My sunshine - livro i (degustação) por Rose SaintClair


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Definitivamente eu estava atrasada. Tinha certeza que não chegaria a tempo, antes da Sandra, a tia da escola, trancar o portão. Seria a terceira vez esse mês que eu levaria uma advertência. Comecei a correr desesperadamente.

Percebi que todas as pessoas da rua estavam me olhando. "Só faltava essa. Será que menstruei e manchou a calça?". Olhei para baixo e vi que estava sem tênis, na verdade estava descalça e não era só isso: "Como assim? Onde foram parar minhas roupas? Mainha vai me matar se eu pegar um resfriado! Como vou entrar na escola pelada, caralho? Pior ainda é que eu tô parecendo uma macaca, por que não me depilei?".

Agora todos à minha volta me olhavam e gargalhavam. Fiquei angustiada e comecei a correr ainda mais rápido. Lágrimas brotavam dos meus olhos. Meus pés sangravam, pedras e espinhos cravaram-se neles.

Eu caí aos prantos no chão duro, cortes no meu joelho me fizeram gritar. A dor e a vergonha eram insuportáveis. Não conseguia respirar, eu sabia que uma crise viria e eu desmaiaria. Tentei sugar o ar para os meus pulmões, mas não conseguia. Tentei mais uma vez, e novamente, não consegui.

Senti um perfume conhecido que fazia o meu coração bater mais forte. Quando olhei para cima a vi, cobrindo o sol e me estendendo a mão... ela... o meu raio de sol... com seus longos cabelos loiros. Ela me puxou para seus braços e, no mesmo momento, com a cabeça no seu pescoço, senti que estava em casa. Minha casa era no seu abraço, agora eu estava completa. Não me importava mais que estivesse nua, descalça, sangrando... Desde que a vi pela primeira vez, aqueles braços eram a minha segurança. Nem dor, nem vergonha, nem pânico ou escuridão me atingiam mais. Com ela, poderia vencer todos os demônios que tentavam me agarrar. "My Sunshine. Meu raio de sol.". Olhei para os seus lábios que se mexiam. Mesmo querendo eu não conseguia entender as palavras. Aos poucos sua voz foi entrando em minha cabeça. "Nanda!". Ela me chamava... Sua voz aveludada me chamava, até que senti um tapa na minha bunda. "Nanda, bora acordar? Mazé pediu pra eu vir te chamar! Vamos! A gente vai se atrasar pra escola! Vamo! Vamo, loka!".

Benza Deus, era um sonho! Ana Clara estava sentada em minha cama, puxou as minhas cobertas e ria porque eu dormi pelada! Que vergonha!

— Sai, Clarinha! Me dá o edredom, pelo menos! - Eu disse com as mãos cobrindo a minha buceta.

— Mas é bem fresca mesmo! Até parece que até pouco tempo, a gente não corria pelada lá na fazenda e a Mazé tinha que ir atrás da gente pra nos vestir. - Disse rindo e eu me derreti com seu sorriso.

— Caralho, Clarinha, a gente era criança! Me dá aqui esse roupão! - Tentei pegar o roupão que ela escondia nas costas - Você não falou que a gente tava atrasada?

— Tá, chata! Peraí... que tattoo é essa, sua louca!? Tua mãe vai te matar! - Falou enquanto admirava o desenho na minha pele - Olha, gostei!

A minha tatuagem possuía um significado muito íntimo para mim. Era o desenho de um sol, em que as letras formavam as palavras "You're My Sunshine" e localizava-se nas minhas costelas, logo abaixo do meu seio direito.

— "Você é meu raio de sol!"... Uhm... Fez pra quem? - Ana Clara perguntou traçando o contorno com os dedos.

Tentei disfarçar o que seu toque me causava. Comecei a tremer, suar frio, minha boca ficou seca e senti minha buceta ficar molhada.

— Pra ninguém, só achei bonita. - Desconversei enquanto pegava uma roupa qualquer. Corri para o banheiro fugindo o mais rápido que eu pude da minha melhor amiga. Olhei-me no espelho, tentando acalmar os batimentos do meu coração e lembrei do sonho. O que será que significava? Tinha que lembrar de perguntar à Mainha, ela ia saber com certeza.

Quando voltei para o quarto, Clarinha não estava mais lá. Ainda bem! Ultimamente estava sendo muito difícil não demonstrar tudo o que sentia por ela. Organizei minha mochila e minha bolsa, porque haveria treino de jiu-jitsu. Era uma das atletas do grupo da escola e, como eu mandava muito bem, ganhei bolsa integral. Antes disso meu Padrinho, pai de Ana Clara, bancava meus estudos. Mas preferia assim, meus padrinhos já faziam muito por mim.

Meu pai morreu quando eu tinha 7 anos e Mainha precisou trabalhar fora. Ainda bem que conseguiu emprego na casa dos Alcântara Machado, como babá da Ana Clara. Logo que chegamos eles gostaram tanto de mim que fizeram questão de me apadrinhar. Tinha a certeza que muito disso foi porque a Clarinha, logo que me viu, não quis mais me soltar. A menina, que tinha tudo para ser mimada e esnobe, me tratava como igual, mesmo que naquela época eu não falasse nem uma palavra devido ao trauma que eu havia sofrido. E eu fiquei tão encantada com aquela menina de cabelos de princesa, loirinhos que pareciam raios de sol, que a seguia por todos os lados como um cãozinho sem dono.

Então nós viemos morar na mansão dos Alcântara Machado em uma ala de empregados, separada e independente, onde tinha de tudo, desde a cozinha, até um jardim que minha Mainha cuidava com muito carinho. Mas desde sempre a Clarinha aparecia de madrugada com o ursinho dela para dormir comigo, ou vinha me buscar para dormir com ela. Ultimamente ela andava reclamando que não tínhamos mais isso, mas estou evitando essas noites do pijama. Ficar na mesma cama com a Ana Clara, só de pijama curtinho, mexia muito com a minha libido e eu morria de medo de que não conseguisse disfarçar.

Acho que sempre soube que preferia meninas à meninos. Meu primeiro beijo foi com 12 anos na Luiza, uma colega de escola. Meu corpo se desenvolveu muito cedo e nessa idade já era um mulherão. Tanto meninos quanto algumas meninas me olhavam com cobiça. Aos 13 tive a minha primeira experiência sexual, com minha professora de teatro. Nosso "rolo" durou aproximadamente um ano, até ela ir morar em Londres. Ela foi embora e eu chorei muito, mas com a ajuda da Luiza e de outras meninas logo me recuperei. Depois disso, nunca namorei sério, ou me apeguei a alguém. Mesmo antes de perceber, acho que meu coração já sabia que tinha uma dona.

Comecei a ver a Ana Clara não apenas como amiga quando eu tinha 15 e ela 13 anos. Era a festa de aniversário de 15 anos da Rebeca, prima da Clarinha, no Haras dos meus padrinhos. Eu usava um vestido azul claro com algumas pedrinhas de strass formando desenhos em espiral. Sempre fui magra, mas com as curvas nos lugares certos e, com esse vestido, os meus seios médios ficaram mais salientes. Meu cabelo negro e longo estava num coque bem feito e minha maquiagem era leve. Me sentia linda e havia combinado com a Luiza de ficarmos juntas depois da festa, já que ela dormiria ali com mais alguns convidados.

— Nanda, minha filha, você está maravilhosa! - Minha Madrinha falou assim que me viu - Os meninos vão ficar enlouquecidos por você!

— E as meninas também, né, mamãe! - Ana Clara ria ao chegar na sala, pois todos sabiam da minha orientação sexual.

Naquele momento, comecei a vê-la com outros olhos. Caralho, mano, o Meu Raio de Sol virou um mulherão! Clarinha estava linda demais vestida em um longo vermelho que acentuou as suas curvas. Os cabelos loiros ondulados estavam soltos e caíam em uma cascata acima dos ombros desnudos. Seus olhos azuis evidenciavam-se ainda mais com a maquiagem. Sua boca carnuda, tingida por um batom carmim, me fez querer beijá-la até esquecer o meu nome!

Meu coração começou a bater descompassado e ao sentir seu perfume percebi que eu não conseguiria vê-la apenas como minha melhor amiga, eu a queria como mulher e isso eu tinha certeza que nunca poderia ter. A partir daquele dia eu soube que meus sentimentos, meus desejos, meu corpo e minha alma pertenciam apenas à uma pessoa: Ana Clara Alcântara Machado.

Corri para a cozinha e minha mãe já me olhou feio. Ana Clara estava sentada comendo um prato de cereal com leite e sorriu lindamente. "Que menina maravilhosa!"

— Menina, vocês vão se atrasar de novo! Meu Deus do céu, dorme mais que a cama! Nunca vi disso! – Mainha falou me entregando um pote com frutas e um achocolatado para eu comer no caminho.

— Ah, Mainha, e tem coisa melhor que dormir? Não tem não! — Abracei e a enchi de beijos.

— Essa menina... Clarinha cuida dessa sua amiga, viu? Só você pra colocar juízo nessa cabeça!

— Pode deixar, Mazé! Nanda tem é que arrumar uma namorada pra sossegar - Clarinha falou rindo.

— Já falei que eu só vou namorar quando a Ronda Rousey largar o marido e vir ficar com a morena gata aqui - Sorri maliciosa.

— Tá, gata sedutora, bora pra aula que o Alfredo vai nos levar.

Alfredo era o motorista da casa e sempre nos levava para a escola. Na volta a Clarinha iria para casa de Uber e, como eu ficava até mais tarde treinando, voltava depois de busão.

Na escola fui para minha sala, eu estava no segundo ano e a Clarinha no primeiro. Chegando lá, sentei no meu lugar e tentei prestar atenção na aula. A professora de geografia passou um trabalho em dupla e a Luiza logo veio para o meu lado. Ela era uma das minhas ficantes, sabia que eu não queria nada sério e ficava com outras pessoas. Lu era uma menina estranha, porque vivia me enchendo o saco e fazendo bullying, o que eu nunca dava bola, mas se alguém se metia comigo ela me defendia com unhas e dentes.

— Vai amanhã lá em casa pra fazer o trabalho. - Ela me falou com um sorriso sacana no rosto - Meus pais vão ficar o final de semana fora e a casa será toda nossa. - Sussurrou em meu ouvido com direito a mordidinha no lóbulo, o que fez com que meus pelos arrepiarem.

— Eu tenho campeonato pela manhã e de tarde preciso ir com a Clarinha comprar umas coisas.

Puta que los pariu, Nanda! Sempre a Ana Clara! Desde sempre essa garota é empata foda, literalmente. — Luiza falou irritada.

— E se eu for de noite? Falo com Mainha e durmo na sua casa. Vai ter muito tempo pra gente fazer o trabalho - Sorri provocante.

— Hum, gostei. Vou comprar chantilly.

O resto da aula passou normalmente e no intervalo, eu conversava com alguns colegas, quando Ana Clara chegou correndo e me puxando como uma louca.

— Nanda, vem aqui, preciso falar com você, urgente! É vida ou morte! - Falou toda afogueada, parecia que tinha corrido uma maratona.

— Calma, Ana Clara, tá maluca? Se acalma e me fala o que aconteceu, você tá bem? - Fiquei preocupada a olhando para ver se não estava machucada.

— Não! Quer dizer, sim! Ai, não sei! Acho que vou ter um infarto! Você não sabe o que aconteceu, nem imagina... Nanda eu não tô acreditando...

— Ai, mano, fala logo! Mainha tá bem? E seus pais? Fala, garota!

— O Vitor me convidou pro Baile de Primavera da escola e perguntou... se eu ficaria com ele... e eu disse sim! - Ela pulava dando gritinhos.

Eu não acreditei. Vitor era o maior babaca da história da escola. Pegava as meninas, comia e depois ficava se gabando para os outros garotos. O playboy estava na mesma turma que eu e na equipe de luta. Presenciei várias vezes ele no treino falando de alguma menina e, o que era ainda pior, dando os mínimos detalhes do que fez. Esse cara não prestava mano!

Sabia que não era nenhuma santa e que várias meninas me procuravam apenas para uma foda ocasional. Porém, sempre fui discreta e não falava para ninguém. Geralmente elas que espalhavam para as amigas, que depois me procuravam para conferir se a morena aqui era tudo o que diziam. Sabia que nunca teria quem eu mais desejava pra mim. Então, eu a procurava em cada boca que eu beijava, em cada corpo que eu acariciava, em cada gozo que eu proporcionava... mas no final nunca a encontrava.

Saí de meu devaneio olhando em seus olhos azuis que brilhavam de ansiedade e excitação, engolindo a minha raiva e perguntei:

— Você vai ficar com ele antes do baile?

— Não, Nanda... eu até queria... mas ele falou que quer fazer tudo certo e ir conversar com meu pai. Você sabe que o pai dele e o papai são amigos. - "Eu sei o quão interesseiro esse cara é! Porra, o que eu vou fazer? Eu sei que a Clarinha é apaixonada por ele já há algum tempo. Os pais dele e ele estão sempre nas festas e feriados com a família dela. Mas também sei que ele não vai tratá-la como as outras por causa do meu Padrinho. Pelo menos isso."

Pensava agoniada em uma maneira de proteger a minha melhor amiga, mas nada vinha a minha cabeça. Clarinha sempre me apoiou em tudo e nós duas não tínhamos segredos. Contava tudo a ela, sobre todas as garotas... quando eu dei meu primeiro beijo e até mesmo quando perdi a virgindade.

— Que cara é essa, Nanda? Até parece que você não gostou da novidade.

— Não é isso, Clarinha. Eu tô morrendo de cólica e acho que vou ficar menstruada. - Segurei suas mãos e olhando no fundo dos seus olhos falei - Se você está feliz, eu também fico feliz.

A minha amiga me abraçou feliz e eu afundei meu rosto nos seus cabelos sentindo o seu perfume que acalmava minha alma.

— Nanda... - ela falou depois de alguns segundos - eu nunca fiquei com ninguém antes. Eu sei que ele é super experiente e não quero parecer uma boba que não sabe beijar. Ai, Deus, vou pirar!!! E se ele não gostar do meu beijo? O que eu faço? Eu fecho os olhos? Eu viro a cabeça pra qual lado? O que eu faço com a língua? E as mãos? OMG!

— Calma, Clarinha! Você vai ver que na hora tudo vai dar certo. Relaxa!

— E se eu não fizer direito? E se ele não quiser mais me ver e nem ficar comigo? Ai, Nanda! O que eu faço?

— Primeiro respira. Depois vai pra aula, que o sinal já tocou. - Falei ajeitando uma mecha do seu cabelo que teimava em querer cair em seu rosto.

— Tá, obrigada! Amo você! Amigas FOREVER! - E nós fizemos nosso cumprimento especial. Quando ela se virou, fiquei olhando para o chão e sussurrei triste. - Amigas forever?


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