e esmero, lambendo sua cria. (tô curiosa mas sem alarde) 

🧡



Resposta do autor:

Lambe! ðŸ§¡

Gosto que esteja "curiosa mas sem alarde" rs

 



Você deve fazer login ou se cadastrar para comentar.


Ou comente usando seu Facebook: